sábado, novembro 22, 2008

O que está passando?

Eduardo e Johnny tomavam whisky animadamente em um bar em Recife. Nada de anormal para um sábado a noite com temperatura agradável e muitas conversas para jogar fora. Conheciam-se há algum tempo, trabalhavam juntos.

Eduardo era separado. Que forma de definir alguém! Poderia ter começado com sua descrição física, por sua personalidade, mas nada disso seria mais importante que este fato para esta narração. E não é nem por causa dele; Johnny é o protagonista aqui.

Por que então comecei por Eduardo? Talvez porque o contraste seja importante, porque por Eduardo se chegue ao ponto que realmente interessa em Johnny. Por que então o fato de Eduardo ser separado é tão importante, por contraste, para narrar o pequeno episódio de seu amigo?

O que primeiro nos vem a mente quando falamos que alguém é separado? Como se fosse uma classe social, como se fosse um rótulo definitivo para uma pessoa? Para muitas pessoas o fato de uma pessoa ser separada, remete a uma idéia de liberdade, uma idéia de que pode tudo.

Se Eduardo tudo pode, e chamei atenção para o contraste, é porque Johnny não deve poder. Seria ele casado? Não. Teria namorada? Sim. E agora vamos a outra aspecto interessante desta narrativa.

Eduardo já passava dos 30 anos, Johnny estava com seus vinte e pouco. Chegamos então ao que interessa da namorada deste último. Ela já passava dos 50.

Que horror! O fato de uma rapaz de 20 e poucos namorar uma mulher que passou de 50 ainda nos choca um pouco... embora o inverso já seja encarado com mais naturalidade. O fato é que a idade é, em geral, muito mais cruel com as mulheres do que com os homens. Por isso temos Johnny e sua namorada com silicone nos peitos e cara de maracujá enrugado.

Poderia dizer que a namorada de Johnny era conservada, que nem aparentava ter esta idade toda. O fato é que sua namorada aparentava ter exatamente a idade que possuía, talvez até mais. Beleza, no sentido atual dado pela modernidade, definitivamente não era o que o levara a este relacionamento.

O segredo então só pode ser a personalidade. O apressado já conclui logo que Johnny está com ela porque trata-se de uma dessas pessoas especiais, uma alma gêmea que tanto procuramos, uma pessoa que nos toca no fundo do coração. A namorada de Johnny só pode ser alguém alegre, muito carinhosa, capaz de o fazer sentir o mais feliz dos homens.

Pois a juíza era exatamente o oposto de tudo isso. Era uma pessoa extremamente irritadiça, que o humilhava com alguma freqüência, que o tratava com um misto de amor e desprezo.

Serie então o sexo? Isso ninguém sabia, não era coisa que Johnny comentasse. Quando ele falava da namorada, e falava com freqüência, não era sobre o sexo que comentava. O assunto, quando se referia à juíza, era um só: dinheiro. Ele era completamente encantado pelo estilo de vida que sua namorada o presenteava, no verdadeiro sentido do verbo.

Se ganhava um relógio de ouro, lá ia faceiro mostrar para todo mundo. Se passava uma semana em um resort caríssimo, descrevia o local com detalhes. Se ganhava roupas, não só fazia questão de mostrar como ainda criticava os amigos, como Eduardo, por suas roupas sem marca.

Era exatamente o que Johnny estava criticando no amigo quando seu celular tocou. Eduardo não ligava para roupas, colocava a primeira camiseta que encontrava, um jeans surrado, e tratava de cair na rua.

Eu disse que o celular tocou? Pois é. Tocou. E Johnny parou sua frase no meio e saiu do bar correndo.

Eduardo só balançou a cabeça. Estava acostumado. Johnny e a juíza moravam em cidades diferentes; ele em Recife, ela em João Pessoa. Pelo quadro descrito aqui, o leitor já deve ter imaginado que a juíza era uma pessoa extremamente controladora e muito, mas muito, ciumenta. Daquelas que xinga uma mulher que está passando perto por imaginar que esteja cantando seu namorado.

Uma vez, Eduardo contou quantas vezes Johnny saiu de uma boate para atender o telefone dentro do carro. Simplesmente dez vezes! Dez! Em certa hora não se conteve:

__ Bicho, vai para casa! Isso não é vida, vai dormir. Não está aproveitando nada!

Não tinha jeito. Johnny podia ser encantado pelo estilo de vida que tinha, mas adorava sair com os amigos e, se possível, aproveitar para dar uma escapulida.

O que aconteceu naquele carro, com Johnny atendendo o celular, foi contado a Eduardo um pouco mais tarde, e este me contou.

__ Alô!

__ Oi amor. Por que está ofegante?

__ Nada não, estava fazendo uns abdominais.

Johnny tinha um daqueles sistemas que quando alguém liga para seu telefone fixo, após alguns toques, a ligação era transferida automaticamente para o celular.

__ Onde você está?

__ Em casa, claro. Não foi para cá que você ligou?

__ Não pense que sou boba. Não sou eu que pago sua conta? E seu serviço de rediscagem? Onde você está? Você demorou muito para atender... deve estar no celular.

__ Estava no banheiro!

__ Você não disse que estava fazendo abdominal?

__ Disse? Pois é, estava fazendo abdominais no banheiro, preparando para tomar banho.

__ E porque não atendeu na hora?

__ Estava terminando minha série... faltava 10 abdominais... não poderia parar no meio, né?

Silêncio. Johnny não gostava quando ela ficava em silêncio. Significava que estava pensando, e quando a juíza parava para pensar...

__ Liga a televisão.

__ Hein?

__ Liga a televisão. Coloca na Band.

Johnny fez a única coisa que podia, ligou o rádio. Pelo menos fazia barulho.

__ O que está passando?

__ Só um minutinho... a sintonia está péssima...

__ Não me interessa. Só quero saber o que está passando. Que sintonia? Não estou pagando a sua tv a cabo?

__ É que de vez em quando o sinal cai... por causa da chuva...

__ Está chovendo aí?

__ Um dilúvio...

__ Não quero saber... desliga a tv a cabo que você tem antena... vamos, o que está passando?

Johnny, desesperado, tentava lembrar se alguma vez tinha visto a Band neste horário... sete e meia, ainda era cedo para o jornal...

__ Vamos, estou esperando! O que está passando?

__ Estou tentando...

__ O que está passando?

__ Acho que é algo evangélico...

Silêncio. Fechou os olhos e cruzou os dedos. Teria advinhado?

__ Seu... cachorro!

Parece que não.

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