sexta-feira, dezembro 19, 2008

Rousseau, um louco interessante

Este é o título do primeiro capítulo de Intelectuals, o livro de Paul Johnson que conta a história dos intelectuais modernos.

O eixo do livro de Johnson é mostrar a comparação da pregação dos intelectuais com sua própria vida; mostrar a dicotomia que existiu entre palavras e atos. Para ele, o surgimento do intelectual secular é um fator chave no mundo moderno. Com o declínio do poder do clero no século XVIII, um novo tipo de mentor emergiu para preencher o vácuo e capturar os ouvidos da sociedade.

A tradição foi colocada em cheque. Os códigos de nossos ancestrais, que guiavam a humanidade em suas decisões, foram inteiramente rejeitados. Pela primeira vez na história da humanidade, homens surgiram para afirmar que podiam diagnosticar os males da sociedade e curá-la com a força de seus intelectos; mais ainda, que podiam formular não apenas a estrutura da sociedade, mas a própria natureza dos hábitos fundamentais do ser humano poderiam ser transformados para melhor. Ao contrário dos sacerdotes que os antecederam, eles não eram servos e intérpretes dos deuses, eram seus substitutos.

Rousseau foi o primeiro destes intelectuais. Um homem que acreditava que ninguém era capaz de amar tanto a humanidade quanto ele, mas que em vida mostrou-se incapaz de amar o indivíduo em particular. Para Johnson, Rousseau foi talvez o mais influente de todos estes intelectuais e esta influência foi marcada por cinco idéias.
  1. A popularização do culto da natureza, o gosto pelo ar livre, a busca pela espontaneidade e o fortalecimento provocado pelo natural. Ele introduziu a crítica à sofisticação urbana. Ele foi o pai do banho frio, dos exercícios sistemáticos, do esporte como formação de caráter.
  2. A descrença nas melhorias progressivas e graduais trazidas pela cultura materialista; neste sentido ele rejeitou o iluminismo.
  3. O início do romantismo e a moderna literatura introspectiva levando o descobrimento do indivíduo a um outro nível, desencadeando no eu profundo. Pela primeira vez os leitores viram dentro dos corações e a visão era decepcionante, o coração foi exibido como um engano, superficialmente franco, cheio de malícia.
  4. Quando a sociedade evoluiu da natureza para a sofisticação urbana, o homem foi corrompido. O homem substituiu o amor ao próximo pelo amor próprio e passou a odiar a si mesmo pelo que os outros pensavam dele, levando-o a tentar impressionar o próximo com seu dinheiro, força, intelecto e superioridade moral. O homem tornou-se competitivo o que o levou a alienar-se do outro e de si mesmo. Esta alienação conduz a uma trágica divergência entre a realidade e a aparência.
  5. Desenvolveu os elementos para uma crítica ao capitalismo identificando a propriedade privada e a competição como as causas primárias da alienação.
Baseado nesta idéias, Rousseau desenvolveu sua teoria da educação em seu livro Émile. Pelo Contrato Social, o homem abria mão de sua liberdade individual para conseguir conviver com o próximo e passava a seguir um desejo coletivo, representado pelas leis e pelo estado. Em Émile, a educação era o instrumento do estado para desenvolver esta aceitação. O homem devia superar a sua individualidade e subordinar-se ao coletivo. Este pensamento está na raiz do totalitarismo moderno.

O mais interessante no livro de Johnson é constatar que este pensamento foi originado pela necessidade de Rousseau se defender do fato de ter abandonado, por cinco vezes, seus filhos recém nascidos, sem nome, na porta de orfanatos. Foi a tentativa de tentar dizer que estava fazendo um bem para estas crianças ao entregá-las diretamente para serem educadas pela sociedade (o estado).

Rousseau, um louco interessante.

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