quarta-feira, dezembro 17, 2008

Sobre ditadores

Outro dia um colega de trabalho comentou comigo enquanto percorríamos uma avenida em Porto Príncipe.

__ O problema do Haiti foi quando acabou a ditadura. Por pior que fosse era um país organizado e não o que estamos vendo aqui. Pode ver que aqui existia uma infra-estrutura, agora não tem nada.

Realmente percebe-se que o Haiti já esteve em melhores condições de estrutura. Existe posteamento, existem escombros de órgãos públicos. Hoje não tem energia, o governo está sendo construído do zero.

Retruquei que a ditadura fez parte da construção do que estávamos vendo. A anarquia que se seguiu à deposição de Baby Doc só escancarou o que só os haitianos viam.

__ Exatamente! A anarquia é pior que a ditadura. Na ditadura só um roubava, na anarquia todos roubam e o resultado é esse. Tem povo que só funciona no chicote. Não adianta democracia em um país como este. Veja o exemplo do Iraque. Quando tinha o Sadam, as coisas funcionavam. O iraquiano vivia melhor.

Fico curioso como as pessoas chegam a estas constatações. Que dados possuem para suportar estas opiniões? O iraquiano vivia melhor com Sadam? Baseado em que? Nos dados divulgados pelo regime? Na falta de mortes na televisão? Realmente, na ditadura as pessoas morrem sem notícia no jornal. Na democracia é um escândalo. Durante o regime do Sadam, ou do Baby Doc, um jornalista poderia atirar um sapato em um deles?

Não sei como surgiu um pensamento que a democracia não funcionaria para todos os povos, que alguns precisavam de um governo forte. Governo forte é um eufemismo que gostam de usar para o totalitarismo, o grande mal produzido pelo século XX que ainda fascina a muita gente. Na raiz de tudo está a crença que a liberdade é incompatível com a igualdade. Será? Será que precisa abrir mão de liberdade para se conseguir a tão defendida igualdade?

O mais estranho é que este colega é estudado, tem conhecimentos razoáveis de história, sabe da montanha de mortos que ditaduras produziram pelo mundo inteiro e mesmo assim acredita que o totalitarismo pode ser a saída em determinadas circustâncias.

No Brasil, gente como Fidel Castro é referenciado apesar de todos os crimes que produziu. O ideal do governo do coletivo sobre o indivíduo continua mais vivo do que nunca. Ainda se acredita que exista um desejo coletivo que deve se sobrepor ao indivíduo; a utopia ainda existe.

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