sábado, fevereiro 07, 2009

What is History? - Edward Carr

What is History é o livro do historiador britânico Edward Carr sobre suas considerações a respeito do papel do historiador e o significado da história. O livro é curto mas apresenta muitas idéias sobre o estudo da história.

O Historiador e seus fatos.

Carr argumenta que o historiador é necessariamente seletivo pois seu trabalho inicia com a seleção dos fatos que considera relevantes para seu estados. Nega a objetividade dos fatos por estes não poderem existir independentes da interpretação dos historiadores.

O passado só pode ser visto pelos olhos do presente; estão sempre relatados pelos olhos de quem o registrou. Carr condena a crença na objetividade da história resumida no argumento que a história mostra "o que realmente aconteceu". Segundo ele, isto é impossível, história significa necessariamente interpretação.

O historiador começa com a seleção de fatos e a interpretação dentro da concepção em que a seleção foi realizada. A história é um processo contínuo de interação entre o historiador e seus fatos, um diálogo entre presente e futuro.

Sociedade e Indivíduo

Carr defende que o indivíduo é inseparável da sociedade em que vive. Todo ser humano é moldado pela sociedade e que os indivíduos podem ser estudados a partir do estudo da sociedade em que vivem.

É uma visão determinística. A sociedade determina a ação humana, o homem é um fenômeno social, assim como o historiador. Para compreender a história é preciso levar em conta o contexto social do fato histórico e o contexto social do historiador que escreveu sobre ele, pois este também é um produto da sociedade em que vive.

Carr rejeita o papel do acaso na história, a possibilidade que se o tempo voltasse o indivíduo poderia ter tomado outra decisão. Para ele, se as causas não mudassem, a ação humana teria que ser necessariamente a mesma.

Na existe, portanto, distinção entre a visão do indivíduo e o membro de um grupo social. O indivíduo sempre será um membro da sociedade.

História, Ciência e moralidade

Carr defendia o estudo da história como uma ciência pois seria baseada no mesmo processo científico das ciências naturais: a formulação de hipóteses e sua confirmação pela observação científica. Segundo ele, a reação a esta abordagem encontrava-se resumida nos seguintes pontos:
  1. A história lida apenas com a unidade, não o geral
  2. A história não apresenta lições
  3. A história não consegue prever acontecimentos
  4. É necessariamente subjetiva
  5. Envolve questões de religião e moralidade
Carr refuta todos estes argumentos. A história é construída através da generalização da unicidade, buscando o que existe em comum nos acontecimentos. A compreensão do passado é capaz de apresentar lições para o futuro através desta generalizações e até mesmo fazer a previsão de acontecimentos. Refuta a idéia de que a ciência seja completamente objetiva pois no processo científico há uma necessária interação entre sujeito e objeto.

O historiador não pode realizar julgamentos morais sobre os acontecimentos históricos, principalmente a vida privada dos indivíduos. Principalmente se for baseado em valores abstratos que estariam fora do tempo e espaço. A única hipótese de julgamento moral seriam baseados nos valores da época que aconteceu o fato.

Na verdade, Carr rejeita e existência de valores absolutos, que existiriam independente da sua época histórica. Para ele, todo o valor tem necessariamente raízes históricas.

Causas na História

O estudo da história é um estudo das causas. Mais importante do que perguntar "o que?" deve-se perguntar o "por que?". O homem está sujeito a leis ou princípios naturais de racionalidade. Qualquer ação sua possui uma causa racional.

O historiador, ao estudar um fato histórico, depara-se com várias causas. Seu trabalho é selecionar e agrupar estas causas de acordo com a importância e influência de cada uma. A história não acontece por acidente, tudo tem uma causa. Toda ação do homem possui uma causa possível de ser afirmada. As causas acidentais não podem ser generalizadas e portanto não dizem respeito à história.

História como progresso

A história tornou-se no século XX o progresso ao redor da busca da perfeição do homem sobre a Terra. A essência do homem como ser racional é o desenvolvimento de sua capacidade de acumular a experiência das gerações passadas.

Carr recorre a Hegel e Marx para defender suas idéias da história como um progresso da humanidade, como um processo de constante superação e compreensão de si mesma. O homem moderno é capaz de compreender a si mesmo e o processo histórico de forma inédita e essa é sua maior marca.

O horizonte alargado

O século XX teve como característica um profundo processo de mudança marcado por uma intensa revolução social. Homens como Marx, Lenin e Freud deram a chave para compreender a própria consciência humana e seu sentido histórico.

O historiador não está fora de seu tempo histórico e o mundo expandiu-se como nunca antes. A intensa revolução tecnológica levou o homem a compreender que era possível aprofundar seu domínio sobre o ambiente e reformar a sociedade através da aplicação de métodos racionais. A história deixou de ser a história das elites.

Carr rejeita o tradicionalismo no estudo da história pois o mundo estaria em mudança constante, assim como a própria história. A compreensão da história estariam em constante evolução pois estaria relacionada com o presente em constante evolução.

Considerações

O destino me colocou lendo ao mesmo tempo duas obras interessantíssimas, uma de certa forma contestando a outra. Um foi este de Carr, outro é "A Traição dos Intelectuais" de Julien Benda.

A rejeição a existência de valores fora do tempo e espaço coloca automaticamente Carr no retrato que Benda faz dos intelectuais que trairiam os valores do intelectual, justamente defender a existência de valores absolutos, válidos para todas as épocas, valores que resumia na justiça, verdade e razão.

Carr defende que não existe a verdade, apenas interpretação sobre os fatos acontecidos, apenas a visão particular do historiador. A história é necessariamente subjetiva e quanto o mais o historiador tiver consciência disso, melhor será seu trabalho.

O que me incomoda mais na visão de Carr é a redução do papel do indivíduo, a sua absorção pela sociedade. Acredito que o homem é capaz de decisões irracionais, que é capaz de contrariar o próprio bom senso. Mais do que isso, é capaz de se colocar acima de seu tempo histórico. Acreditar, como Carr, que existe uma causa racional para todas as suas ações me parece distorcer a realidade, afastar-se da verdade.

Sua defesa da ausência do julgamento moral também me parece uma auto-defesa, já que defendeu um regime totalitário e profundamente amoral, a União Soviética. Sim, segui seu próprio conselho de estudar o historiador e ver de onde estava vendo a história. Neste ponto estava absolutamente certo. O historiador que Carr descreve é justamente o intelectual traidor de Benda, aquele que se coloca a serviço da utilidade prática, que escreve a história a partir de suas próprias idéias. Nada poderia estar mais afastado do ideal socrático de busca da verdade. O historiador de Carr não quer buscar a verdade, quer provar que está certo.

Na sua defesa do estudo da história nos mesmos métodos da ciência, particularmente natural, Carr apresenta os motivos que levariam os cientistas a rejeitar seu ponto de vista e refuta-os. Concordo com Carr nestes argumentos, mas ao meu ver ele esquece a principal característica que afasta a história deste tipo de ciência: a impossibilidade de reproduzir experimentalmente. A história é sim uma ciência, mas deve ter seus próprios métodos. Parece-me um paradoxo que ao mesmo tempo que defenda a subjetividade da história, deseja que esta seja considerada com a mesma objetividade do método científico experimental.

O livro de Carr serve para ter uma boa base dos cuidados que se deve ter ao ler um livro de história, justamente para evitar assumir o ponto de vista do autor como realidade, principalmente se este esteve engajado na defesa de algum ideal.

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2 comentários:

Alexandra disse...

Agora vc tem que ler o Richard Evans... muita coisa mudou entre um e outro...

Eu ampliaria a sua conclusao: "O livro de Carr serve para ter uma boa base dos cuidados que se deve ter ao ler um livro de história, justamente para evitar assumir o ponto de vista do autor como realidade, principalmente se este esteve engajado na defesa de algum ideal."

Isso se aplica não só aos livros de história, como a qualquer livro...

Karllos disse...

Jota, gostei das suas considerações e da maturidade intelectual ao comentar "What is History". Desde a "Escola dos Annales" a interação entre as ciências sociais e a História tem contribuído para novas ramificações e estamos, em minha opinião, engatinhando. Concordo com sua colocação de que Carr defende-se, de certa forma, por ter emaranhando-se com um sistema abrupto e tão ruim quanto o capitalismo. Foi assim com o Milan Kundera, George Orwell e tantos outros intelectuais. No entanto, apesar de não concordar com toda a visão de Carr, concordo em absoluto com sua frase: ..."não há indicador mais significativo de uma sociedade do que o tipo de História que ela escreve ou deixa de escrever" (p. 79 - What is History - Carr - Ed. Paz e Terra - 1996). Abraço.