segunda-feira, novembro 10, 2008

Macbeth (William Shakespeare)


Tens medo de ser na própria ação e no valor o mesmo que és em teu desejo? Queres ter aquilo que, por tua estimativa, é o adorno da vida e, no apreço que tens de ti mesmo, levas a vida como um covarde, não é assim? Deixas que o teu “Não me atrevo” fique adiando tua ação até que o teu “Eu quero” aconteça por milagre, como a gata, coitadinha, que queria comer o peixe mas não queria molhar a pata.


Com estas palavras, Lady Macbeth instiga o marido ao crime. É o prenúncio da vontade de poder tão bem descrita por Nietzsche séculos depois, é a defesa de uma moralidade baseada em outros valores, baseada no desejo.

Macbeth era um dos capitães do rei da escócia na vitória sobre diante dos noruegueses. Era tido como um homem brilhante, corajoso, leal. Até que três bruxas aparecem para ele logo após a batalha final e fazem algumas previsões para ele, sendo a principal que a coroa seria sua.

Chesterton já dizia que estamos sempre a um passo da queda. E o risco é ainda maior quando estamos convencido que não podemos cair. Bastou que a ambição fosse despertada em Macbeth para que crescesse em seu espírito o desejo de conquistar o mais rápido possível o prêmio que lhe foi prometido.

O capitão ainda faz um esforço para escutar a voz da razão, em seu próprio espírito e por intermédio de seu companheiro Banquo que lhe faz um último alerta após Macbeth avisá-lo que recairia sobre ele muita honra:

Desde que eu não perca a honra ao buscar aumentá-la, desde que continue o meu coração imune a sentimentos de culpa, desde que permaneça eu um súdito leal, receberei de bom grado o seu conselho.
No entanto a voz de Lady Macbeth falou mais forte e o marido se perde.

A obra mostra também o efeito devastador da culpa na alma de um homem de bem que desviou-se do seu caminho de forma tão trágica. Quanto mais Macbeth mergulhou no papel amoral que resolveu seguir mais se consumiu no processo.

Estou atolado em sangue a um tal ponto que prosseguir nessa lama não me é possível e, no entanto, recuar é outra impossibilidade. Minha cabeça está tomada por idéias estranhas, que pedem para ser executadas, e que devem ser levadas a cabo antes de serem examinadas.


Aristóteles também está presente na peça. Em um diálogo entre Malcom, o filho do falecido rei Ducan, e MacDuff, o primeiro se coloca como um homem sob o vício da luxúria.

E o meu desejo derrubaria todos os impedimentos sequiosos de moderação que viessem a contrapor-se ao meu apetite.


Trata-se da intemperança, um dos principais vícios descritos pelo filósofo de Estagira. No entanto, ao final da conversa, Malcom confessa que na verdade não experimentou nenhum desses vícios, apenas luta contra eles. O herdeiro destronado sabe de suas inclinações e luta contra elas fazendo um contraponto com Macbeth que não sabe das suas e deixa-se levar com facilidade.

A peça é uma forte pintura do efeito devastador da ambição quando aliada a falta de uma moral que seja guia de nossas ações. Dado o primeiro passo, o que vem depois é uma escalada de atos, mostrando que o mal não se encerra em um único ato, que não se pode dar uma pousa na própria moral e depois retomar como se nada tivesse acontecido. Shakespeare mostra como estamos sempre próximos de praticar o mal e quanto devemos lugar contra nossas inclinações para preservar a própria virtude.

Nenhum comentário: