quarta-feira, dezembro 31, 2008

10 Recomendações

Terminei 2008 com 45 livros lidos. Nesta conta incluo também 3 encíclicas, que na prática podem ser consideradas como livros por sua profundidade e riqueza. Pretendia fazer uma lista dos 10 melhores, descobri impossível. Difícil escolher entre tanta coisa boa. Resolvi portanto fazer uma lista de recomendações, para vários tipos de leitores. Tentei ser abrangente, deixando portanto muitas obras importantes de fora.

1.Ortodoxia

O livro que mais me marcou neste ano foi sem dúvida Ortodoxia de Chesterton. Ao terminar sua belas páginas o meu sentimento era um só: admiração pela vida. Uma renovação de fé no criador, na sua gigantesca obra, na beleza das coisas divinas. Por causa deste maravilhoso livro, deixei de fora um bom livro, O Evangelho de Tomé.

2. A Rebelião das Massas

Ortega Y Gasset nos apresenta este texto fantástico. Uma mistura de filosofia, história, antropologia, sociologia. Uma chave para entender o mundo em que vivemos e como chegamos até aqui. É impossível não ver o homem massa tão bem descrito por ele em todos os lugares. Está na política, na crítica artística, no jornalismo, no homem comum. O homem massa não respeita classes, está em todas elas, imerso em sua gritante vulgaridade.

3. Fundamentos de Antropologia

A antropologia filosófica deveria ser uma matéria obrigatória para todo ser humano. Esqueçam a bobagem que vai ser ensinada nas escolas brasileiras sob o título de filosofia. Se este livro de Echeverría e Yepes fosse lido por todos os seres humanos teríamos um homem melhor, mais consciente do que significa sua própria existência.

4. 1984

A fábula de Orwell é fundamental para compreender o caminho que estamos trilhando. É assustador ver seu pesadelo totalitário se formando passo a passo. Nunca se perde a liberdade de uma vez, Orwell viu isso. Viu a submissão do homem ao ideal coletivo, viu a perda da individualidade. Querem ver nosso futuro? Leiam 1984 e Admirável Mundo Novo. Está todo lá.

5. O Mercador de Veneza

Este ano foi o ano que me apaixonei por Shakespeare e entendi o que muita gente vê de tão extraordinário em sua obra. Dos três textos que li, O Marcador de Veneza foi o que mais me cativou. Não só pela força do amor no ser humano, como pela inveja, cobiça, falso senso de justiça. O julgamento de Antônio deveria ser lido constantemente pelos juízes brasileiros para entenderam que não estão acima das leis; que devem cumprir o que foi estabelecido pela sociedade.

6. Economia sem Truques

Foi difícil escolher entre este livro e Brasil, raízes do atraso. Este ano marcou também o início de minha inserção na economia e este livro é uma excelente introdução por seu aspecto leve e prático. Desperta o interesse a curiosidade pelo assunto e mostra como a economia está presente em praticamente tudo que fazemos.

7. A Imitação do Amanhecer

O que dizer de um livro que entendi muito pouco e mesmo assim fiquei maravilhado? Que imediatamente comecei a reler e não consigo passar da beleza de seu primeiro poema? Um aviso: é uma obra que exige do leitor! E muito! Quem estiver disposto a pensar através da poesia, entender porque nem tudo pode ser dito em prosa, eis aqui, Tolentino.

8. Conta o Consenso

No ano que Reinaldo Azevedo lançou O País dos Petralhas, obra fundamental para entender o lulismo e sua herança nefasta que está sendo construída, acabei optando por esta obra de crítica artística. Infelizmente a política brasileira nos tirou das artes este extraordinário crítico. Como diz JP Coutinho, a arte em um país sem normalidade política é um luxo.

9. Tempos Modernos

Uma obra de fôlego de Paul Johnson. Uma interpretação da história que foge ao convencional, que nem sempre mocinhos são mocinhos e vilões são vilões. O mais interessante deste livro é que Johnson vai às raízes dos pensamentos que levaram aos acontecimentos históricos. Para chegar no totalitarismo ele passa por Freud, Nietzsche e Marx. Nunca mais o leitor verá o mundo com os mesmos olhos.

10. Madame Bovary

Quando estava à morte, consta que Flaubert afirmou que partiria, mas a puta da Bovary ficaria. A força de sua criação, Emma Bovary superou seu próprio autor, deu-lhe a eternidade. Uma visão do adultério impressionante, comovedora e angustiante. O leitor sabe que a estória não pode acabar bem, mas ainda tenta ver uma solução para o painel criado por Flaubert.

Com estas dicas, um feliz ano novo a todos e boas leituras!

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Now playing: Fleetwood Mac - Black Magic Woman [Live Feb '70]
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terça-feira, dezembro 30, 2008

Kit Left Revolution

Os covardes da Faixa de Gaza

Novamente o Oriente Médio está fervendo. Lendo as notícias e os comentários inflamados dos colunistas brasileiros parece não haver dúvida. Israel é o novo Golias que partiu para cima do David indefeso ou, para ficar mais coerente, é o gigante David que parte para cima do Golias indefeso; vai saber.

Desconfio de toda opinião que a imprensa brasileira defende em uníssono. Isso porque a grande maioria dos jornalistas brasileiros são botocudos, para usar a expressão que Aloísio Amorim usa sempre. São formados em universidades vagabundas e perderam seus cérebros em um processo de ideologização cretina. Quando esta opinião é compartilhada pelo presidente da república a coisa apenas piora, boa coisa não é.

Os israelenses retiraram-se da Faixa de Gaza, que passou a ser utilizada como plataforma de lançamento para foguetes palestinos. Mas o cadáver judeu ainda vele pouco neste mundo, não comove corações. Afinal, Israel é aliada do Império, dos decadentes valores ocidentais.

O Hamas é um grupo político que nunca repudiou a opção terrorista. Pelo contrário, considera um método legítimo para alcançar seus objetivos. Que essa gente encontre defesa no ceio de democracias ocidentais é algo além da compreensão.

A pressa com que o governo brasileiro, e os botocudos da imprensa, correram em socorro dos pobres terroristas palestinos mostra o atual estado de deterioração, não só do país, como de boa parte do mundo. A Europa também correu para condenar o governo israelense. Parece que os israelenses possuem o direito de ser bombardeados em paz e não se queixar muito. No máximo podem responder em condições de igualdade, de forma proporcional como falou o presidente brasileiro.

Caiu um míssil em Israel? O governo está liberado para atirar um, mas notem, apenas um!, na faixa de gaza. Se não atingiu ninguém, o míssel israelense deve necessariamente cair em uma área desabitada. Uma das coisas estranhas é esta eficiência dos israelenses, eles sempre acertam um alvo!

Terroristas gostam de se esconder atrás de civis na hora que a coisa aperta. Enchem seus quartéis de mulheres e crianças para poderem exibir seus corpos para as câmeras mundiais. Covarde estes israelenses! Não respeitam o direito de um terrorista se esconder atrás da saia de uma mulher? Ou atrás de uma criança? Pouco importa que estes terroristas adorem matar mulheres e crianças; é direito deles. Estão sendo perseguidos pelo ocidente, é a única forma de reação possível.

Os terroristas são covardes por usar civis como escudos. Mas não são também todos aqueles que usam estes cadáveres como arma ideológica? Que usam a morte de inocentes como forma de atacar os israelenses e bradar seu ódio contra a civilização? A humanidade está cheia de covardes morais, os mesmos que viram o 11 de setembro como uma reação, como uma lição aos americanos.

Chegamos realmente a este ponto em que comemoramos cadáveres que sirvam a uma causa? Que sirva como arma de guerra na ponta de uma caneta, ou na ponta de um dedo que pressiona o teclado furiosamente? Que em seu orgulho acha-se acima do bem e do mal, defensor de causas morais elevadíssimas? Rousseau considerava que ninguém era capaz de amar a humanidade como ele. O mundo está cheio de Rousseaus. Nunca a humanidade foi tão amada e tão defendida! São os humanistas!

Considero eu a guerra uma solução? Sempre foi. Infelizmente. Em um mundo ideal, não se provocaria uma nação lançando foguetes contra ela. Em um mundo ideal, o povo mais escaclarecido da europa não entraria em uma loucura coletiva e marcharia sobre outros países. Em um mundo ideal, não se defenderia o extermínio de seres humanos em nome de um suposto novo homem melhorado. Em um mundo ideal, não se preocuparia tanto em criar um mundo ideal.

Mas não vivemos em um mundo ideal; não criaremos um por força da atuação política. A mensagem do Cristo foi clara: o mundo ideal se construirá em nosso próprio interior. Enquanto a humanidade não se reformar, individualmente, o reino de Deus não será estabelecido na Terra. A reforma íntima é a solução para todos os males da humanidade, que via de regra origina-se de nossa vaidade.

Uma aviso. A reforma íntima parte do indivíduo, de sua própria consciência. Não pode ser imposta pela força, não pode ser provocada por falsos moralistas. O homem não tem a solução para o seu próximo, no máximo tem a solução para si mesmo. O inferno não são os outros, como dizia Sartre. O inferno somos nós.

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Now playing: Jefferson Airplane - Blues From An Airplane
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segunda-feira, dezembro 29, 2008

Entrevista com JP Coutinho - Parte II

Segunda parte a entrevista de J P Coutinho. A arte é um luxo? A arte pode ser feita em um país sem normalidade política? Qual a sua visão da literatura? O que pode acontecer com quem leva Nietzsche às últimas conseqüências?

Entrevista com JP Coutinho - Parte I

João Pereira Coutinho é o melhor colunista da Folha de São Paulo. Chama atenção a pouco idade deste português, capaz de textos afiadíssimos e que foge ao politicamente correto de nosso dias. Esta entrevista foi feita para a Dicta e Contradicta, de longe a melhor revista brasileira, agora em seu segundo número.

Neste primeiro vídeo ele se apresenta, fala um pouco de si mesmo e seus medos.




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Now playing: Metallica - Blackened
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domingo, dezembro 28, 2008

Praia II: lendo Camões

Uma das coisas que gosto de fazer em uma praia é ler. Hoje li um pouco dos Lusíadas e separei esta estrofe, em que Vênus roga a Zeus para que proteja os portugueses. No fim ela diz que se é por amá-los que são maltrados então passaria a querer-lhes o mal, para que se salvasse.

Este povo, que é meu, por quem derramo
As lágrimas que em vão caídas vejo,
Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
Sento tu tanto contra meu desejo,
Por ele a ti rogando, choro e bramo,
E contra minha dita, enfim, pelejo.
Ora pois, porque o amo, é maltratado,
Quero-lhe querer mal: será guardado.

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Now playing: Capital Inicial - Eu Nunca Disse Adeus (Ao Vivo)
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Praia

Hoje fiz um programa diferente. Fui na praia.

Fomos em uma praia particular, parte de um hotel. Pagamos 25 dólares, com direito a almoço e 5 refrigerantes. O lugar era bem agradável, com boa estrutura, muita sombra. O senão é a areia, ou a falta dela. Tive que entrar na água de chinelo, muito ruim de caminhar sobre as pedras.

Mas valeu. Minha primeira praia no Caribe! E uma oportunidade de fazer algo diferente do que passar o domingo praticando "nadismo".

Provavelmente porque o ser...

Provavelmente porque o ser se intranqüiliza
de já não ser o que ia sendo; intensamente,
porque as fogueiras de um martírio impenitente
são seus triunfos, seus troféus cheios de cinza;

e finalmente porque tudo o que agoniza
quer promulgar, solenizar o impermanente,
o coração, naquele fundo ambivalente
da coisa humana, momentâneo como a brisa,

mas persuadido de que as músicas da mente
hão de reter do ser algo mais que uma soma,
o coração vive das sombras de um aroma.

Só muito raramente esse iludido sente
a força de acordar antes que a luz cadente
o deixe louco como à mosca na redoma.

Bruno Tolentino


Minha Interpretação

Comecei minha segunda leitura de A Imitação do Amanhecer de Bruno Tolentino. Este é primeiro poema do livro, faz parte da primeira parte (são três) chamada As Epifanias.

Epifanias significa aparição ou manifestação divina. Também pode significar a súbita apreensão de uma realidade, a compreensão da essência de algo.

Os dois primeiros versos podem significar a queda de um homem, a sua incursão no pecado, o ser se intranqüiliza de já não ser o que ia sendo. O homem que se afasta da virtude.

Este homem tem a consciência de seu erro, mas insiste em sua ação, no seu martírio impenitente. Sua vaidade foi despertada, se vangloria de seus atos, dos seus troféus cheios de cinza.

Quer perpetuar ao máximo este instante, mas sabe que é momentâneo, que um dia vai acabar. Uma voz em sua mente tenta justificar seu ato, tenta relativar sua escolha. Mas tudo isso é irreal, é uma fuga do dever, o coração vive das sombras de um aroma.

Este homem iludido muito raramente desperta a tempo de retomar seu caminho, só acorda quando a situação foge de seu controle e seus atos tiveram conseqüência. Antes que a luz cadente o deixe louco como à mosca na redoma.

Quando li este poema, eu pensei em um homem que cai no pecado do adultério. Muitas vezes é um homem que foi fiel por muito tempo, mas em certo momento deixa de ser o que ia sendo e entrega-se ao prazer. Sabe que está errado, mas se ilude tentando prolongar este instante, se vangloria de seu troféu cheio de cinzas. Tenta justificar-se, procura na mente uma falsa moral que acalme sua própria consciência. Será que conseguirá parar antes que cause um mal, antes que a luz cadente o deixe louco como uma mosca na redoma?

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Now playing: Os Paralamas Do Sucesso - A Novidade
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sábado, dezembro 27, 2008

A Sandwicheira

Temos na Companhia uma sandwicheira para fazermos misto quente. Cabem quatro pães ao mesmo tempo e realmente faz a diferença no café da manhã. Infelizmente ela quebrou e ainda estamos aguardando o conserto.

E foi assim que um colega, do "ciará", comentou ontem no café da manhã:

__ Macho! Aquele bichinho de assar pão tá fazendo uma farta!

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Reflexões de natal

Quando aceitei vir para a missão do Haiti, soube que passaria aqui as festas de final de ano. Talvez fosse o período mais difícil desta curta e intensa aventura; preparei-me para ela. Cheguei a comentar que ir muito mais fácil ir para uma missão dessas quando se é solteiro, o duro mesmo era ir casado e com filhos.

O natal é um feriado onde clama muito o sentimento de família. Tem a ver com o significado da data para os cristãos. A família é o núcleo onde começamos a edificar nossa existência, onde aprendemos a amar ao próximo como a si mesmo, conforme ensinou Jesus Cristo.

Ontem, quando estávamos reunidos para a ceia, assistimos um vídeo preparado por nosso relações públicas. Tratava-se uma surpresa para todos. Através de contados com as unidades militares no Brasil, as famílias de muitos militares gravaram mensagens de feliz natal, que foram exibidas em um telão.

Difícil descrever a comoção de um homem ao ser surpreendido por sua esposa, filhos, pais, todos reunidos para reafirmar seu amor e desejar o rápido retorno. Sim, ficaram comovidos, mas acima de tudo felizes, por aquela pequena demonstração de amor daqueles que lhes são mais caros.

Eu disse que os que mais sentiriam uma data dessas seriam justamente estes militares que tinham suas famílias esperando por seus retornos no Brasil. Enganei-me. Ontem aprendi outra lição que a vida nos traz.

Se ontem me comovi, assim como outros companheiros, foi não só de saudades, mas da certeza de ter uma família nos aguardando ansiosos. E aqueles que não possuem famílias? Que por motivos mais diversos não tiveram esta felicidade? Aqueles que não possuem para quem retornar?

Eu vi uma pessoa assim ontem. Suas lágrimas não eram de alegria; eram de uma profunda tristeza, a consciência de que nada o aguarda. Quem viu esta cena ficou comovido, tentamos reconfortá-lo de todas as maneiras mas sabíamos que naquele momento era inútil. Era um daqueles instantes que o homem se confronta consigo mesmo.

Senti uma raiva profunda ontem. Podem me perguntar, raiva de quem? Raiva de Deus por permitir uma pessoa sofrer assim? Raiva desta vida que nos prega tantas peças sem sentido? Raiva do destino?

Não. Raiva daqueles que querem nos convencer que a família é algo a ser superado. Que Deus é um fantasia criada por um sentimento inato de religiosidade, que também deve ser superado. De todos os ideólogos que desejam nos tirar a esperança e estes laços preciosos em nome de um pretenso novo homem melhorado. Rejeito-os todos!

Homens que pretendem ter o conhecimento de como a sociedade funciona, de como o universo funciona. Oh, mundo moderno de falsos deuses e falsas religiões! Dizem ter a solução para os problemas do mundo, de como formar uma sociedade melhor e solidária. Não conseguem perceber o quanto são pretensiosos? Que no fundo querem assumir o papel de Deus, de artífice da própria criação?

Possuem a coragem e a audácia de defender a luta do homem contra o homem, da violência e coerção como uma arma legítima para impor seu pensamento. Lutam contra a liberdade individual, o nosso direito de escolher nosso próprio destino, de acertar e mais importante que isso, o direito de errar. Fingem amar a humanidade, mas não conseguem amar o próximo.
O natal, para quem consegue ver o significado desta data, nos incita a perdoar. No fundo, são sofredores que ainda enfrentarão as conseqüências de sua insensatez. Que receberão de volta o que atiraram ao mundo.

Ontem foi uma celebração da família, tão atacada, tão ridicularizada. Mais uma vez entendi que o homem precisa de ter uma, de ter alguém para dividir esta penosa caminhada e filhos para edificar sua obra na terra. Cada vez mais o egoísmo nos afasta destas verdades para um abismo que cedo ou tarde chegará. No fundo sabemdisso, apenas fecham os olhos para uma realidade que não querem aceitar.

Aprendi isso ontem, vendo um querido amigo chorar por não ter por quem chorar. Ele deseja algo que é natural no ser humano, que é um destino manifesto em nossa existência. É uma pessoa de muito bom coração, uma alma iluminada. Faço fé que ainda terá tudo aquilo que almeja, que alcance o que tanto deseja. Talvez não seja seu destino nesta vida, não sabemos os planos de Deus.

Santo Agostinho nos ensinava que o que chamamos de acaso ou destino é simplesmente nosso desconhecimento do plano maior preparado para nós. Tudo tem uma razão. Existe um motivo, ainda que incompreensível para nós, para que estivesse aqui ontem, no meio de amigos que lhe querem muito bem, sentindo suas dores.

Que a fé o alimente nesta caminhada. Que confie na providência divina. Deus não nos dá uma carga que sejamos incapazes de suportar, já nos dizia Cristo. Que o natal seja para ele esta data, a data da renovação de nossas esperanças, de nossos sonhos.

A data que recebemos de Deus nosso maior presente.

O Segredo

O Cristo não é
um belo episódio
da história ou da fé:

nem o clavicórdio
nos dedos da luz,
nem o monocórdio

chamado da Cruz.
O crucificado
chamando Jesus

é o encontro marcado
entre a solidão
e o significado

do teu coração:
de um lado teu medo,
teu ódio, teu não;

do outro o segredo
com seu cofre aberto,
onde teu degredo,

onde teu deserto,
vão morrer, mas vão
morrer muito perto
da ressurreição.


Bruno Tolentino

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Now playing: Phish - Bouncing around the room
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Christmas Must Be Tonight

Esta é sem dúvida minha música predileta de natal. Composta por Robbie Robertson, está presente no último disco com a formação original do The Band. Quem canta é Rick Danko.



Come down to the manger, see the little stranger
Wrapped in swaddling clothes, the prince of peace
Wheels start turning, torches start burning
And the old wise men journey from the East

CHORUS:

How a little baby boy bring the people so much joy
Son of a carpenter, Mary carried the light
This must be Christmas, must be tonight

A shepherd on a hillside, while over my flock I bide
Oh a cold winter night a band of angels sing
In a dream I heard a voice saying "fear not, come rejoice
It's the end of the beginning, praise the new born king"
CHORUS

I saw it with my own eyes, written up in the skies
But why a simple herdsmen such as I
And then it came to pass, he was born at last
Right below the star that shines on high

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Contos de Machado de Assis

Continuando minha excursão pelos contos do bruxo, acabei hoje de ler o volume 3 da coletânea organizada por João Cezar de Castro Rocha, com o subtítulo de Filosofia.

Não, Machado de Assis não criou nenhuma filosofia particular, pelo menos não no senso que se atribui aos filósofos. Tinha, como todos, a sua forma de ver o mundo e a reflexão própria daqueles que desejam ver além da superfície do mundo, de tentar penetrar seus mistérios.

É isso que mostra o presente livro.

Dos contos apresentados, gostei especialmente dos seguintes:
  1. O Sainete. Conta a estória de uma viúva que possui um jovem médico como pretendente. No entanto, ela perde rapidamente o interesse por ele e aos poucos vai afastando-o de sua vida até que uma amiga lhe pede para intervir em seu próprio favor. Vendo a amiga descrever o jovem Maciel a viúva acaba se apaixonando por ele. Quantas vezes uma pessoa só da valor a algo quando percebe que existem outras pessoas que valorizam? "A viúva descobriu-lhe os méritos pelos olhos de Fernanda; e bastou vê-lo preferido para que ela o preferisse".
  2. O segredo do bonzo, capítulo inédito de Fernão Mendes Pinto. Trata da capacidade do ser humano de conseguir seguidores para qualquer idéia idiota, bastando começar a defendê-la como se fosse uma realidade. Uma visão sobre o surgimento das ideologias. Nas palabras do próprio bonzo, um formador de ideólogos: "Haveis de entender, começou ele, que a virtude e o saber, têm duas existências paralelas, uma no sujeito que a possui, outra no espérito dos que o ouvem e contemplam".
  3. O Imortal. Já viram highlander? Todas as angústias que foram exploradas no filme estão nesta estória que narra as aventuras de um homem imortal ao longo de alguns séculos. Com um adicional a mais. O que faz um imortal quando é condenado à prisão perpétua?
  4. A Igreja do Diabo. O melhor de todos. Serve para as falsas religiões, entre elas as ideologias. Não é que o diabo em pessoa resolve criar uma nova Igreja na Terra e ainda tem a petulância de procurar Deus para contar suas intensões? Deus diz a ele: "Tú és vulgar, que é o pior que pode acontecer com um espírito da tua espécie, replicou-lhe o senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retire".
Machado de Assis era realmente fantástico. Felizmente teve tempo suficiente para nos deixar esta rica obra. Pena que o país está tão distante de compreender seu maior escritor!

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Now playing: thin_lizzy - Rocky
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Registros

Rapidinhas da reunião de ontem. Sempre cochichando.

__ Capitão...
__ Sim?
__ Não está quente aqui?
__ Sei lá. Eu lá sou termômetro!

__ O epicentro do furacão foi perto da Capital da República Dominicana.
__ Ei, o que é epicentro?
O mesmo Capitão responde de pronto:
__ É o c... do furacão!

No dia seguinte, ainda sobre o furacão.
__ Lembra ontem na reunião? Foi muito engraçado! O fulando perguntando sobre o pericentro do furacão!
__ Pericentro?
__ Não é pericentro não?

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Now playing: The White Stripes - I Just Don't Know What to Do With Myself
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terça-feira, dezembro 23, 2008

Bricando com o Library

Uma brincadeira legal de fazer no Delicious Library é "comprar" brinquedos. Na verdade ele pode fazer uma coleção de brinquedos a partir do site da Amazon. Acho que a Lorena vai adorar colecionar Barbies virtuais!

Abaixo um flagrante da minha pequena coleção:



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Now playing: Phish - Chalkdust torture
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segunda-feira, dezembro 22, 2008

Nem papai noel escapou...

Um estranho silêncio toma conta dos ambientalistas defensores do armagedon em todo o globo. Como sabem, basta um verão mais quente para provar a tese do aquecimento global e mais ainda, que o serúmanu é o causador de tudo.

O que não entendo nesta lógica toda é porque um verão quente prova o aquecimento e um inverno frio não prova nada. Tem neve e frio recorde para tudo que é canto e o silêncio é absoluto.

No meio disso tudo eu me deparei com o vídeo de natal do greenpeace. Vendo essa peça de extremo mal gosto eu começo a entender porque nunca levei fé nesta turma. Nesta estória toda de ambientalismo eu vejo uns poucos ganhando muito dinheiro em cima de muitos e a coisa toda transformou-se em uma nova seita, mais uma religião moderna.



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Now playing: Motorhead - Trigger
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Babel


Babel é mais um daqueles filmes que exploram o choque cultural e mostra a face crua da globalização. Por exemplo, um rifle dado por um rico caçador japonês a um pastor marroquino acaba nas mãos de dois adolescentes e é usado para balear uma turista americana. Por causa disso os filhos acabam nas mãos de uma babá mexicana que os leva para uma festa de casamento. A mensagem é clara, nossos atos podem gerar conseqüências em qualquer parte do mundo.

O filme explora também o poder de nossas escolhas. Muitas vezes uma simples decisão pode gerar um desastre completo, mesmo que seja feita com a melhor das intenções. Foi o que ocorreu com Amélia que resolveu levar os filhos de Richard para um casamento no Méxido e quase gerou uma tragédia.

A garota japonesa é um exemplo do distanciamento de sonho e realidade. Surda-muda, sofre com a rejeição de um mundo que é hostil e entra em um processo de alienação levando-a ao desespero.

A irresponsabilidade dos pais também fica patente. Desde o pastor maroquino que deixa nas mãos de dois filhos adolescentes um rifle de alta precisão até a do próprio americano que deixa seus filhos e resolve levar a esposa para o Marrocos em busca de uma reconciliação. Por que o Marrocos?, pergunta Susan. Ele não sabe responder. Faz parte de um grupo de turistas atraídos pelo exotismo de países de cultura diferente. No entanto, quando se vêem presos dentro desta cultura entram em desespero, colocando de lado até os laços de solidariedade.

Algumas coisas incomodam um pouco no filme. Por que todo policial de fronteira americano é mostrado como um truculento que só deseja humilhar o mexicano? Por que o mexicano é visto como um inocente que apenas não consegue ser compreendido apesar de estar dirigindo embriagado, no meio da madrugada, carregando duas crianças americanas?

No meio do caos, entretanto, aparecem alguns laços de solidariedade e de amor que trazem uma tênue esperança de que há um consolo para os que sofrem, que há uma oportunidade de recomeçar.

Muito se falou que Babel explora a língua como um obstáculo para o relacionamento humano. A meu ver, entretanto, o que o filme mostra é que cultura e linguagem possuem importante, mas o ser humano possui semelhanças que superam as diversidades e leva ao entendimento. Mais do que buscar o que nos afasta, talvez seja o caso de celebrar o que nos aproxima uns dos outros.

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Now playing: Gov't Mule - Drums
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sábado, dezembro 20, 2008

Novo site

Continuando minhas peripécias no mundo Mac, hoje fui testar o Mobile Me. Um serviço da Apple que disponibiliza um espaço na internet para manter arquivos das mais variadas formas. A idéia principal é ter um espaço virtual para poder acessar os arquivos pessoais e configurações de qualquer lugar que esteja.

Uma das facilidades é a manutenção de um site na internet. Criei um hoje, para teste. Ainda tem muita coisa para explorar, mas já tem alguma coisa para ser visto.

Coloquei a lista de livros que eu li este ano, os livros que trouxe aqui para o Haiti e a biblioteca atual do meu itunes. Aos poucos eu vou melhorando. Para dar uma espiada, basta clicar na imagem abaixo.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Rousseau, um louco interessante

Este é o título do primeiro capítulo de Intelectuals, o livro de Paul Johnson que conta a história dos intelectuais modernos.

O eixo do livro de Johnson é mostrar a comparação da pregação dos intelectuais com sua própria vida; mostrar a dicotomia que existiu entre palavras e atos. Para ele, o surgimento do intelectual secular é um fator chave no mundo moderno. Com o declínio do poder do clero no século XVIII, um novo tipo de mentor emergiu para preencher o vácuo e capturar os ouvidos da sociedade.

A tradição foi colocada em cheque. Os códigos de nossos ancestrais, que guiavam a humanidade em suas decisões, foram inteiramente rejeitados. Pela primeira vez na história da humanidade, homens surgiram para afirmar que podiam diagnosticar os males da sociedade e curá-la com a força de seus intelectos; mais ainda, que podiam formular não apenas a estrutura da sociedade, mas a própria natureza dos hábitos fundamentais do ser humano poderiam ser transformados para melhor. Ao contrário dos sacerdotes que os antecederam, eles não eram servos e intérpretes dos deuses, eram seus substitutos.

Rousseau foi o primeiro destes intelectuais. Um homem que acreditava que ninguém era capaz de amar tanto a humanidade quanto ele, mas que em vida mostrou-se incapaz de amar o indivíduo em particular. Para Johnson, Rousseau foi talvez o mais influente de todos estes intelectuais e esta influência foi marcada por cinco idéias.
  1. A popularização do culto da natureza, o gosto pelo ar livre, a busca pela espontaneidade e o fortalecimento provocado pelo natural. Ele introduziu a crítica à sofisticação urbana. Ele foi o pai do banho frio, dos exercícios sistemáticos, do esporte como formação de caráter.
  2. A descrença nas melhorias progressivas e graduais trazidas pela cultura materialista; neste sentido ele rejeitou o iluminismo.
  3. O início do romantismo e a moderna literatura introspectiva levando o descobrimento do indivíduo a um outro nível, desencadeando no eu profundo. Pela primeira vez os leitores viram dentro dos corações e a visão era decepcionante, o coração foi exibido como um engano, superficialmente franco, cheio de malícia.
  4. Quando a sociedade evoluiu da natureza para a sofisticação urbana, o homem foi corrompido. O homem substituiu o amor ao próximo pelo amor próprio e passou a odiar a si mesmo pelo que os outros pensavam dele, levando-o a tentar impressionar o próximo com seu dinheiro, força, intelecto e superioridade moral. O homem tornou-se competitivo o que o levou a alienar-se do outro e de si mesmo. Esta alienação conduz a uma trágica divergência entre a realidade e a aparência.
  5. Desenvolveu os elementos para uma crítica ao capitalismo identificando a propriedade privada e a competição como as causas primárias da alienação.
Baseado nesta idéias, Rousseau desenvolveu sua teoria da educação em seu livro Émile. Pelo Contrato Social, o homem abria mão de sua liberdade individual para conseguir conviver com o próximo e passava a seguir um desejo coletivo, representado pelas leis e pelo estado. Em Émile, a educação era o instrumento do estado para desenvolver esta aceitação. O homem devia superar a sua individualidade e subordinar-se ao coletivo. Este pensamento está na raiz do totalitarismo moderno.

O mais interessante no livro de Johnson é constatar que este pensamento foi originado pela necessidade de Rousseau se defender do fato de ter abandonado, por cinco vezes, seus filhos recém nascidos, sem nome, na porta de orfanatos. Foi a tentativa de tentar dizer que estava fazendo um bem para estas crianças ao entregá-las diretamente para serem educadas pela sociedade (o estado).

Rousseau, um louco interessante.

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Now playing: Amy Winehouse - You Know I'm No Good
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quarta-feira, dezembro 17, 2008

Sobre ditadores

Outro dia um colega de trabalho comentou comigo enquanto percorríamos uma avenida em Porto Príncipe.

__ O problema do Haiti foi quando acabou a ditadura. Por pior que fosse era um país organizado e não o que estamos vendo aqui. Pode ver que aqui existia uma infra-estrutura, agora não tem nada.

Realmente percebe-se que o Haiti já esteve em melhores condições de estrutura. Existe posteamento, existem escombros de órgãos públicos. Hoje não tem energia, o governo está sendo construído do zero.

Retruquei que a ditadura fez parte da construção do que estávamos vendo. A anarquia que se seguiu à deposição de Baby Doc só escancarou o que só os haitianos viam.

__ Exatamente! A anarquia é pior que a ditadura. Na ditadura só um roubava, na anarquia todos roubam e o resultado é esse. Tem povo que só funciona no chicote. Não adianta democracia em um país como este. Veja o exemplo do Iraque. Quando tinha o Sadam, as coisas funcionavam. O iraquiano vivia melhor.

Fico curioso como as pessoas chegam a estas constatações. Que dados possuem para suportar estas opiniões? O iraquiano vivia melhor com Sadam? Baseado em que? Nos dados divulgados pelo regime? Na falta de mortes na televisão? Realmente, na ditadura as pessoas morrem sem notícia no jornal. Na democracia é um escândalo. Durante o regime do Sadam, ou do Baby Doc, um jornalista poderia atirar um sapato em um deles?

Não sei como surgiu um pensamento que a democracia não funcionaria para todos os povos, que alguns precisavam de um governo forte. Governo forte é um eufemismo que gostam de usar para o totalitarismo, o grande mal produzido pelo século XX que ainda fascina a muita gente. Na raiz de tudo está a crença que a liberdade é incompatível com a igualdade. Será? Será que precisa abrir mão de liberdade para se conseguir a tão defendida igualdade?

O mais estranho é que este colega é estudado, tem conhecimentos razoáveis de história, sabe da montanha de mortos que ditaduras produziram pelo mundo inteiro e mesmo assim acredita que o totalitarismo pode ser a saída em determinadas circustâncias.

No Brasil, gente como Fidel Castro é referenciado apesar de todos os crimes que produziu. O ideal do governo do coletivo sobre o indivíduo continua mais vivo do que nunca. Ainda se acredita que exista um desejo coletivo que deve se sobrepor ao indivíduo; a utopia ainda existe.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Criacionismo X Darwin

Há alguns dias, Reinaldo Azevedo tem tratado do tema em seu Blog. Uma reportagem do Estadão chamou atenção para o fato de algumas escolas cristãs estarem ensinando o Criacionismo, a criação do universo por Deus, a seus alunos. Pior, ensinavam esta tese como a verdade.

É uma absurdo, né? Uma escola particular cristã querer ensinar que existe um Deus criador do céu e da terra! Só faltam agora querer ensinar a Bíblia! Ou dizer que existiu um sujeito chamado Jesus Cristo que andou fazendo alguns milagres...

Tenham santa paciência! Ao contrário do que muitos pensam, não vejo nenhuma incoerência entra as duas teorias; até porque a ciência ainda provará todas as leis divinas. Um Deus de poder infinito não poderia realizar a criação através de leis de sua própria autoria. As leis naturais que tanto falam, não poderiam também ser criação divina? Onde a seleção natural não poderia ser uma criação de Deus para dar ordem ao universo? Sim, Darwin pode ter topada com uma das leis de Deus. Muitas inda virão.

Para mim não há exclusão entre a ciência e a religião, a primeira explica as leis da segunda. A Folha de São Paulo apresenta um editorial a respeito no dia de hoje. Posso não concordar com a opinião do jornal, mas reconheço que o trecho é correto.

O jornal condena o ensino do criacionismo nas aulas de ciência; tal prática deveria ser ensinada apenas na aula de religião. Para um cristão verdadeiro, a ciência se confunde com a religião pois esta apresenta a explicação para o mundo; mais do que obscurescer, ela amplia o entendimento da ciência. Querer separar as duas coisas é uma opinião de quem não acredita verdadeiramente na fé cristã ou mesmo judáica.

Entretanto, o jornal é coerente e certeiro em sua conclusão. No máximo o estado pode criticar esta abordagem por parte das escolas particulares. Se os pais aceitam que se ensine o criacionismo como uma verdade em sua fé não cabe ao estado interferir.

Este debate é importante e transcende até mesmo ao próprio criacionismo. Tem a ver com a liberdade para escolas particulares __ esta palavra é importante __ e pais poderem optar pelo ensino dos valores culturais que receberam aos seus filhos, coisa que a patrulha politicamente correta abomina e quer impedir a todo custo.



segunda-feira, dezembro 15, 2008

Hipocrisia

Quando Sócrates começou a questionar em público os sofistas de sua época, buscava desmascarar o que considerava um grande mal, a hipocrisia. Em Apologia de Sócrates, Platão revela a natureza da filosofia socrática. Buscando compreender a sabedoria, Sócrates questionou os grandes sábios de sua época e descobriu que estes na verdade não sabiam e pior, não sabiam da própria ignorância. Por isso o oráculo de Delfos teria afirmado que o mais sábios dos homens era justamente o filósofo, porque este sabia que não sabia. Daí a expressão só sei que nada sei. Muito mais do que o conformismo com a própria ignorância, Sócrates defendia o exato oposto, a busca da sabedoria a partir da constatação da própria ignorância.

Assim, percorreu a Grécia revelando as contradições dos sábios de sua época. Para ele, a filosofia tinha que se revestir da prática; não adiantava ser bom, era preciso praticar o bem. Os hipócritas condenam práticas que eles próprios cometem, possuem um discurso que contraria suas atitudes. Sócrates procurou evidenciar esta separação de palavras e atos.

Alguns séculos depois, veio Cristo. Jesus combateu a hipocrisia de sua época. Diante de uma turba que desejava apedrejar uma mulher adúltera, impediu-os com um ensinamento simples e valioso: aquele que não tiver pecados que atire a primeira pedra. A turba se dissipou e virando-se para a mulher disse a ela: ninguém a condenou, nem eu o farei. Vá e não peque mais.

A hipocrisia pode ser definida como o ato de fingir ter crenças, atitudes, virtudes ou sentimentos que a pessoa na verdade não possui. Vemos isso todos os dias, por todos os cantos do globo. Aliás, o mundo moderno construiu-se sobre um castelo de hipocrisia. O politicamente correto possui sua raiz na hipocrisia.

Outro ensinamento de Jesus que vale para qualquer época: não critique o cisco no olho do outro quando no seu existe uma trave. Quantas vezes não criticamos os outros por atos que já praticamos ou pior, que continuamos praticando? Será que sempre fazemos uma reflexão, mesmo que rápida, antes de criticar alguém? Será que procuramos saber das suas motivações? Dos seus problemas?

A hipocrisia é ainda pior quando é feita em público; é um caminho para o descrédito, para a perda de confiança. Por mais tempo que demore, o hipócrita acaba sempre desmascarado, acaba sem roupa, como a fábula.

Todos os dias o mundo nos convida para pensarmos e refletirmos sobre a hipocrisia que nos cerca. Quantas vezes não fechamos os olhos e tentamos evitar este convite? Quem de nós nunca foi hipócrita? A questão é lutar contra este sentimento de querer ser maior do que realmente somos. Como sempre, na raiz de tudo está a vaidade. A mãe de todos os vícios.

Aproveitando que estou escutando The Band, coloco mais uma vez um verso de Robbie Roberston que exemplifica muito bem os perigos da hipocrisia:

Just be careful what you do, it all comes back on you

A hipocrisia é um dos traços marcantes da humanidade em todas as épocas. Cada dia é um dia para combatermos este mal em nós mesmos, através de nossa reforma íntima. Aquela que estamos sempre adiando para o dia seguinte porque estamos muito ocupados com nós mesmos.


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Now playing: The Band - Jawbone
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domingo, dezembro 14, 2008

Existe um propósito para tudo?

Outro dia um amigo comentou comigo que acreditava que tudo tinha um propósito, que nada na vida acontecia por obra do acaso. Lendo Santo Agostinho esta semana, no início de Contra os Acadêmicos, encontrei esta passagem:

Talvez o que vulgarmente se chama fortuna é regido por uma ordem secreta e o que chamamos acaso nos acontecimentos se deve ao nosso desconhecimento das suas razões e causas, e não há nenhum acontecimento particular feliz ou infeliz que não se harmonize e não seja coerente com o conjunto de tudo.


Mais adiante, Agostinho acrescenta:

Se a divina previdência se estende até nós, do que não se deve duvidar, acredita-me, o que está acontecendo contigo é o que é necessário acontecer.

Trata-se, antes de tudo, de uma mensagem de esperança. Muitas vezes acontecem adversidades inexplicáveis em nosso caminho e clamamos: eu não merecia isso! Será? Será que realmente não merecemos certas coisas que nos acontecem? Nossa perplexidade não estaria influenciada por nossa incapacidade de entender algo maior do que nós? Por não compreender o conjunto que tornaria coerente os acontecimentos particulares?

Muitas vezes precisamos passar por alguns sofrimentos, faz parte da nossa experiência de viver. Se tudo desse certo para nós, em cada particular, teríamos uma vida melhor? Valorizaríamos as coisas boas da mesma forma? Ou cairíamos no fastio pela vida? Será que não perderíamos a noção do sofrimento que as pessoas passam?

Quando somos injustiçados, quando a fortuna nos prega uma peça, estamos aprendendo que existe injustiça, que existe coisas que acontecem que fogem ao nosso controle. É um convite à humildade, ao entendimento que existe um plano maior que ainda não conseguimos compreender. Talvez tenhamos que passar por coisas ruins para valorizar e entender as coisas boas e principalmente para despertar nossa solidariedade com o próximo.

Todo sofrimento é uma oportunidade. Uma chance para nos testarmos, para nos assegurar de nossos valores. Na adversidade, compreendemos mais um pouco de nossa própria natureza, de nossos limites, de nossas falhas. Exercitamos nossa paciência, nossa tolerância, nossa humildade, nossa fé. Mais do que questionar o que está acontecendo, devemos trabalhar para superar o momento da melhor maneira possível e seguir adiante.

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Now playing: O Bando Do Velho Jack - Dead Flowers
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Corda Bamba

O Bando do Velho Jack foi uma descoberta recente. Um amigo já tinha me falado dela, mas foi só quando estive em Aquidauana que fui escutar este som, que traz o rock dos anos 70 para o presente, com influência do rock sulista americano, particularmente do Allman Brothers.

sábado, dezembro 13, 2008

Muro e galinhas

Esta semana caiu um muro.

Não. Não se trata de um muro retórico ou simbólico, foi um muro de verdade. De concreto mesmo. Estávamos produzindo brita em nossa usina quando o muro não suportou a pressão da brita que estava encostada nele e ruiu; foi abaixo.

Minutos depois estive no local, nada a fazer. Exceto, claro, reconstruir o dito cujo. O muro dava para um terreno aparentemente abandonado, pelo menos não apareceu ninguém na hora. Passados dois dias, eis que surge um "bombaguy", como são denominados por aqui.

Dizia ele, através de um de nossos intérpretes, que era o dono do terreno. E mais, que haviam vítimas, queria uma indenização. Para azar dele, foi negociar com um companheiro, cearense, daqueles que não negam a origem. Brabo até a medula.

__ Minhas galinhas... o muro matou minhas galinhas... todas as cinco! O que vou fazer agora? Como fico sem minhas galinhas?

__ O muro caiu nas suas galinhas?

__ Caiu! Soterrou as bichinhas...

__ Cadê os corpos?

__ ?

__ Cadê os corpos das galinhas?

O bombaguy coça a cabeça, pensa um pouco e responde:

__ Comi.

__ Comeu?

__ Comi as bichinhas... já estavam mortas...

__ Comeu tudo?

__ Comi tudo.

__ Até as penas?

__ Penas?

__ É, as penas. Cadê as penas?

Silêncio.

__ E os ossos? Cadê os ossos?

E assim acabou a negociação tendo em vista que o bombaguy foi incapaz de trazer as penas e os ossos dos bichinhos cruelmente mortos nos escombros do muro. Mas não ficou de mãos vazias, levou um pouco de brita pela tentativa. Saiu feliz da vida.

Freakonomics


Steven Levitt, economista, escreveu este livro em parceria com Stephen Dubner. Freakonomics deve ser lido com muito cuidado, sempre com o espírito crítico para não considerar as idéias de seus autores como verdades provadas, o que estão longe de ser e eles próprios admitem.

Basicamente, os autores exploram vários temas e a relação entre coisas que aparentemente não possuem ligação. O que os lutadores de sumô tem a ver com agentes imobiliários? O que o aborto tem a ver com a criminalidade? O que o nome de uma pessoa tem a ver com seu destino? Por que os traficantes moram com suas mães?

Através de uma análise de dados estatísticos existentes, os autores tentam levantar estas ligações. O cuidado com o livro se deve justamente à interpretação deste dados e identificar a natureza de uma correlação. O consumo de sorvetes é maior em dias de sol, o que não implica que se tomarmos sorvetes o sol vai brilhar mais forte. Muitas vezes é difícil identificar qual é a causa e qual o efeito. Outro problema das estatísticas, é que dois fatores podem estar altamente relacionados mas influenciados por um terceiro que nem aparece na amostra. O consumo de sorvete, por exemplo, está relacionado com o de refrigerantes. Isso não quer dizer que quando se toma sorvete se deseja tomar refrigerantes; pode significar que um terceiro fator (o sol?) influencia igualmente o sorvete e o refrigerante.

O maior mérito do livro é despertar a atenção para estes fatos e nos convidar a questionar a natureza das coisas. Temos como elaborar uma teoria para um determinado fenômeno? Dispomos de dados para prová-las? A teoria é válida? Ela faz sentido?

Achei particularmente interessante os dois capítulos sobre a criação dos filhos, especialmente o primeiro. É realmente uma das neuroses modernas, como criar adequadamente um filho? Levitt levanta que três fatores podem influenciar o sucesso de uma criança: a genética, o que os pais são e o que os pais fazem. De todos, o mais insignificante é o último. Segundo os autores, o sucesso escolar de um filho está determinado pela genética e a condição de seus pais, o que eles fazem influenciam muito pouco.

De condição não significa necessariamente dinheiro, embora esteja relacionado. O fato de uma criança ter pais que valorizam a educação e possuem o hábito de ler, aumenta drasticamente a chance desta criança ser um bom aluno. Não adianta muito dar a uma criança uma coleção de livros se ela não possuiu em sua casa um ambiente que a estimulasse para a leitura, se não crescesse vendo os pais lendo.

Como disse, não se pode levar as idéias dos autores como verdades absolutas, mas podem sim ser um bom ponto para começar uma boa reflexão e até mesmo de refutar estas idéias.

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quarta-feira, dezembro 10, 2008

Segura o corneteiro

Na Academia Militar, o dia começa com o toque de alvorada dado por um corneteiro. É talvez o toque mais odiado pelos Cadetes, significa que mais uma dia de intensas atividades está iniciando.

Uma particularidade do quarto ano da escola, o último, é que em geral as provas são realizadas na segunda pela manhã. Para quem gosta de aproveitar o fim de semana para relaxar, esta data não poderia ser mais inconveniente. Principalmente para os cariocas.

Pela proximidade do Rio de Janeiro, apenas duas horas de viagem, é normal que os cadetes cariocas passem o fim de semana em casa. Junto a suas famílias, namoradas, em ambiente de praia e comodidades que o Rio oferece; a grande maioria chegava do fim de semana, perto da meia noite, sem ter praticamente estudado nada. E foi assim com Reinaldo.

Reinaldo estava no quarto ano do curso de engenharia. Carioca do subúrbio, do Méier, não perdia um fim de semana em casa por nada neste mundo. Por vezes tinha que fazer uma ginástica danada para driblar a escala de serviço. Mesmo quando não tinha jeito, quando precisava ficar no sábado, ainda dava um jeito de ir para casa no domingo, nem que fosse só para ver o jogo do Mengão como gostava de dizer.

E foi em um final de semana destes, com bastante sol no Rio, que Reinaldo ignorou uma prova de Economia que ocorreria na segunda feira. A matéria era gigantesca e a disciplina costumava cobrar caro dos que a ignoravam. Durante o sábado e o domingo, Reinaldo deixou a preocupação no fundo de sua mente. Chegou a levar o livro, apenas fez peso. Não chegou nem a aliviar a consciência.

Chegou na Academia pouco depois da meia noite. Como um desesperado tratou de arrumar as coisas para o dia seguinte, pois nem isso tinha deixado pronto. Quando viu, já passava da uma da manhã. Não tinha jeito, teria de "virar a noite", o que significava que não dormiria. Passaria a noite inteira estudando o extenso livro de economia.

No início, logo que sentou na sala de estudo, esta estava cheia. Os que estudaram no fim de semana estavam nos finalmente, estudando os últimos detalhes. Outros desesperados com ele viravam as folhas furiosamente. Contou 13 pessoas. Quando o relógio marcou duas horas, já eram 8. Às três já eram 5. Depois 4, 2 e finalmente Reinaldo.

E foi em total estado de concentração, lutando contra o sono, tentando chegar ao final da matéria, que Reinaldo escutou o toque da alvorada.

Como disse, um dos piores toques para um Cadete é justamente este, que ocorre às 6:00. Vinte minutos depois, ocorre um outro igualmente terrível, o toque do café da manho. Significa que quem não estiver em forma será anotado por atraso. São vinte minutos para fazer a higiene pessoal, arrumar a cama, colocar o uniforme e se deslocar para o pátio de formatura.

Reinaldo fez a barba com o livro aberto e se vestiu na própria sala de estudo. Eram seus vinte últimos minutos de estudo; depois que estivesse em forma não tinha mais jeito, seria uma seqüência de atividades que só terminaria dentro do salão de provas.

A movimentação era intensa, os cadetes começavam a deixar a ala para o pátio de formatura. Reinaldo pulava parágrafos inteiros de economia tentando chegar ao final do livro. Os minutos passavam como se fossem segundos. 6:05, 6:08, 6:10,6:13, 6:16... Uma sensação de agonia começava a se intensificar. Desesperado, abriu a porta da sala de estudos, colocou a cabeça para fora e bradou com todas as suas forças:

__ SEGUREM O CORNETEIRO QUE AINDA FALTAM 50 PÁGINAS!!!

terça-feira, dezembro 09, 2008

A Fantática Fábrica de Chocolate

Charlie and the Chocolate Factory(2005)

Confesso que assisti este filme com o artigo de Contardo Calligaris1 na cabeça. Queria ver o mesmo que ele viu e não me arrependi. O filme é excelente.

Contardo argumenta que o filme toca, de forma muito sutil, na fantasia de um mundo sem adultos, em que crianças teriam o poder das decisões. Willy Wonka é uma criança, que recusou-se a amadurecer e transformar-se em adulto. Em sua fábrica é o senhor do seu próprio destino. Um mundo dominado por crianças seria como a fábrica de Wonka, um centro de pequenas crueldades.

Sem os limites impostos pelos adultos as crianças tornam-se pequenos monstrinhos, como pode se observar nos quatro companheiros de Charlie. Cada um deles cresceu sem limites adequados, cada um deles cresceu com desprezo pelo semelhante. Na fábrica de Willy são punidos; a novidade é que seus pais são punidos juntos. São por suas comodidades que seus filhos tornaram-se o que são.

Willy, por outro lado, sofreu do exato oposto. Seu pai não lhe deu nenhuma liberdade, estreitou demais nos limites. Queria que o filho fosse a expressão da excelência de sua própria arte, queria que seu filho fosse ele mesmo. O resultado foi Willy Wonka, uma pessoa incapaz de compreender os laços de família ou as coisas mais triviais.

Charlie aparece como um menino extremamente pobre, que enfrenta os rigores da vida com uma única certeza: a união de sua família, tão bem representada por seus quatro avós dormindo na mesma cama. Seus pais criaram o filho com harmonia e esperança de um futuro melhor. É nesses valores que Charlie se agarra para manter a própria inocência e fugir das tentações de sua caminhada.

Um filme para ser visto com atenção por quem é pai ou pretende ser. Uma deliciosa fábula contada com maestria por Tim Burton e por um Johnny Depp mais uma vez a vontade com seus personagens para lá de esquisitos. Nota 9.



Quote:

Mr. Salt: [as the squirrels take Veruca] Where are they taking her?
Willy Wonka: Where all the other bad nuts go, to the garbage chute.
Mr. Salt: Where does the chute go?
Willy Wonka: To the incinerator. But don't worry, we only light it on Tuesdays.
Mike Teavee: Today *is* Tuesday.
Willy Wonka: [after a pause] Well, there's always a chance they decided not to light it today.



1: Quinta-Coluna, Ed PubliFolha, 2008

domingo, dezembro 07, 2008

Vidas Secas


Graciliano Ramos conseguiu fazer um retrato ao mesmo tempo seco e poético da sobrevivência de uma família diante dos rigores da seca nordestina. E o fez com extrema maestria.

Em uma narrativa curta, Graciliano mostra como o agreste molda suas vidas. Fabiano e sua família são a expressão do desalento, da falta de perspectiva, da tentativa em viver apesar dos rigores que a natureza inclemente os faz passar. São autênticas vidas secas.

Sem cultura e educação, Fabiano limita-se a procurar sobreviver, condição que jamais abdica. No entanto, a vida sem perspectiva de melhora mostra que sua vida será uma sucessão de migrações para fugir dos efeitos da seca; pior, seus decendentes também estão condenados. Perto do fim do romance sua esposa pergunta o que serão de seus filhos, Fabiano não pensa duas vezes, serão vaqueiros como ele.

A pobreza é mostrada por Graciliano em sua forma mais crua. Fabiano e sua esposa se comunicam apenas por monossílabos e sua deficiência em conseguir se expressar mostra sua limitação de pensamento. A linguagem anda junta com a capacidade de pensar, Fabiano recente-se das duas.

Ao longo dos breves capítulos, Graciliano mostra a visão de cada um dos personagens. Até mesmo a cadela Baleia é contemplada e sua morte é narrada, de forma impressionante, a partir do seu ponto de vista. Nos seus instantes finais a cadela só conseguia imaginar um mundo feliz, recheado de enormes preás.

Vidas Secas é um destes livros que são mais do que uma leitura, são experiências a serem vividas. Duvido que a seca do nordeste ou a desolação do ser humano seja visto da mesma forma após sua leitura. É uma dessas obras que deixa uma marca no leitor.

Que iriam fazer? Retardaram-se, temerosos. Chegariam a esta terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinhá Vitória e os dois meninos.



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Íon/Hípias Menor

Íon

Neste diálogo, Platão explora sua idéia sobre a inspiração poética. Sócrates conversa com um jovem rapsodo1 chamando Íon. O assunto é justamente a arte de recitar as poesias. Mais do que uma repetição, o filósofo argumenta que o rapsodo deve ser capaz de entender o poema.

Porque um rapsodo jamais seria bom se não entendesse o que é dito pelo poeta: é preciso que o rapsodo seja, para os ouvintes, o intérprete do pensamento do poeta.


O jovem afirma à Sócrates que não há poeta maior do que Homero, mas ao mesmo tempo explica que só é versado na obra deste, que pouco conhece dos demais. O diálogo toma então o rumo da crítica artística, como Íon poderia considerar Homero o melhor de todos se pouco conhece dos demais?

Sócrates questiona também a capacidade de um crítico de artes ir além da própria arte, de criticar o próprio significado da obra do artista. Fica claro que para analisar o conteúdo de um poema, por exemplo, o crítico teria que ser conhecedor do próprio conteúdo. Quantas vezes não vemos, nos dias de hoje, artistas e críticos analisando muito além de suas capacidades? Discutindo o que absolutamente possuem pouco conhecimento?

O filósofo afirma à Íon que a capacidade do jovem em recitar Homero não é arte, pois pouco sabe da técnica; estaria inspirado pelo divino, remetendo à figura da musa inspiradora. O poeta, na visão de Platão, seria um ser inspirado por Deus; seria um intérprete da linguagem divina.

E o deus, por meio deles todos, arrasta a alma dos homens para onde quer, fazendo a capacidade de um depender da capacidade do outro.


Hípias Menor

Neste outro diálogo, Platão trata da mentira.

Sócrates questiona Hípias a respeito de uma afirmação deste que Aquiles seria o maior dos heróis da guerra de Tróia por dizer sempre a verdade enquanto Odisseu seria um mentiroso. Desta forma, Aquiles seria superior à Odisseu.

O filósofo leva o raciocínio de Hípias ao entendimento que quem mente voluntariamente o faz com mais capacidade de quem mente involuntariamente. Lembra passagens da Ilíada onde Aquiles mentia, mostrando que tanto ele quando Odisseu eram capazes de dizer verdades e mentiras, seriam portanto parecidos.

Outro ponto tocado por Sócrates, é que uma pessoa versada sobre determinado assunto teria maior capacidade de mentir sobre este assunto do que uma que pouco soubesse sobre o mesmo assunto, levando ao paradoxo de que os sábios seriam na verdade os grande mentirosos.

No diálogo, Sócrates questiona o papel dos sofistas, os falsos sábios de sua época que eram mais voltados para convencer o outro do que para procurar efetivamente alguma verdade. O papel do verdadeiro filósofo seria de compreender e se informar para conseguir aprender e isso só seria possível em uma posição de humildade, uma posição de quem nada sabe.

E desejando compreender o que ele fala, me informo de tudo, e examino mais uma vez, e comparo as coisas ditas, com o intuito de compreender (...) É por aí que vai reconhecer aqueles que eu considero sábios: você vai me encontrar sendo insistente com as coisas ditas por esse e junto a ele me informando, com o intuito de receber ajuda na compreensão de algo.

Em Hípias Menor, a capacidade de buscar a verdade é afirmada e os sábios são associados à mentira, mostrando que o falso conhecimento é um obstáculo para quem deseja filosofar.


Rapsodo (en grego clássico ραψῳδός / rhapsôidós) é o nome dado a um artista popular ou cantor que, na antiga Grécia, ia de cidade em cidade recitando poemas (principalmente epopeias). (wiki)

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Now playing: Dave Matthews Band - Dreamgirl
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sexta-feira, dezembro 05, 2008

Uma refutação à Freakonomics e sua tese sobre o aborto

Em post anterior, tratei do principal capítulo, pelo menos em termos de repercussão, do livro Freakonomics. Os autores defenderam a tese que a interpretação da suprema corte americana que autorizou o aborto em todos os estados americanos foi o fator decisivo para a redução da criminalidade nos anos 90.

Pesquisando na internet, encontrei um artigo de Ramesh Ponnuru, editor sênior da National Review. Ponnuru refuta os argumentos de Freakonomics em seu livro The Party Of Death.

Segundo o autor, o argumento mais impressionante de Levitt é que os estados que legalizaram o aborto em primeiro lugar experimentaram a queda de criminalidade primeiro que os demais estados. O que Freakonomics ignorou, entretanto, foi que a criminalidade subiu primeiro exatamente nestes estados.

Se a teoria de Levitt estivesse correta, a queda da criminalidade ocorreria primeiro entre os mais jovens; aconteceu exatamente o oposto. Entre 1983 e 1993, as taxas de criminalidade caíram entre pessoas acima de 25 anos, nascidas antes da decisão da suprema corte, e subiu abaixo dos 25, justamente com a maioridade dos jovens da geração pós decisão.

Um efeito da legalização da legalização do aborto, ignorado por Levitt, foi a diminuição da proteção contra a concepção. Ficou mais fácil praticar sexo casual e dispensar os contraceptivos. O fato de 44% dos abortos de hoje serem repetições e 18% serem de mulheres que já realizaram dois abortos, sugere que o aborto tornou-se uma forma de controle de natalidade.

A legalização do aborto causou o aumento de concepções em 30%, enquanto que o número de nascimentos caiu 6%. Isso significa que muitas das crianças, e potenciais criminosos, que teriam sido evitados pela decisão, jamais teriam sido concebidas em primeiro lugar.

A decisão da Suprema Corte implicou no aumento das concepções e no número de abortos. Muitas destas concepções chegaram ao nascimento. De forma paradoxal, nasceram crianças que não teriam sido concebidas sem a decisão da Suprema Corte.

A atividade sexual sem o comprometimento aumentou em relações pré-nupciais. Acabou o costume do casamento forçado. Antes, a mulher tinha menos liberdade, mas esperava-se que o homem assumisse a responsabilidade pelo bem estar dela. Hoje as mulheres são mais livres para escolher, mas os homens também. Se a mulher não quer usar contraceptivo nem realizar aborto, que obrigação teria ele com a criança? Ao tornar o nascimento de uma criança uma escolha psicológica da mãe, a revolução sexual tornou o casamento e o sustento da criança uma escolha social por parte do homem.

O aborto pode não levar à diminuição das crianças não-desejadas; pode levar ao oposto, ao aumento de crianças que não foram desejadas por seus pais.

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Now playing: The Allman Brothers Band - You Don't Love Me
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Visitas

Esta semana tivemos visitas ilustres aqui na Companhia. Como resultado sobrou pouquíssimo tempo para a internet, em conseqüência, para o blog. Durante este tempo surgiram muitos temas interessantes para tratar aqui, muito fruto das leituras que tenho feito, especialmente o livro do Contardo e Vidas Secas.

Pior que o trabalho acumulou pois estive dedicado a acompanhar a comitiva. Valeu a pena só de ver o professor Amorim de colete e capacete dentro do lixão da cidade. He he.

Aos poucos voltamos à rotina.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Frases soltas do Haiti

Frases que marcaram as duas primeiras semanas no Haiti.

_ Como sempre diz o velho subtenente: confira na hora que for receber...

_ Hoje teremos entrega de água no Brabatt...

_ Papai, papai...

_ Atenção! Atenção!

_ Andersom, som, som...

_ Vamos fazer um projeto dos carimbos.

_ Vamos ser objetivos na reunião.

_ Por enquanto ainda não comecei a chicotear...

_ Agora somos da ONU.

_ Ya.

_ Ninguém fala que este efetivo está delicioso.

Flamengo 3 x 3 Goiás

O Flamengo parece que não tinha esgotado ainda a quantidade de vexames reservados para este ano. Agora foi a vez de deixar passar uma vitória em casa, depois de ter feito 3 x 0, para um time que está só cumprindo tabela no campeonato. O resultado é que só um milagre o colocará na Libertadores. Palmeiras e Cruzeiro jogam em casa, contra adversários tranqüilos enquanto o Flamengo vai na Arena enfrentar um Atlético fazendo um jogo de vida ou morte. Quer uma previsão? O Flamengo não vai conseguir sua vaga e não vai ser por conta dos adversários, um deles vai até ajudar. O rubro-negro é que vai se afundar sozinho.



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Now playing: Deep Purple - Clearly Quite Absurd
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