segunda-feira, dezembro 22, 2008

Babel


Babel é mais um daqueles filmes que exploram o choque cultural e mostra a face crua da globalização. Por exemplo, um rifle dado por um rico caçador japonês a um pastor marroquino acaba nas mãos de dois adolescentes e é usado para balear uma turista americana. Por causa disso os filhos acabam nas mãos de uma babá mexicana que os leva para uma festa de casamento. A mensagem é clara, nossos atos podem gerar conseqüências em qualquer parte do mundo.

O filme explora também o poder de nossas escolhas. Muitas vezes uma simples decisão pode gerar um desastre completo, mesmo que seja feita com a melhor das intenções. Foi o que ocorreu com Amélia que resolveu levar os filhos de Richard para um casamento no Méxido e quase gerou uma tragédia.

A garota japonesa é um exemplo do distanciamento de sonho e realidade. Surda-muda, sofre com a rejeição de um mundo que é hostil e entra em um processo de alienação levando-a ao desespero.

A irresponsabilidade dos pais também fica patente. Desde o pastor maroquino que deixa nas mãos de dois filhos adolescentes um rifle de alta precisão até a do próprio americano que deixa seus filhos e resolve levar a esposa para o Marrocos em busca de uma reconciliação. Por que o Marrocos?, pergunta Susan. Ele não sabe responder. Faz parte de um grupo de turistas atraídos pelo exotismo de países de cultura diferente. No entanto, quando se vêem presos dentro desta cultura entram em desespero, colocando de lado até os laços de solidariedade.

Algumas coisas incomodam um pouco no filme. Por que todo policial de fronteira americano é mostrado como um truculento que só deseja humilhar o mexicano? Por que o mexicano é visto como um inocente que apenas não consegue ser compreendido apesar de estar dirigindo embriagado, no meio da madrugada, carregando duas crianças americanas?

No meio do caos, entretanto, aparecem alguns laços de solidariedade e de amor que trazem uma tênue esperança de que há um consolo para os que sofrem, que há uma oportunidade de recomeçar.

Muito se falou que Babel explora a língua como um obstáculo para o relacionamento humano. A meu ver, entretanto, o que o filme mostra é que cultura e linguagem possuem importante, mas o ser humano possui semelhanças que superam as diversidades e leva ao entendimento. Mais do que buscar o que nos afasta, talvez seja o caso de celebrar o que nos aproxima uns dos outros.

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Now playing: Gov't Mule - Drums
via FoxyTunes

2 comentários:

Alexandra disse...

Pois é, o filme passa uma mensagem importante: não podemos deixar que interesses domésticos, nacionalismo, ou até mesmo a ignorância nos leve a ignorar os problemas em outras partes do mundo pois estamos todos conectados.

E quanto mais pessoas eu conheço de culturas diferentes (sejam elas europeias, norte-americanas, aborigenes, asiaticas, latino-americanas, africanas) mais claro fica para mim que a cultura, o idioma, é um verniz e que por baixo disso tudo somos todos humanos. Há realmente pontos em comum.

Quanto a policia de fronteira norte-americana ser truculenta, infelizmente isso é a realidade...

Marcos Guerson Jr disse...

Eu tenho sempre muito cuidado para não generalizar comportamentos humanos, muito menos para não julgar categorias de pessoas como se fossem uma pessoa só.

Não acredito na "Polícia de Fronteira" como se fosse um indivíduo. A polícia de fronteira é formada por um conjunto de individualidades que mais ou menos espelham uma sociedade.

Há o policial truculento? Com certeza. Mas todos são assim? Acredito que não. Na polícia, como em qualquer corporação, há pessoas de todos os temperamentos e história pessoal. Com certeza uma corporação policial abre a chance para o exercício de violência, mas isso não é uma regra geral.

A minha crítica é ao fato de o policial sempre ser retratado em todo filme como um truculento, como se este fosse o único papel possível que pudesse desempenhar.

Eu não consigo pensar o ser humano em categorias. Ainda acredito no triunfo da individualidade embora veja isso cada vez mais difícil.