sábado, fevereiro 28, 2009

A Doll House - Ibsen

Um dos assuntos que me interessam profundamente é o casamento. Sou fascinado pela dinâmica de um casamento, essa relação que duas pessoas constroem ao longo da vida, uma relação que deveria ser marcada pela exclusividade e eternidade, o que muitas vezes não acontece.

Duas pessoas diferentes optam por unir suas vidas e enfrentar o destino juntos. São duas estórias de vida, duas personalidades. Muitas vezes mal se conhecem de verdade, até porque o casamento ocorre geralmente em uma fase em que a pessoa ainda está conhecendo a si mesma. Não se trata apenas do conhecer o outro, mas conhecer a si mesmo. Em um bom casamento, elas fazem as duas coisas ao mesmo tempo e buscam no outro o apoio necessário para enfrentar seus demônios internos.

Sim, porque conhecer a si mesmo significa ter a coragem de mergulhar no inferno e retornar, significa tomar contato com o que Ortega Y Gasset chamava de "fundo insubornável do ser", nossa profundeza mais íntima, aquela que não admite a ilusão, a mentira. Esta viagem ao nosso íntimo muitas vezes não é bonita e deixa marcas; mas é necessária para que sejamos capazes de caminhar na direção da compreensão da realidade como ela é.

Confesso que li com todo o cuidado esta peça de Ibsen. Sabia pela leitura de Intellectuals, de Paul Johnson, que Ibsen não acreditava no casamento; que para ele o conflito entre duas pessoas diferentes presas por esta amarra artificial tenderia ao conflito inevitável. Johnson entretanto ressaltou que A Doll House era uma obra prima. E foi assim, com cuidado, que li a peça de Ibsen.

O autor me desarmou completamente. A peça é irresistível. Terminei o último ato de uma só vez, fechei o livro e fiquei olhando para o além, com aquele sentimento de ter me deparado com algo de rara beleza. Como um autor consegue mexer tanto com o sentimento de um leitor? Como consegue nos levar a este grau de arrebatamento?

Como o sentimento por um personagem pode passar de desprezo a pena, de pena para admiração, de admiração para simpatia até nossa rendição completa e o apaixonamento? Como nossa visão sobre um acontecimento pode se transformar tanto a cada página? Como o que julgamos idiota torna-se sábio e o sábio torna-se estupidez? Como personagens podem ser tão humanos?

A Doll House é uma destas obras que nos fazem pensar e, principalmente, nos mudam de alguma forma. Quando terminei o livro, fiquei refletindo sobre o meu próprio casamento. Ibsen pode ter tido o objetivo de expor as entranhas de um casamento considerado perfeito, mas para mim, o que ele mostrou foi um vigoroso alerta. O auto-conhecimento é uma necessidade do homem, um casamento tem que respeitar esta necessidade em cada uma de suas partes, mais que isso, um tem que apoiar o outro neste viagem.

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