domingo, janeiro 11, 2009

Contra os Acadêmicos - Santo Agostinho


Contra os Acadêmicos foi o primeiro livro escrito por Santo Agostinho. Trata-se de um diálogo onde o filósofo inicia sua busca pela sabedoria, o que aliás é o próprio assunto da obra. Agostinho tinha acabado de se converter ao cristianismo e refugiou-se durante 6 meses com seus discípulos em uma cidade perto de Milão, período onde seus primeiros diálogos foram escritos.

Agostinho acreditava que a pergunta era o método mais apropriado para buscar a verdade. Seus diálogos começam pela colocação da questão, a disputa (discussão) e termina na descoberta.

Na colocação da questão a ser discutida, Agostinho reflete sobre a fortuna, entendido por ele como o destino. O filósofo afirma sua crença na existência de uma ordem no mundo e, o que denominamos destino, nada mais é do que parte de um plano maior e além de nossa compreensão.

"Talvez o que vulgarmente se chama fortuna é regido por uma ordem secreta e o que chamamos acaso nos acontecimentos se deve ao nosso desconhecimento das suas razões e causas, e não há nenhum acontecimento particular feliz ou infeliz que não se harmonize e não seja coerente com o conjunto de tudo. (...) Se a divina providência se estende até nós, do que não se deve duvidar, acredita-me, o que está acontecendo contigo é o que é necessário acontecer."


A grande questão do seu primeiro diálogo é a possibilidade de encontrar a verdade. Os Acadêmicos, intelectuais de sua época, sustentavam que não. O sábio era aquele que procurava a verdade, mesmo que nunca a encontrasse. Em função disso, deveria abster-se de emitir qualquer opinião para evitar o erro e ser exposto ao ridículo.

Através de uma série de diálogos, entre seus discípulos inicialmente, e depois entre ele e um colega, Alípio, as questões são discutidas. Fiel à dialética platônica, a discussão só tem sentido quando opiniões contrárias são colocadas e confrontadas. Inicialmente entre Licêncio e Trigécio e finalmente entre Alípio (defendendo os acadêmicos) e Agostinho (refutando-os).

Em resumo, Agostinho defende que:

1. É irrelevante discutir se é possível alcançar a felicidade apenas pela busca da sabedoria, mesmo sem alcança-la. Argumentava que de qualquer forma a busca da sabedoria era necessária para ser feliz, mesmo que não fosse suficiente. O importante era engajar-se nesta busca.

2.Não deve achar que não é possível encontrar a verdade na filosofia, que já entendia como o cristianismo. Deveriam acreditar naquele que disse: procurai e achareis.

3.Não fazia sentido a crença dos acadêmicos de que era possível identificar o verosímil embora não se soubesse a verdade. Ou se conhece a verdade ou não. Se não a conhece, não se pode chamar algo de verosímil.

4.Embora não se pudesse afimar ser possível encontrar a verdade, por não ser um sábio, acreditava que era provável que fosse encontrada.

5. Para que alcançasse a sabedoria era necessário que a fortuna assim o permitisse, pois ela poderia tirar o filósofo de seu caminho, muitas vezes até com a interrupção da vida. Agostinha expunha pela primeira vez uma das idéias centrais de sua filosofia, para alcançar a verdade era necessário a graça divina.

6. O sábio tem a consciência da verdade, por isso não teria problemas em dar seu assentimento a ela, já que não seria mais uma opinião. O verdadeiro sábio não tinha como errar pois se pudesse, não seria ainda um sábio.

7. Acreditar que a verdade está vedada ao homem é cair no que chamou de cepticismo acadêmico, a crença que nada se pode saber.

Agostinho, assim como Platão antes dele, levantou questões que são extremamente atuais nos dias de hoje. Em um mundo em que o relativismo encontra cada vez mais abrigo, cada vez mais o homem se pergunta não só se é possível encontrar a verdade, mas se ela realmente existe; afinal, tudo é relativo. Inclusive a verdade.

O filósofo iniciava também sua incorporação do platonismo ao cristianismo. Da crença da separação da existência em dois mundos, o dos sentidos e o das formas, Agostinho identificou o primeiro como a realidade que o homem percebe e a segunda como o reino de Deus. A filosofia para ele seria o próprio cristianismo já que a verdade não poderia ser encontrada em outro lugar que não fosse em Cristo.

“Esta filosofia não é a deste mundo, que nossos mistérios com toda a razão abominam, mas a de outro mundo intelegível, ao qual a sutileza da razão jamais teria levado as almas cegadas pelas multiformes trevas do erro e soterradas sob a enorme massa das impurezas corporais, se o sumo Deus, movido de misericórdia pelo seu povo, não tivesse inclinado e abaixado até o corpo humano a autoridade do Intelecto divino, de tal sorte que, excitadas não só pelos preceitos mas também pelas obras pudessem, mesmo sem as disputas, entrar em si mesmas e olhar para a pátria.”


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4 comentários:

Cat Carioca disse...

esclarecedor, me ajudou numa pesquisa universitária!

Sandra Cruz disse...

Lendo em 2016.

João Emiliano Martins Neto disse...

Esta verdade de Santo Agostinho, é a verdade religiosa. A meu ver ele confunde Filosofia com Religião e o filósofo deve buscar a verdade em termos humanos, pela razão pura aguçada pelos sentidos. Nem por isso o filósofo precisa fechar-se na imanência, mas sempre saberá que se algo lhe veio do Alto ou de baixo ou das laterais será sempre algo supra, infra ou colateral não mais humano ou propriamente filosófico.

Lúcio disse...

A busca da Verdade em termos "humanos, amigo, se levada com a máxima seriedade e racionalidade, leva a um único ente: Deus