sábado, fevereiro 28, 2009

A Doll House - Ibsen

Um dos assuntos que me interessam profundamente é o casamento. Sou fascinado pela dinâmica de um casamento, essa relação que duas pessoas constroem ao longo da vida, uma relação que deveria ser marcada pela exclusividade e eternidade, o que muitas vezes não acontece.

Duas pessoas diferentes optam por unir suas vidas e enfrentar o destino juntos. São duas estórias de vida, duas personalidades. Muitas vezes mal se conhecem de verdade, até porque o casamento ocorre geralmente em uma fase em que a pessoa ainda está conhecendo a si mesma. Não se trata apenas do conhecer o outro, mas conhecer a si mesmo. Em um bom casamento, elas fazem as duas coisas ao mesmo tempo e buscam no outro o apoio necessário para enfrentar seus demônios internos.

Sim, porque conhecer a si mesmo significa ter a coragem de mergulhar no inferno e retornar, significa tomar contato com o que Ortega Y Gasset chamava de "fundo insubornável do ser", nossa profundeza mais íntima, aquela que não admite a ilusão, a mentira. Esta viagem ao nosso íntimo muitas vezes não é bonita e deixa marcas; mas é necessária para que sejamos capazes de caminhar na direção da compreensão da realidade como ela é.

Confesso que li com todo o cuidado esta peça de Ibsen. Sabia pela leitura de Intellectuals, de Paul Johnson, que Ibsen não acreditava no casamento; que para ele o conflito entre duas pessoas diferentes presas por esta amarra artificial tenderia ao conflito inevitável. Johnson entretanto ressaltou que A Doll House era uma obra prima. E foi assim, com cuidado, que li a peça de Ibsen.

O autor me desarmou completamente. A peça é irresistível. Terminei o último ato de uma só vez, fechei o livro e fiquei olhando para o além, com aquele sentimento de ter me deparado com algo de rara beleza. Como um autor consegue mexer tanto com o sentimento de um leitor? Como consegue nos levar a este grau de arrebatamento?

Como o sentimento por um personagem pode passar de desprezo a pena, de pena para admiração, de admiração para simpatia até nossa rendição completa e o apaixonamento? Como nossa visão sobre um acontecimento pode se transformar tanto a cada página? Como o que julgamos idiota torna-se sábio e o sábio torna-se estupidez? Como personagens podem ser tão humanos?

A Doll House é uma destas obras que nos fazem pensar e, principalmente, nos mudam de alguma forma. Quando terminei o livro, fiquei refletindo sobre o meu próprio casamento. Ibsen pode ter tido o objetivo de expor as entranhas de um casamento considerado perfeito, mas para mim, o que ele mostrou foi um vigoroso alerta. O auto-conhecimento é uma necessidade do homem, um casamento tem que respeitar esta necessidade em cada uma de suas partes, mais que isso, um tem que apoiar o outro neste viagem.

Homem Aranha 3

Novamente o aracnídeo mais famoso do mundo enfrenta inimigos, alguns visíveis e outros não.

Os visíveis são o homem areia, doende macabro e, principalmente, Venon. Os internos são o egoísmo, vingança, vaidade. Afinal, por baixo daquela roupa de homem aranha existe um adolescente iniciando sua vida adulta.

O problema deste terceiro filme é que algumas peças simplesmente não encaixam. As situações ficaram meio forçadas e mesmo inverossímeis. Posso falar em verossimilhança em uma estória em quadrinhos? Posso. Uma das coisas que aprendi como Mario Vargas Llosa é que mesmo a fantasia tem que ter veracidade. Trata-se de uma arte, mostrar uma mentira como se fosse verdade. Para sermos conquistados por uma estória temos que acreditar nela, mesmo sabendo que é mentira.

E não são as cenas de ação ou os vilões que compromentem a veracidade da estória, mas as pessoas de carne e osso. Os personagens simplesmente passaram um pouco do tom e muitas situações ficaram pelo caminho. Em uma cena o doende macabro sequestra Mary Jane, na seguinte ela termina com Peter e depois a estória segue como se o deode nunca tivesse aparecido. A própria soberba de Peter, mesmo antes da influência de Venon, parece forçada.

Homem Aranha 3 vale pelas cenas de ação, mas é inferior aos outros dois no que diz respeito aos dramas humanos. Ficou parecendo que tentaram abordar muitas coisas ao mesmo tempo e acabaram se perdendo em algum ponto.

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Now playing: The White Stripes - Black Math
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sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Marília de Dirceu - Tomás Antônio Gonzaga

Mas tendo tantos dotes da ventura,
Só apreço lhes dou, gentil Pastora,
Depois que teu afeto me segura,
Que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho, que cubra monte, e prado;
Porém, gentil Pastora, o teu agrado
Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.


Marília de Dirceu é uma das mais importantes obras da literatura brasileira do período colonial. Situada dentro do período do arcadismo, mas já com vislumbres do romantismo, Gonzaga utiliza a figura de um pastor para declarar seu amor por Maria Dorotéia, agora transformada em Marília.

A obra é dividida em três partes.

Na primeira, o centro é Marília. Gonzaga consegue com muita sensibilidade idealizar a figura amada e declamar seu amor. Dirceu apaixona-se por Marília e esquece um amor antigo, transformando-se em um outro homem. A referência constante a antiguidade greco-romana, principalmente pela atuação do cupido, é uma das características do arcadismo.

Topei um dia
Ao Deus vendado,
Que descuidado
Não tinha as setas
Na impia mão.
Mal o conheço,
Me sobe logo
Ao rosto o fogo,
Que a raiva acende
No coração.


Gonzaga também mostra a urgência de seu amor pois o tempo passa depressa, coisa que descobriria logo ao ser preso e exilado pelos acontecimentos da inconfidência mineira.

Que havemos de esperar, Marília bela?
Que vão passando os florescentes dias?
As glórias, que vêm tarde, já vêm frias;
E pode enfim mudar-se a nossa estrela.
Ah! Não, minha Marília,
Aproveite-se o tempo, antes que faça
O estrago de roubar ao corpo as forças
E ao semblante a graça.

Tomás também mostra seu recio da velhice que se aproximava:

Assim também serei, minha Marília,
Daqui a poucos anos;
Que o impio tempo para todos corre.
Os dentes cairão, e os meus cabelos,
Ah! sentirei os danos,
Que evita só quem morre.


A segunda parte Tomás escreveu provavelmente quando estava preso, e reflete a impossibilidade de estar junto com seu amor.

Nesta cruel masmorra tenebrosa
Ainda vendo estou teus olhos belos,
A testa formosa,
Os dentes nevados,
Os negros cabelos.

A exaltação do amor dá lugar a melancolia. Cada vez mais o poete percebe que não verá mais sua amada e se concentra no seu próprio julgamento. Interessante perceber que Gonzaga não tinha simpatia por Tiradentes e não tinha participado ativamente do movimento, embora o tivesse apoiado. Por fim termina exilado.

Na segunda parte, Marília já mal aparece. Gonzaga já encontrava-se em seu caminho para Moçambique e reflete sobre temas mais abrangentes, principalmente nos sonetos.

Obrei quando o discurso me guiava,
Ouvi aos sábios quando errar temia;
Aos Bons no gabinete o peito abria,
Na rua a todos como iguais tratava.

Julgando os crimes nunca os votos dava
Mais duro, ou pio do que a Lei pedia;
Mas devendo salvar ao justo, ria,
E devendo punir ao réu, chorava.

Não foram, Vila Rica, os meus projetos
Meter em férreo cofre cópia d’ouro
Que farte aos filhos, e que chegue aos netos:

Outras são as fortunas, que me agouro,
Ganhei saudades, adquiri afetos,
Vou fazer destes bens melhor tesouro.
Marília de Dirceu é uma das obras mais editadas da língua portuguesa e tem escondido em suas poesias muitos segredos sobre a vida e a compreensão do mundo. Uma vez Bruno Tolentino afirmou que quando foi na Rússia na década de 50, o terceiro poeta mais lido naquele país era justamente Tomás Antônio Gonzaga. Mesmo naquele meio científico soviético, Gonzaga conseguira penetrar com o amor de um pastor. Se os soviéticos tinham admiração por Gonzaga, achei que era minha obrigação ler também!

Mais uma dívida que tenho com o saudoso Tolentino!

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Now playing: Ringo Starr - In The City
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quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Na República Dominicana

É claro que nossos brazucas da Companhia de Engenharia apontaram das suas na República Dominicana. Algumas estórias rápidas.

Um de nossos, metido a conquistador, resolve gastar seu portunhol com uma garota.
__ Buenos Dias! Soy brasileno. Como estas? De onde es usted?
A garota respondeu de pronto:
__ Governador Valadares!

Outro, recebe a oferta de ajuda de um "promoter" local.
__ Se quieres uma chica, hablas comigo. Pero, se queres um chico, no hablas comigo!

Um capitão estava tranquilamente utilizando um mictório do hotel quando um estrangeiro, ao seu lado, também utilizando um mictório, solta um sonoro peido. Sem se abalar, o gringo vira para ele, sorri e diz:
__ Sorry!

Três companheiros resolvem alugar um carro. O tanque estava vazio, param no posto para abastecer. Como iriam ficar apenas dois dias com o veículo, resolvem colocar 10 litros no tanque.
Quando saem do posto, verificam que o tanque estava cheio. Um tanque de dez litros? Mistério.
Parece que os bravos não perceberam que a medida padrão na República Dominicana era o galão...

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Ícaro Redimido - Gilson Freire

Livro espírita, psicografado por Gilson Freire, autoria de Adamastor, conta a estória de um homem que desencarna através do suicídio. É acolhido por dois espíritos que se deparam com duas missões principais, ajudá-lo a enfrentar a consequência de sua ação contra si mesmo e o levar a refletir sobre a vida que teria levado.

O espírito era Alberto Santos Dumont, um dos inventores do avião. Freire mostra através da estória de Alberto muitos ensinamentos da doutrina espírita no que diz respeito a responsabilidade individual, as consequências de nossos atos, a nossa luta constante contra o orgulho, a morte, o nascimento, a depressão, o que existe por trás dos fetos defeituosos, do aborto natural e o crime do aborto provocado.

Achei muito interessante o capítulo que o autor descreve a dualidade da existência, o seu efeito pendular que coloca períodos de expansão e contração dentro de um esquema evolutivo da vida do espírito. O período de expansão corresponde ao período que estamos conquistando objetivos e ampliando nossa existência. Segue-se a ele um período de contração em que assimilamos tudo que foi conquistado. O primeiro período é propício ao orgulho, justamente o que aconteceu com Alberto que não soube lidar com o próprio sucesso. Nada fica sem consequência, o orgulho da expansão leva necessariamente a uma depressão no segundo período, o da contração. Quanto maior for o orgulho, maior será a depressão, que poderá, inclusive, levar ao suicídio.

Ícaro Redimido mostra que tudo tem uma causa. Nossas deficiências, muitas vezes físicas, possuem uma causa em vidas anteriores. Até as doenças que atravessamos, por mais duras que sejam, são consequências de atos por nós praticados, nesta vida ou em outra.

Ícaro redimido é uma estória sobre enfrentar as consequências por nossos atos, de nos redimir, de perdoar e ser perdoado. Alberto teve seus méritos em sua vida como Santos Dumont, mas deixou-se levar pelo orgulho e quando teve que enfrentar a perda da paternidade por sua invenção, foi incapaz de lidar com a depressão e recorreu ao suicídio. Ícaro Redimido é mais do que a estória dele, é sobre a estória de todos nós. É mais uma razão para termos fé.

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Now playing: Cream - Outside Woman Blues
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Intellectuals - Paul Johnson


A intenção de Paul Johnson em Intellectuals fica bastante clara desde o início. Mostrar que os intelectuais modernos, que tentaram mostrar à humanidade como proceder, não possuíam condições para tal. Para isso coloca o intelectual diante de sua própria vida.

Começando por Rousseau, o pai do intelectual moderno e o primeiro a pretender ter a solução para os dilemas humanos, a se afirmar como um ser elevado, chegando até Chomsky, passando por gente com Marx, Sheley, Ibson, Sartre, Hemighway e tantos outros.

Algumas características em comum pode ser encontradas na maioria desta figuras:

- Um egocentrismo gigantesco. Colocaram-se no centro da sociedade de suas épocas, incapazes de lidar com qualquer crítica a suas obras.
- O desprezo à verdade. Estes intelectuais consideravam-se já possuidores da verdade e imbuídos da missão de não só divulgá-las aos incrédulos, mas impulsioná-los à ação.
- A incapacidade de lidar com outros intelectuais e manter amigos.
- Vidas domésticas incrivelmente agitadas, com vários casamentos e submissão de suas esposas que deveriam ter o papel principal de sustentá-los em suas cruzadas.
- Conduta moral extremamente condenável e dissociada das próprias idéias que processavam.

Intellectuals é um livro fundamental para entender o ambiente e o contexto que obras extremamente influentes foram criadas e levar o leitor a refletir até que ponto tomou por verdade o que era apenas uma idéia de um ser, como ele, imperfeito.

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Now playing: Judas Priest - Metal Gods
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segunda-feira, fevereiro 23, 2009

De volta ao Haiti

Depois de quatro dias na República Dominicana, estou de volta ao Haiti.

A primeira coisa que chamou atenção é o absoluto contraste entre os dois países. Bastou passar a fronteira para vermos uma outra realidade, e nas menores coisas. A República pode ser uma país ainda atrasado em muitos aspectos, mas mesmo na pobreza mostra uma vida que não existe no Haiti. Estradas sinalizadas, pessoas sorridentes, cidades mais ou menos organizadas, plantações, árvores. Em tudo víamos como é grande o contraste entre os dois povos.

Chegando em Santo Domingo, ficamos em um resort na beira da praia. Tudo incluído. O resort era mais frequentado por idosos, embora tivesse gente de todas as faixas etárias, mas o grupo de idosos era mais característico. Os canadenses era o grupo mais numeroso, como já havia me adiantado minha irmã.

Alugamos um carro, mas não tivemos muito tempo para turismo. Por causa das sete horas de viagem, a parte aproveitável mesmo do passeiro era pouco mais de dois dias. Demos ênfase a curtir um pouco o hotel e nos divertir no Hard Rock Café de Santo Domingo. Foi muito bom. Um pouco de relaxamento e um pouco de civilização.

Enquanto tomávamos budweiser no Hardo Rock ficamos refletindo. Estava com dois colegas que como eu, mas em épocas diferentes, foram internos no Colégio Militar de Fortaleza. Foi uma longa caminhada até aqui, quero dizer, jamais naqueles tempos de internato, pensamos que um dia poderíamos estar no Caribe assistindo um show de rock. A vida é uma caixinha de surprezas...

Bem, como tudo na vida, estes dias na República Dominicana já pertencem ao passado. O presente se torna cada vez mais rápido a medida que o tempo passa. E como passa depressa!

Heart of Darkness - Joseph Conrad

É difícil classificar Heart of Darkness. É um livro? Ou um conto? Pelo número de páginas seria um conto, mas pela profundidade de sua narrativa figura não só como um livro, mas um clássico da literatura.

Conrad utiliza um alter-ego, o marinheiro Marley, para mostrar com extrema agudeza a crueldade da exploração do Congo pelo regime do rei Leopoldo II, da Bélgica. Com a cobertura de uma missão civilizadora, os europeus promoveram na verdade uma exploração impiedosa voltado para a acumulação de riquezas naturais, principalmente o marfim.

Os nativos valiam muito menos que os elefantes na contabilidade das companhias comerciais que devastaram o Congo. Conrad utiliza uma narrativa dentro de outra narrativa para contar duas estórias, a do próprio Marley-Conrad e a do misterioso Sr Kurtz, o chefe de um acampamento no interior que está gravemente doente.

A estória de Marley é a do espanto diante da constatação de uma realidade marcada pela crueldade e desprezo pela vida humana. O civilizado europeu mostra-se o verdadeiro selvagem; afastado das regras que o civilizam mostra-se sem nenhum escrúpulo moral.

Kurtz, que Marley fica sabendo apenas por relatos, é um europeu esclarecido, que veio para com o melhor espírito fraterno mas que no processo, diante de tanta iniqüidade, acaba por perder-se lentamente em um um processo de degradação de sua própria alma. Quando o marinheiro finalmente o conhece, já é uma sombra moribunda de um homem que um dia se alimentou de um ideal.

O que Conrod mostra com maestria, é que um homem não passa por uma experiência destas sem ficar com marcas. Marley, um homem que tinha a verdade como uma qualidade marcante, termina a estória mentindo para a noiva de Kurtz. Ele também se perdeu um pouco nos meses que esteve no Congo.

O estilo narrativo de Conrad foi criativo e exige atenção do leitor. A forma como contou a estória de Kurtz, através de fragmentos, também foi inspiradíssima. Heart of Darkness é mais do que uma viagem no tempo e a denúncia de uma exploração, é uma viagem ao coração das trevas que habita o ser humano.

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Now playing: Bad Company - Rock Steady
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quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Carnaval

Amanhã estou partindo para a República Dominicana para quatro dias de dispensa.

Hora de esquecer um pouco do Haiti.

Até a volta!

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Kitty Daisy And Lewis


O que esperar de uma banda, formada por três irmãos, com a média de idade de 16 anos, que gravaram um disco de rockabilly, aquele estilo de rock dos anos 50? E que quando tocam ao vivo são reforçados pelos próprios pais?

Fui conhecer a banda hoje. São muito bons! Um verdadeiro tesouro! Você não consegue parar de escutar! Pesquisando as poucas informações disponíveis na internet descobri que:
  1. Eles são do norte de Londres.
  2. Seus pais são músicos profissionais.
  3. Daisy é a mais velha. Canta, toca bateria e piano.
  4. Kitty é a mais nova. Parece que gravou o único disco da banda com 15 anos. Canta, toca gaita, guitarra, banjo, bateira e acordeão.
  5. Lewis é o filho do meio. Toca guitarra, banjo, piano e bateria.
  6. Para completar, o pai, Graeme, toca guitarra e a mãe, Ingrid, toca baixo.
Para conferir, clique aqui.



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Now playing: Kitty, Daisy & Lewis - Mohair Sam
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Heloísa

Minha filha mais nova, que ainda está a caminho, já tem nome. Chama-se Heloísa. Um nome forte, bonito e uma homenagem a minha avó que nos deixou a pouco tempo.

Do Haiti acompanho os preparativos para recebê-la. Novos móveis, nova arrumação do quarto que dividirá com a Lorena, roupas, tudo está sendo feito para acolhê-la em nosso lar. Enquanto isso a Heloísa está no quentinho, sem preocupações! De vez em quando a Lorena conversa com ela. Essa menina ainda vai escutar muito a irmã falar! E como fala!

Nossa Heloísa está recebendo agora todos nos nosso pensamentos, nossa energia. Em breve nós estaremos vendo-a pela primeira vez, tocando-a, cheirando-a.

Heloísa já está entre nós. Falta apenas colocá-la no colo.

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Now playing: Titãs - Pavimentação
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sábado, fevereiro 14, 2009

Hamlet - Shakespeare

Continuando meu projeto de recuperar o tempo perdido e ler os clássicos, esta semana terminei mais uma peça de Shakespeare, Hamlet.

É uma obra muito rica em que o dramaturgo nos convida a refletir sobre a vingança, esta força que tira a razão dos homens e os conduz invariavelmente a um final trágico. Hamlet, um herdeiro adorado por seu povo, deixa-se levar por este forte sentimento e coloca tudo em segundo plano, inclusive o amor.

No caminho faz vítimas inocentes, como Polônio e Ofélia, até conseguir seu intento final, em uma cena trágica. Tentando corrigir uma injustiça, Hamlet faz mais injustiça ainda. O saldo final é mais vítimas inocentes e a perda de um reino.

A peça é cheia de momentos memoráveis e monólogos brilhantes. Além da vingança, Hamlet trata também da moralidade, da corrupção, do transcedental, da traição. Mais do que tudo isso, da existência. Não por acaso a frase mais citada da peça é "ser ou não ser, eis a questão".

Uma verdadeira obra prima.

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Now playing: The Animals - Paint it black
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A Traição dos Intelectuais - Julien Benda

Estes é um dos livros que merecem uma atenção especial. Tem tudo a ver com meus pensamentos sobre o mundo de hoje, valeu uma resenha especial que pode ser acessada aqui.

Benda trata neste livro do papel dos intelectuais e da traição que o intelectual moderno pratica. Para ele, o papel do intelectual é cultuar os valores abstratos da verdade, justiça e razão. Mais do que isso, sem nenhum interesse prático. Seu modelo é Sócrates e seu amor a sabedoria, sua procura pela verdade.

O intelectual moderno teria se deixado levar pela paixão polícita e se colocado a serviço dos interesses práticos. Não quer mais buscar a verdade, quer provar que já a possui. Não quer entender o mundo, quer mudá-lo. Não quer chamar o leigo a razão, quer juntar-se a ele na paixão pelo que considera real.

Escrito em 1927, é um destes livros proféticos. Benda afirmava que a entrega dos intelectuais a paixões políticas potencializaria a ambição das massas e um conflito total e violente entre nações ou classes seria uma questão de tempo, como a II Guerra Mundial.

Ao final, em um parágrafo impressionante, previu algo que ainda não aconteceu mas que está se realizando. Descreveu o que é um dos meus maiores pesadelos hoje, o governo mundial e a sociedade perfeita:

“Chegar-se-á assim a uma “fraternidade universal”, mas que, longe de ser a abolição do espírito de nação com seus apetites e orgulhos, será, ao contrário, a forma suprema dele, a nação chamada o Homem e o inimigo chamando-se Deus. E a partir de então, unificada em um imenso exército, em uma imensa fábrica, não conhecendo mais senão heroísmos, disciplinas e invenções, desacreditando toda atividade livre e desinteressada, desistindo de pôr o bem para além do mundo real e tendo por deus somente ela mesma e suas vontades, a humanidade alcançará grandes realizações, quero dizer, um domínio realmente grandioso sobre a matéria que a cerca, uma consciência realmente satisfeita com seu poder e sua grandeza. E a história sorrirá de pensar que Sócrates e Jesus Cristo morreram por essa espécie."

Resenha Completa
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Now playing: The Mamas and The Papas - Somebody Groovy
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sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Há algo de podre no reino da Dinamarca

No caso, há algo de podre no reino da Suiça.

Está ficando muito estranho este caso da brasileira agredida na Suiça.

Se ela não estava grávida na hora da agressão, ela mentiu. Se mentiu neste ponto, em que mais terá mentido?

Se ela estava grávida, então médicos da Universidade de Zurique mentiram. Se assim o fizeram, o que os levou a colocar seus nomes e o da instituição na lama?

O que realmente aconteceu?

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Now playing: Booker T and The MG's - Booker Lou
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Dias tristes

Dois dias tristes aqui no Haiti em função de um militar nosso que perdeu a vida (pelo menos nesse plano) vítima de um acidente com viatura. Em uma situação de confinamento como a nossa, a perda é potencializada e seus efeitos levam mais tempo para serem assimilados.

Em geral, as rodovias haitianas são muito perigosas, tanto por seu traçado quando pelos veículos que circulam. Estamos quase com três meses de missão e até então não havia acontecido um único acidente. Infelizmente o primeiro nos apresentou este desfecho trágico.

A morte é uma certeza para todos nós, mas em geral nunca soubemos lidar com ela. Ainda no domingo assisti um filme clássico sobre o assunto, o Sétimo Selo. Tentamos de todas as formas não pensar nela, mas nem sempre conseguimos; é uma imagem que está sempre por perto. Sempre pairando sobre nós.

Ver um companheiro de trabalho partir é uma lembrança de nosso próprio futuro. Poderia ser qualquer um de nós e, mais do que isso, um dia será nossa vez. Sabemos disso, mas queremos não pensar no dia que deixaremos a vida como a conhecemos.

Aos poucos vamos retomando nossa rotina, mas é difícil. O sentimento do que aconteceu ainda está muito presente. Talvez apenas quando for feito o translado do corpo para o Brasil voltaremos a seguir nosso caminho.

Ao companheiro que partiu, ficam as orações de todos nós. Deus o receberá em sua nova morada.

A vida continua.

Para ele e para nós.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Sem palavras

Como descrever o ato bárbaro que vitimou uma brasileira na Suiça? Como descrever um ato de tamanha covardia voltado para uma pessoa indefesa? E na Suiça! Claro que o ato de delinquentes não é a representação do povo daquele país, mas está se percebendo uma maior ousadia por parte dos seguidores do nazismo. Em várias passeatas contra a invasão israelense da faixa de gaza foi possível ver suásticas.

Praticamente ao mesmo tempo, em um trote, uma estudante brasileira era queimada. O fato por si só já era grave, mas inaceitável mesmo é a Universidade se pronunciar dizendo que não tem responsabilidade pelo fato. Tornou-se ao dar uma declaração destas. Uma estudante da Universidade, queima outra estudante da Universidade, na calçada de Universidade... e a Universidade não tem nada a ver com isso?

Os dois episódios não são equivalentes, mas mostram a humanidade no seu pior. Mostra o ser humano querendo se afirmar pelo que tem de diferente, pelo particular. O ser humando que não se quer humano.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Tumbleweed Connection - Elton John


Tumbleweed Connenction é o segundo álbum de Elton John. Lançado em 1970, é totalmente inspirado nos dois primeiros álbuns do The Band e nas composições de Robbie Robertson. Elton e Bernie Taupin fizeram uma homenagem ao oeste americano em um disco quase conceitual. E estavam inspiradíssimos.

É um disco belíssimo, sem nenhum hit, coeso em todas as canções. Os músicos que acompanharam Elton neste album deram um show a parte. As linhas de baixo são magníficas, como pode ser escutado em "Country Confort" e "Ballad os a Well Known Gun". A "cozinha" que acompanharia Elton em boa parte de sua carreira, Nigel Olssem e Dee Murray já mostravam seu talento em "Amoreena".

Em "Were to Now St Peter", Taupin apresenta uma letra inspirada sobre o céu e o inferno, o destino do homem após a partida, tudo casado em uma música belíssima:

So where to now St. Peter
If it's true I'm in your hands
I may not be a Christian
But I've done all one man can
I understand I'm on the road
Where all that was is gone
So where to now St. Peter
Show me which road I'm on

"Love Song" é uma balada improvável escrita por Leslie Duncan, também com versos belíssimos:

Love is the opening door
Love is what we came here for
No one could offer you more
Do you know what I mean?
Have your eyes really seen?

E claro, tem Elton John. O homem dá um show neste disco. Tanto nos teclados como nos vocais,
sempre na medida certa, sem exageros, sem destoar.

Tumbleweed Connection é um trabalho coeso e muito bem feito de um grande artistas. Só isso já garante seu lugar na história.

Cotação: ★★★★

terça-feira, fevereiro 10, 2009

O caso dos dez negrinhos, ou dos dez índios, ou do nenhum que sobrou...

Um das taras do politicamente correto é re-escrever o passado. Não contente em querer normatizar nosso comportamento no presente, eles querem também apagar nossa memória. Em 1984, Orwell já mostrava como a alteração do passado é a chave para definir o futuro.

Agatha Christie é uma dos meus escritores favoritos. Um de seus clássicos absolutos foi escrito em 1939 e chamava-se "Ten Little Niggers". O título fazia referência a 1o estatuetas de nativos africanos e um poema que pautava a estória.

O livro foi editado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1940 com o título de "And Then There Were None", um curioso caso de tradução para o inglês de um título escrito... em inglês! Creio que em 1940 não havia nos ainda na América o ativismo político. Não sei se o título foi trocado por razões comerciais (americanos nunca foram muito bom em entender sutilezas) ou se foi para evitar qualquer conotação racista.

O fato é que o título nos Estados Unidos foi trocado, coisa que nunca aconteceu no Brasil. O título em português foi "O caso dos dez negrinhos".

É bom ressaltar que Agatha Christie não fazia qualquer alusão racial. Tratava-se apenas de um conjunto de imagens, propositalmente fora de cultura européia para contribuir com o mistério da trama. Do mesmo jeito que eram 10 negrinhos, poderia ser 10 índios ou 10 esquimós.

Aliás, a versão americana para o cinema foi "Ten Littel Indians".

Os americanos foram obrigados também a trocar o poema pois este fazia referência o tempo todo aos "little niggers". Transformaram-se em "Ten soldiers boy". A obra da artista foi modificada para atender aos padrões do politicamente correto.

Fiquei sabendo agora que a patrulha finalmente conseguiu trocar o nome em português. Não se edita mais "O Caso dos Dez Negrinhos", nome que acompanha a obra a simplesmente a quase 70 anos. O livro agora é publicado com o nome de "E Não sobrou nenhum".

A patrulha do politicamente correto decidiu que o título original era ofensivo ao negro, como se milhares de negros brasileiros não tivessem se deliciado com esta obra clássica. Aliás, desafio qualquer um a encontrar uma única linha escrita por Christie que tivesse a menor conotação racista. Não acharão.

O maior problema do politicamente correto é que coíbe nossa capacidade de pensar, de nos aproximar da verdade. Na cabeça de seus criadores o homem é um animal irracional que deve ser conduzido pelo cabresto. Foi assim que Greedo se tornou o pior atirador da galáxia e Indiana Jones teve uma cena memorável mutilada em Os Caçadores da Arca Perdido. E o lado negro da força se tornou "lado sombrio da força".

Pois mexeu com Agatha Christie, mexeu comigo! Fiquei furioso por conta desta ousadia. Acho que é o fim da humanidade mesmo, só o texto de São João para dar cabo deste bando!

Em solene protesto contra a heresia de mexer na obra da grande dama do mistério, publico aqui o poema do livro. TEN LITTLE NIGGERS! E que os "politicamente corretos" vão todos para a...

Ten Little Niggers

Ten little nigger boys went out to dine;

One choked his little self and then there were Nine.

Nine little nigger boys sat up very late;

One overslept himself and then there were Eight.

Eight little nigger boys travelling in Devon;

One said he'd stay there and then there were Seven.

Seven little nigger boys chopping up sticks;

One chopped himself in halves and then there were Six.

Six little nigger boys playing with a hive;

A bumble bee stung one and then there were Five.

Five little nigger boys going in for law;

One got into Chancery and then there were Four.

Four little nigger boys going out to sea;

A red herring swallowed one and then there were Three.

Three little nigger boys walking in the Zoo;

A big bear hugged one and then there were Two.

Two little nigger boys sitting in the sun;

One got frizzled up and then there was One.

One little nigger boy left all alone;

He went out and hanged himself and then there were None.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Telefone

Estava conversando com um companheiro de outra seção quando tocou o telefone. Antes que eu atendesse, ele resolveu se antecipar.

__ Seção técnica, bom dia! Capitão Jairnequini falando...

Depois de um breve instante, já vermelho e agitado, ele continua.

__ Oh, coronel! É o senhor? Eu pensei que poderia ser qualquer um, menos o senhor!

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Now playing: The Band - Street Walker
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domingo, fevereiro 08, 2009

O Sétimo Selo

Antonious Block é um cavaleiro que retorna das cruzadas. Depois de dez anos, está próximo de chegar em casa mas encontra um continente devastado pela peste negra. É quando recebe a visita da morte, seu tempo chegara ao fim. Para ganhar um tempo, a desafia para um jogo de xadrez. A morte fica intrigada, por que desejaria um tempo a mais? Antonious é um homem cansado, que foi ao outro lado do mundo para encontrar Deus e não o encontrou, quer compreender antes de morrer.

O filme de Bergman, uma obra de arte, é a conflito do ser humano com a maior certeza que possui, a inevitabilidade da morte. A peste cumpre o papel de evidenciar o destino inescapável. Assim os tipos que marcaram a idade média, cavaleiros, artistas, ferreiros, religiosos, escudeiros, donzelas, todos são obrigados a refletir sobre o destino que parece cada vez mais próximo.

A jornada de Antonious e seus companheiros, em um clima sempre sombrio, é a imagem do fim de uma época. Não por acaso o cavaleiro é um homem cansado, descrente. Já não compreende o mundo a sua volta. A ânsia pelo conhecimento, movido por sua fé, o havia afastado de seu lar por dez anos e no fim não encontrara as respostas que procurara. Sua angústia é comovente. Diante de uma mulher que está para ser queimada como bruxa por ter "dormido com o diabo" quer saber como ele é, quer se encontrar com ele. Antonios quer perguntar ao demônio como é Deus.

Acaba por perder a partida propositalmente. Quer enfrentar logo seu destino, quer procurar o conhecimento na morte. Mas ela não apresenta respostas, desesperado volta para Deus. Ainda quer encontrar o consolo na fé.

No início do filme, a morte comenta que ninguém fala dela. É a verdade. Temos a certeza da morte, mas nos recusamos a pensar nela. Os personagens de Bergman enfrentam-na. Alguns com desprezo, alguns com ironia, muitos com medo, mas todo com respeito. É a visita que todos esperam um dia. E é assim que chega para a cena final, como uma visita longamente esperada.

No fim, resta o casal de artistas com seu bebê. A criança representa a vida que se renova na terra, a esperança de sobrevivência. É naquela família, uma representação de todas as famílias, que a vida prossegue.

Até que ela nos venha visitar.

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Dubliners - James joyce


Dubliners é um mosaico que Joyce faz da sociedade dublinense do início do século XX. Ao mesmo tempo que retrata a cidade, o pitoresco de seus personagens, retrata também a existência humana no que tem de universal.

O livro é uma série de contos que, na seqüência, perfazem o caminho da existência humana. São contos sobre a infância, adolescência, maturidade, morte. Sobre o particular e o coletivo, sobre a insercão do homem na sociedade.

Joyce se abstém de fazer qualquer julgamento moral ou propor solução para os pequenos dramas retratados. Cabe ao leitor tirar suas conclusões, captar a sutileza do autor. A sociedade retratada é a do início do século passado, mas o homem é mais atual do que nunca. Temos a criança fascinada com a morte, meninos lidando sem compreender muito com um homossexual que investe sobre eles, a filha da dona de pensão que tem um romance com um hóspede, o homem maltratado no trabalho que mostra-se um agressor em casa, a mãe que quer impor o talento dos filhos, a tentativa de salvar um alcoólatra pela conversão religiosa, o ciúme de um homem diante de um rival impossível de competir.

Cada história tem sua riqueza e muitas vezes não é nem uma história, apenas um retrato de uma cena, por vezes da banalidade no ser humano. Um mergulho na nossa própria natureza e nas nossas falhas. O catolicismo é retratado como a moralidade de certa forma opressora que vigia nossos passos, um catolicismo presente em todos os contos.

Dubliners é um livro sobre Dublin, sobre sua sociedade, sobre o século passado e sobre o ser humano. Tudo ao mesmo tempo. Por isso é um clássico, por isso não fica restrito à sua época. Dubliner é um livro sobre cada cidade do mundo, sobre cada um de nós, sobre o que o homem tem de universal. É um conjunto de instantâneos sobre o ser humano.

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Band of Brothers(2001)


Band of Brothers é uma das melhores obras já produzida pela televisão. A saga de uma companhia de paraquedistas americanos na segunda guerra mundial é um espetáculo artístico, um convite à reflexão e uma constatação da insanidade humana.

Os soldados da Companhia Easy são pessoas comuns que saíram de suas casas para enfrentar o horror dos campos de batalha da II Guerra Mundial. São pessoas com virtudes e falhas, capazes de amar e odiar. Na guerra encontram o palco para mostrar com intensidade o que são capazes, para o bem e para o mal.

Ver as paisagens maravilhosas da Europa serem devastadas pela matança generalizada é de estarrecer. Como chegamos a este ponto? Como foi possível que todo aquele terror acontecesse? Como foi possível viver no meio daquele caos?

Band of Brothers tem o mérito de não se prender a nenhum personagem, todos são heróis e vilões, todos são absurdamente humanos. O desespero em ver um companheiro atingido, a capacidade de enfrentar seu próprio medo para salvar uma vida, a luta moral contra o ódio que tenta tomar conta da própria alma, a melancolia dos fugazes momentos de paz no meio do conflito. Tudo isso é mostrado com rara beleza. Assim como a insanidade.

Algumas cenas ficam para sempre na memória. Um soldado desesperando cavando um buraco na neve para se esconder durante a pausa dos bombardeios de Bastogne, o desespero de um jovem médico em conseguir suprimentos no meio do combate, uma delicada estória de um amor impossível em um hospital militar, o colapso de um líder diante da perda de seus subordinados. Como não se comover com músicos alemães tocando Beethoven no meio de uma cidade devastada? Ou com a constatação do horror nazista dos campos de concentração?

Até a volta para casa é penosa, como retomar uma vida normal? Como esquecer um horror de tamanha intensidade? Como entender até que ponto o homem é capaz de chegar? Como entender uma maldade sem limites?

Band of Brothers não é uma estória de guerra. É uma estória do ser humano. É uma estória daqueles que pagam o preço da insensatez de outros, de pessoas comuns que tentam sobreviver no horror. Mostra o preço que se pagou para reconquistar uma liberdade perdida, para enfrentar a vontade de poder que levou um povo, o mais civilizado da Europa, a acreditar que tinha a chave para uma nova sociedade.

Aqueles homens que pisaram no solo europeu para defender um princípio são heróis, independente do que fizeram. São heróis por terem enfrentado algo inimaginável. Um dos personagens pergunta no final como conseguiria transmitir o que tinha passado. Como explicar para quem não tinha estado lá? Como fazer alguém entender o que só pode ser vivenciado?

Ao final, o verdadeiro Winters conta que uma vez seu neto perguntou se tinha sido um herói. Respondeu que não, mas "que tinha servido em uma companhia de heróis". Esta é a estória de Band of Brothers, de uma companhia de heróis.

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sábado, fevereiro 07, 2009

What is History? - Edward Carr

What is History é o livro do historiador britânico Edward Carr sobre suas considerações a respeito do papel do historiador e o significado da história. O livro é curto mas apresenta muitas idéias sobre o estudo da história.

O Historiador e seus fatos.

Carr argumenta que o historiador é necessariamente seletivo pois seu trabalho inicia com a seleção dos fatos que considera relevantes para seu estados. Nega a objetividade dos fatos por estes não poderem existir independentes da interpretação dos historiadores.

O passado só pode ser visto pelos olhos do presente; estão sempre relatados pelos olhos de quem o registrou. Carr condena a crença na objetividade da história resumida no argumento que a história mostra "o que realmente aconteceu". Segundo ele, isto é impossível, história significa necessariamente interpretação.

O historiador começa com a seleção de fatos e a interpretação dentro da concepção em que a seleção foi realizada. A história é um processo contínuo de interação entre o historiador e seus fatos, um diálogo entre presente e futuro.

Sociedade e Indivíduo

Carr defende que o indivíduo é inseparável da sociedade em que vive. Todo ser humano é moldado pela sociedade e que os indivíduos podem ser estudados a partir do estudo da sociedade em que vivem.

É uma visão determinística. A sociedade determina a ação humana, o homem é um fenômeno social, assim como o historiador. Para compreender a história é preciso levar em conta o contexto social do fato histórico e o contexto social do historiador que escreveu sobre ele, pois este também é um produto da sociedade em que vive.

Carr rejeita o papel do acaso na história, a possibilidade que se o tempo voltasse o indivíduo poderia ter tomado outra decisão. Para ele, se as causas não mudassem, a ação humana teria que ser necessariamente a mesma.

Na existe, portanto, distinção entre a visão do indivíduo e o membro de um grupo social. O indivíduo sempre será um membro da sociedade.

História, Ciência e moralidade

Carr defendia o estudo da história como uma ciência pois seria baseada no mesmo processo científico das ciências naturais: a formulação de hipóteses e sua confirmação pela observação científica. Segundo ele, a reação a esta abordagem encontrava-se resumida nos seguintes pontos:
  1. A história lida apenas com a unidade, não o geral
  2. A história não apresenta lições
  3. A história não consegue prever acontecimentos
  4. É necessariamente subjetiva
  5. Envolve questões de religião e moralidade
Carr refuta todos estes argumentos. A história é construída através da generalização da unicidade, buscando o que existe em comum nos acontecimentos. A compreensão do passado é capaz de apresentar lições para o futuro através desta generalizações e até mesmo fazer a previsão de acontecimentos. Refuta a idéia de que a ciência seja completamente objetiva pois no processo científico há uma necessária interação entre sujeito e objeto.

O historiador não pode realizar julgamentos morais sobre os acontecimentos históricos, principalmente a vida privada dos indivíduos. Principalmente se for baseado em valores abstratos que estariam fora do tempo e espaço. A única hipótese de julgamento moral seriam baseados nos valores da época que aconteceu o fato.

Na verdade, Carr rejeita e existência de valores absolutos, que existiriam independente da sua época histórica. Para ele, todo o valor tem necessariamente raízes históricas.

Causas na História

O estudo da história é um estudo das causas. Mais importante do que perguntar "o que?" deve-se perguntar o "por que?". O homem está sujeito a leis ou princípios naturais de racionalidade. Qualquer ação sua possui uma causa racional.

O historiador, ao estudar um fato histórico, depara-se com várias causas. Seu trabalho é selecionar e agrupar estas causas de acordo com a importância e influência de cada uma. A história não acontece por acidente, tudo tem uma causa. Toda ação do homem possui uma causa possível de ser afirmada. As causas acidentais não podem ser generalizadas e portanto não dizem respeito à história.

História como progresso

A história tornou-se no século XX o progresso ao redor da busca da perfeição do homem sobre a Terra. A essência do homem como ser racional é o desenvolvimento de sua capacidade de acumular a experiência das gerações passadas.

Carr recorre a Hegel e Marx para defender suas idéias da história como um progresso da humanidade, como um processo de constante superação e compreensão de si mesma. O homem moderno é capaz de compreender a si mesmo e o processo histórico de forma inédita e essa é sua maior marca.

O horizonte alargado

O século XX teve como característica um profundo processo de mudança marcado por uma intensa revolução social. Homens como Marx, Lenin e Freud deram a chave para compreender a própria consciência humana e seu sentido histórico.

O historiador não está fora de seu tempo histórico e o mundo expandiu-se como nunca antes. A intensa revolução tecnológica levou o homem a compreender que era possível aprofundar seu domínio sobre o ambiente e reformar a sociedade através da aplicação de métodos racionais. A história deixou de ser a história das elites.

Carr rejeita o tradicionalismo no estudo da história pois o mundo estaria em mudança constante, assim como a própria história. A compreensão da história estariam em constante evolução pois estaria relacionada com o presente em constante evolução.

Considerações

O destino me colocou lendo ao mesmo tempo duas obras interessantíssimas, uma de certa forma contestando a outra. Um foi este de Carr, outro é "A Traição dos Intelectuais" de Julien Benda.

A rejeição a existência de valores fora do tempo e espaço coloca automaticamente Carr no retrato que Benda faz dos intelectuais que trairiam os valores do intelectual, justamente defender a existência de valores absolutos, válidos para todas as épocas, valores que resumia na justiça, verdade e razão.

Carr defende que não existe a verdade, apenas interpretação sobre os fatos acontecidos, apenas a visão particular do historiador. A história é necessariamente subjetiva e quanto o mais o historiador tiver consciência disso, melhor será seu trabalho.

O que me incomoda mais na visão de Carr é a redução do papel do indivíduo, a sua absorção pela sociedade. Acredito que o homem é capaz de decisões irracionais, que é capaz de contrariar o próprio bom senso. Mais do que isso, é capaz de se colocar acima de seu tempo histórico. Acreditar, como Carr, que existe uma causa racional para todas as suas ações me parece distorcer a realidade, afastar-se da verdade.

Sua defesa da ausência do julgamento moral também me parece uma auto-defesa, já que defendeu um regime totalitário e profundamente amoral, a União Soviética. Sim, segui seu próprio conselho de estudar o historiador e ver de onde estava vendo a história. Neste ponto estava absolutamente certo. O historiador que Carr descreve é justamente o intelectual traidor de Benda, aquele que se coloca a serviço da utilidade prática, que escreve a história a partir de suas próprias idéias. Nada poderia estar mais afastado do ideal socrático de busca da verdade. O historiador de Carr não quer buscar a verdade, quer provar que está certo.

Na sua defesa do estudo da história nos mesmos métodos da ciência, particularmente natural, Carr apresenta os motivos que levariam os cientistas a rejeitar seu ponto de vista e refuta-os. Concordo com Carr nestes argumentos, mas ao meu ver ele esquece a principal característica que afasta a história deste tipo de ciência: a impossibilidade de reproduzir experimentalmente. A história é sim uma ciência, mas deve ter seus próprios métodos. Parece-me um paradoxo que ao mesmo tempo que defenda a subjetividade da história, deseja que esta seja considerada com a mesma objetividade do método científico experimental.

O livro de Carr serve para ter uma boa base dos cuidados que se deve ter ao ler um livro de história, justamente para evitar assumir o ponto de vista do autor como realidade, principalmente se este esteve engajado na defesa de algum ideal.

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Now playing: Capital Inicial - Algum Dia (Ao Vivo)
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quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Voando pelo Haiti


Ontem fomos ver as obras na cidade de Jacmel e uma futura em Port Salut. Fomos de helicóptero. A viagem durou 20 minutos até Jacmel, depois 50 até Port Salute e finalmente a volta para Porto Príncipe levou um pouco mais de uma hora. Ou seja, voamos um bocado.

Uma das coisas que me chamou atenção é que o helicóptero parecia se deixar levar pelo vento. Talvez fosse muito leve. Um colega comentou mais tarde que ele voava de lado, e a impressão era esta mesmo. Havia hora que ele recebia uma "lufada" de vento e sacudia um pouco.

Estava no meio das minhas divagações quando reparei no nome do piloto. Chamava-se Vendaval. Ri com meus botões. Como um nome desses a piada já vinha pronta! Um piloto chamado Vendaval só poderia chamar o vento, não? Ainda estava rindo quando resolvi checar o outro piloto.

Chamava-se Ícaro...

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Now playing: The Band - The Night They Drove Old Dixie Down
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terça-feira, fevereiro 03, 2009

Retomando o Haiti...

Faz tempo que não escrevo sobre as coisas aqui no Haiti.

Com o passar do tempo, vamos formando nossas rotinas. Não apenas as rotinas de trabalho, mas as rotinas pessoais também. A seqüência do acordar, a hora do almoço, as atividades depois do jantar, até mesmo os finais de semana. Aquele aspecto de novidade começa a desaparecer. Já conhecemos melhor o pessoal da Minustah, os haitianos e até mesmo os companheiros de trabalho.

Começamos a ter idéia do que esperar de qualquer um. Aqui este aprendizado é intensivo. Enquanto normalmente levaríamos um certo tempo para nos conhecer melhor, entrar em contato com aspectos que nos desagradam no outro, no Haiti isso acontece muito rápido. A convivência é intensa, dia e noite, todos os dias da semana.

O Rodrigo comentou isso hoje. Aqui é um exercício de paciência. Não temos como nos isolar, como tratar apenas de assunto profissionais com o outro. Temos que conviver com suas manias, do mesmo jeito que ele convive com as nossas. Muitas vezes o conflito fica latente. Uma tensão se cria e a relação azeda. Nesse aspecto, acho que os homens são mais fáceis de lidar. Um ambiente desses, só com mulheres, talvez fosse muito mais complicado.

Nada contra as mulheres, mas elas possuem a tendência de levar as coisas mais a sério e são mais sensíveis. De uma maneira geral é mais fácil para o homem passar por cima de certas coisas, relevar. Não foram poucas as mulheres que já me disseram que é muito mais fácil trabalhar com homens, mas já divaguei demais.

Nossas atividades estão correndo bem, com alguns contratempos normais da engenharia. Equipamentos que quebram, serviços que não ficam como se esperava. Nada que afete o todo, no geral estamos cumprindo bem as missões que chegam. Os serviços são simples, nada que nosso pessoal não esteja acostumado a fazer no Brasil.

A diferença, e o aprendizado, é realmente esta convivência. Aos 35 anos, viver nessa coletividade não é fácil, mas é muito interessante. Passamos a entender mais o outro e paradoxalmente, passamos a entender mais a nós mesmos.

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Now playing: The Zombies - Brief Candles
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Consegui!

Ontem assisti apenas um capítulo de "The Nanny"! O problema dos dvds de seriado de sitcom é conseguir assistir um só. Ainda mais quando os dvds estão contados para a temporada no Haiti. Já comprometi boa parte do mês de março...

Assisti este sitcom na televisão em um momento muito especial da minha vida. Estava morando no Rio, cursando o IME, tomando novos rumos. As diabrices da babá de voz anasalada divertiram-me muito neste período. Rever os episódios hoje me faz voltar um pouco no tempo, recordar um pouco daqueles dias, refrescar um pouco a memória.

Outro que tenho saudades de assistir é "Spin City". Eram os meus favoritos daquela época. Sempre tive preferência absoluta pelas comédias.

Não sei se é impressão minha mas as comédias estão mais raras nos dias de hoje. Reflexo de um mundo mais cinza, mais sério. João Pereira Coutinho defende que o humor é uma forma mais profunda de compreender o ser humano. Talvez tenha razão.

Por acaso li uma frase atribuída a um poeta italiano chamado Ugo Foscolo: "Ria em abundância, pois a seriedade sempre foi uma característica dos impostores".

Minha esposa não gosta da "The Nanny". Diz que é muito forçado; não gosta daquelas risadas ao fundo, típica dos sitcom. Pode ser que tenha razão, mas as minhas risadas continuam vindo com uma naturalidade impressionante.

Ando lendo coisas muito sérias, que por vezes causam angústia. The Nanny é um antídoto. Lembra que devemos rir, que existem coisas leves na vida. Que não devemos levar tudo a sério.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Veludo Azul (1986)

Blue Velvet

Veludo Azul é antes de tudo uma estória de amor. Contardo Calligaris escreveu um artigo uma vez defendendo que as estórias de amor mais verossímeis eram as de aventura e não os romances. Estes terminavam sempre no momento que deveria iniciar, o tal "e viveram felizes para sempre". A aventura, aquela em que os protagonistas entre tiros e magias encontram um tempo para um ato de amor seriam mais reais, pois o amor se constrói e se prolonga nas nossas aventuras. Claro que não são tiros e múmias, mas umas férias na praia, um filho, a compra de um carro.

Jeffrey retorna a sua pequena cidade e depara-se com uma orelha humana no meio de um descampado. Leva até um policial, amigo de seu pai que recém enfartara, e no retorno para casa é abordado por Sandy, a filha do policial. Ela lhe conta coisas do caso e ele resolve investigar mais.

Jeffrey teria entrado na aventura sem Sandy? Provavelmente não. O que visualizou, mesmo que inconsciente, foi a possibilidade de viver uma aventura com ela. De outra forma não teria a menor chance, ela tinha namorado. A própria Sandy não cansa de repetir ao longo do filme: "eu nunca deveria ter te colocado nisso...". Ela foi o disparo para a investigação de Jeffrey. Mais do que uma aventura, ele a arrastou para um mistério. Em certo momento ele declara à moça, ele gostava de mistério, e ela era um mistério.

Foi assim que entrou em uma estória caótica envolvendo um bandido perigoso e alucinado, Frank, e uma cantora. Pode ser uma metáfora para a vida. A falta de amor torna o mundo estranho, sem sentido. Sandy diz isso a ele ao falar de um sonho que teve, o amor traz a luz ao mundo. Por isso as cenas envolvendo Frank e Dorothy são sempre escuras, o bandido faz questão de apagar sempre as luzes. "E veio a escuridão" diz ele ao libertar seus instintos.

O que Lynch mostra em seu filme é que existem sempre obstáculos em nossas vidas, mas o amor é um guia seguro para atravessá-la e manter a sanidade. Jeffrey aposta o tempo todo em Sandy e se agarra a esta certeza. Sem o amor, o mundo se torna estranho. E nos corrompe como pessoa. É o que acontece com Dorothy, forçada a conviver com Frank, inicia o processo da própria degradação. Ela constata ao dizer a Jeffrey "ele me passou sua doença".

Jeffrey e Sandy constroem sua estória de amor no meio do caos, do mundo estranho que os circula. Apostam um no outro. Magoam-se, perdoam-se, crescem um com o outro. Mais do que uma estória de enamoramento, é a estória da própria relação. O depois do "e viveram felizes para sempre".

Para passar o tempo

Joguinho online interessante sobre adivinhação de personagens. Algumas vezes ele realmente me surpreendeu!


Akinator

domingo, fevereiro 01, 2009

Pensamento: princesa Amidala

“So this is how liberty dies, with thunderous applause”.

(Star Wars, Ep III)

Culto ao corpo

Em todas as épocas a humanidade admirou uma certa forma de beleza no corpo humano. Os gregos exaltaram o corpo atlético masculino, na Idade Média as mulheres mais "generosas" despertavam poetas e assim por diante. No entanto, a humanidade nunca antes havia se convencido que era praticamente um dever buscar a forma ideal para o seu próprio corpo.

Com o advento da comunicação em massa, o homem foi submetido ao ideal de beleza como nunca antes. Este ideal está nos filmes, na apresentadora do jornal, no programa infantil, na música, nas propagandas de perfume, no culto a celebridades. Nunca a beleza __ beleza segundo os critérios de nossa época __ foi tão exaltada e, principalmente, divulgada.

O que antes era admirado na arte em suas variadas formas, mas visto como algo intangível, agora se tornou um objetivo, pois ao mesmo tempo o homem moderno foi convencido que tudo é possível se ele assim o quiser. Desta forma, ele entrou em uma insana busca pelo corpo perfeito. A moderação não é um traço dos dias atuais.

As academias de ginásticas vivem lotadas, vídeos são vendidos como água, assim como livros e remédios. A medicina foi convocada para salvar o homem de si mesmo pois, para piorar, o homem nunca teve acesso a tantos alimentos diferentes. O que antes era alimento de um nobre, hoje está no prato da maioria das pessoas. Em um mundo dominado por angústias de todo o tipo, a alimentação tornou-se um refúgio. A intemperança é uma das marcas da nossa sociedade. Gostamos das coisas em excesso.

A quantidade de conhecidos que escolheram se submeter a cirurgias de redução de estômago assusta-me. Recentemente tive notícias de um destes. Vive correndo para o banheiro para vomitar. A cirurgia pode ter reduzido o tamanho de seu estômago, mas não lhe deu a temperança.

É certo que o homem precisa cuidar da sua saúde. Engordar demais pode prejudicá-la, sobrecarregar o funcionamento do próprio corpo. Fazer ginática, alimentar-se com moderação, são coisas que realmente devem ser buscadas. Mas até que ponto? Passar horas todos os dias em uma academia? Ficar diante do espelho buscando músculos a mais e celulites a menos? O que está nos guiando? A busca da saúde ou a vaidade? Aquela é importante para nós, esta está na raiz dos pecados do homem, como já dizia Santo Agostinho.

O homem nunca foi tão vaidoso de sua condição. O que antes era privilégidos de poucos, hoje foi dissiminado pela massa. Somos vaidosos de nossos bens, de nosso corpo, de nossa beleza e até mesmo de nossos pecados. Sim, o pecado também tornou-se um motivo para vaidade. O que antes era visto com certa vergonha, hoje é propagado, exaltado. O homem ganhou o direito de ter orgulho de suas falhas.

Durante todas as épocas o homem teve seus modelos de beleza. A diferença é que hoje a vaidade o leva a crer que é seu dever buscar este modelo, tornar-se este modelo. Vale tudo. Dietas radicais, massacre de ginásticas, um bom bisturi. Talvez a imagem que melhos expresse esta obcessão seja a de Bridget Jones. Depois de dois diários buscando o peso perfeito, enfim a neurótica inglesinha conseguiu. O peso ideal. Colocou uma roupa para ir em um jantar e mostrar com orgulho sua nova forma. Lá chegando foi surpreendida. Todos comentaram como ela estava pálida, como estava muito magra, estaria doente? Estaria deprimida? Precisava de ajuda? Um psicólogo?

Bridget voltou para casa decepcionada. E tratou de comer. A vida é muito curta para buscar ideais de beleza como se fosse um dever moral. Não é. Pelo menos a beleza física. Esta sempre vem melhor quando se torna um reflexo de nossa própria alma. Algo que o homem parece ter esquecido.

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Now playing: The Band - Rag Mama Rag
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