terça-feira, janeiro 06, 2009

Lei seca. Quando considerar os números?

O número de acidentes de carros nos feriados de fim de ano aumentou 7% em relação ao ano passado. É claro que a lei seca fica em discussão. Os jornais trazem "numerosavaliações" de inspetores de polícia dizendo que se não fosse pera nova lei, aprovada sem discussão na sociedade, seria ainda pior. Não discuto. Pode ser realmente que seja verdade. O que quero chamar a atenção é este método de raciocinar que desafia qualquer lógica.

Digamos que o número tivesse reduzido. O que os mesmos especialistas, se é que inspetor de trânsito é agora especialista em interpretação de números, estariam dizendo? Que teria reduzido por causa da lei seca. Mas aumentou. Aí não tem nada a ver com a lei seca. Deveriam ter menos certezas e mais dúvidas, seria bem melhor para todos.

Vou dizer que a lei seca não evita acidentes? Não tenho esta certeza. Só levanto alguns pontos:

  • A lei seca está punindo os motoristas irresponsáveis, que causavam acidentes, ou motoristas comuns por conta de um miligrama a mais de álcool?
  • A lei seca não pode está gerando um sentimento nos demais motoristas que basta não beber?
  • A polícia não estaria colocando esforços demais para pegar alguns miligramas de álcool em detrimento de outro tipo de ações que poderiam ser mais eficazes? Tipo prestar atenção em excesso de velocidade?
  • Como fica a questão da punição para homicídios culposos? Por que isso não entra em discussão? Remediar também não seria uma forma de prevenir? Pelo menos neste caso?
  • Toda a discussão do efeito da lei seca não estaria tirando a atenção em outros fatores, talvez mais significativos, como a qualidade das estradas, sinalização ou mesmo o efeito do sono?
  • Em um país onde se tanta coisa inútil tem que passar pelo parlamento não é uma incoerência que um ato desses tenha sido tomado em um gabinete de burocratas, sem qualquer discussão envolvendo a sociedade?

Bruno Tolentino em sua última aula deu um conselho aos jovens: tenham menos certezas e mais dúvidas.

É um bom ponto de partida para entender a realidade.

----------------
Now playing: Van Halen - I'm The One
via FoxyTunes

3 comentários:

Alexandra disse...

As campanhas contra beber e dirigir são super fortes aqui. Não existe uma lei seca per se. Quer dizer, existe lei seca para os jovens (até 24 anos) e durante os dois primeiros anos de tirada a carteira de motorista. Depois disso, o máximo de alcool é 0.08 que se não me engano é o equivalente a um copo de vinho ou cerveja.

Mas as pessoas em geral são bem conscientizadas. Quem bebe realmente não dirige por aqui. Sempre tem um "designated driver" que é responsável por não beber para poder deixar o resto do pessoal em casa. Também é comum as pessoas passarem a noite na casa de amigos se forem a uma festa e beberem além da conta e não tiver como voltar pra casa (se não me engano, o anfitrião não pode deixar a pessoa sair dirigindo ou será responsabilizado também se a pessoa se envolver em um acidente).

Vc tem razão em um ponto - há necessidade de campanhas mais sérias de conscientização no Brasil. Ainda é considerado culturalmente aceitável dirigir depois de passar a tarde inteira num churrasco bebendo cerveja ou a noite num barzinho depois de meia dúzia de caipirinhas. Ninguém parava pra pensar duas vezes. Acho que se a lei fizer as pessoas pensarem um pouco antes de pegar o carro, já é uma ajuda...

Marcos Guerson Jr disse...

O homem, em geral, reage a estímulos. Ele pode ser de várias maneiras, principalmente legal, moral ou social.

Legal é o medo da lei. Moral é a própria moralidade. Social é o receio de ser repreendido pelo próximo. Muitas vezes ao agir em um, retira-se o outro.

Um exemplo: uma escola israelense tinha um problema com os pais que atrasavam para pegar os filhos. Uma professora tinha que ficar depois do horário para cuidar destas crianças. Resolveram tomar medidas para resolver o problema. O que fizeram? Estabeleceram uma multa. Para cada dia de atraso no mês, o pai deveria pagar algo em torno de 5 dólares, não lembro exatamente o valor.

Sabe o que aconteceu? Antes da medida havia uma média de dois atrasos por dia. Com a medida passou para 7.

Aparentemente, a maioria dos pais deixavam de atrasar por sentir-se moralmente impedidos de fazê-lo. Quando resolveram cobrar uma taxa, o problema moral foi colocado de lado e substituído pelo estímulo legal. Para muitos 5 dólares valia a pena ficar mais meia hora jogando futebol antes de pegar o filho.

O que levanto no meu questionamento é mais ou menos isso. A lei foi dura demais na questão da bebida, principalmente tratando quem bem 3 copos de cerveja da mesma forma de quem bebe uma caixa. Não há proporcionalidade. Será que a lei, da forma como foi imposta, sem a menor discussão da sociedade ou estudo estatístico sério, não levou a uma conclusão de que o único problema ao dirigir é o álcool? Se não estiver bebendo está tudo bem, não preciso me cuidar?

Mais grave ainda. A lei não impede de dirigir sob efeito de drogas. Sejam elas ilícitas ou mesmo legais. Uma pessoa pode dirigir normalmente sob efeito de alguns tranquilizantes, mas será responsável criminalmente se tiver bebido um copo de vinho. Parece exagero, mas um bombom de licor já pode acusar efeito do álcool.

Veja bem, não estou defendendo o direito de alguém em dirigir embriagado, longe disso. Apenas me pergunto se não fomos na direção errada e com isso podemos estar contribuindo para piorar ainda mais o quadro trágico que temos nas rodovias brasileiras.

Alexandra disse...

por isso que eu falei que precisava de um esforco maior para conscientizar a populacao para tornar a pratica de beber embriagado socialmente inaceitavel. Mas nao sei se agindo em um necessariamente retira-se o outro... o problema eh que medidas legais nao tendem a funcionar no Brasil jah que as pessoas nao tem respeito algum pela lei...

A lei aqui se trata de "driving under the influence"... pode ser de alcool ou de qualquer outra substancia que cause o comprometimento da capacidade da pessoa de reagir do transito.