quarta-feira, dezembro 10, 2008

Segura o corneteiro

Na Academia Militar, o dia começa com o toque de alvorada dado por um corneteiro. É talvez o toque mais odiado pelos Cadetes, significa que mais uma dia de intensas atividades está iniciando.

Uma particularidade do quarto ano da escola, o último, é que em geral as provas são realizadas na segunda pela manhã. Para quem gosta de aproveitar o fim de semana para relaxar, esta data não poderia ser mais inconveniente. Principalmente para os cariocas.

Pela proximidade do Rio de Janeiro, apenas duas horas de viagem, é normal que os cadetes cariocas passem o fim de semana em casa. Junto a suas famílias, namoradas, em ambiente de praia e comodidades que o Rio oferece; a grande maioria chegava do fim de semana, perto da meia noite, sem ter praticamente estudado nada. E foi assim com Reinaldo.

Reinaldo estava no quarto ano do curso de engenharia. Carioca do subúrbio, do Méier, não perdia um fim de semana em casa por nada neste mundo. Por vezes tinha que fazer uma ginástica danada para driblar a escala de serviço. Mesmo quando não tinha jeito, quando precisava ficar no sábado, ainda dava um jeito de ir para casa no domingo, nem que fosse só para ver o jogo do Mengão como gostava de dizer.

E foi em um final de semana destes, com bastante sol no Rio, que Reinaldo ignorou uma prova de Economia que ocorreria na segunda feira. A matéria era gigantesca e a disciplina costumava cobrar caro dos que a ignoravam. Durante o sábado e o domingo, Reinaldo deixou a preocupação no fundo de sua mente. Chegou a levar o livro, apenas fez peso. Não chegou nem a aliviar a consciência.

Chegou na Academia pouco depois da meia noite. Como um desesperado tratou de arrumar as coisas para o dia seguinte, pois nem isso tinha deixado pronto. Quando viu, já passava da uma da manhã. Não tinha jeito, teria de "virar a noite", o que significava que não dormiria. Passaria a noite inteira estudando o extenso livro de economia.

No início, logo que sentou na sala de estudo, esta estava cheia. Os que estudaram no fim de semana estavam nos finalmente, estudando os últimos detalhes. Outros desesperados com ele viravam as folhas furiosamente. Contou 13 pessoas. Quando o relógio marcou duas horas, já eram 8. Às três já eram 5. Depois 4, 2 e finalmente Reinaldo.

E foi em total estado de concentração, lutando contra o sono, tentando chegar ao final da matéria, que Reinaldo escutou o toque da alvorada.

Como disse, um dos piores toques para um Cadete é justamente este, que ocorre às 6:00. Vinte minutos depois, ocorre um outro igualmente terrível, o toque do café da manho. Significa que quem não estiver em forma será anotado por atraso. São vinte minutos para fazer a higiene pessoal, arrumar a cama, colocar o uniforme e se deslocar para o pátio de formatura.

Reinaldo fez a barba com o livro aberto e se vestiu na própria sala de estudo. Eram seus vinte últimos minutos de estudo; depois que estivesse em forma não tinha mais jeito, seria uma seqüência de atividades que só terminaria dentro do salão de provas.

A movimentação era intensa, os cadetes começavam a deixar a ala para o pátio de formatura. Reinaldo pulava parágrafos inteiros de economia tentando chegar ao final do livro. Os minutos passavam como se fossem segundos. 6:05, 6:08, 6:10,6:13, 6:16... Uma sensação de agonia começava a se intensificar. Desesperado, abriu a porta da sala de estudos, colocou a cabeça para fora e bradou com todas as suas forças:

__ SEGUREM O CORNETEIRO QUE AINDA FALTAM 50 PÁGINAS!!!

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