quarta-feira, dezembro 30, 2009

Os melancias recebem seu presente

Há muito notei o entusiasmo com que muitos militares se referem ao governo petista por conta das migalhas de aumentos que tiveram em seus contra-cheques. Reclamam que não tiveram tal tratamento no governo FHC e é verdade, embora não tenham levado em conta que o governo tucano teve a difícil tarefa de atingir o equilíbrio das contas públicas em um ambiente internacional bastante adverso (crise asiática, México, Rússia) e Lula encontrou um mar de rosas a sua frente e um estado saneado duramente.

Desesperam-se a todo tempo com Serra porque este "não gosta de militares". Concordo, não gosta mesmo. O que não significa que no governo vai se empenhar em afrontar suas forças armadas. Tem inteligência suficiente para não cair nesta armadilha.

O implícito deste pensamento dos melancias brasileiros (verde por fora e vermelho por dentro) é que o governo Lula gosta dos militares. Pois aqui está o presente de natal do líder deles. Façam bom proveito e engulam.

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,projeto-que-revoga-lei-de-anistia-fez-jobim-ameacar-se-demitir,488397,0.htm

É o que dá pensar em política apenas pelo contra-cheque.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Getting Things Done - David Allen

Foi através de um curto artigo sobre organizar sua conta gmail nos princípios do GTD, na revista Mac +, que cheguei neste livro. GTD? O que diabos era isso? Depois de uma pesquisa na internet, onde mais?, descobri o site de Allen, interessei-me e comprei o livro.

Como ser produtivo e sem stress? Para responder esta pergunta, Allen parte do princípio que a fonte de stress está nas inúmeras tarefas que temos que fazer mas adiamos qualquer decisão sobre elas, mantendo-as em nossos cérebros indefinidamente, sempre nos lembrando de suas existências. Não se trata de adiar uma tarefa, o que implica em uma decisão sobre ela, mas nos recusar a estabelecer o próximo passo sobre algo que está constantemente nos perturbando.

Outra premissa de Allen é que estamos sempre nos lembrando das coisas na hora errada, quando não podemos fazer nada a respeito. Estou em uma farmácia e lembro que tenho que mandar um e-mail. Como vou fazer isso na farmácia? Como vou arrumar o meu escritório se estou no mercado? Ou no cinema. Ou na feira.

O método que o autor desenvolve consiste basicamente em tirar tudo isso de nossas cabeças e colocar em um sistema confiável, esvaziando nossa memória RAM. Se tem coisas que só posso fazer no computador, esta lista deve aparecer só quando eu estiver no computador. Se tem coisas que só posso fazer fora de casa, esta lista deve aparecer só quando estiver fora de casa e assim por diante.

Durante as duas últimas semanas tenho aplicado o método GTD e até agora com bastante sucesso. Tenho um problema sério de adiar as coisas para fazer depois, não querer lidar com tarefas que me são desagradáveis, como cancelar um cartão de crédito. O grande problema é que quando nos recusamos a tomar decisões ou fazer de imediato uma tarefa simples, perdemos mais tempo para fazê-la e nos incomodamos mais. Se uma coisa pode ser feita em menos de dois minutos, deve ser feita imediatamente pois seguramente perderemos mais tempo em organizar lembretes ou mantê-la em algum arquivo para fazê-la posteriormente.

O GTD me deu uma motivação para fazer minhas tarefas, adoro riscar coisas da minha lista! Lembro-me do Earl e sua lista de bondades no seriado. Ainda tenho muito o que refinar na aplicação do método para meu caso, mas estou conseguindo seguir o básico. A questão principal agora é manter o sistema confiável para que não haja retrocesso ou abandono.

Um livro muito interessante para quem deseja dar um pouco de ordem a uma vida caótica. Pelo menos tem funcionado até aqui.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Espinosa (Série Mestres do Pensar) - Roger Scruton

É os segundo livro que leio desta coleção, o primeiro foi sobre Leibniz. Achei muito interessante os dois, excelentes introdução ao pensamento destes dois filósofos, sem deixar de tentar penetrar na natureza de suas filosofias. É comum que livros deste tipo se prendam mais à biografia dos autores do que suas idéias. Felizmente não é o caso dos dois livros que li.

Coube a Roger Scruton a tarefa de falar de Espinosa, o que faz com muita clareza e objetividade. Nem todos os pensamentos do filósofo espanhol são fáceis de serem acompanhados, muitos exigem conhecimentos básicos de filosofia e reflexão, o que valoriza ainda mais o trabalho de Scruton em tentar expô-los.

Scruton divide o estudo sobre o filósofo em quatro partes: Deus, o homem, liberdade e corpo político.

Espinosa acreditava que apenas Deus poderia ser concebido como substância, ou seja, apenas Deus existe de fato. É interessante este ponto de vista para um autor que foi renegado por todas as religiões de sua época e tratado como ateu. Pelo que entendi, Espinosa não questiona Deus e sim a idéia que se tem dele. As religiões foram construídas a partir de supertições que deveriam ser removidas para que se pudesse contemplar Deus como verdade, com a força do intelecto.

Para ele, tudo mais existia em completa interdependência, o que leva a certas implicações perturbadora para a autocompreensão humana. "A pessoa individual não é, ao que parece, um indivíduo". Se tudo acontece por necessidade, como Espinoza afirma, qual o espaço então para a moral?

A parte mais original da filosofia de Espinosa consiste em sua tentativa de responder aos três problemas que esboçamos __ o problema do espírito e do corpo, o da existência individual e o da liberdade __ e, ao fazê-lo, reconciliar a busca da felicidade com o conhecimento de Deus.


Espinosa tira o "eu" da reflexão filosófica. O conhecimento só seria possível quando o sujeito fosse eliminado da descrição do que é conhecido, que existe a concepção absoluta. Isso tem reflexões profundas na ética pois o "eu" também desaparece das considerações morais pois o homem nada mais é do que um dos modos de Deus, que tudo governa. O caminho para o homem é superar suas paixões e emoções para agir de acordo com a natureza das coisas, só assim teria liberdade.

No entanto, o homem simples não são homens livres pois são conduzidos pela imaginação e permanecem na ignorância. A política entra em sua discussão quando é necessário organizar a sociedade para que estes homens possam viver em harmonia. Vale citar o pensamento de Espinosa sobre o verdadeiro fim de um governo:

O objeto do governo não é transformar os homens racionais em animais ou bonecos, mas capacitá-los a desenvolver seus espíritos e corpos em segurança, e a empregar sua razão sem empecilhos; nem exibindo ódio, raiva ou logro, nem vigiando com os olhos da inveja e da injustiça. Com efeito, o verdadeiro fim do governo é a liberdade.


Se o livro de Scruton é apresentar os contornos de um pensamento complexo como o de Espinosa, esta resenha no máximo mostra algumas faces dos problemas que o filósofo se dedicou em vida. Longe de captar as várias idéias apresentadas por Scruton, seu livro despertou-me as primeiras dúvidas e curiosidades, o que sempre é um bom começo para a filosofia.

Sabrina(1995)

A refilmagem do clássico de de 1954 manteve a magia original mostrando a simpática estória da filha do chofer que apaixonada por um dos patrões, acaba conquistando o outro. Sabrina é um dos filmes que não me canso de assistir e me divertir, em qualquer uma das duas versões. Nem entro no mérito de qual das versões é melhor, deixo isso para os críticos profissionais.

O que acho interessante, ao comparar as duas versões é a diferença do papel da mulher na sociedade entre ambas as fitas. Realmente, muita coisa mudou em relação as mulheres em 40 anos e Sidney Pollack tratou de inserir estas mudanças na trama original, por vezes um tanto quanto exagerado.

Desta forma, Sabrina não vai mais para Paris para fazer um curso de culinária. Vai trabalhar com moda e termina como fotógrafa. Elizabeth Tyson era apenas a filha de um rico industrial; na nova versão é uma médica pediatra dedicada a salvar vidas. Desaparece o senhor Larrabee e seus charutos e Maude passa a ser a cabeça da família, agora uma viúva.

O politicamente correto também age sobre os irmãos Larrabee. David na versão original era muito mais cínico, agora é apenas um jovem sensível e incompreendido. Linus também foi suavizado, deixando de ser um apaixonado defensor do capitalismo como forma de transformação social para ser apenas um rico executivo a busca de um sentido para a vida.

Felizmente nada disso atrapalha o filme, mas fica o registro de que nos tempos de hoje fica cada vez mais difícil ter personagens com vícios e uma moral meio relaxada. O resultado é um mundo mais insípido e sem espaço para as ironias da vida.

domingo, dezembro 20, 2009

Máximas de um país mínimo - Reinaldo Azevedo


Criar aforismas exige uma boa dose de talento. Afinal, conseguir sintetizar em algumas poucas palavras um pensamento bem mais profundo ou um retrato da sociedade não é tarefa para qualquer um. A maioria das pessoas precisa de muitas palavras para descrever a mais simples das situações;outros, reproduzem o complexo em uma única frase, o que exige um grande conhecimento da linguagem e de suas sutilezas. Um dos únicos brasileiros capazes de tal feito é Reinaldo Azevedo, o blogueiro mais influente do país.

Reinaldo consegue aliar uma capacidade de observação impressionante e o pleno domínio da língua escrita. O resultado só poderia ser este festival de pérolas que a Record publica em uma simpática edição diminuta. Um livreto para guardar e consultar sempre. Organizado por verbetes em ordem alfabética, temos a síntese do pensamento de Reinaldo dos principais assuntos da atualidade. Alguns exemplos:

"O melhor remédio contra a esquerda ainda é a alfabetização moral."

"O que mais me espanta na Igreja dos Santos do Aquecimento Global dos Últimos Dias é a precisão. Se eu perguntar a Kofi Annan se vai chover amanhã, é bem capaz de ele molhar o dedo na saliva para interpretar os ventos. Ou de consultar alguma entidade tribal não eurocêntrica. Mas integra a turma que sabe exatamente qual será a temperatura média em 2130."

"As crises do capitalismo trazem em si o germe da própria solução, como não disse Marx."

"Celso Amorim é do tipo que fabrica massa negativa: quanto mais ele se esforça, pior. Se trabalhasse a metade, renderia o dobro."

"Noam Chomsky não passa de um Michael Moore alfabetizado, menos adiposo e, eventualmente, de banho tomado."

"A convicção da maioria não torna verdadeira uma mentira"

"O PT não inventou a corrupção, ele apenas a desmoralizou."

"A Teologia da Libertação trocou a Cruz, que é eterna, pela foice e pelo martelo, que são apenas velhos."

"Pregar a morte de Deus no Ocidente é covardia. Corajoso seria pregar a morte de Alá em Teerã."

"A utopia é sempre vizinha da vigarice, intencionalmente ou não."

Máximas de um país mínimo é acima de tudo uma grande diversão. E uma prova que faça o que quiser, a esquerda jamais terá senso de humor, por absoluta incapacidade de entendê-lo.

sábado, dezembro 19, 2009

O Século do Nada -Gustavo Corção

Em 1939 a Polônia foi invadida. Para deter o totalitarismo e preservar a liberdade no mundo, Inglaterra e França foram à guerra, assim como posteriormente os Estados Unidos. Em 1945 Berlin era ocupada e a II Guerra Mundial chegava ao seu fim com a derrota dos nazistas. Os aliados venceram.

Venceram? Venceram o que exatamente? Em 1939 a guerra foi feita para impedir que um país totalitário ficasse com a Polônia. Seis anos depois, as democracias ocidentais comemoravam a cessão de um território bem maior, incluindo metade da Alemanha a um outro país totalitário, um país que tinha participado da invasão da própria Polônia! Este é o ponto de partida das reflexões de Gustavo Corção, se é verdade que a Alemanha tinha sido derrotada, as democracias tinham cometido um terrível equívoco ao se aliar com um demônio ainda mais perigoso, a União Soviética.

É difícil falar de um livro escrito com tanta paixão como este texto fabuloso de Corção. A história trágica do século XX não estava nas tropas de Hitler, estava na revolução silenciosa que se fazia longe do grande público, na guerra cultural que demoliu o pensamento ocidental e levou ao triunfo do socialismo como novo ente de razão da humanidade. A tragédia do século tinha sido a aliança da Igreja com o socialismo resultando na esquerda católica e corrompendo o cristianismo em sua essência. Um casamento que se formou na França ocupada, dentro da resistência francesa e que resultou no triunfo da corrupção moral de toda uma sociedade, ao triunfo da impostura relativista.

A França é o centro da batalha que se travou na Europa pelos espíritos. Foi palco da maior traição do século. Não foram os exércitos nazistas que derrotaram os franceses no campo de batalha e sim a ação da esquerda francesa que levou ao desarmamento no final da década de 30, assim como a deterioração do espírito nacional. Ao final da guerra, a mesma esquerda não só ficava com os louros da vitória, mas conduziu um processo criminoso que levou seus inimigos aos fuzilamentos sumários enquanto os aliados estavam ocupados guerreando com os nazistas.

Corção não deixa pedra sobre pedra, guiando-nos desde o início do século, desde a eclosão do caso Dreyfus na França, da criação da Action Française, no alerta dos papas contra o grande mal socialista, passando pela tragédia de homens como Maurras, Brasillach, a corrupção moral do clero, e tantos outros acontecimentos. Uma história do século XX que passa ao largo dos livros de história, sempre preocupados com os fatos e deixando de lado as idéias que causaram tantas tragédias.

Corção nos convida a romper o jogo esquerda-direita, um jogo criado pela esquerda e que prende os não esquerdistas em uma armadilha mental intransponível. Em um capítulo memorável, nos mostra que esta dicotomia não tem o menor sentido e que envolve em um mesmo saco todos que por algum motivo não concordam com os valores da esquerda, ou mesmo a falta deles. Em suas próprias palavras:

Não, a esquerda propriamente dita jamais lutou contra a injustiça ou pela justiça; mas frequentemente lutou contra os que, por assim dizer. lhe fazem o favor de praticar certas injustiças. É melhor usar o termo próprio: as esquerdas aproveitam as injustiças, vivem das injustiças, para manter manter em movimento os dois cilindros da motocicleta do progresso na direção da luta de classes.


Gustavo Corção foi um pensador raro no Brasil. Foi um verdadeiro intelectual, ocupado em remover as camadas de imposturas que escondiam as verdades mais básicas. O Século do Nada é um verdadeiro manual para entender como a ideologia progressista se desenvolveu levando as trevas ao pensamento humano.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Reflexos da Inocência

Título Original: Flashbacks of a Fool (2008, Inglaterra)

Chesterton escreveu em Ortodoxia que uma das principais fontes de virtude para a humanidade se encontrava nos contos de fadas. A felicidade, segundo ele, consistia sempre em algo contido, uma situação com limites. Sempre há um "desde que", a pessoa é feliz "desde que não faça isso..". Um símbolo constantemente utilizado nos contos, verdadeiras criações coletivas elaboradas ao longo do tempo, é o cristal. O cristal é um material que pode ser bastante duro e resistente, mas dependendo do golpe quebra em pedaços e nunca mais é concertado.

Um exemplo desta tese é o filme Flashbacks of a Fool, escrito e dirigido pelo criador de video-clip Baillie Walsh, que estreiou com pé direito. A crítica ao filme foi bastante controvertida e na minha opinião o problema deste filme é a falta de compreensão. Na própria sinopse que li a confusão já começava ao afirmar que se tratava de uma estória de vota ao lar depois de vários anos em busca de uma jornada de redenção. Perderam o ponto, o filme trata de causas e consequências, sobre decisão individual e sim, sobre o cristal de Chesterton.

O título brasileiro chegou perto de pegar este espírito com a palavra "reflexos", embora não inteiramente apropriada pois utiliza-se reflexo para uma consequência indireta, distante. O erro maior, entretanto, é a palavra "inocência". Não é a inocência que provocou a desordem de alguns personagens, mas justamente a perda dela.

O filme tem duas partes bem distintas, começando pelos efeitos nos dias de hoje. Joe Scot é um ator famoso, mas decadente, vivendo uma vida de sexo e drogas, sem limite algum. Um mundo monocromático, sem paixão, imerso no tédio de uma vida vazia. Seu resto de consciência moral se resume nos conselhos e reprovações de sua empregada, Eve, que chuta o balde e se prepara para abandoná-lo. É quando recebe um telefonema de sua mãe dizendo que seu companheiro de infância, Boots, faleceu. Começa então o flashback de Joe.

Voltando 25 anos no tempo, Joe é uma adolescente descobrindo a sexualidade em uma pequena aldeia de pescadores na Inglaterra. Possui como vizinha uma mulher casada, com uma filha pequena mas profundamente insatisfeita com a monotonia de sua vida, uma espécie de Madame Bovary da década de 70. Dois movimentos colidem para Joe ao mesmo tempo, a sedução de Evelyn com sua promessa de sexo fácil e a porta do romance que se abre para Ruth, esta sim uma promessa para a vida inteira. A cena que Ruth dubla o clássico do Roxy Music, "If there is somethin" mostra todo o talento de Walsh com o video-clip e dá o tom ao filme. É o momento que Joe guardaria para toda sua vida.

Em um instante, o pobre adolecente é obrigado a fazer uma escolha. Indo para o encontro que iniciaria, de fato, o grande romance de sua vida, é abordado por Evelyn que sozinha em casa o chama para entrar. Alguns segundos de indecisão precedem a decisão fácil de aproveitar as duas ocasiões: ficar com Evelyn e depois ir para o encontro. O problema é que as decisões fáceis nem sempre são as sábias, como logo vai descobrir. Pode parecer que é exigir muito de um jovem deixar passar a oportunidade de viver uma aventura com uma mulher bonita, sedutora e madura, mas talvez seja neste momento que os valores são postos à prova.

Por fim, no dia seguinte, com o futuro romance com Ruth abortado, Joe entrega-se de vez à sua aventura, desta vez com trágicas consequências para muitas pessoas, levando Joe a fugir e nunca mais voltar. Até o momento da morte de Boots, que casara-se com Ruth.

Não é a redenção que Joe busca em sua volta à Inglaterra, mas um pouco de compreensão do vazio que se meteu ou simplesmente a tentativa de voltar a um ponto conhecido, onde a promessa de felicidade era mais real. A redenção, o encontro com a ordem, só possível pelo auto-conhecimento, pode até ser uma consequência, mas Walsh foge do convencional e deixa esta pergunta em aberto. E aqui vejo o grande mérito do filme, a recusa pelo final mais fácil. Fica a dúvida se o que Joe viveu no dia que passou na aldeia que foi criado foi suficiente para dar-lhe uma nova direção em sua vida.

terça-feira, dezembro 15, 2009

The Great Gatsby - Scott Fitzgerald

A década de 20, nos Estados Unidos, foi uma época de grande otimismo, onde nada parecia que poderia dar errado. As pessoas enriqueciam, a bolsa de valores subia sem parar, a I Guerra ficava para trás, o jazz tomava conta do país. Nem tudo eram flores, a sociedade ainda era bastante hierarquizada, a máfia ganhava força e preparava-se para desafiar o país, o desalento moral se aprofundava. Os novos ricos buscavam seu lugar em uma sociedade que não os queria, uma reação aos emergentes.

Fitzgerald narra seu curto e rico romance a partir do ponto de vista de Nick Carraway, um já não tão jovem operador da bolsa de valores que por destino vai morar ao lado da mansão do misterioso Jay Gatsby, um novo rico. O motivo do seu enriquecimento nunca fica claro, mas Nick fica sabendo que o vizinho enriqueceu ao lado do crime, que sua fortuna tem uma origem para lá de duvidosa.

Gatsby tem uma obsessão, retomar o ponto em que parou seu romance com a rica e fútil Daisy, prima de Nick. O romance não prosperou por conta da pobreza do personagem título e Daisy casou-se com um homem rico. A grande questão de Fitzgerald é aquele sonho do retorno ao momento perfeito, ao instante em que acreditamos termos tido a completa felicidade, embora isso tudo seja uma grande ilusão. Gatsby quer o retorno no tempo, a volta ao momento decisivo em que foi deixado de lado, sem perceber que já não eram as mesmas pessoas, que a situações haviam se transformado e que este instante nunca se repetiria da forma como imagina.

The Great Gatsby mostra que um livro não precisa ser grande para contar uma boa estória e nos fazer viajar no tempo. Uma obra sensível que colocou um marco na história literária americana.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Um pouco sobre orçamento e políticas públicas

Escutei ontem na rádio CBN, de Merval Pereira, que o governo brasileiro gasta 77% do seu orçamento em pagamento de pessoal, incluindo previdência. O analista político discutia com Sardenberg sobre a nova benece do executivo: um aumento real de 2,5% para os aposentados que ganham acima do mínimo, lembrando que o próprio salário mínimo teve um aumento real de 100% nos últimos 15 anos.

Sempre foi uma bandeira da esquerda os aumentos reais de salários, seja de ativou ou inativos, impostos pelo governo. Os conservadores e liberais, por sua vez, são obrigados a defender a difícil bandeira do equilíbrio fiscal, opondo-se a estes aumentos. É fácil ver que aos olhos da população, as políticas de esquerda são muito mais populares. Este é um grande problema da política, especialmente nestes dias de exposição intensa, boa parte dos eleitores não possuem conhecimento ou honestidade intelectual suficiente para reconhecer os efeitos não visíveis de medidas como esta. A negação da realidade é uma marca constante da esquerda e de seus eleitores, a maioria realmente acha que basta a boa vontade do governo para resolver os problemas econômicos.

Digo maioria, porque existe uma minoria que sabe exatamente o que está acontecendo. Os políticos da esquerda sabem que um orçamento não aguenta muito tempo este festival de benefícios a custa da sociedade e que um dia o caldo entorna. Por que então tomam medidas demagógicas como essa? Porque sabem que na hora que não estiverem no poder, alguém vai arrumar a casa e ficar com os custos políticos das políticas impopulares. Com a casa arrumada, a esquerda pode voltar faceira ao poder e conceder mais benefícios para os grandes privilegiados de suas políticas: funcionários públicos, sindicalizados e minorias em geral. Quem paga a conta? O restante da sociedade. Governo não cria riquezas. Pode até criar dinheiro, mas isso é outra história.

Na verdade, o grande trunfo da esquerda é a existência de seus adversários e a rotação no poder. Quando governos de esquerda se sucedem, o desastre é inevitável. É um dos problemas do Brasil. Estamos a 15 anos sendo governados pela esquerda e assim ficaremos por no mínimo mais 4. Claro que neste período a situação melhorou muito, principalmente pelo plano real. Sardenberg matou a charada em seu livro "Neoliberal não, Liberal: o PSDB adotou medidas francamente liberais não por convicção, mas por necessidade, aliás com grande dose de vergonha. Vem daí o grande problema da comunicação do governo FHC, os tucanos sempre se envergonharam das medidas que tomaram. Foi uma grande infelicidade que agenda liberal tivesse que ser tocada por um partido anti-liberal, o que originou grandes distorções. Ao invés de utilizar o equilíbrio fiscal atingido com grande esforço pela sociedade para alavancar o desenvolvimento com investimento em infra-estrutura, o fruto do sacrifício foi gasto em políticas sociais de cunho assistencialistas, culminando para a transferência direta de dinheiro com óbvio apelo eleitoral.

Infelizmente estamos perdendo grandes oportunidades e a situação só vai piorar pois a pressão sobre o orçamento é cada vez maior. O Brasil só se manteve até agora pelo excepcional desempenho das empresas que apostaram na modernidade, como as do agronegócio e Vale do Rio Doce, esta pegando bonde no extraordinário crescimento econômico chinês. O país cresceu fruto das medidas ortodoxas da economia e das empresas nacionais e não pelas políticas de esquerda. No geral, elas mais atrapalham que ajudam. O país cresceu a despeito delas e não por causa delas.

O quadro fica ainda mais agravado pelo extraordinário avanço da mídia, permitindo uma exposição sem precedentes dos governantes. A pressão pelas medidas de cunho populares aumentou extraordinariamente o que explica em parte o ressurgimento do populismo na América Latina e agora no próprio Estados Unidos. Obama se mostrou até agora nada mais do que um populista com pedigree. Espero que os americanos tenham mais bom senso que seus companheiros de continente e o coloque para fora nas próximas eleições, começando por tirar o Congresso das mãos dos democratas.

Estou dizendo que devemos lutar contra a tecnologia, colocar obstáculos para a exposição dos políticos? De modo algum. O que aponto é que para conseguir dar conta deste excesso de informações, de boa e má qualidade, é preciso que o indivíduo tenha mais capacidade de análise, que saiba usar a lógica, que consiga ver através das camadas de impostura que caracterizam a política atual. É preciso de um salto na capacidade de raciocinar. Infelizmente a educação moderna, tutelada pelo Estado, tornou-se um instrumento de doutrinação do cidadão, como queria Rousseau. A escola trocou o verbo ensinar por conscientizar. O resultado do cruzamento da educação ideológica com excesso de informações é o afastamento da realidade, é a queda da civilização.

Os resultados estão por aí, para quem quiser ver.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

HEXACAMPEÃO BRASILEIRO 80-82-83-87-92-09


O leitor atento, se é que tenho algum, deve ter reparado no silêncio deste blog sobre o andamento do Campeonato Brasileiro. A razão foi muito simples: superstição. O Flamengo começou a ganhar e lembrei de uma palestra que assisti do Bernadinho. Contanto sobre sua primeira experiência como técnico, treinando uma equipe feminina italiana, ele contou que o time era uma verdadeira baba e em um determinado jogo começou a jogar o que sabia e o que não sabia, virando todas as bolas e dando um show em quadra. O que lembro especialmente em sua estória foi que ele ficou estático no banco e diante da pergunta de seu auxiliar se iria mexer alguma coisa, ele respondeu:

_ Você está louco? Se eu mexer acaba o encanto!

Foi mais ou menos o meu sentimento, se eu escrevesse qualquer coisa iria quebrar o encanto deste time improvável que acabou levando a taça e tirando o Flamengo de uma fila que já levava 17 anos. Sinceramente eu não acreditava que o rubro-negro disputasse este título, contentava-me com a vaga na Libertadores. Inacreditavelmente, o time engrenou, começou a ganhar e seus rivais começaram a despencar pois não bastava ganhar, era preciso que as equipes que estavam na frente também perdessem. Como em uma conspiração dos astros, tudo começou a dar certo de forma tão espantosa que eu não ousei escrever uma única linha sobre o que estava acontecendo. Como Bernadinho, eu não queria quebrar o encanto.

Dizer mais o que? Hexacampeão!

Agora tenho que juntar dinheiro para me defender porque o presidente do Sport está ameaçando processar todo mundo que afirmar que o Flamengo possui 6 títulos brasileiros...

Complexo de inferioridade é coisa para Freud...

domingo, dezembro 06, 2009

O Rei Lear - William Shakespeare

O Rei Lear está velho e cansado. Sem um filho homem, resolve dividir seu reino entre suas três filhas e viver uma "aposentadoria", dedicando-se à caça e vivendo as custas das três. o problema é que sua capacidade de discernimento não é mais a mesma, junto com a velhice, perde rapidamente a prudência, aquela virtude que orienta os atos para os fins justos.

Sua desgraça começa na hora da partilha onde contenta-se com elogios vazios feitos por suas duas filhas casadas e não consegue compreender que a recusa da filha mais nova em se casar era a prova de amor que tanto queria. Cordélia, uma das maiores criações do bardo, é deserdada e casa-se com o rei francês, o único que a aceita sem dote.

Em qualquer obra de Shakespeare, é impressionante sua capacidade de transladar para os palcos uma visão ampliada da natureza humana. Em Rei Lear, seu talento chega à maturidade. A quantidade de dramas humanos representados por uma grande quantidade de personagem é impressionante. Temos vingança, inveja, luxúria, desejo de poder, angústia, honra, coragem, sacrifício, amor, calúnia, orgulho, vaidade e tantos outros. Não há um personagem principal na peça, todos tem seu momento de brilho, seu diálogo inspirado. Rei Lear é um tratado sobre a miséria e redenção do homem.

Abrindo o livro ao acaso, deixo esta passagem, nas palavras de Lear:

Oh, não vamos discutir necessidades! Nossos miseráveis mais miseráveis sempre têm alguma coisa que é supérflua às suas necessidades miseráveis. Se concedermos à natureza humana apenas o que lhe é essencial, a vida do homem vale tão pouco quanto a do animal.

sábado, dezembro 05, 2009

A Queda - As Últimas Horas de Hitler


Assistir este excelente filme alemão que mostra os acontecimentos derradeiros do bunker onde Hitler se refugiou nos últimos dias de abril de 1945 e a desesperada defesa de Berlim foi uma experiência angustiante. Não é fácil contemplar a face humana da maldade, a convivência de sentimentos tão conflitantes e radicalmente opostos na mesma pessoa, e isso não vale só para Hitler.

É fácil querer considerá-lo uma espécie de demônio e exclui-lo da humanidade, uma solução confortável para uma alternativa difícil de lidar, de que um homem seja capaz das maiores atrocidades por um ideal. Este talvez seja o grande desconforto do filme, contemplar a mistura de um ditador capaz de ser gentil e cruel em medidas extremas nos faz perceber que o mal existe dentro do homem, qualquer um. Não estou dizendo que todo mundo seja capaz de chegar ao extremo que ele chegou, mas todos têm seus próprios demônios para lidar. Acreditar que não se pode cair é o primeiro passo para a queda, como já dizia Chesterton.

Naquele bunker reuniu-se os vários tipos de personalidades que tornaram possível o nazismo. Os fanáticos seguidores, como Goebbels e sua esposa; os totalmente alienados, como Eva Brawn, capaz de dar um baile no meio de um bombardeio; as pessoas boas que fecharam os olhos para o que estava acontecendo, como a secretária que "narra" os acontecimentos; o soldado alemão por excelência, que despreza o nazismo mas por um sentimento forte de pátria se obriga a defendê-lo, como Weidling; os oportunistas que rondam o poder, como Himmler. Todos estes fizeram parte da camarilha nazista e representam o povo alemão de sua época. A Junge real acerta no ponto principal em sua última fala do filme, era possível entender a real natureza do nacional-socialismo. Houveram aqueles que compreenderam e recusaram-se a participar, muitas vezes com o sacrifício das próprias vidas. Insistir que todos os alemãos foram culpados por sua desgraça é profundamente injusto com estes, dizer que foi um truque de Hitler é tirar a responsabilidade moral de todos estes personagens que aproveitaram-se de alguma forma deste rompimento com a realidade que tomou conta da sociedade alemão, uma sociedade que encontrava-se em profunda desordem espiritual.

Destaco no filme algumas caracterizações. Bruno Ganz dá uma ala de interpretação, um desempenho que honra as grandes atuações da história. Não falo aqui da semelhança física, algo que considero irrelevante e superestimado no cinema, mas na completa emoção que transmite ao interpretar um personagem tão rico em dicotomias. O mesmo vale para a atriz que faz Magda Goebbels; a cena em que mata calmamente seus seis filhos e depois vai jogar paciência é a mais chocante do filme. Consegue dar toda a intensidade deste momento da intensa imbecilidade que foi necessária para aceitar o nazismo.

A Queda é mais do que um retrato de Hitler em seu desespero em ter que aceitar a dura realidade do fracasso do seu sonho. É um retrato do que a sociedade alemão tinha de pior em sua época e que sem ela Hitler teria morrido como um veterano de guerra com idéias esquisitas. É um retrato da busca pelo heroísmo de um bando de covardes, a começar pelo ditador, todos cometendo suicídio para não ter que lidar com a responsabilidade de seus atos.

O filósofo alemão Eric Voegelin estava certo. O nazismo foi um movimento que rompeu com a realidade de uma forma nunca antes vista e as consequências foram funestras para a humanidade. A Alemanha nazista foi o resultado de uma nação de idiotas que se deixou liderar por um idiota homicida. O filme mostra o epílogo deste pesadelo.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Grande Qualidade de Vida - João Ubaldo Ribeiro

Antigamente, não havia qualidade de vida. Quer dizer, não se falava em qualidade de vida. Agora só se fala em qualidade de vida e, em matéria de qualidade de vida, sou um dos sujeitos mais ameaçados que conheço. Na verdade, me dizem que venho experimentando uma considerável melhora de qualidade de vida, mas tenho algumas dúvidas.

Minha qualidade de vida, na minha modesta opinião pessoal, não tem melhorado essas coisas todas, com as providências que me fazem tomar e as violências que sou obrigado a cometer contra mim mesmo.

Geralmente suporto bem conversas sobre qualidade de vida, mas tendo cada vez mais a retirar-me do círculo ou recinto onde me encontro, quando começam a falar nela.
A comida mesmo me faz estar considerando, no momento, comprar uma balança de precisão e um computador de bolso com um programa alimentar especial. Antes eu comia do que gostava. Fui criado, por exemplo, com comida frita na banha de porco ou, mais tarde, na gordura de coco. Meus avós, todos mortos depois dos noventa (com exceção do que só comia o saudabilíssimo azeite de oliva — e ele morreu de AVC) comiam banha de porco e torresmo regularmente, mas, claro, ainda não tinha sido informados de que se tratava de prática mortal. Aliás, comida saudável, que se ensinava nos manuais até para crianças, era composta de leite integral, ovos, pão (com manteiga), carne vermelha ou peixe — frito, então, era uma maravilha para estômagos delicados — frutas e legumes à vontade.

Depois disso, até atingirmos a atual qualidade de vida, fulminaram o leite. Alimento completo, passou a ser encarado com desconfiança, e hoje não sei de ninguém que beba leite integral, a não ser, talvez, algum gorila do Zoológico. O ovo sofreu ataque violentíssimo, assim como o açúcar, a ponto de, tenho certeza, várias receitas tradicionais de doces serem hoje achados arqueológicos, e as poucas que restam constituam uma imitação desenxabida das que empregavam ingredientes normais e não essas massas e líquidos insossos que vivem distribuindo, como leite, manteiga etc. Claro, mudaram de idéia a respeito do ovo recentemente, mas a mudança de idéias deles só pode ser vista com desconfiança.

Não houve o tempo, e não é preciso ser nenhum Matusalém para lembrar, em que para substituir a manteiga era exigida margarina, alimento saudabilíssimo, que não fazia nenhuma das monstruosidades operadas pela manteiga? O negócio era margarina e durou bastante, até que descobriram que margarina pode ser até pior do que manteiga. Melhor, na verdade, abolir manteiga inteiramente. E margarina, claro, nem pensar. Carne vermelha é uma abominação. Carne de porco é um terror.

Vísceras de qualquer tipo devem ser evitadas como o diabo foge da cruz. Açúcar, meu Deus! Sorvete? Só para crianças, e crianças de pais irresponsáveis. Aliás, é um bom desafio achar algo unanimemente aprovado pelos nutricionistas, a não ser, tudo indica, capim.

Mas ninguém pode viver de capim, de maneira que, relutantemente, deixam a gente comer uma coisinha qualquer, contanto que não ultrapassemos o limite de calorias e não ingiramos o proibido e, mesmo assim, com restrições. Peixe cozido ou grelhado, por exemplo,
geralmente pode, mas paira sobre seu infeliz consumidor a ameaça de que não esteja fresco ou esteja contaminado por metais pesados e pelo lixo que jogam em rios e mares. Peito de frango (e eu que sou homem de coxas e antecoxas) também assusta, por causa dos hormônios que dão às galinhas e as neuroses que elas desenvolvem, nascendo sem mãe e sendo criadas em cubículos em que mal podem se mexer, a ponto de terem de ser debicadas, para não se autodevorarem histericamente. Ou seja, mesmo comendo um peito de galinha sem uma gota de qualquer
gordura e acompanhado somente por matos e alguns legumes (cuidado com a contaminação de tomates, cenouras e alfaces!), o infeliz se arrisca.

Mas vou usar o computador para calcular as calorias, as gorduras e outras características de cada refeição, porque, agora que minha qualidade de vida está melhorando a cada dia, preciso ser coerente.

Fumar, não mais, nem uma pitadinha depois do café (que ninguém sabe direito se faz bem ou faz mal, temperado com adoçante, que também ninguém sabe se faz bem ou faz mal). Beber, esqueça, vai deixar você demente aos 60, além de dar cirrose e hepatite. O famoso copinho de vinho, além de ser uma porção ridícula, também está sendo questionado no momento. Parece que não é bem assim, e uma autoridade no assunto disse outro dia no jornal que o melhor é tomar suco de uva — não industrializado, é claro, por causa dos aditivos.

Restam também os exercícios. Fico felicíssimo, quando, suando e bufando no calçadão, sinto o ar fresco invadir os meus pulmões (preferia logo uma tenda de oxigênio), as pernas doendo e a certeza de que minha qualidade de vida vai cada vez melhor. Até minha pressão arterial (13 a 14 por 8), que era considerada boa para minha idade, agora já é alta e o pessoal dos 12 por 8 já começa a entrar na faixa de risco. Enfim, é duro manter esta boa qualidade de vida, ainda mais agora que me anunciam que caminhadas somente não bastam, tem de malhar também. Ou seja, temos que nos dedicar o tempo todo a manter nossa qualidade de vida. Mas, aqui entre nós, se vocês no futuro virem um gordão tomando caldinho de feijão com torresmo no boteco, depois de um chopinho, e o acharem vagamente parecido comigo, talvez seja eu mesmo, sofrendo de uma pavorosa qualidade de vida. A diferença é grande. Tanto eu quanto vocês vamos morrer do mesmo jeito, mas vocês, depois da excelente qualidade de vida que estão desfrutando aí com sua rúcula com suco de brócolis, vão ter uma ótima qualidade de morte, falecendo em perfeita saúde e eu lá, no meu velório, com um sorriso obeso e contente no rosto dissoluto.

sexta-feira, novembro 27, 2009

Aquecimento Global e evidências de fraude

Nos últimos dias começou a pipocar na internet as informações sobre os tais e-mails que evidenciam que pelo menos alguns cientistas estavam escamoteando dados para confirmar suas previsões alarmistas sobre o aquecimento global. Além de tomar posições ativas para silenciar qualquer tentativa de debate sobre o assunto pressionando revistas científicas a não dar espaço para os céticos. Os grandes jornais estão ainda evitando o assunto talvez porque tenham aceitado rápido demais e sem espírito crítico a tese do Aquecimento Global. Acho que Olavo de Carvalho está mais que certo em sua regra número 1 para se entender o mundo atual:

O que quer que venha rotulado como consenso da opinião mundial, aprovado unanimemente por vários governos, pelos organismos internacionais, pela grande mídia, pela indústria do show business e pelos intelectuais públicos mais em moda, ou seja, pela quase totalidade dos "formadores de opinião", é suspeito até prova em contrário.


O papel dos cientistas que deturpavam estatísticas que contrariavam sua explicação para a realidade não é novo. O próprio Karl Marx utilizou de manipulação de dados para escrever O Capital. No longo período que levou para concluir o primeiro volume de seu tratado de economia, surgiram evidências que ao invés da classe operária ficar cada vez mais pobre, como previa em sua teoria da mais valia, ela começava a ter ganhos efetivos com a industrialização. O alemão ignorou todos estes dados e passou a selecionar apenas o que estava de acordo com suas idéias. Este fenômeno de comprimir a realidade dentro de uma idéia que se tem dela foi magistralmente descrito por Julien Benda no seu indispensável livro A Traição dos Intelectuais.

Cabe aqui também a advertência no mesmo sentido do injustamente esquecido Gustavo Corção. Para quem não conhece, Corção foi um engenheiro que depois de anos dentro dos laboratórios descobriu que a vida era muito mais ampla que a técnica e tornou-se uma das mais importantes vozes chamadas conservadoras no Brasil. Escreve ele na introdução de O Século do Nada fazendo uma ligação com os pescadores da Galiléia, primeiros apóstolos, e os engenheiros da primeira metade do século passado:

O que havia de comum entre os primeiros apóstolos e o engenheiro de 1937 ou 38 era o bom senso de quem sabe que o homem não pensa só com a cabeça, mas também com as mãos. Nós outros, engenheiros ou pescadores, sabemos assim, por várias vias, que o homem deve ser dócil e obediente à realidade das coisas. O "intelectual", ao contrário, é aquele refinadíssimo indivíduo que acha certa vulgaridade no real, e por isso prefere pensar a conhecer, isto é, prefere jogar com os entes da razão que ele mesmo fabrica ou compõe.


Não sei se o homem está aquecendo o planeta ou não, acredito que ninguém saiba. O que me parece cada vez mais claro é que o suposto consenso sobre o assunto é uma enorme falácia e fará muito bem que o tema seja colocado em discussão e os céticos possam ser ouvidos com seriedade e não tratados como porta vozes dos "interesses dos poderosos" ou coisa do gênero, como se não houvesse muita grana e poderosos por trás dos alarmistas que se pretendem cientistas.

segunda-feira, novembro 23, 2009

As Virtudes Cardeais

FANZAGA, Livio. As Virtudes Cardeais. Prudência, Justiça, Fortaleza, Temperança. Tradução de José Joaquim Sobral. Editora Ave-Maria, São Paulo, 1ª Edição, 2007.

O Padre Livio Fanzaga nasceu em 1940, em Bérgamo, na Itália. Laureou-se em Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma) e depois em Filosofia na Universidade Católica (Milão). É diretor da Rádio Maria e escreveu também As Virtudes Teologais: fé, esperança e caridade.

Foi Aristóteles quem primeiro chamou atenção para a existência de quatro virtudes que seriam os eixos cardeais para as demais. Posteriormente, Tomás de Aquino incorporou-as ao catolicismo e deu-lhes maior amplitude, ligando-as ao campo teológico. Livio Fanzaga mostra que longe de perder a importância, estar virtudes são cada vez mais necessárias em um mundo onde a globalização é uma realidade e se dispõe de meios materiais como nunca antes na história. Infelizmente, estas virtudes se perderam ou encontram-se profundamente deturpadas no entendimento atual.

Fanzaga faz um chamamento para a vida virtuonõsa, reiterando a mensagem dos filósofos clássicos, posteriormente confirmada pelos padres da Igreja, de que apenas uma vida em busca da virtude pode ser a receita para uma vida feliz. O contrário apenas carrega o homem para a infelicidade pois o objeto do vício jamais é suficiente para aplacar os apetites. Não é a rendição aos prazeres que sacia o homem e sim o seu domínio sobre eles. Fanzaga defende também que a virtude orientada apenas para a razão é insuficiente, embora muitas vezes louvável. A ligação com o divino é fundamental para orientar corretamente as virtudes. No caso das cardeais, estas devem estar subordinadas às virtudes teologais (que trata em outro livro): fé, esperança e caridade.

A sociedade na qual vivemos, onde até os cristãos arriscam-se a ser condicionados, não percebe mais a necessidade da formação moral do ser humano, recebida sempre da grande tradição grega da paideia (educação) ... Desde os mais tenros anos da vida é preciso educar o ser humano para o uso da razão, da liberdade e da responsabilidade.

Não é que a maioria dos educadores modernos não percebam a necessidade da formação moral, eles a desprezam. A escola moderna, verdadeiro instrumento de doutrinação do Estado, está preocupada apenas com o ensino da cidadania, o termo bonito que usam para ensinar a devoção ao sistema político existente. Razão, liberdade e responsabilidade ficam longe do que se prega em sala de aula, virtude então nem se fala. Afinal, se tudo é relativo, quem pode dizer que prudência, justiça, fortaleza e temperança tenham algum valor absoluto?

Uma Gota de Sangue

MAGNOLI, Demétrio. Uma Gota de Sangue. História do Pensamento Racial. Editora Contexto, São Paulo, 1ª Edição, 2009.

Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em geografia humana e um dos raros acadêmicos da USP que não é refém da idiotia esquerdista que tomou conta da Universidade, especialmente nas Ciências Sociais. Conhecido também por seus livros de geografia para o segundo grau, excelentes por sinal, especialmente o que faz um panorama do último século e pelos seus artigos sobre política externa, que inclusive rendeu um outro livro, não menos excelente, chamado O Nome do Jogo.

Magnoli é um acadêmico que não se limita ao superficial, ao contrário, busca aprofundar o estudo do problema em busca da verdade, muitas vezes escondidas sobre camadas de imposturas. Nunca li um texto seu que não estivesse ancorado em conhecimentos sólidos o que indica que só escreve sobre o que tem conhecimento, sem procurar evitar as polêmicas sempre que necessárias. Pode-se discordar de conclusões suas, mas elas estão sempre assentadas sobre trabalho sério, não são opiniões jogadas ao vento.

Uma Gota de Sangue se refere às primeiras leis raciais americanas que determinaram que qualquer cruzamento de um branco com um negro geraria um negro pois este teria uma gota de sangue negro. Seria uma espécie de contaminação, bem de acordo com as primeiras teorias raciais da ciência que colocavam a raça negra como inferior. Magnoli mergulha na história do pensamento racial, tanto nas américas quanto na África, sem deixar de tocar no problema típico do oriente e suas castas. A histórias do apartheid na África do Sul, Luther King e Malcon X, entre outros, na América, a questão indígena, o nazismo, os conflitos étnicos africanos, tudo é tratado com cuidado e embasamento por um autor que leva a sério seu trabalho. Ao final do livro, entrega o que promete, a história do pensamento racial e suas vertentes.

É bastante interessante que depois do início do século XX, quando a ciência afirmava a diversidade racial, mais que isso, a superioridade racial, levando alguns países, como os Estados Unidos a adotar a regra da gota de sangue única, estejamos voltando ao ponto inicial com os programas racialistas, mesmo com a ciência mostrando que inexistência da divisão racial. As diversas leis de cotas querem estabelecer o que não existe na natureza, a separação do homem por sua cor. Martin Luther King em seu discurso histórico, chamou os Estados Unidos nos brios com a constituição na mão, clamando pelo resgate da proposta histórica de sua nação, a da igualdade entre os homens:

Eu tenho o sonho de que meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação na qual não serão julgados pela cor da sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter.


Não sobra muito de Luther King nos dias de hoje em que a palavra-chave se chama multiculturalismo. Um país deixou de ser uma nação para se tornar um conjunto de nações, com a raça como critério de divisão, cujas relações devem ser reguladas por lei e a igualdade entre elas buscadas por força coerciva dos estados nacionais. Por igualdade não se entende oportunidades e sim resultados, levando à adoção das inúmeras leis racialistas, também chamadas de cotas.

Magnoli revela o papel da Fundação Ford na promoção do multiculturasimo ao redor do mundo, inclusive no Brasil, onde Fernando Henrique Cardoso tomou uma participação ativa, inclusive em sua presidência. Interessante observar que contrariando o senso comum, coube a um presidente americano republicano, Richard Nixon, o grande avanço do emprego das cotas raciais nos Estados Unidos. Magnoli mostra também que os critérios americanos são impossíveis de serem aplicados no Brasil, um país de intensa miscigenação. Como estabelecer uma linha divisória entre negros e brancos em um país onde os pardos caminham para se tornarem a cor predominante em poucos anos?

Para que o pensamento racial prosperasse no Brasil, foi necessário atacar em duas frentes. Primeiro, matar Gilberto Freyre. O pensamento do sociólogo que mostrou a miscigenação como uma grande contribuição do Brasil para a humanidade tinha que ser desmontado e transformado em uma forma mais dura de racismo, o racismo escamoteado. Para os arautos do racialismo, é preferível a existência de leis raciais explícitas e o confronto das raças do que uma forma de racismo não declarada que segundo eles existe no Brasil. Após a morte de Freyre, era preciso matar também o abolicionismo. A abolição dos escravos no Brasil não mais seria a obra que uniu jovens liberais, ricos e pobres, pequenos e grandes comerciantes, Igreja, políticos e tantos outros em talvez um primeiro projeto nacional, levando o Império a ceder a um desejo realmente popular, para se tornar a obra das elites econômicas para explorar ainda mais os negros através de uma falsa liberdade.

O lançamento deste livro foi cercado de protestos de grupos de pressão racialistas acusando-o de negar a existência de racismo no Brasil. Li algumas declarações de seus líderes, muitos afirmando que não leriam a obra por sua conotação preconceituosa. Não há debate possível com quem se recusa a ler o pensamento que julga se opor, que condena um pensador sem conhecer seus argumentos. Verdadeiras correntes foram montadas na internet para impedir a divulgação do livro, muitas para explicitamente impedir a participação de Magnoli em debates sobre o tema.

Parafraseando Martin Luther King, eu também tenho um sonho, um sonhe de que um filho meu jamais tenha que preencher um campo escrito "raça" em qualquer documento público ou privado. Infelizmente estamos caminhando na contramão deste meu sonho pois tornou-se obrigatório declarar a raça ao matricular um filho na escola. Houve um homem que viveu na Galiléia, que entre outras coisas, ensinou que somos mais espírito do que carne, e que espírito não tem cor. Prefiro continuar acreditando nele, até porque sua proposta de mundo é infinitamente melhor do que o que nos prometem todos os dias os reformadores sociais. Ninguém deve ter orgulho de ser negro. Nem de ser branco. Nem de ser índio. Aliás, o orgulho costuma ser mais um vício do que uma virtude. Se tivermos que ter orgulho de ser alguma coisa é de nossas obras concretas, obras de um indivíduo, independente da cor que carrega.

sexta-feira, novembro 13, 2009

Tia Célia, até breve.

Muitas pessoas enfrentam uma vida com muitas dificuldades, cheia de privações e provações. Minha tia Célia teve uma vida assim, quando menos se esperava, vinha uma pancada, um acontecimento que atingia-a em cheio, muitas vezes em momentos que parecia que nada poderia dar errado. No entanto, se a dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Uma das inúmeras coisas que aprendi com ela foi sua extraordinária capacidade de superar as adversidades e rapidamente se recompor. Com tudo que passou na vida, é auspicioso observar que seu sorriso está muito mais em minha memória que sua tristeza, que ela soube encontrar felicidade sempre que possível e enfrentar com dignidade e resignação as horas mais amargas.

Convivi especialmente com ela nos meus quatro anos como Cadete em Resende. Praticamente passei em sua casa quase todos os fins de semana. Talvez tenha sido o momento mais feliz em sua vida, estava casada com um homem muito bom e criava seus dois filhos, ainda muito pequenos. O Eduardo passava a semana viajando, vendendo queijos. Quando chegava na sexta feira era uma alegria na casa, tanto dos dois pequenos, Paulinha e Rafael, quanto de minha tia que se deixava contagiar com a alegria fácil do marido. Várias vezes fui com eles para um sítio que tinham na Fumaça e o que vi foram momentos de intensa felicidade de uma família que tinha o amor como elo de ligação muito forte.

Ela não tinha muitos amigos, mas os que tinham faziam a diferença. Ela daquelas pessoas que quando abaixava suas defesas, era porque abria sua alma. Lembro especialmente do Nei e da esposa, que passaram muitos destes fins de semana no Sítio. As angústias do dia a dia ficavam para trás e aproveitavam tudo que uma amizade podia oferecer.

Outra virtude sua era a facilidade como ela se sacrificava para as pessoas que amava. Sejam os filhos, o marido, os parentes ou mesmo os amigos. Eles estavam sempre em primeiro lugar na sua vida e esse é um dos ensinamentos que ela me deixou. Tento me esforçar para chegar perto do que ela era capaz, mas é difícil, o que só mostra que possuía grande desprendimento e fortaleza moral. No meio de uma vida muitas vezes difícil, era incapaz de negar uma mão a quem precisava. Todos sabíamos disso, que poderíamos contar com ela, sempre. Além disso, possuía um forte senso moral, sabia distinguir o certo do errado, mostrando que as dificuldades não são motivo para a falta de ética e que basta coragem para fazer o bem.

Tia Célia sempre foi um refúgio. Podíamos correr para ela sempre que tínhamos um problema ou que sentíamos tristeza porque ela nos acolhia e nos dava sua compreensão e dividia conosco um pouco de sua força. O que me lembra outra virtude sua. Ela não julgava as pessoas e nem as condenava. Ela podia saber muito bem julgar os atos, mas sabia separá-los de quem os praticava. Sua humanidade se mostrava na capacidade que tinha de entender o próximo, evitar julgá-lo e esperar sempre o melhor de cada um. Muitos dizem que isso é ingenuidade, pois digo que chama-se caráter. Minha tia foi uma das pessoas de maior caráter que tive a oportunidade de conviver.

Agora que ela nos deixa, seguramente para um repouso merecido, só posso tentar guardar todas as bonitas lições que deixou para todos nós. Quando uma pessoa que amamos nos deixa e conseguimos lembrar com mais facilidade de suas alegrias do que suas tristezas, é talvez uma mostra de como devemos encarar a vida, não como uma sucessão de obstáculos e sofrimentos, mas sim como oportunidades para provarmos nosso valor e crescermos como indivíduos.

No fim, é o que conta.

Que descanse em paz.

segunda-feira, novembro 09, 2009

O caso da UNIBAN

Quando li a notícia do que tinha acontecido na UNIBAN, a minha primeira reação foi de perplexidade. Achei que era uma destas notícias falsas que circulam pela internet pois custava-me a crer que algo assim era possível, mesmo acreditando que o comportamento de um indivíduo em massa pode ser bem distinto de quando isolado. A questão era que o caso todo era absurdo demais; consigo entender que se escondam dentro do espírito de manda, mas não a ponto do que se viu na dita universidade.


O que se viu depois foi ainda mais bárbaro e mostra porque ficou difícil distinguir nas imagens espalhadas pelo youtube se estávamos diante de uma instituição de ensino ou uma rebelião de presídio. Chamou-me atenção primeiro a quantidade de comentários em diversos blogs justificando o que aconteceu e colocando a culpa na vítima e seu vestido curto. Depois, pessoalmente escutei amigos praticamente defendendo a mesma opinião. Sempre começavam com "não justifica o que aconteceu...", tentando dizer que não queriam justificar mas na prática estão sim tentando livrar a cara daqueles vagabundos morais que tentaram agredir a moça, embora muitas vezes sem perfeita consciência desta defesa.


Outra coisa que chamou-me atenção foi a manifestação das mulheres contra Geisy, canalizando na estudante um profundo incômodo com o comportamento abertamente provocativo de outras mulheres. Na verdade, aquelas mulheres ressentem-se da impossibilidade de reação a um estado de coisas que é francamente hostil para quem ainda fala em algo como "bons costumes", uma espécie de palavrão na nova língua contemporânea. O que vale é a permissidade total em nome de um conceito deturpado de tolerância e uma o aprisionamento da mulher em uma categoria dentro de uma visão equivocada de feminismo. A mulher de hoje tem o dever de procurar sucesso profissional, ser independente e se igualar ao homem em tudo, principalmente no que ele tem pior. Já desviei do assunto, volto ao caso de Geisy.


O comportamento da sociedade organizada deixou-me ainda mais perplexo. Nos dias que se seguiram ao acontecido, nenhuma manifestação. Nenhuma ONG, nenhuma organização de direitos humanos, nada. Quando um policial mata um bandido nos morros do Rio a reação é imediata, mas para o azar de Geisy ela não é de nenhuma comunidade, não é de nenhuma minoria e, principalmente, não faz discurso de oprimida. Já imaginaram se fosse negra? O mundo já teria vindo abaixo mostrando tudo que aconteceu como mais uma prova de um país racista. Parece que só agora, começaram a surgir algumas manifestações tímidas em defesa da moça, um tanto quanto envergonhadas. No fundo, acham que ela fez bem por merecer.


Para terminar a barbárie pós-fato, temos o comportamento da própria universidade. Depois de flertar com justificativas mil para a ação de alguns de seus estudantes, a instituição de ensino (?) resolveu partir para a expulsão. Tomou uma atitude firme e mandou para a rua não os potenciais molestadores, mas a própria vítima. Além de estúpida, a decisão é de uma idiotia sem precedentes. Longe de defender a reputação (???) da UNIBAN, só arrastou ainda mais seu nome para lama, se é que isso é possível.


Quanto a Geisy, pouco me importa o caráter da moça, se ela provocou ou não os outros alunos, ou o tamanho de sua mini-saia. Acho que toda instituição deve ter um código de comportamento e ao que mostra a UNIBAN não tem nenhum já que prefere graduar agressores a portadoras de mini-saias. Também não me interessa se vai pousar nua, se vai para um reality show ou dar entrevista no Faustão. Na minha visão de mundo, o indivíduo é um fim em si mesmo, é inviolável. Nada que ela tivesse feito, mesmo que seja culpada de tudo que lhe acusam, justificam nada parecido com o que aconteceu.


Não julgo por categorias, penso sempre em indivíduos. Não há culpa coletiva dos estudantes, cada um seguiu sua própria consciência ao partir para cima da moca. Cada um deve ser individualmente responsável por seus atos. Aderir ou não a uma turba é decisão individual; nenhum ser humano é todo mundo. Uma das muitas coisas que minha mãe me ensinou, e muito bem, é que não sou todo mundo, que tenho nome. Isso acontecia sempre que eu tentava justificar um comportamento errado com a desculpa que todo mundo fazia. Aprendi minha lição, parece que aqueles alunos não.


O caso de Geisy é mais importante do que parece, revela toda a doença moral de boa parte de uma sociedade. Desde os que se comportaram como animais até os que buscam justificativas para o comportamento animalesco. No fundo o que está em jogo é a tese que o homem é produto do meio e por isso a esquerda está em silêncio completo. Condenar o comportamento dos bárbaros é reconhecer que o homem tem um livre arbítrio e um papel ativo no seu comportamento. Pode parecer estranho que muitos conservadores estejam do lado de uma moça que use saia curta em uma universidade mas este estranhamento deixa de existir quando se consegue enxergar através das blumas e ver a essência do problema. A capacidade de uma pessoa de pensar, decidir, agir e arcar com as consequências do seus atos, o fato de que não somos passageiros em um veículo chamado existência, que podemos nos elevar acima do meio que vivemos ou dos conceitos majoritárias. Por isso estou em defesa desta moça, independente de quem seja.

segunda-feira, novembro 02, 2009

Vícios privados, benefícios públicos? - Eduardo Gianetti

A ética na riqueza das nações
Companhia de Bolso, 1993

Despertei para o papel da ética no desenvolvimento econômico a partir de um artigo do papa Bento XVI que li no início do ano. Até então, via o problema econômico pelo foco da luta entre o livre mercado e a planificação econômica e, neste contexto, posicionei-me sempre pela mão invisível Smithiana contra o dirigismo socialista. Através das reflexões do papa eu comecei me questionar se o foco da discussão estava errada, ou seja, se o modelo econômico, por si só, seria capaz de garantir qualquer prosperidade pois é isso, em síntese, que se discute nos dias de hoje. Livre mercado ou economia planificada? Ou o meio termo da social-democracia? Bento XVI colocava que o livre mercado por si só não pode garantir prosperidade pois necessitaria ser assentado na ética de uma sociedade.

Eduardo Gianetti, economista e com formação em filosofia, segue as mesmas reflexões de Bento XVI e coloca em discussão o papel da ética na riqueza das nações. É possível obter-mos a prosperidade econômica defendida pelos liberais ou mesmo a igualdade distributiva dos socialistas, assim como a prosperidade com igualdade dos sociais-democratas, sem levar em consideração princípios éticos? Gianetti responde que não através deste livro interessantíssimo que mostra a história das idéias sobre a ética na sociedade e procurar levantar as questões e paradoxos sobre sua influência.

Para Gianetti, a ética lida com aquilo que pode ser diferente do que é, a diferença do mundo como é do mundo como poderia ser. Cada ação nossa poderia ser diferente? Poderíamos ter optado por outro caminho? Só tem sentido falar de ética quando existe a livre escolha, só se pode decidir pelo bem diante da possibilidade do mal. Se formos obrigados, por forças externas a nossa pessoa, a escolher sempre o bem, o homem estaria esvaziado de todo seu valor.

A primeira questão objetiva que Gianetti coloca é sobre o que chamou de neolítico moral, a tese de que um extraordinário avanço da ciência teria se desconectado do avanço moral gerando um hiato entre o que somos e o que podemos ser, pois o homem não estaria a altura de sua capacidade. Seria o progresso a causa do atraso moral ao transformar o caráter do homem, ao desperta-lhe a cobiça e o egoísmo? Ou seria o atraso moral um obstáculo que emperra o progresso? Gianetti refuta a tese do neolítico moral ao considerar que cada época é considerada única e diferente, sendo o passado e futuro vistos pelas categorias do presente e pelo descontentamento moral que o homem tem consigo mesmo. Não existe uma régua que se possa medir o progresso moral de uma sociedade pois são considerações que fogem ao escopo e capacidades das ciências, tanto exatas quanto sociais.

Gianetti passa a analisar o papel da ética como fator de coesão social e como fator de produção. No primeiro caso, argumenta que uma sociedade formada de homens preocupados apenas com a moralidade individual não conseguiria sobreviver, a moralidade cívica é essencial para a convivência social. Há uma tensão constante entre a moralidade individual e a cívica, entre a liberdade do indivíduo e o bem comum da sociedade. Nesta relação, o equilíbrio é essencial. Uma sociedade com a liberdade individual levada ao extremos, se desentegraria; uma sociedade sem liberdade individual seria desprovida de valor. Para ele, o valor de uma sociedade está nos indivíduos que a compõe e portanto deve haver um limite para a intervenção do aparato estatal (leis e governos) ou da moralidade cívica (opinião pública). A adesão a ao código moral não se pode dar apenas por coerção; além da submissão, esta adesão pode ser dar por identificação (desejo de dar exemplo e ser reconhecido) ou interiorização (reflexão ética).

O ponto central da obra de Gianetti, entretanto, é o papel da ética como fator de produção. Para ele, tanto os seguidores do livre mercado (Smith, Mandeville e a escola de Chicago) quanto do socialismo ocuparam-se de maneira bastante simplificada nas regras do jogo e deixaram de lado a qualidade dos jogadores. Para eles, as regras do jogo seriam suficientes para garantir a prosperidade pois esta se daria apesar da falta de ética (Smith) ou por causa dela (Mandeville). Já para os socialistas, adeptos do determinismo, a questão ética não teria sentido pois não haveria uma verdadeira livre escolha.

Gianetti rompe com esta dicotomia colocando como questão central da riqueza de uma nação a qualidade dos jogadores, sejam indivíduos, empresas ou governos. Jogar limitando-se apenas pelas leis, o que chamou de mínimo legal, é insuficiente; só através da interiorização da ética uma sociedade poderá avançar para a prosperidade. Rejeita, portanto, o egoísmo ético como condição para a riqueza.

Com enorme talento, Gianetti conseguiu escrever uma obra de leitura agradável e possui o grande mérito da honestidade intelectual. Apesar de ter suas opiniões, não deixa de mostrar com igual competência todas as faces do problema, com argumentações a favor e contra suas teses. Para ele, a discussão se o indivíduo deve servir ao estado ou o estado deve servir aos indivíduos está errada; ambos devem servir a um bem maior, ao desenvolvimento saudável da própria sociedade.

quarta-feira, outubro 28, 2009

Longa Ausência

Existem épocas em que sinto uma necessidade enorme de parar e organizar o pensamento. São tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo que sinto uma necessidade de refletir sobre esta coisa extraordinária que é a natureza humana. Normalmente percebo isso quando tenho sempre uma opinião sobre tudo na ponta da língua; nesta hora um aviso vermelho de alerta acende em meu labirinto mental: alguma coisa está errada.

Não pretendo ter respostas sobre tudo que acontece na humanidade, não anseio em ter opiniões sobre a complexidade de nossa história sobre a Terra e não acredito que alguém tenha esta capacidade, por melhor que seja. Desconfio sempre das pessoas que parecem saber de tudo, uma espécie de enciclopédia ambulante. Taxa de juros, democracia, aborto, educação, pena de morte, dieta alimentar, ecologia, consumismo, exercícios físicos, história, política, drogas, família, etc. Se você tem uma opinião formada sobre cada um destes temas, desconfie. Há alguma coisa de errada sobre você.

Pensar com clareza envolve um lento processo de juntar informações, entender o problema, compreender os argumentos existente e por fim chegar a uma conclusão pessoal. Não se faz isso da noite para o dia, nem temos tempo para isso. Quem tem um pensamento sobre tudo na verdade não tem pensamento sobre nada; apenas repete pensamentos que não são seus. É muito mais fácil escolher algumas referências e decorar a pregação que recebe como um ato de fé. Se você tem menos de 40 anos a coisa é ainda pior; não tem nem a experiência ao seu lado.

Pegue um assunto qualquer, por exemplo a descriminalização das drogas. Como formar um pensamento racional, próprio sobre o assunto? Primeiro temos que ter acesso a uma enormidade de informações tais como custos para a sociedade, motivação para o consumo, motivação para o tráfico, eficiência das diversas políticas públicas, exemplos de experiências sobre descriminalização, etc. Só então podemos começar a entender o problema e conseguir formular nossas perguntas tais como: o consumo aumentará? os traficantes deixarão o crime? a violência vai diminuir? o viciado será melhor assistido? o viciado é uma vítima ou uma das causas? qual a responsabilidade individual do consumidor? Temos que escutar com atenção os argumentos já existentes sobre o assunto, entender o estágio em que se encontra o debate. Por fim, utilizamos a razão, nossos conhecimentos nas mais diversas áreas, para conseguir chegar a nossas próprias opiniões. Observa-se que quanto mais se entender das diversas áreas do conhecimento, melhores condições teremos para refletir sobre as respostas que procuramos. Não existe muita mágica, precisamos suar um bocado para construir nossas idéias sobre um assunto.

Quanto tempo seria necessário para passar por um processo destes? Difícil dizer, mas provavelmente levaria mais do que um dia, ou uma semana, ou mesmo um mês. Isso com dedicação integral, mas temos que ganhar nossa vida, interagir com as pessoas a nossa volta, descansar, etc. Quanto tempo sobra em um dia para se dedicar a uma questão objetiva? E se tivermos pensando em várias coisas ao mesmo tempo?

Talvez devêssemos ser um pouco mais humildes antes de sairmos pregando tudo que escutamos como se fossem verdades evidentes ou fatos. Quantos conseguem dizer na hora de uma discussão, com sinceridade, que está apenas dando uma opinião, sem qualquer base que a apóie? Que muitas vezes está confundindo o que deveria ser com o que realmente é. Que pode estar completamente errado em suas suposições?

Por isso tudo, é preciso ter calma antes de chegar a conclusões. Uma boa dose de ceticismo é importante para quem quer raciocinar com clareza e formar um pensamento próprio. Escolher alguns modelos e segui-los é um caminho fácil, difícil é se perguntar: e se ele estiver errado? E se este pensamento em que acredito for uma fraude? Temos a humildade suficiente para reconhecer um erro ou pelo menos compreender que podemos estar sendo enganados?

Quando começo a ter opinião sobre tudo, a dar respostas para qualquer questionamento é sinal de que estou com um problema pois ninguém pode ter a resposta para tudo. Hora de parar, tomar uma boa dose de humildade e começar a questionar. Quem tem respostas antes de se fazer as perguntas é um mero repetidor, provavelmente de um grande número de bobagens.

Quem escreve textos públicos, principalmente em blogs e redes sociais, deve rever o que andou escrevendo. Quantos questionamentos existem nos textos? Quantos pontos de interrogação? Se não vir nenhum sinal deles é porque existe uma grande chance de ter se deixado dominar pela própria vaidade e considerar-se em alguma missão de iluminar a humanidade. Não seria este um caminho para a ignorância? Para o preconceito? Para o obscurantismo?

Afinal, o que desejemos em matéria de sabedoria? Estar certos ou entender a realidade? Queremos ilusão ou verdade? O que desejamos para nós?

São perguntas que deve estar no princípio de cada pensamento que desejamos formular. Pelo menos na opinião deste ignorante que volta e meia julga saber mais do que de fato sabe...

quarta-feira, outubro 21, 2009

Obama joga duro em política externa!

Folha:

Com as negociações novamente estancadas em Honduras, os EUA voltaram a cancelar vistos de pessoas ligadas ao governo interino, de Roberto Micheletti, em apoio ao presidente deposto Manuel Zelaya.
A medida, adotada anteontem, foi anunciada pelo próprio Zelaya. "São membros muito próximos deste golpe de Estado, há vários grupos importantes de pessoas", disse, em entrevista anteontem à noite na embaixada brasileira em Tegucigalpa, quando divulgou um comunicado informando que o diálogo estava "bloqueado".
"Isso demonstra o mal-estar de Washington diante da intransigência no diálogo. Há outras atividades que, dentro do multilateralismo da OEA, os EUA também vão atuar", disse Zelaya, que mantém contato telefônico constante com o embaixador americano em Tegucigalpa, Hugo Llorens. Ele se recusou a especificar quais seriam as "outras atividades".
A legislação americana veta a divulgação do nome e do número de pessoas atingidas por medidas do tipo, mas, segundo a Folha apurou, desta vez entraram empresários pró-Micheletti e até estudantes filhos de membros do governo nos EUA.

Comento:

O mesmo governo que deseja conversa com tudo que tipo de democrata na face da terra(Irã, Sudão, Coréia do Norte, Cuba, etc) nega se entender com um terrorista que ameaça o mundo com seu arsenal de bananas, no caso o presidente de Honduras Roberto Micheletti. Seu crime? Cumprir a constituição do seu país e colocar para fora um vagabundo que desejava instalar o pacote boliviano à força. Aliás, nem foi Micheletti que o colocou para fora, foi a suprema corte de Honduras! Nunca se viu um golpe de estado assim! A suprema corte decidiu, o Congresso referendou, as forças armadas executaram a ordem (e depois voltaram para o quartel) e a linha de sucessão foi cumprida (o vice renunciou para não ficar inelegível). O novo ditador assumiu um governo com menos de um ano de mandato, não vai concorrer ao cargo em novembro nem nunca mais(a lei não permite) e pediu supervisão internacional para as eleições. Ah, e as pessoas podem entrar e sair do país sem problemas, exceto os chavistas por motivos óbvios.

Para Obama, democracia mesmo é a cubana.

Parabéns aos velhinhos de Oslo pelo merecido nobel da paz para um pacifista destes.

Simple Man - Lynyrd Skynyrd

Para quem acha que letra de rock é só bobagem, aqui vai um clássico do Lynyrd Skynyrd.

Simple Man

Mama told me when I was young
Come sit beside me, my only son
And listen closely to what I say.
And if you do this
It will help you some sunny day.
Take your time... Don't live too fast,
Troubles will come and they will pass.
Go find a woman and you'll find love,
And don't forget son,
There is someone up above.

(Chorus)
And be a simple kind of man.
Be something you love and understand.
Be a simple kind of man.
Won't you do this for me son,
If you can?

Forget your lust for the rich man's gold
All that you need is in your soul,
And you can do this if you try.
All that I want for you my son,
Is to be satisfied.

(Chorus)

Boy, don't you worry... you'll find yourself.
Follow you heart and nothing else.
And you can do this if you try.
All I want for you my son,
Is to be satisfied.

(Chorus)

segunda-feira, outubro 19, 2009

Três Sermões do Padre Antônio Vieira

Sermão Vigésimo Sétimo, com o Santíssimo Sacramento Exposto

Padre Vieira posiciona-se de maneira firme e mostra como o cristianismo é incompatível com a escravidão. As palavras abaixo são belíssimas e mostram sua inspiração e talento:

Estes homens não são filhos do mesmo Adão e da mesma Eva? Estas almas não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo? Estes corpos não nascem e morrem, como os nossos? Não respiram com o mesmo ar? Não os cobre o mesmo céu? Não os aguenta o mesmo sol? Que estrela é logo aquela que os domina, tão triste, tão inimiga e tão cruel?


Para falar da escravidão, Vieira trata do cativeiro da babilônia e apresentava uma mensagem de esperança aos negros escravos, nada acontece sem uma razão. O cativeiro dos filhos de Israel fez parte da conquista da liberdade que viria depois. Em uma mensagem bastante atual, lembra: David gerou a Salomão. David significa o guerreiro; Salomão o pacífico. "Nascer Salomão de David quer dizer que da guerra havia de nascer a paz; e assim foi". Vieira já entendia que muitas vezes a paz só pode ser assegurada pela guerra, um paradoxo mais vivo do que nunca nos tempos atuais.

Apesar da condenação que Vieira fazia à escravidão dos negros, sua crítica era mais profunda, referia-se ao conceito mais amplo. Para ele, haviam dois tipos de escravidão, a do corpo e da alma. O que usualmente considera-se como escravo é apenas um destes tipos, a do corpo. A segunda forma de escravidão era ainda mais profunda, a da alma. O mais interessante é que esta só ocorre por permissão do cativo, a escravidão da alma é opcional. "De que modo se cativam as almas? Quem são os que as vendem, e a quem as vendem, e por que preço? ... os que as vendem, é cada um a sua; a quem as vendem é ao demônio; o preço por que as vendem é o pecado".

Lembrei do martírio dos judeus na segunda guerra. Seus corpos foram escravizados pelos nazistas, mas suas almas permaneceram intactas ao caminharem com dignidade para os fornos crematórios. O mesmo vale para os camponeses russos dizimados pela engenharia social soviética, os escravos negros que vieram da África. O que mais me incomoda nos dias de hoje é que em nome de um progresso utópico se deseja a escravidão da alma, coisa que Orwell captou bem em 1984.

Padre Vieira conseguiu fazer um posicionamento claro contra qualquer tipo de escravidão e evidenciar que não havia lugar para a submissão de um homem ao outro dentro da doutrina de Cristo.

Sermão da Visitação de Nossa Senhora

Neste sermão, Vieira denuncia a enfermidade de todo um país, O Brasil. Para ele, o país carecia da privação da justiça. "É pois a doença do Brasil (...) falta da devida justiça, assim da justiça punitiva, que castiga maus, como a justiça distributiva, que premia os bons".

Vieira mostra que a justiça tem duas faces, uma punitiva e outra distributiva. Observando o debate(?) que existe no Brasil de hoje, há um clara confusão do conceito de justiça, contaminado por anos de contaminação cultural marxista. A justiça punitiva é rechaçada e busca-se um ideal utópico de inexistência do mal, de ausência do crime, de não responsabilização dos agentes. Por outro lado, muito se defende a mediocridade, a falta de valorização do bem, o nivelamento por baixo. Já escutei em um estabelecimento de ensino que não se deve premiar os bons alunos para não causar constrangimento aos medianos ou fracos, que um professor não pode ganhar uma bonificação por seu desempenho por ser uma injustiça com os menos competentes. Será que o diagnóstico de Vieira aponta ainda hoje para a raiz de nossos males? Será a falta de justiça o que temos de pior? Nas palavras do religioso:

.
.. e esta é a causa original das doenças do Brasil - tomar o alheio, cobiças, interesses, ganhos e conveniências particulares, por onde a justiça se não guarda e o Estado se perde.


Sermão do Espírito Santo

Este é um dos sermões de Vieira que possui uma mensagem evidente mas que pode revelar muito mais. Escrito como uma reflexão sobre a catequese dos Índios, serve para a relação do homem com a revelação da verdade divina ou mesmo para a educação em seu sentido mais completo.

Lembra que para ensinar não basta palavras e conhecimento, é preciso amor, "o mestre na cadeira diz para todos, mas não ensina a todos". Isto não vale apenas para quem ensina, mas para quem aprende também. Não basta apenas ouvir, é preciso que se deixe a luz penetrar no espírito. "Para converter almas, não bastam só palavras, são necessárias palavras e luz:.

Falando especificamente sobre o Brasil, Vieira lembra da lenda que São Tomé teria vindo ao país em sua viagem ao oriente. Deus teria dado esta incumbência para o mais incrédulo dos apóstolos porque aqui a carga seria mais pesada; no Brasil pregaria aos mais bárbaros. Quando os portugueses chegaram no século XVI teriam encontrado rastros do pregador, mas não rastros da pregação. E qual seria o grande problema dos índios brasileiros? A facilidade que tinham para crer. Esta facilidade traduzia-se também na grande rapidez para perder a crença adquirida. O índio brasileiro não opunha resistência ao evangelho, mas sua crença na verdade era uma incredulidade, uma falsa fé. Não seria o brasileiro de hoje um depositário da característica dos índios de ontem?

sábado, outubro 10, 2009

Miss Universo para o Nobel da Paz!

Dois amigos se encontram e no meio da conversa falam do nobel(com minúscula mesmo) dado ao Obama.

__ Sabe, eu acho que foi feito uma injustiça muito grande. Tem outra pessoa que também pede paz no mundo e não foi considerada.

__ Quem?

__ A Miss Universo!

__ ?!?

__ Não faça cara de assustado. Lembra daquele filme "Miss Simpatia"? Retrata bem isso, todas as candidatas a Miss clamam por paz no mundo quando é perguntado seu principal desejo.

__ Mas é da boca para fora! Não percebe que na prática elas não fazem nada neste sentido!

__ Ué, e tem que ter conecção com a prática? O próprio Obama disse ontem que seu nobel foi mais um convite a ação do que um reconhecimento, afinal, quando foi votado o prêmio não tinha nem 15 dias no cargo!

__ Você é um paspalhão. Não percebe que tudo na Miss Universo é falso! O sorriso protocolar, a beleza, é tudo falso!

__ ?!?

__ Por que a cara de espanto? Disse alguma besteira?

__ Não sabia que para receber um nobel tinha que ser autêntico...

quinta-feira, outubro 08, 2009

We're not Gonna Take It!

Na Opera Rock de Pete Towshend, interpretada magistralmente pelo Who, talvez meu disco preferido, Tommy é o líder espiritual de um culto que exige de seus seguidores que passem pela mesma experiência espiritual de seu mestre tornando-se cegos, surdos e mudos. Só assim poderiam ver a luz.

O fim justificaria toda a privação de liberdade com a nova condição, um futuro radioso é prometido a eles. No fim, eles se revoltam e bradando "We're not gonna take it" e literalmente quebram a banca.

É assim que vejo aqueles que defendem o Estado como grande transformador político. Em muitos casos, já passaram para o estágio de verdadeira adoração. Lembrei também de uma frase que li há pouco tempo em um artigo da Dicta e Contradicta: todo ser humano tem um mestre. O problema é o mestre que escolheu para si.

O mesmo problema já tinha abordado por Giovanni Reale em "O Saber dos Antigos". Quando Nietzsche evidenciou que o homem moderno tinha matado Deus, a pergunta que ficou foi: quem assume seu lugar? Reale aponta que a tragédia do homem passou a ser a substituição de Deus em sua vida. Uns escolheram o hedonismo, outros a ciência, outros a violência, a ideologia, o materialismo e assim vai. Está na morte de Deus, no niilismo, a raiz dos males atuais.

Vejo outros deuses atuando no coração dos homens e o Estado é um deles. Em um mesmo conceito foi concentrado nação, país, governo, virtude e futuro. Tudo que é importante para o homem deve ser gerido pelo Estado pois apenas este tem a superioridade moral necessária para lidar com nossos problemas. Nesta hora, enxergam-no como uma pessoa infalível esquecendo que na verdade não existe Estado, mas pessoas. Na verdade, nós somos o Estado. O que estamos transferindo é o nosso destino para um crescente grupo de burocratas profissionais e políticos, que agem sob o quarda-chuva de uma entidade divinificada.

Reparem como Tommy no início do vídeo abaixo, do filme de Ken Russel, corrige seus seguidores tomando de suas mãos bebidas, cigarros e mais interessante ainda, adverte uma pessoa que um "velho senhor normal" mostrando o ideal transformador de sua mensagem. Todos estes fogem do padrão que deseja estabelecer:

Hey you, gettin' drunk,
So sorry, I've got you sussed.
Hey, you, smokin' mother nature,
You missed the bus.
Hey, hung up old Mister Normal,
Don't try to gain my trust.
'Cos you ain't gonna follow me
Any of those ways,
Although you think you must!
Now you can't hear me,
Your ears are truly sealed!
You can't speak either,
'Cos your mouth is filled.
You can't see nothing,
And pinball completes the scene.
Here come willing helpers
To guide you to
Your very own machine!

Onde entra a máquina de Pinball? Não seria uma versão do famoso pão e circo? Ou de forma mais sutil, a máquina de Pinball é tudo aquilo que afasta do homem da compreensão do que está acontecendo, da privação que está se submetendo em favor de um ideal, por mais sem sentido que seja. Pete Towshend não estava condenando o Estado em sua obra, fazia uma crítica das falsas religiões. O fato do Estado encaixar perfeitamente em sua criação é mais uma evidência que o Estado, da forma que é visto hoje por grande parte das pessoas, tornou-se a maior delas. Não nos deixemos enganar, como diz a música, sempre terá ajudantes solícitos prontos para levar-nos para nossa "very own machine".

Parafraseando Marthin Luther King, eu tenho um sonho. Sonho com o dia em que as pessoas removerão as vendas de seus olhos, os tampões dos ouvidos, a rolha de suas bocas e bradarão como os seguidores de Tommy: we're not gonna take it! We're not gonna take it!

Quanto mais este dia demorar, maior será as dificuldades para eliminar o próprio monstro que a sociedade elevou a uma condição que nunca deveria ter alcançado.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Discurso de Metafísica - Leibniz

A noção mais aceita e mais significativa que possuímos de Deus exprime-se muito bem nestes termos: Deus é um ser absolutamente perfeito.

Assim começa Leibniz em Discurso de Metafísica. A compreensão do filósofo sobre a existência passa por esta idéia principal, a perfeição de Deus, o que implica que seus atos revestem-se da maior perfeição possível.

Leibniz caracterizou seu pensamento filosófico pela idéia da conciliação. Em uma época em que os debates tendiam ao radicalismo e as escolas preocupavam-se em provar o erro das que se opunham, o alemão dizia que havia um pouco de verdade em cada um delas, que o papel do filósofo era identificar e reunir estas verdades.

Ele deixa claro que não é possível alcançar a idéia de Deus inteiramente pela razão pois o homem estava limitado por suas imperfeições. Não se devia, entretanto, duvidar que o principal fim de Deus é a felicidade dos espíritos. Nada é feito fora da ordem, o que leva ao seu entendimento dos milagres:

Assim, aquilo que é tido como extraordinário, o é apenas relativamente a alguma ordem particular estabelecida entre as criaturas, pois quanto à ordem universal tudo está em conformidade com ela.

Uma das principais idéias de Leibniz em Discurso de Metafísica é sem dúvida a da substância individual. Tratando do sujeito e de seus predicados, partido dos conceitos de Aristóteles que uma substância individual seria formada por um sujeito que possui predicados que nenhum outro possui, ele argumento que esta idéia é insuficiente pois "a natureza de uma substância individual ou de um ser completo consiste em ter a noção tão perfeita que seja suficiente para compreender ou fazer deduzir de si todos os predicados do sujeito a que se atribui esta noção".

Para Leibniz, o predicado consistia também em todas as ações possíveis que poderia acontecer com o sujeito, todos os futuros contigentes. Assim, a substância individual, como a alma, já possui em si tudo que a caracteriza e que possa acontecer. O universo e Deus já se encontram na substância.

toda substância é como um mundo completo e como um espelho de Deus, ou melhor, de todo o universo, expresso por cada uma à sua maneira...

Esta questão para Leibniz analisar o confronto entre o determinismo e o livre arbítrio. Se Deus é perfeito e onipotente, se sabe o que acontecerá no futuro do homem, onde estaria sua liberdade de escolha? Com sua idéia de substância individual completa, Deus estaria na formulação de todas as possibilidades da existência, e o indivíduo teria a escolha entre estas possibilidades.

Leibniz apresenta uma crítica à física de Newton por esta considerar apenas a relação entre causa e efeito. Para ele, os fenômenos dependeriam também da propriedade de todos os corpos de ser influenciados por outros corpos. As causas eficientes seriam tão importantes para explicar os fenômenos quanto as causas finais. Ele trocava a idéia de conservação da quantidade de movimento pela conservação das forças, da interação das substâncias.

Por fim, Leibniz reafirma a teoria da reminiscência de Platão, em que todo conhecimento não passa de recordação de algo que o homem já sabe. No entanto, refuta a idéia de reencarnação do colega grego pois o as idéias já se encontravam na própria substância e não em uma contemplação em um mundo anterior ao nascimento.

Discurso de Metafísica é um livro curto mas com muitos pontos interessantes para reflexão. Leibniz centra seu entendimento da existência e da condição humana na perfeição divina e na idéia que fez um mundo o mais perfeito possível, com uma ordem, com uma razão que lhe é própria.

Olimpíadas no Brasil

Eu não cheguei a torcer contra a escolha do Rio de Janeiro, mas fiquei longe de torcer por ela ou fazer festa depois. Sempre acompanhei Olimpíadas e acho que sediar o evento pode ser bom para um país ou pode ser ruim também; depende muito de como for feito. O paradigma do sucesso é Barcelona, uma cidade que se transformou por causa do evento; terá o Rio o mesmo destino?

Que a cidade será beneficiada, não tenho a menor dúvida. Queiram ou não queiram as autoridades, o caderno de encargo terá de ser cumprido. Minha maior dúvida é se este aproveitamento será o máximo possível, se faremos a coisa corretamente ou se nos contentaremos com "maquiagem". O Rio tem problemas crônicos, em especial a violência. A Olimpíada pode ser a senha para obrigar as autoridades federais __ sim, pois o problema foge, em muito, à capacidade estadual __ a colocar pela primeira vez como prioridade o combate ao crime organizado.

Os desafios são enormes. De cara vejo dois: violência e meio ambiente. Parece que não, mas o tempo é muito curto. As obras do Rio de Janeiro precisarão de licença ambiental. Se esta licença demorar o tanto que leva normalmente, haverão sérios problemas. A infra-estrutura para as Olimpíadas é bem diferente do Pan. Não se trata mais de uma dúzia de praças esportivas e uma vila olímpica. Haverá necessidade de obras em transporte público, despoluição da baía, centro de imprensa, hotéis, etc. A cidade terá que abrigar aquela multidão de turistas que são atraídos pelos jogos.

Quanto ao problema da violência, como vai ser? Será feito o combate ao banditismo ou acordo com traficantes para não perturbar durante os jogos? O PAC está sento tocado nas favelas __ faço questão do termo __ através de acordo com traficantes, o que já levou um jovem tenente ao banco dos réus em uma obra que o Exército deveria ter passado longe. Seguiremos o mesmo roteiro para os jogos? E os órgãos de direitos humanos dos bandidos? Como ficarão nesta confusão? Vão aceitar que a polícia faça o que deve ser feito?

Por fim, uma questão não menos importante. O Rio será beneficiado com os jogos, mas e o resto do país? Será prejudicado? Dinheiro não se planta em árvore e o fato de ter sido escolhido para sediar os jogos não criou, por si só, recursos. Estão falando em algo como 30 bilhões de dólares. De onde sairá este dinheiro? Como ficará o desenvolvimento do restante do país? Será tudo canalizado para a cidade maravilhosa? Se assim for, como ficarão as receitas? Todas para o Rio ou serão repartidas por que pagou o evento? Incluindo o pagador de impostos. Aliás, falando dele, haverá novos impostos para pagar a conta? Pegaremos empréstimos? Passaremos as conta para as futuras gerações?

Lendo o que vai acima, parece que sou contra o evento. Não chego a tanto. Apenas acho que todas estas perguntas são pertinentes e devem ser respondidas. Não cheguei nem a tocar no assunto corrupção e desvio de recursos, isto é outra estória. Vejo as Olimpíadas como uma oportunidade, uma chance para o Brasil (e não para governos). Se vamos aproveitá-la é a grande questão.

segunda-feira, outubro 05, 2009

Enfrentando a realidade


O gráfico acima é bem interessante. Mostra a taxa de desemprego nos Estados Unidos e compara com as previsões do governo Obama utilizadas para aprovar o pacote de "estímulo" no início do seu governo. Estímulo é o nome que foi dado à autorização do Congresso para gastar sem receitas, aumentando o déficit público, ou tirando mais da sociedade, aumentando impostos, para ser utilizado pelo governo em uma série de projetos que resultariam em um estímulo à economia. Muitos destes projetos são controversos pois buscaram apenas atender os interesses das bases de apoio de Obama e dos democratas. Cada vez mais acredito que David Goldman está certo e não há nenhuma medida econômica que a resolva.

Normalmente quando um plano governamental não dá certo, principalmente na economia, a solução é aumentar a dose do remédio. Aguardemos o próximo pedido de dinheiro para aumentar ainda mais o "estímulo".

O mundo real é bem diferente dos sonhos da obamamania. Como atesta o segundo reator nuclear dos iranianos, mais um para produzir energia nuclear para fins "pacíficos" por um país montado sobre petróleo.

domingo, outubro 04, 2009

O Vermelho e o Negro - Stendhal

Stendhal nasceu em Grenoble, França, em 1783. Viveu com intensidade os anos posteriores à revolução francesa, o que se refletiu em sua visão anti-monárquica e anti-clerical, tornando-se abertamente republicano.

Publicou O Vermelho e o Negro em 1830, quando a França passava pelo período da restauração, o retorno da monarquia depois do período napoleônico. Este é um dos eixos de sua obra: uma visão crítica da alta sociedade francesa da época. Através de seus personagens, descreve uma corte sem ideais, onde o principal sentimento é o tédio, vivendo com o medo de uma nova revolução.

Este possível revolucionário, que surgiria para guilhotinar o que sobrou da monarquia, é personificado no herói do romance, Julien Sorel. Um pobre filho de carpinteiro que por seus conhecimentos de latim, aprendidos com o cura local, emerge como o professor dos filhos do prefeito de uma pequena província francesa. Interessante que o conhecimento de Julien não é autêntico, seu talento está em decorar trechos inteiros em latim e repeti-los, muitas vezes sem atentar para o que está declarando.

Surge então o segundo eixo do romance, as relações de um jovem ambicioso que passa a freqüentar uma sociedade que sempre desprezou. Seu sonho é retomar o papel de Napoleão, algo que na época jamais poderia ser admitido publicamente.

Na casa do prefeito, Julien torna-se amante de sua esposa e através deste amor Stendhal realiza sua crítica à moral religiosa. A sra de Renal procura na Igreja as forças para resistir ao amor profano pelo jovem professor, mas acaba fracassando sempre diante do amante. Seus conselheiros são os padres e um destes acaba por selar o destino de Julien no final da obra.

Depois de deixar a casa dos Renal e passar um breve período em um monastério, acaba por tornar-se secretário particular de um rico marquês, onde vive seu segundo grande romance, agora com a filha deste, a orgulhosa Mathilde. Agora, é a moral aristocrática que se impõe entre Julien e a concretização de um novo amor. Sua amante luta contra o orgulho ao ver-se apaixonada por alguém fora de seu nível social.

Ao longo do romance, Julien divide-se no fascínio e o ódio pelas classes dominantes da França. Chama atenção o fato do jovem ter sempre se recusado a manter qualquer relação com os mais pobres, inclusive sua família. Ainda em casa da Sra de Renal, recusou uma ligação com um linda camareira que lhe daria uma segurança financeira para toda vida. No fundo, Julien lutava contra um orgulho exacerbado que possuía em seu íntimo, um orgulho que direcionava sua ambição e o fazia sempre desprezar todas as suas conquistas, tanto no plano social quanto no amor. Julien queria sempre mais.

É este sentimento, mesclado com sua amoralidade, que o levará à brutal queda da parte final do romance. Diante de um tribunal formado por padres e nobres, Julien encontra os que considera razão de sua desgraça e de sua infelicidade. Passa a fazer o papel que aqueles esperam dele, o da ameaça popular, o da revolta do mais pobre diante da abastança e da falta de ideais das elites francesas.

Stendhal escreveu um clássico que mistura os sentimentos sempre em conflito dos amantes, o medo de uma sociedade recém restaurada de uma nova revolta popular, a tensa relação entre um emergente e a alta sociedade, a corrupção moral do clero e os perigos de uma ambição guiada por um orgulho sem limites.