quarta-feira, novembro 19, 2008

Correndo

Ontem fiz minha primeira corrida no Haiti. Apesar do clima estar bastante ameno, fizemos uma corrida leve, de ambientação. Afinal, a umidade é bem maior do que Brasília. O curioso é que deixei a capital brasileira com chuvas torrenciais e cheguei a Porto Príncipe sem nenhuma chuva ainda.

Depois de duas voltas pela base, um percurso de 1440 metros, eu e Rodrigo saímos pelo portão para dar uma esticada até o principal que está sendo construído, o Main Gate. Foi quando um menino haitiano, uns 8 anos de idade, passou a correr ao nosso lado. Estava de uniforme de escola, junto com outros na frente do portão do contigente brasileiro.

Uma das coisas notáveis no Haiti é a grande quantidade de crianças nas ruas. Qualquer lugar que um capacete azul pare, rapidamente torna-se um foco para concentração. No caso de nossas atividades de engenharia pesada, muitas vezes origina uma situação de risco.

O bombagay foi logo puchando conversa. "Bombagay" é o termo usado pelas tropas brasileiras para se referir amistosamente ao haitiano. Pelo que me contaram significa " gente boa" . O menino falava em português bastante claro.

__ Oba Capitão, tudo bem com o senhor? __ Rodrigo estava de camisa, com o nome impresso. Eu sem.

__ Tudo bem baichinho. E você?

__ Tudo bem. O senhor é de qual Companhia?

__ Você fala porgtuguês?

__ Falo sim. O senhor é da 1ª Companhia?

__ Sou sim. E você, é de qual Companhia?

__ Sou do Esquadrão de Cavalaria.

Era mais o Rodrigo que conversava com o baixinho.

__ Na verdade somos da Engenharia.

__ Ah, da Engenharia... Conhece o Capitão Glasner?

__ Conheço. Você está em que ano na escola?

__ Estou no segundo.

__ Já sabe ler e escrever? __ perguntei.

__ Escrever sim, ler... um pouco.

__ Fala francês? __ perguntou Rodrigo.

__ Sim.

__ E espanhol?

__ Também.

Quando chegamos de volta ao portão do contingente brasileiros nos despedimos e entramos na base.

O menino parecia muito esperto e comunicativo. É interessante como são as coisas. Mal sabe ler e escreve e fala 3 idiomas, além da língua de seu país. A maioria dos brasileiros passa um sufoco danado para falar muito mal um segundo idioma. Ele falava um bom português, o que não é fácil.

De qualquer forma, aquele menino é o futuro do Haiti. E assim travamos nosso primeiro contato com um haitiano. Foi bom que fosse com uma criança. Por mais sofrido que seja a vida para eles, há uma esperança de mudança e um futuro pela frente. Em alguma hora o destino do país estará nas mãos deles.

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