sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Marília de Dirceu - Tomás Antônio Gonzaga

Mas tendo tantos dotes da ventura,
Só apreço lhes dou, gentil Pastora,
Depois que teu afeto me segura,
Que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho, que cubra monte, e prado;
Porém, gentil Pastora, o teu agrado
Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.


Marília de Dirceu é uma das mais importantes obras da literatura brasileira do período colonial. Situada dentro do período do arcadismo, mas já com vislumbres do romantismo, Gonzaga utiliza a figura de um pastor para declarar seu amor por Maria Dorotéia, agora transformada em Marília.

A obra é dividida em três partes.

Na primeira, o centro é Marília. Gonzaga consegue com muita sensibilidade idealizar a figura amada e declamar seu amor. Dirceu apaixona-se por Marília e esquece um amor antigo, transformando-se em um outro homem. A referência constante a antiguidade greco-romana, principalmente pela atuação do cupido, é uma das características do arcadismo.

Topei um dia
Ao Deus vendado,
Que descuidado
Não tinha as setas
Na impia mão.
Mal o conheço,
Me sobe logo
Ao rosto o fogo,
Que a raiva acende
No coração.


Gonzaga também mostra a urgência de seu amor pois o tempo passa depressa, coisa que descobriria logo ao ser preso e exilado pelos acontecimentos da inconfidência mineira.

Que havemos de esperar, Marília bela?
Que vão passando os florescentes dias?
As glórias, que vêm tarde, já vêm frias;
E pode enfim mudar-se a nossa estrela.
Ah! Não, minha Marília,
Aproveite-se o tempo, antes que faça
O estrago de roubar ao corpo as forças
E ao semblante a graça.

Tomás também mostra seu recio da velhice que se aproximava:

Assim também serei, minha Marília,
Daqui a poucos anos;
Que o impio tempo para todos corre.
Os dentes cairão, e os meus cabelos,
Ah! sentirei os danos,
Que evita só quem morre.


A segunda parte Tomás escreveu provavelmente quando estava preso, e reflete a impossibilidade de estar junto com seu amor.

Nesta cruel masmorra tenebrosa
Ainda vendo estou teus olhos belos,
A testa formosa,
Os dentes nevados,
Os negros cabelos.

A exaltação do amor dá lugar a melancolia. Cada vez mais o poete percebe que não verá mais sua amada e se concentra no seu próprio julgamento. Interessante perceber que Gonzaga não tinha simpatia por Tiradentes e não tinha participado ativamente do movimento, embora o tivesse apoiado. Por fim termina exilado.

Na segunda parte, Marília já mal aparece. Gonzaga já encontrava-se em seu caminho para Moçambique e reflete sobre temas mais abrangentes, principalmente nos sonetos.

Obrei quando o discurso me guiava,
Ouvi aos sábios quando errar temia;
Aos Bons no gabinete o peito abria,
Na rua a todos como iguais tratava.

Julgando os crimes nunca os votos dava
Mais duro, ou pio do que a Lei pedia;
Mas devendo salvar ao justo, ria,
E devendo punir ao réu, chorava.

Não foram, Vila Rica, os meus projetos
Meter em férreo cofre cópia d’ouro
Que farte aos filhos, e que chegue aos netos:

Outras são as fortunas, que me agouro,
Ganhei saudades, adquiri afetos,
Vou fazer destes bens melhor tesouro.
Marília de Dirceu é uma das obras mais editadas da língua portuguesa e tem escondido em suas poesias muitos segredos sobre a vida e a compreensão do mundo. Uma vez Bruno Tolentino afirmou que quando foi na Rússia na década de 50, o terceiro poeta mais lido naquele país era justamente Tomás Antônio Gonzaga. Mesmo naquele meio científico soviético, Gonzaga conseguira penetrar com o amor de um pastor. Se os soviéticos tinham admiração por Gonzaga, achei que era minha obrigação ler também!

Mais uma dívida que tenho com o saudoso Tolentino!

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