segunda-feira, janeiro 19, 2009

Os Lusíadas (Camões)

Aos 35 anos de vida, posso enfim dizer que li aquela que é considerada a grande obra da língua portuguesa, Os Lusíadas. Por que demorei tanto? Bem, pode parecer idiotice mas eu deixei-me convencer que era uma obra muito difícil de ler. Logo eu! Fui escutar a opinião de um monte de gente cujo ideal de leitura é a páginas de esportes do Globo!

A isso somou-se uma reação que sempre tive à poesia. É curioso porque sempre gostei de escrever versos! O que mostra a mediocridade evidente destes versos. Uma coisa que Machado demonstrou tão bem é que para ser um verdadeiro poeta a inspiração não basta, é preciso também dominar a técnica. Caso contrário, será apenas um habilidoso, nunca um artista.

O que dizer dos Lusíadas que já não tenha sido escrito antes por gente infinitamente mais gabaritada? Que o cara foi um gênio? Isso até as paredes já sabem, embora não deva ter muito pouco brasileiro que já encarou a leitura dos 10 cantos que compõe o épico de Camões sobre a viagem de Vasco da Gama até a Índia.

Só que Camões foi muito além dessa viagem. Através de uma narrativa ao rei de Melinde, já perto do fim da viagem, o poeta declama a história de Portugal. Não se trada de uma simples viagem de descobrimento, trata-se do triunfo de um povo. Até os deuses do Olimpo acompanham e se interessam pela epopéia lusitana.

E é nessa narrativa da história portuguesa que nos deparamos com alguns dos versos mais emocionantes que já li; trata-se da tragédia de Inês de Castro, aquela que depois de morta foi rainha. São estrofes e mais estrofes de puro deleite, como estes versos:

Tu só, tu, puro amor, com força crua
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa ã molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tua aras banhar em sangue humano.


E a morte de Inês de Castro? O que dizer?

Assim como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lacivas maltratada
Da menina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas, e perdida
A branca e viva cor, com a doce vida.

E tem muito mais. Tem geografia, tem religião, tem política. Os Lusíadas é um épico em todos os sentidos. Por suas páginas me transportei no tempo, visualizei os marinheiros portugueses, a geografia da África, da Europa, os diversos reinos, os conflitos hereditários. Um sentimento de honra pessoal que hoje em dia não existe mais, que se perdeu na modernidade.

Os Lusíadas é uma experiência e tanto. Basta dizer que ao mesmo tempo que escrevo esta pequena resenha, estou na minha segunda leitura. Estou deixando que os Lusíadas me transporte para um outro tempo. Para um mundo mais antigo, mas mais civilizado.

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