quarta-feira, dezembro 24, 2008

Contos de Machado de Assis

Continuando minha excursão pelos contos do bruxo, acabei hoje de ler o volume 3 da coletânea organizada por João Cezar de Castro Rocha, com o subtítulo de Filosofia.

Não, Machado de Assis não criou nenhuma filosofia particular, pelo menos não no senso que se atribui aos filósofos. Tinha, como todos, a sua forma de ver o mundo e a reflexão própria daqueles que desejam ver além da superfície do mundo, de tentar penetrar seus mistérios.

É isso que mostra o presente livro.

Dos contos apresentados, gostei especialmente dos seguintes:
  1. O Sainete. Conta a estória de uma viúva que possui um jovem médico como pretendente. No entanto, ela perde rapidamente o interesse por ele e aos poucos vai afastando-o de sua vida até que uma amiga lhe pede para intervir em seu próprio favor. Vendo a amiga descrever o jovem Maciel a viúva acaba se apaixonando por ele. Quantas vezes uma pessoa só da valor a algo quando percebe que existem outras pessoas que valorizam? "A viúva descobriu-lhe os méritos pelos olhos de Fernanda; e bastou vê-lo preferido para que ela o preferisse".
  2. O segredo do bonzo, capítulo inédito de Fernão Mendes Pinto. Trata da capacidade do ser humano de conseguir seguidores para qualquer idéia idiota, bastando começar a defendê-la como se fosse uma realidade. Uma visão sobre o surgimento das ideologias. Nas palabras do próprio bonzo, um formador de ideólogos: "Haveis de entender, começou ele, que a virtude e o saber, têm duas existências paralelas, uma no sujeito que a possui, outra no espérito dos que o ouvem e contemplam".
  3. O Imortal. Já viram highlander? Todas as angústias que foram exploradas no filme estão nesta estória que narra as aventuras de um homem imortal ao longo de alguns séculos. Com um adicional a mais. O que faz um imortal quando é condenado à prisão perpétua?
  4. A Igreja do Diabo. O melhor de todos. Serve para as falsas religiões, entre elas as ideologias. Não é que o diabo em pessoa resolve criar uma nova Igreja na Terra e ainda tem a petulância de procurar Deus para contar suas intensões? Deus diz a ele: "Tú és vulgar, que é o pior que pode acontecer com um espírito da tua espécie, replicou-lhe o senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retire".
Machado de Assis era realmente fantástico. Felizmente teve tempo suficiente para nos deixar esta rica obra. Pena que o país está tão distante de compreender seu maior escritor!

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