sábado, janeiro 03, 2009

Apascentando o Rebanho de Deus

Não cheguei nesta obra por força do acaso. Quem a recomendou foi o falecido poeta Bruno Tolentino em sua última aula, apresentada no primeiro número da magnífica revista "Dicta & Contradicta". A íntegra da aula, em gravação, pode ser escutada no site da revista.

Tolentino apresenta duas obras como fundamentais para compreender o século XX. A primeira, é a encíclica de Pio X, Apascentando o Rebanho de Deus; a segunda, A Traição dos Intelectuais, de Julien Benda. Este eu já encomendei. Como o primeiro está disponível na internet, comecei por ele.

Foi uma destas obras que fui obrigado a fazer um resumo bem mais cuidadoso, e mais longo. Na verdade, li as 32 páginas da encíclica três vezes. Houveram passagens que foi preciso ler outras várias. A riqueza e profundidade de Pio X é impressionante. O papa inaugurou, com este texto de 1905, a análise do modernismo, coisa que ninguém ousara antes.

Até então, o modernismo se definia pelo que não era. Pelo que não pretendia. A palavra de ordem era, e é, mudança. Para onde? Ninguém parecia saber muito bem, divergiam muito neste particular. Mas era preciso mudar e o grande vilão era a tradição, a história, a cultura. Se Pio X estivesse vivo hoje derramaria talvez sua última lágrima ao ver a maior nação da terra eleger um líder com esta única palavra: mudança.

Na verdade, o papa não precisaria esperar até hoje. Em 1914 ele viu horrorizado que estava certo. A Europa inteira iniciava uma guerra sem sentido. Seus piores receios se concretizaram, talvez nunca um homem tenha lamentado tanto estar certo. Pio X morreu pouco depois. Angustiado.

Em sua encíclica, Pio X não analisava nenhuma doutrina modernista em particular, fazia o mais difícil. Analisava o que tinha em comum, o que tinha de corpo principal em todas elas. Identificava o caminho para a negação da fé, para o relativismo religioso que acabaria não só com a Igreja Católica, mas com todas as religiões. O ateísmo dominaria o mundo, fundado em uma falsa ciência, senhora absoluta dos destinos da Terra, e os valores se perderiam para sempre.

Pio X não viveu para ver uma segunda guerra mundial, os gulags, os fornos crematórios nazistas, a crueldade comunista, as bombas nucleares, o terrorismo. Estamos hoje em um buraco, no fracasso da humanidade, e o cerne de tudo está nestas 32 páginas. Não é uma leitura fácil, exige reflexão, exige atenção. Mas é um destes textos que mudam sua visão de mundo.

O papa temia mais que tudo a infiltração das teorias modernistas na Igreja Católica. Foi outra coisa que não chegou a ver.

O quadro que Pio X visualizou era a perda total da autoridade da Igreja e a transformação do cristianismo em um religião moldável à evolução moral da humanidade. Os dogmas, o culto, os sacramentos, a Bíblia, até mesmo as palavras de Cristo seriam atualizadas, modificadas para seguir os novos tempos. Ao final, a religião seria disforme, algo a ser superado por um laicismo moderno e redentor.

Na origem de tudo, duas causas: o fascínio pelo novo e o orgulho. No fim, o ateísmo. A morte de Deus. A novo mundo.

Pio X viu o futuro. E tentou não acreditar. Infelizmente, acertou.

Resumo de Apascentando o Rebanho de Deus


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5 comentários:

alexandra disse...

Mas o cristianismo nunca foi estatico; sempre se moldou as culturas dos povos por onde se disseminou e se adaptou e desenvolveu atraves dos seculos. Se a igreja perdeu sua forca e influencia foi justamente por ter deixado de ser uma instituicao dinamica (entre outros muitos motivos, eh claro)

Marcos Guerson Jr disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcos Guerson Jr disse...

Será realmente que nunca foi estático? Será que Pio X estava tão enganado assim com a Igreja que chefiava?

O que Pio X deixou bem claro é que o cristianismo não é mais uma religião, mais uma forma dar vazão a um sentimento natural de religiosidade. O cristianismo é a verdade revelada por Deus para toda a humanidade. É uma mensagem para o homem de todas as épocas e de todas as civilizações. Esta mensagem não muda ao sabor dos ventos. Ela é permanente, ela é eterna.

Hoje de manhã, enquanto tomava meu café, eu via um padre rezando uma missa como se fosse um animador de auditório, um showman. Alguma coisa se perdeu ao longo do último século. De guardiões da cultura, de intelectuais, os padres se transformaram nessa cena grotesca. A mensagem perdeu a importância diante da pirotecnia para transmiti-la.

Em 2006 foi publicada uma pesquisa no patriarcado de Veneza sob o título de Fé e Liberdade. Alguns dados:
- 90% se declaram católicos, mas apenas 18% aderem às práticas obrigatórias. Afirmam que são católicos "ao jeito deles".
- 66,5% acredita que a missão da Igreja é de ajudar os pobres e não de apontar o caminho moral.
- 90% acreditam que os padres não devem apontar claramente o caminho do bem e do mal.

Era contra isto que Pio X lutava. Você disse que a Igreja deixou de ser uma instituição dinâmica. Será que não foi o contrário? Será que não foi justamente por tentar se "modernizar" que a Igreja está se perdendo?

Se a mensagem da Igreja é a verdade revelada por Deus, por que esta verdade teria de se modernizar? Se assim fosse poderia ainda se chamar de verdade?

Pio X apontou que o dia que a Igreja começasse a abrir mão de suas certezas estaria caminhando para sua superação. Quando vejo um padre levar para um altar uma urna para que os fiéis votem se desejam a re-estatização da Vale do Rio Doce não deixo de pensar que se não estaria coberto de razão.

Alexandra disse...

"Hoje de manhã, enquanto tomava meu café, eu via um padre rezando uma missa como se fosse um animador de auditório, um showman. Alguma coisa se perdeu ao longo do último século. De guardiões da cultura, de intelectuais, os padres se transformaram nessa cena grotesca. A mensagem perdeu a importância diante da pirotecnia para transmiti-la."

Uma coisa é a religião, ou a mensagem de Jesus, como vc bem resumiu. Outra coisa muito diferente é a igreja construída através dos séculos pelos seguidores de Cristo. É isso que eu chamei de dinâmico. Os dogmas da igreja evoluiram com o tempo e nenhum foi aceito com unanimidade ou sem contestação pela propria igreja e pela sociedade.

Sobre os padres e o sacerdócio, é difícil de generalizar. Alguns são verdadeiros showmen mas será que o importante é a mensagem ou a forma como a mensagem é passada? Na Idade média existiam muitos padres semi-analfabetos que simplesmente liam a missa em latim pra uma plateia que não entendia nada... Aliás, nem o padre entendia o que estava pregando. Durante os séculos, os padres "guardiões da cultura, [e] intelectuais" foram bem poucos.

A historia da igreja e da religião é um dos temas que me interessam e eu estudo isso há bastante tempo. Posso dizer categoricamente que a igreja nunca foi estática, independentemente do que qualquer papa queira propagar. A retórica dos governantes nem sempre corresponde a realidade.

Eu acredito na mensagem de Jesus, vivo minha vida de acordo com seus princípios, mas não creio na igreja fundada em seu nome. Será que isso é tão ruim? Se a pessoa segue os passos de Jesus se abstendo de julgar as pessoas a sua volta, tratando todos com respeito e dignidade, não fazendo aos outros o que não quer que seja feito contra si, tendo compaixão, será que é importante que essa pessoa faça parte de alguma religião?

Marcos Guerson Jr disse...

Engraçado, não sou católico, mas estou sempre defendendo a Igreja Católica! Já entrei em diversas discussões a respeito, não sei como acabo sempre neste ponto.

Talvez porque minha divergência com o catolicismo seja bem pontual, mais precisamente na questão da reencarnação e tudo que vem deste princípio, como por exemplo o juízo final. Quando vejo um papa falar, escuto com respeito, como esta mensagem fosse dirigida para mim pois reconheço e respeito o papel da Igreja Católica na história do Ocidente.

Estou lendo o livro do Carr, aquele que me enviou, onde ele levanta as limitações para se conhecer realmente a história. Em dado momento ele afirma que o historiador deve estar sempre acompanhado da ignorância. Você usou o termo "categoricamente". Não estaria entrando na armadilhas daqueles historiadores do século XIX que tanto criticou outro dia?

Tenho muitas dúvidas. Não é de hoje que a Igreja Católica é acusada de não abrir mão de seus dogmas, de não modernizá-los. Também sempre achei esquisito os ritos em latim, mas acho que a Igreja errou aboli-los.

Primeiro porque tirava do pastor a atenção. Li um texto uma vez, de uma pessoa que viveu este tempo, que falou que na verdade todo mundo sabia o que o padre estava dizendo, mesmo que não compreendessem as palavras. Sabiam que era a descrição da paixão de Cristo. O que faziam? Não entendiam as palavras, o padre estava de costas. Restava apenas pensar em silêncio no significado de tudo aquilo, em entrar em comunhão com Deus. O padre deixada de ter qualquer significado naquele momento. O próprio ritmo do latim era um convite à meditação.

Além disso, o padre tinha um estímulo ao estudo. Vejo que o nível dos padres hoje é bem menor do que já foi. Culturalmente estão cada vez mais fracos pois muitos entraram na armadilha de pensar que estão aqui para melhorar a sociedade ao invés de entender que seu papel é de mostrar ao homem, qualquer um, o caminho da salvação.