quinta-feira, dezembro 25, 2008

Reflexões de natal

Quando aceitei vir para a missão do Haiti, soube que passaria aqui as festas de final de ano. Talvez fosse o período mais difícil desta curta e intensa aventura; preparei-me para ela. Cheguei a comentar que ir muito mais fácil ir para uma missão dessas quando se é solteiro, o duro mesmo era ir casado e com filhos.

O natal é um feriado onde clama muito o sentimento de família. Tem a ver com o significado da data para os cristãos. A família é o núcleo onde começamos a edificar nossa existência, onde aprendemos a amar ao próximo como a si mesmo, conforme ensinou Jesus Cristo.

Ontem, quando estávamos reunidos para a ceia, assistimos um vídeo preparado por nosso relações públicas. Tratava-se uma surpresa para todos. Através de contados com as unidades militares no Brasil, as famílias de muitos militares gravaram mensagens de feliz natal, que foram exibidas em um telão.

Difícil descrever a comoção de um homem ao ser surpreendido por sua esposa, filhos, pais, todos reunidos para reafirmar seu amor e desejar o rápido retorno. Sim, ficaram comovidos, mas acima de tudo felizes, por aquela pequena demonstração de amor daqueles que lhes são mais caros.

Eu disse que os que mais sentiriam uma data dessas seriam justamente estes militares que tinham suas famílias esperando por seus retornos no Brasil. Enganei-me. Ontem aprendi outra lição que a vida nos traz.

Se ontem me comovi, assim como outros companheiros, foi não só de saudades, mas da certeza de ter uma família nos aguardando ansiosos. E aqueles que não possuem famílias? Que por motivos mais diversos não tiveram esta felicidade? Aqueles que não possuem para quem retornar?

Eu vi uma pessoa assim ontem. Suas lágrimas não eram de alegria; eram de uma profunda tristeza, a consciência de que nada o aguarda. Quem viu esta cena ficou comovido, tentamos reconfortá-lo de todas as maneiras mas sabíamos que naquele momento era inútil. Era um daqueles instantes que o homem se confronta consigo mesmo.

Senti uma raiva profunda ontem. Podem me perguntar, raiva de quem? Raiva de Deus por permitir uma pessoa sofrer assim? Raiva desta vida que nos prega tantas peças sem sentido? Raiva do destino?

Não. Raiva daqueles que querem nos convencer que a família é algo a ser superado. Que Deus é um fantasia criada por um sentimento inato de religiosidade, que também deve ser superado. De todos os ideólogos que desejam nos tirar a esperança e estes laços preciosos em nome de um pretenso novo homem melhorado. Rejeito-os todos!

Homens que pretendem ter o conhecimento de como a sociedade funciona, de como o universo funciona. Oh, mundo moderno de falsos deuses e falsas religiões! Dizem ter a solução para os problemas do mundo, de como formar uma sociedade melhor e solidária. Não conseguem perceber o quanto são pretensiosos? Que no fundo querem assumir o papel de Deus, de artífice da própria criação?

Possuem a coragem e a audácia de defender a luta do homem contra o homem, da violência e coerção como uma arma legítima para impor seu pensamento. Lutam contra a liberdade individual, o nosso direito de escolher nosso próprio destino, de acertar e mais importante que isso, o direito de errar. Fingem amar a humanidade, mas não conseguem amar o próximo.
O natal, para quem consegue ver o significado desta data, nos incita a perdoar. No fundo, são sofredores que ainda enfrentarão as conseqüências de sua insensatez. Que receberão de volta o que atiraram ao mundo.

Ontem foi uma celebração da família, tão atacada, tão ridicularizada. Mais uma vez entendi que o homem precisa de ter uma, de ter alguém para dividir esta penosa caminhada e filhos para edificar sua obra na terra. Cada vez mais o egoísmo nos afasta destas verdades para um abismo que cedo ou tarde chegará. No fundo sabemdisso, apenas fecham os olhos para uma realidade que não querem aceitar.

Aprendi isso ontem, vendo um querido amigo chorar por não ter por quem chorar. Ele deseja algo que é natural no ser humano, que é um destino manifesto em nossa existência. É uma pessoa de muito bom coração, uma alma iluminada. Faço fé que ainda terá tudo aquilo que almeja, que alcance o que tanto deseja. Talvez não seja seu destino nesta vida, não sabemos os planos de Deus.

Santo Agostinho nos ensinava que o que chamamos de acaso ou destino é simplesmente nosso desconhecimento do plano maior preparado para nós. Tudo tem uma razão. Existe um motivo, ainda que incompreensível para nós, para que estivesse aqui ontem, no meio de amigos que lhe querem muito bem, sentindo suas dores.

Que a fé o alimente nesta caminhada. Que confie na providência divina. Deus não nos dá uma carga que sejamos incapazes de suportar, já nos dizia Cristo. Que o natal seja para ele esta data, a data da renovação de nossas esperanças, de nossos sonhos.

A data que recebemos de Deus nosso maior presente.

Um comentário:

Anônimo disse...

Meu filho, cada dia voce mais me surpreende. Aprendi hoje o verdadeiro sentido da família e o espírito natalino. Agora sinto que realmente eu e seu pai conseguimos formar um homem de caráter , ético, um ser humano espiri-tualista e cheio de fé e amor ao próximo. Deus foi e está sendo muito misericordioso conosco por ter nos dado a oportunidade de formar e conviver com pessoa tão maravilhosa como voce. Que Deus nos dê muita saúde para poder te acompanhar e conviver contigo por muitos anos e poder assistir o seu sucesso permanente.
As saudades são muitas mas o coração está tranquilo e sempre estaremos contigo em pensamento. Que Deus o abençoe e lhe dê tudo de bom, saúde , paz, tranquilidade e muitas graças. Sua mãe, que muito te ama
Beijossss