sábado, março 28, 2009

Para Ler como um Escritor(2006) - Francine Prose

Francine Prose é professora de criação literária, um curso superior que é muito difundido nos Estados Unidos e está começando a engatinhar aqui no Brasil. Com mais de 20 anos de magistério, Para Ler como um Escritor mostra um panorama do primeiro passo para se tornar um escritor: a leitura.

Ela reconhece que seu principal foco foram aqueles que gostam de literatura e sentem uma necessidade de começar a escrever, mas o livro serve também para escritores com mais experientes e amantes da literatura em geral. Francine tem como centro de sua obra o conceito que é preciso ler com atenção os clássicos para conseguir captar sua beleza. É um alerta contra a tendência de ler superficialmente um romance, o que um futuro escritor precisa é o que ela chamou de "close reading".

Um dos pontos interessantes do livro é que para ela não importa muito a trama, a estória em si, e sim como se conta esta estória. Ela confessa que abandonou o doutorado porque as discussões e trabalhos não tinham nada a ver com a literatura em si e sim com a mensagem do autor. Francine ama a literatura pela forma de contar uma estória, pela descrição dos personagens, pela riqueza de detalhes que um grande autor consegue colocar em uma simples frase.

Ao longo do livro vai citando exemplos, antigos e novos, de seus escritores favoritos. Tchekhov (o único que mereceu um capítulo inteiro), Kleist, Nobokov, Roth, Jane Austen, George Eliot e tantos outros. Para quem gosta de ler é uma reunião de exemplos impressionantes.

Mais do que ensinar a escrever, Francine Prose escreve um livro sobre o amor pela literatura e tenta mostrar que um escritor deve ser também um excelente leitor. A escrita começa sempre pela leitura.

O Leitor (2008)

Nós estamos tentando entender!

Assim Michael explode com um colega de seminário de direito, na Berlin de 1966, diante da sensibilidade exacerbada deste colega diante do julgamento de um grupo de mulheres, ex-guardas de campo de concentração, por crimes denunciados por uma sobrevivente. Michael demonstra o grande conflito que tortura sua alma, tentar entender como uja daquelas mulheres, que havia sido sua amante por um verão quando ele tinha 15 anos, podia ao mesmo tempo ser este anjo da morte.

Quase 10 anos antes, ele tinha se apaixonado por Hanna Schmitz e vivido um intenso caso de amor com uma peculiaridade, ela gostava que ele lesse para ela. Ao longo do verão, ele lia antes que fizessem amor e Hanna sentia intensamente as estórias que ele contava. Quando ela afirma que ele era muito bom leitor este ri, até então acreditava que não era bom em nada.

Uma paixão como este, em um jovem adolescente, deixa marcas permanentes. Para o resto da vida, Michael teria uma necessidade de dormir sozinho e uma incapacidade de se abrir para outros, o que pode ter causado o fracasso no seu casamento e o afastamento da filha.

Quando ele escuta a voz da amada, em um tribunal de crimes nazistas, é atingido por um raio. Cada resposta de Hanna o deixa desconcertado. Não, ela não nega os crimes nem procura justificá-los. No entanto fica evidente que em sua visão não havia nada de errado, pessoas chegavam nos campos, era preciso abrir lugar para elas. Chega perguntar ao juiz visivelmente perturbado: O que o senhor faria?

Lembrei de Eric Voegelin e suas idéias sobre a realidade. Para ele, o problema das ideologias era o enfrentamento da realidade. A realidade traz um intenso desconforto porque geralmente nos desafia, mostra que não temos a verdade como gostaríamos. Nesta hora podemos fazer o mergulho na realidade, como dizia Gasset ou ignorá-la em um processo de alienação.

Hanna Schmitz não era uma ideóloga nazista, apenas uma moça muito estranha que tinha uma vergonha gigantesca de ser analfabeta. Diante a ameaça de uma promoção na Siemens, o que provavelmente a obrigaria a escrever relatórios, achou o emprego perfeito como guarda da SS. Lá não precisava ler nada e ainda encontrava pessoas para ler para ela. Diante do crime que fazia parte procurou o refúgio da alienação. Ela não estava escolhendo pessoas para morrer, estava abrindo vagas para as novas que estavam chegando.

Hanna prefere ser condenada a prisão perpétua do que admitir que não sabia escrever. Michael, de posse da informação que poderia salvá-la, prefere guardá-la para si. Chega a tentar visitá-la, mas desiste na última hora e entrega-se ao amor de uma colega, na tentativa de virar esta página de sua vida.

Fica evidente que não consegue. O casamento termina, é incapaz de voltar à cidade onde morava, nem mesmo para o enterro do pai e procura se refugiar na ligação com Hanna através leitura. Passa a gravar em fita k7 várias obras e enviá-la na prisão. O gesto desconcerta a prisioneira que sente a necessidade de comunicar-se com ele, admitindo para si mesma sua incapacidade e tentar vencê-la. Através da leitura das fitas, começa a aprender a escrever e manha-lha cartas. Cartas que não são respondidas. Michael não quer contato com a Hanna do presente, quer manter uma ponte com a que amou, mergulhando na leitura dos livros. Ele também se aliena da realidade, do conflito de amar uma criminosa nazista.

O filme salta para 1988. Hannah, já idosa, está para ser libertada depois de 20 anos de prisão. Seu único contato com o mundo é Michael. Diante do apelo da assistente social, aceita ser responsável por ela, mesmo que relutante. Na prisão, uma semana antes de sua libertação, vai enfim visitá-la para comunicar os arranjos que fez. Diante um do outro, ela toca-lhe a mão, ele retira-a. Ela sente a rejeição. Seus arranjos são frios e mecânicos. Ele pergunta se ela pensa no passado, o passado nos campos de concentração. Ela diz que não. Michael busca em seu olhar, em seu gesto, qualquer sinal que ela tenha compreendido o papel que desempenhou. Talvez assim conseguisse voltar a amá-la, precisava de um sinal de humanidade. Ela não dá nenhum e se despedem, pela última vez.

Só depois de sua morte, quando fica sabendo que deixou tudo que tinha para a sobrevivente do holocausto que a denunciara é que Michael fica livre. Consegue perceber novamente a humanidade em Hanna e se permite chorar.

O Leitor é um filme que mostra o efeito de uma mulher experiente sobre um jovem de 15 anos, um efeito que pode ser devastador. Mais do que isso, explora a questão da culpa do horror nazista. Voegelin rejeitava a tese da culpa coletiva, para ele cada alemão fez sua escolha individual e eram responsáveis por ela, assim como Hanna. Michal teve que lidar com o conflito de amar alguém que contrariava tudo que tinha de valor, e este conflito o marcaria por toda sua vida até a libertação final, representada pela cena do cemitério em que começa, enfim, a contar a alguém tudo que viveu.

quinta-feira, março 26, 2009

Show: Somewere Back In Time - Iron Maiden

Entrei no mundo do rock pelo som do Iron Maiden. Era 1987, vivia em João Pessoa, começava a me interessar por música de fato, gravando músicas em fita k7, direto da FM, tentando encontrar rock no meio de uma enxurrada de forrós e outros ritmos nordestinos. Lembro que ficava com o botão de gravar acionado, junto com o pause, e de acordo com o anúncio do radialista começava a gravar. Por vezes desistia no meio da gravação e tinha que voltar a fita para o exato momento em que deveria inicar de novo. Coisas inimagináveis em tempos de cds e mp3.

Meus amigos faziam a mesma coisa e nos reuníamos para escutar nossas fitas. Meu primo, que morava no interior de Minas, em Leopoldina, costumava escutar muito Iron Maiden naquela época. Na tentativa de trazer algo de novo para nossas reuniões, para me sobressair no grupo, essas coisas de adolescentes, aproveitando a vinda de uma tia, pedi que gravasse uma fita de Iron Maiden e mandasse por ela. Foi assim que comecei a separar o joio do trigo no rock. Meus amigos não gostaram muito, acharam muito pesado; eu, por minha vez, escutando aquela fita inúmeras vezes enquanto fazia exercícios de matemática, apaixonava-me cada vez mais pelas guitarras, harmonias e batidas do Maiden. Batucava a versão ao vivo de Running Free constantemente enquanto fazia minhas multiplicações de polinômios, iniciando um hábito que nunca perderia, estudar com música.

1993. Parque Antártica. Estávamos lá eu, Cris, Fabiano e Trigo. Finalmente um show do Iron Maiden. Particularmente não gostava muito do álbum que estavam lançando, Fear of The Dark, pois não me parecia muito com o Maiden, mas nada disso importava. Era um show do Maiden! E foi excelente, embora tenha ficado ainda aquele sentimento que não foi o Live After Death, para mim o síntese do que seria um show da Donzela, afinal abrir um show com Be Quick or Be Dead era bem diferente das palavras de Churchil antes de Aces High.

No final do século fui em outro show do Iron, desta vez no Rio, junto com minha irmã e o Alan. O vocalista era Blaze Dailey e lançavam Virtual. Decepção completa. O Metropolitan definitivamente não era local para a banda que passava por visíveis problemas com seu vocalista, totalmente perdido no palco. Parecia que era realmente o fim da banda.

Ainda com esta imagem na cabeça, fui acompanhar meu filho no show do Iron em Brasília. Quando vi o set list na internet me espantei. Aces High? Seria possível? Rime of the Ancient Mariner? Children of the Damned? Era tudo que eu sempre quis assistir em um show do Iron Maiden em primeiro lugar!

E assim foi.

Iron Maiden é Iron Maiden. Finalmente eles nos brindaram com o show que sempre quisemos ver, com o palco reproduzindo Powerslave, Bruce usando máscaras, cantando The Trooper vestido como soldado inglês e empunhando sua bandeira, gelo seco para Rime of the Ancient Mariner. Era o Live After Death novamente! Era um presente para os antigos fãs. Era o velho (e novo) Maiden de volta.

Passei a noite escutando aquelas músicas que me acompanharam em muitos momentos de vida, bons e ruins. Aces High, 2 Minutes to Midnight, Children of the Damned, Rime of the Ancient Mainer, Powerslave, Wasted Years, The Number of the Beast. Todas tocadas como se fosse a primeira vez, como se fossem um bando de garotos no palco e nós um bando de adolescentes. E quer saber? Talvez seja isso mesmo, um bando de garotos tocando para um bando de adolescentes. Somewere back in time!

Além do Bem e do Mal - Nietzsche

Em Além do Bem e do Mal, Nietzsche vai aprofundar suas idéias sobre a moral, desenvolvidas em seu livro anterior, Assim Falou Zaratrusta.

Primeiro, o filósofo coloca em suspenso tudo que foi produzido anteriormente pela filosofia, principalmente no que se refere ao problema moral. Todos os filósofos ocidentais poderiam estar errados por tentar descobrir a verdade como sinônimo de sabedoria. Nietzsche argumenta que a sabedoria poderia estar na mentira e que a verdade poderia nem existir. Os juízos mais falsos seriam os mais importantes pois o homem não conseguiria viver sem a falsificação da realidade. A inverdade seria uma condição de vida e quem ousasse afirmar isso estaria se colocando além do bem e do mal. O que os filósofos colocavam como afirmação da moralidade eram apenas preconceitos próprios e isso incluía o próprio cristianismo, uma moral que enfraquecia o homem ocidental.

Nietzsche distinguia duas formas de moral. Uma, daqueles que tinham força para impor seus conceitos, era a moral dos senhores e baseava-se no que tornava o homem mais forte em relação ao seu semelhante como força, coragem, orgulho, vontade. A esta moral se opunha a moral dos escravos, daqueles que sofrem, que valorizava o sofrimento, a compaixão, a humildade. Uma moral que poderia ser bem resumido na crença cristã. Esta moral buscava sobretudo subjugar o homem mais forte contribuindo para o enfraquecimento do europeu.

O filósofo critica profundamente a religião que seria contra a natureza do homem e o impediria de realizar sua potencialidades e seu destino sobre a Terra. O homem precisaria superar a religião para conseguir viver além do bem e do mal e se realizar. O homem que conseguisse isso seria o super-homem e teria a vontade como expressão de sua moralidade, uma vontade que denominou vontade de poder. Este homem não se prenderia por noções de certo ou errado justamente por não existir esta diferença, apenas a tentativa dos escravos em domar sua própria força. “O essencial e inestimável em toda moral e o fato de que ela é uma prolongada coação”.

“O julgamento e a condenação morais constituem a vingança preferida dos espiritualmente limitados contra aqueles que são menos, também uma espécie de indenização por terem sido precariamente contemplados pela natureza e, por fim, uma ocasião de obterem espírito e se tornarem refinados :_ a malícia espiritualiza. No fundo, lhes faz bem ao coração que exista um critério diante do qual mesmo aqueles cumulados com os bens e os privilégios do espírito se tornem seus iguais __ eles lutam pela “igualdade de todos perante Deus” e quase chegam a necessitar da fé em Deus para tando”.

quarta-feira, março 25, 2009

Os Maias

Como é possível considerar O Primo Basílio como a obra-prima de Eça de Queirós? Não tem nem como comparar, "Os Maias" é simplesmente uma obra monumental. Agora entendo porque Machado de Assis, que entendia do riscado infinitamente mais do que eu, disse que Basílio era um cópia menor de Eugene Grandet (ou seria da Bovary?, ou das duas?). Mas deixemos Basílio de lado e vamos a "Os Maias".

A sociedade portuguesa retratada por Eça é uma aristocracia decadente, uma cópia inferior da inglesa, que lhe servia de inspiração. O autor reforçou bem este ponto usando palavras inglesas constantemente por seus personagens, principalmente os que almejavam se fazer notar na sociedade, como Dâmaso. Uma nova ordem começava a surgir inspirada pelos ideais de democracia e pela influência socialista que conquistava cada vez mais corações. Ao longo do livro, Eça retrata várias reuniões políticas em que aristocratas tentavam defender a velha ordem diante dos ideais que surgiam com Proudhome, Taine, Michelet e outros.

Carlos Maia vive nesta pertubação de querer abraçar o novo mas sem abandonar o velho. É uma aristocrata rico que tenta se convencer que pertence a nova ordem que se forma em Portugal. Tenta clinicar como médico, escrever um livro de medicina, tudo sem muito sucesso. Aos poucos vai assumindo seu papel na sociedade.

O abandono dos valores morais é evidente pelo afastamento de Deus e pela amoralidade de Carlos e seus amigos que divertem-se seduzindo mulheres casadas. Justificam seus atos ridicularizando os traídos. Em um momento impagável, João da Ega justifica a sedução da filha de uma padre casada com um homem rico dizendo que seu ato era, desta forma, duas vezes meritórios, pois atingia o clero e a aristocracia.

Eça consegue tanta realidade com seus personagens que não é difícil reconhecer várias situações que estivemos presentes ou vimos de perto. O asco que Carlos começa a sentir com a Condessa de Gouvarinho depois de terem se tornado amantes é um destes momentos. Assim como a sua tentativa de colocar toda a responsabilidade nas costas da amante que se tornara indesejada.

Acaba por imitar a tragédia de seu pai, adora pelo lado oposto. De reviravolta em reviravolta Carlos vai se confrontando com suas próprias escolhas e quando tudo parecia superado, até mesmo seus próprios preconceitos, é arrastado para um desfecho que jamais poderia imaginar. O leitor é arrastado com ele e perplexos aprendem que todo ato tem conseqüências.

A forma como Eça mudou o ponto de vista de Carlos para Ega nos momentos cruciais da trama foi de uma inspiração fenomenal. Perdemos a companhia de Carlos e assistimos de mãos atadas ao desespero de João em tentar ajudar o amigo e descobrindo que nada podia fazer.

Eça de Queirós escreveu uma obra genial, que merece constar como uma das obras-primas da literatura mundial. O seu domínio da linguagem e da estória que criou é fantástico e nos arrebata totalmente para aquela decadente Lisboa do fim do século XIX.

segunda-feira, março 23, 2009

O Big Brother Mundial

Um dos mitos que não mais se sustenta é que a internet é terra dos anônimos. Já foi. As ferramentas de controle de acessos estão cada vez mais eficazes em identificar de onde partiu o acesso a uma determinada página. Em seu blog, Aloíso Amorim publicou um post que mostra o local exato de um determinado acesso.

Isso muito me preocupa. Estamos caminhando a passos largos, se já não chegamos, da vigilância total do indivíduo. Outro dia presenciei a seguinte conversa entre dois amigos a respeito de uma reportagem que passava no Jornal Nacional sobre a instalação de câmeras de segurança em São Paulo. A reportagem mostrava os benefícios para a polícia.

__ Infelizmente chegamos a um nível de violência tal que temos que abrir mão de nossa privacidade.

__ Eu não vejo problema nenhum.

__ Não?

__ Não. Quem não está fazendo nada de errado não tem nada a temer.

O que este colega não compreende muito bem, é que o certo para ele pode virar errado para alguns de um momento para outro. Que garantias temos que os vigilantes estarão de olho apenas na violência? Que nossa vida privada não estará a perigo? Segundo ele, a partir do momento que saímos de nossa casa, estamos em público e perdemos o direito à privacidade. Será?

O que acontecerá com aquele namoro em um banco de praça? Aquela conversa com os filhos passeando por um zoológico? Aquela chamada de atenção mais enérgica em um filho, que quem é pai sabe que é necessário, não vai despertar a ira de espíritos sensíveis de assistentes sociais?

Um delegado aqui de Brasília, se aposentando, concede uma entrevista em que defende com unhas e dentes a escuta telefônica. Parece que o grampo virou o método principal de investigação nos dias de hoje e não o último recurso que deveria ser.

O problema de estabelecer vigílias é sempre um só: quem vai vigiar os vigilantes?

domingo, março 22, 2009

Jantar com Fidel e Chê

Ontem fui em um jantar de aniversário de um colega da minha esposa. Ele é médico e compartilha com a Eliene o hobby da fotografia. Descobri ao longo do jantar que é filho de um deputado federal.
Mora com o pai em um apartamento funcional.

Chegando no local, notei logo, para meu desconforto, que a sala ampla era decorada apenas com dois quadros, um do Fidel e outro do Chê. Depois ele diria que é completamente comunista, chegou a estudar 4 anos de medicina em Cuba. Preferi ficar calado. Adianta mostrar que me sentia tão desconfortável naquela sala como se estivesse em uma com suásticas e uma foto do Hitler? Pior que pela posição que eu estava, fiquei a noite inteira olhando para os dois assassinos. Quanta reverência por tão pouco!

Enfim, mais uma mostra que a Queda do Muro de Berlin foi o maior blefe da história. O comunismo apenas se livrou da defesa incômoda de um regime que não mais se sustentava e descobriu que com um pouco de capitalismo, sob controle do estado, teria enfim o poder que precisava para esmagar o indivíduo. Como dizia Orwell, a imagem de uma bota esmagando um rosto humano.

quarta-feira, março 18, 2009

Voltando para casa

Ainda não é em definitivo, mas novamente estou voltando ao Brasil. Para mais uma dispensa, o leave. São 13 dias, mas por conta da viagem se transformam em 10. O mais importante é poder voltar ao Brasil e rever minha família. Será o último. A próxima vez que for ao Brasil já será o retorno por término de missão.

Completamos esta semana 4 meses no Haiti, de uma previsão de pouco mais de 6 meses. O tempo passa rápido e já começamos a pensar na volta. A ansiedade começa a tomar conta de todos nós, ainda de forma tênue mas deve se intensificar à medida que o grande dia for chegando.

Na minha bagagem desta vez vão muitos livros. Foram 15 já lidos este ano. A leitura é minha maior fonte de lazer aqui no Haiti e tenho aproveitado bem o tempo que me é disponível. Se possível ainda vou em uma livraria amanhã em Miami.

Desejos a serem satisfeitos no Brasil:

1. Ir na Livraria Cultura
2. Tomar uma café da manhã no Quitinet
3. Ir na FNAC
4. Comer no MacDonalds no domingo à noite (não perguntem!)
5. Comer comida chinesa

Não coloquei a família nesta pequena lista porque ela está em todos estes programas e em tudo mais que eu fizer. Eles não cabem em nenhuma lista que eu faça!


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Now playing: The Band - The Weight
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Preço das carteirinhas de estudante

A Veja online apresentou hoje uma matéria sobre o afastamento da classe C do cinemas no Brasil. O presidente da ANCINE, Manoel Rangel, apresentou duas medidas que diminuiriam o valor dos ingressos:

Primeiro, a moralização do uso da meia-entrada, com a redução do volume de carteiras de estudantes falsificadas. Segundo, a expansão do número de salas. Além de pequeno, o parque exibidor brasileiro tem baixa capilaridade. São cerca 2.200 salas em todo o país, concentradas em três pólos, todos próximos: a cidade de São Paulo (com 10% dos cinemas), a cidade do Rio e o interior paulista. E, mesmo nesses mercados, há concentração de salas em shoppings centers.

Começamos pela segunda. Com o preço alto do ingresso, não aumenta-se a oferta porque não há demanda. Onde houver demanda, haverá cinema. Se o preço reduzir e aumentar a demanda, novos cinemas vão abrir.

O que importa mesmo é a primeira, que Rangel tocou superficialmente. Não é necessário moralizar a emissão de carteiras, é necessário acabar com a lei do ingresso dobrado (também conhecida como lei da meia entrada). O efeito prático da lei é que o cinema tem que cobrar o dobro do preço pelo ingresso para quem não é estudante ou que não comprou sua carteirinha da UNE (são coisas distintas). Não importa se quase ninguém pague este valor, o importante é que as receitas sejam compensadoras e crie-se a ilusão que os estudantes pagam meia. Não pagam. Pagam quase inteira, os outros é que pagam dobrado.

Não há a menor lógica que um assalariado tenha que pagar R$ 20 para ir ao cinema enquanto que um estudante rico pague R$ 10 para ver um enlatado americano ou uma das porcarias produzidas no Brasil. E chamam isso de cultura!

A lei da meia entrada tem que acabar para que o cinema deixe de ser um privilégio. O resto é firula.

terça-feira, março 17, 2009

Mergulho radical

Enfrentar a realidade não é uma experiência fácil; ao contrário, é uma experiência radical. Você abandona o conforto da ignorância para descobrir algo realmente extraordinário: o real é angustiante.

Tem horas que você abraça esta realidade com fôlego, começa a ler os jornais com atenção, ver opiniões na internet, debater com os amigos, e o sentimento que vai crescendo é de perplexidade. Como chegamos a este ponto? Como nos tornamos esta sociedade mesquinha e hipócrita? Como perdemos a noção completa de uma coisa que deveria ser basilar, o bom senso.

Hoje passei praticamente o dia lendo. Sobre praticamente tudo, economia, poupança, aborto, criminalidade, feminismo, ideologia, subversão, esperança, esportes, política. No fim de tudo terminei cansado e triste. O caminho que estamos seguindo é opressivo para aqueles que não concordam com os valores, ou a falta de valores, que foram impostos nos últimos tempos.

São tantas coisas acontecendo, tudo ao mesmo tempo, que não deixo de me perguntar se não há uma conexão comum em todas elas, se não há um mesmo princípio conectando áreas aparentemente tão díspares. Sei que pareço vago, um tanto quanto abstrato, mas é que realmente não quero ser específico, não quero descer no particular. Quero tentar ver um pouco do geral, do comum.

Quando eu acha que o problema era meu país, a esperança era maior. O problema é descobrir que o Brasil é apenas uma parte de um contexto maior, um movimento que busca, em síntese, levar o homem para o nada, para o vazio. Todas estas esferas, econômica, política, social, cultural, etc, estão contaminadas pelo grande mal contemporâneo, a busca do vazio existencial. Ser ou não ser? Optamos por não ser.

Confesso que tem dias que me desligo desta realidade. Um pouco para conservar minha sanidade, outro tanto para meditar um pouco mais livremente. Tentar remover o véu de imposturas que são constantemente colocadas para impedirmos de vermos a verdade. Sinto como personagem Neo de Matrix. Todo dia tenho que optar pela pílula azul ou vermelha, se lembro corretamente das cores, pouco importa. A diferença é que não existem máquinas nos mantendo em uma vida artificial e escondida por um sonho; este papel é feito pelos amorais que tomam o poder em todos os lugares do mundo e nas mais variadas formas. Onde vamos parar? Difícil dizer.

Um dia um padre me disse, na época não sabia que era padre, era um curso de filosofia, o padre me disse que o ocidente estava vazio, sem valores, perdido. O consumismo tomou conta de nossa vida econômica, o permissivismo de nossa vida social, o "carpe diem" de nossa moral e a indiferença de nossa vida política. O homem ocidental perdeu suas crenças e deixou de acreditar em qualquer valor, o niilismo triunfara.

Em um mundo repleto de ideologias, o real perdeu seu valor. Começar a percebê-lo é assustador. Temos alguma noção, mesmo que intuitiva, que as coisas não vão bem, mas não imaginamos a que ponto. Se o que estou vendo é fruto de alguns meses de leituras, estudo e observação, o que ainda não sei? O que ainda está escondido de meus olhos?

Uma opção é largar tudo, começar a ler Paulo Coelho e ficar feliz em ser abraçado pela modernidade. Rejeito esta opção. O mergulho na realidade exige coragem. Que tipo de coragem? Coragem de acreditar que a verdade realmente nos liberta, que a melancolia que toma conta de nós, tão bem descrita em Hamlet, dará lugar à sabedoria, a compreensão do mundo e de sua natureza. Pelo menos no que Deus nos permite.

A presença de Deus é fundamental. Nada me dá mais esperança em nosso futuro que a providência divina, a crença que existe algo maior que este mundo material que nos encontramos e nossas infinitas imperfeições. Somos falhos, pecadores, imperfeitos, mas somos criaturas de Deus e através do amor encontraremos nossa redenção.

Com coragem para enfrentar a verdade, crença nos valores eternos e absolutos, fé em Deus, somos capazes de vencer o desafio que é viver em tempos tão difíceis para o espírito. Sim, o mergulho na realidade é necessário. Como Neo, temos que escolher a pílula certa e penetrarmos no horror de nossa existência. Só assim seremos salvos.

Desabafo

Desabafo de uma mulher

Tava num clima meio ruim com o maridão e resolvi fazer uma surpresa...
Comprei 250 velas de tamanhos diferentes, 10 dúzias de rosas
vermelhas,
Espumante, queijos e frutas e decorei toda a Casa.
Nosso quarto FICA no segundo andar e eu fiz um caminho de velas desde
a
Porta de entrada até o quarto... As escadas iluminadas, tudo lindo !!!
Chamei um casal de amigos para acender as 250 velas antes de chegarmos
A Casa.
A cama estava coberta com pétalas de flores...
Arranjos maravilhosos de antúrios (flores que usamos no nosso
Casamento), além do espumante no gelo e as frutas, queijos e frios
Completavam o clima do quarto.
Guardamos o carro na garagem e pedi pro marido ir à frente que eu já
Estava saindo do carro.
Enquanto ele abria a porta eu tratei de tirar o vestido.
Fiquei só de lingerie e cinta-liga .
Imagina a cena...
Quando meu maridão(...) abriu a porta eu desci do carro.
Semi-nua, claro !!!
Quando olhei a cara do meu marido percebi que ele estava BRANCO.
Virou pra mim, sem perceber meu modelito, e gritou:
- A Casa tá pegando fogo!!!
Eu, calmamente, disse para ele olhar novamente.
Fiz até uma cara 'sexy' para dizer isso...
Ele abriu a porta mais uma vez e gritou, mais branco ainda :
- PUTA QUE PARIU !!!!!!!!!!
Não é incêndio !!!!!
É MACUMBA !!!!!!!!!!!!
Moral da história
Assim que nascem os cornos!

segunda-feira, março 16, 2009

Caso do menino Sean

Mais um destes casos que é difícil enxergar com clareza e julgar o que é melhor para fazer. Dramas humanos costumam ser assim, até porque é difícil saber exatamente como se deram os fatos.

O fato é que a Convenção de Haia proíbe o seqüestro de uma criança por um dos pais, por isso é necessário a autorização de ambos para sair de um país. O pai de Sean deu a autorização, mas com volta marcada. Quando sua esposa decidiu ficar no Brasil e desmanchar o casamento, criou-se um fato jurídico definido, uma violação em uma convenção que o Brasil é signatário. Uma convenção necessária para a convivência entre os povos.

Sim, a criança vive a quatro anos no Brasil, adaptou-se com a família da esposa e o padrasto. Mas como foram estes anos? O que este menino não passou para superar a ausência de um pai que conheceu até os quatro anos? Isso não conta? Os advogados do padrasto pedem a paternidade sócioafetiva. Engraçado que esta situação só se criou porque a paternidade biológica foi violada primeiro. Parece que não se preocuparam tanto com o menino há quatro anos atrás.

Existe algum fato objetivo contra o pai do menino? Ele tratava-o mal? Ele batia na esposa e na criança? A mãe abandonou o lar. Ela não pediu divórcio, não alegou razões para uma separação. Simplesmente fugiu para o Brasil e escorou-se na bagunçada justiça brasileira para manter a guarda da criança.

É muito lamentável que a coisa tenha chegado a este ponto. Em princípio, acredito que o estado deva garantir uma proteção jurídica ao casamento, coisa que a modernidade está demolindo. A criança foi concebida dentro de um matrimônio, esta família deveria ter uma proteção.

Lembro de um filme que assisti anos atrás. Estrelado pela Michele Pfeiffer, uma mulher teve o filho seqüestrado em uma reunião. Anos depois, foi descobrir seu paradeiro. A mulher que o tinha raptado já tinha morrido, o padrasto criava o garoto sem nada saber. Adaptar o menino foi um novo drama, mas ninguém questionou o direito dos pais de terem seu filho de volta.

Um dos problemas de conceder a guarda para o padrasto é o perigoso caminho que se abre. Para que decidir a guarda dos filhos em um divórcio se um dos pais pode seqüestrá-lo e alegar posteriormente a tal paternidade socioafetiva.

Pelas informações da imprensa, cada vez menos confiável, parece-me que qualquer decisão trará prejuízos ao menino, que foi tirado da vida de seu pai de maneira súbita é bom lembrar. O grande desafio é encontrar a justiça.

Eu fico sempre do lado da família. A não ser que se mostre que o pai não é apto para criar o filho.

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Now playing: The Allman Brothers Band - Southbound
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domingo, março 15, 2009

Grandes Esperanças (Filme)


Grandes Esperanças é um dos melhores livros já escritos. Adaptá-lo é uma tarefa extremamente difícil, principalmente se tentar fazê-la de forma literal; simplesmente não há como. Lembro que ler a última parte do livro foi uma experiência de tirar o fôlego, era uma surpresa a cada página, uma revelação atrás da outra.

Cuarón foi no essencial, a estória de amor entre um jovem sensível e uma mulher que foi criada para machucar os homens, para não ter emoções. A Inglaterra industrial deu lugar à Flórida e Nova Iorque nos tempos atuai.. Um grande elenco tratou de completar esta mais nova versão. O resultado é um bom filme que leva para os dias de hoje um pouco da magia de Dickens.

Paltrow está belíssima, em papel muito superior ao que lhe deu o Oscar no mediano Sheakespeare in Love. De Niro nos faz lamentar ter aparecido tão pouco como o fugitivo Arthur. Bancroft arrasa como Dinsmoor em um interpretação alucinada. Hawke segura as pontas como Finn.

No geral o filme cumpre com a árdua tarefa de levar Dickens para a tela grande. Uma obra densa como Grandes Esperanças não poderia ser transposta de maneira literal. Cuarón entendeu e nos deu um filme coeso e elegante.

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Now playing: Gov't Mule - Life Before Insanity
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sábado, março 14, 2009

O Problema da violência

Leio no blog do Clausewitz que, em 12 horas, quatro policiais militares foram mortos no estado do Rio de Janeiro. Enquanto isso, o ministro da justiça está preocupado em justificar o asilo político a um assassino e o presidente Lula vai bater um papo com Obama.

O noticiário político brasileiro só trata do PAC. A caravana da alegria do governo petista passeia pelo Brasil inaugurando promessas de obras que seriam realizadas de qualquer forma, com ou sem o carimbo publicitário que criaram. Ou obras que nuncam sairão do papel.

O assunto da violência urbana fica restrito às páginas das cidades, ao cotidiano, aos assuntos policiais. Não deveria. O assunto deveria estar nas primeiras páginas, nas páginas de política pois é um assunto político.

No Brasil o crime ceifa mais vidas, em termos relativos, que a guerra do Iraque. Em qualquer país mais ou menos civilizado, daí se conclui, mais uma vez, que não o somos, a sociedade estaria precionando o governo por uma atitude. Por que isso não acontece no Brasil? Por que não vamos às ruas pedindo que parem com este banho de sangue?

Depois de algumas décadas de doutrinação socialista nos formadores de opinião, intelectuais e jornalistas, o brasileiro adotou, sem tomar conta, uma das falácias principais do pensamento de esquerda: que o crime é consequência da pobreza. Melhor ainda, o brasileiro se convenceu que pedir justiça é execrável, que é coisa de reacionário, embora não saiba bem o que é este demônio.

E que opção foi lhe dada? Qual a voz que se levanta para bradar outra leitura do mundo? A leitura que somos individualmente responsáveis por nossos atos? Cadê a voz para mostrar que existem países mais pobres que o nosso com taxas de criminalidade menor? Que é a descrença na existência do bem e do mal que leva uma pessoa ao crime? Que é a insuficiência de vontade para combater o mal que habita em todos nós é que leva muitos a fazer o mal ao próximo?

Por que não se pode ligar a frouxidão da legislação brasileira ao crime? O número de condenações e o período das penas ao crime? Por que não se pode dizer que é justamente as idéias dos esquerdistas e sua atuação na constituição de 88, que nos colocaram no caminho para este desastre de grandes proporções?

Sim. Para proteger os socialistas que tentaram implantar uma ditadura comunista no Brasil, criou-se uma proteção constitucional ineficaz, que permite que um estrupador assassino receba indulto de natal! Que esteja livre em poucos anos! Que volte a cometer o mesmo crime que foi condenado!

Uma das noções mais básicas da vida é nosso instinto de sobrevivência. Antes de qualquer coisa, o homem teme pela própria vida. Mais do que emprego, bolsa família, o homem deseja se sentir seguro. A partir daí ele vai se preocupar com o resto. O paradoxo é que o pobre é justamente quem mais sofre com a violência, uma violência que teria sido causada justamente por ele. Um dos problemas da responsabilidade social da violência é a despersonalização do criminoso. Ele não tem face, ele é uma vítima. Por que condená-lo então?

O problema central do Brasil hoje é a violência, que não está mais limitada às grandes cidades. Já espalhou-se como um câncer por todo o país; este movimento de interiorização do crime é cada vez mais forte. Quanto tempo vai levar para os nossos políticos compreenderem? Que o crime é um dos ingredientes para perpetuação da pobreza?

Políticos de esquerda não gostam de enfrentar o crime de frente. Gostam de repetir que o combate à pobreza é o melhor remédio para diminuir a criminalidade. Não é, trata-se de apenas um componente. Criminosos se combatem com polícia, leis e prisão. Qualquer pessoa que não esteja completamente cega pelos absurdos progressistas sabe disso, lugar de bandido é na cadeia. Tendo em vista esta constatação básica podemos nos perguntar: o Brasil consegue colocar seus bandidos na cadeia? Por que? O que nos impede? As leis? O governo? O judiciário? A falta de vontade política?

São 16 anos de poder hegemônico da esquerda no Brasil. Neste período a criminalidade cresceu sem parar. Quando tempo levará para o brasileiro compreender que o remédio está errado? Que a leniência apenas causa mais violência? Que a esquerda não tem a leitura correta para o problema e portanto nunca conseguirá resolvê-lo? Quantos morrerão pela recusa de encarar a realidade?

A violência é sim um problema político, e da maior gravidade. O dia em que ela se tornar de fato um problema de polícia é porque teremos avançado como civilização. O Brasil precisa lidar efetivamente com a violência. E vencê-la.

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quarta-feira, março 11, 2009

The History of Philosophy - Brian MacGee

Com este livro eu considero concluído meu período de iniciação à história da filosofia que começou em 2006 com Antologia da Filosofia, passou por O Mundo de Sofia, alguns outros até chegar nesta bonita edição de MacGee.

Agora tenho uma noção geral dos filósofos e suas idéias, um índice para prosseguir neste estudo fascinante que são as idéias. O próximo passo, em termos de história da filosofia, é o livro de Reale, este sim bem mais completo e abrangente. Além dos trabalhos dos próprios filósofos, é claro.

Dos personagens descritos por MacGee, já li obras de Platão, Aristóteles, Santo Agostinho e Karl Marx. Agora estou lendo Nietzsche. Como podem ver, estou apenas no começo de uma longa caminhada. De Platão quero ler tudo, assim como Agostinho. Dos demais, as principais. Tanto dos que professaram idéias que me são simpáticas, como Aristóteles, Tomás de Aquino, Locke, Adam Smith, quanto daqueles que discordo como Marx e Nietzsche.

"The History of Philosophy" tem o mérito de apresentar os principais filósofos, suas idéia e o momento que surgiram. Nada muito profundo, mas o suficiente para saber que teve um tal de Kant que escreveu sobre o imperativo categórico, um tal de Descartes que acreditava em um método para a pesquisa científica ou um Platão que acreditava em um mundo das idéias. Tudo com imagens de pinturas belíssimas.

O livro é mais um índice para quem quer saber um pouco mais sobre esta tal Filosofia. E se deixar fascinar por ela.

segunda-feira, março 09, 2009

Platão e o Ocidente


De vez em quando lemos um artigo que realmente nos faz mudar a forma de ver as coisas. Lendo a edição da revista Dicta e Contradicta (fabulosa!), deparei-me com um artigo de Marcelo Consentino sobre as idéias de Platão descritas em a República.

Consentino refuta o pensamento que muito já escutei __ ainda não li a República __ que Platão teria escrito uma utopia, a primeira proposta escrita de uma sociedade ideal. Segundo o articulista, Platão estava justamente investigando como deveria se comportar uma sociedade e neste sentido, fez o esboço de uma sociedade saudável para comparar com as existentes.

A idéia mais interessante de Platão neste sentido, é que a sociedade seria o homem escrito em letras maiúsculas. Em outras palavras, a sociedade é a soma dos indivíduos que a compõe. Suas características seriam a de seus elementos, a nação representaria o seu elemento médio.

Seguindo este insight, o filósofo partiu do estudo da alma humana para primeiro entender o indivíduo saudável. Depois, por extensão, estudou a sociedade. O ponto principal foi sua idéia das três dimensões irredutíveis da alma, a natural, a racional e a espiritual. Em termos de sociedade, corresponderia a economia, política e religião.

Estas três potências deveriam estar em pleno funcionamento e harmonizadas de acordo com uma hierarquia. A natural nos daria a vida, a racional o futuro e a espiritual a melhor vida e o melhor futuro, o que não dependeria apenas do homem, precisaria de algo acima dele que Platão chamou de bem e Consentino chama de Deus.

O resumo do artigo encontra-se aqui.

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domingo, março 08, 2009

Dia Internacional da Mulher

A melhor frase que escutei este ano sobre a mulher foi dita por João Pereira Coutinho: a mulher civiliza o homem. Sem ela, argumenta, o homem ainda estaria fazendo desenhos nas paredes de cavernas. A mulher faz o homem olhar para frente e querer algo melhor para si e sua família.

Concordo com João e ainda acrescento: sem a mulher o homem estaria perdido.

O problema destas datas comemorativas é que são tantas que há um esvaziamento de seus significados. Tem dia para tudo no calendário. Particularmente esta data de 8 de março não tem para mim o menor significado, o verdadeiro dia da mulher está no 25 de dezembro.

Quando Jesus nasceu, do ventre de Maria, o papel da mulher se evidenciou como nunca na história da humanidade. Ela estava investida de um poder muito maior que qualquer homem. A mulher tornava-se a guardiã da vida. Sim, a ciência já provou que o homem participa da geração, mas é a mulher que desempenha o principal papel. Ela carrega consigo não só uma nova vida, mas toda a esperança de redenção e perpetuação de todos nós.

Antes que me interpretem mal, não estou reduzindo o papel da mulher, estou ampliando. A mulher tem uma civilidade, um ternura, uma inteligência instintiva que nenhum homem possui. A mulher nos inspira, nos faz melhores, nos faz ter consciência de nós mesmos.

Não é verdade que a mulher pode fazer tudo que o homem faz. Existem determinadas boçalidades que parecem ser próprias do homem e nos mostra como somos mais imperfeitos. Portanto, existem coisas que o homem faz que, graças a Deus, as mulheres parecem incapazes. A grande verdade é que a mulher é capaz de fazer melhor tudo que o homem faz de bom. Se os homens entendessem este fato tão simples, viveríamos em um mundo muito melhor.

Por isso rejeito qualquer movimento que fale em igualar as mulheres aos homens. Parece-me uma grande idiotice que mulheres queiram ser rebaixadas desta maneira. Por que descer até nós se somos nós que temos que nos elevar a elas? Mulher praticando boxe? Este esporte estúpido? Mulher clamando pelo direito de ser tão promíscua como o homem? Por que? Mulheres deformando seu corpo com músculos abomináveis? Mulheres combatendo o próprio embelezamento? Querendo ter o direito de fazer todas as bobagens que os homens fazem? Não faz o menor sentido!

Homens e mulheres não são iguais, e quando digo isso coloco-as em um patamar mais elevado, um patamar que nós homens tentamos no máximo chegar perto. Voltando a Coutinho, a mulher civilizar o homem. Este macaco que pensa que é melhor do que realmente é.

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sexta-feira, março 06, 2009

Hamlet - Shakespeare (filme)

Hamlet (1948)

Com o passar do tempo, você vai refletindo melhor sobre este clássico. Volta e meia volto a suas páginas, leio artigos e interpretações sobre ele. Confirmo algumas impressões, rejeito outras. Uma obra é rica quando causa este efeito no leitor, quando nos deixa constantemente refletindo sobre ela e tentando descobrir seus segredos.

Hamlet não é sobre a vingança, ou melhor, vai muito além de uma vingança. É uma história que trata da melancolia e do conhecimento. Com a morte de seu pai, o príncipe se torna melancólico, não consegue se entender com o mundo, não consegue encontrar felicidade nas coisas. Na verdade, está dominado pela incompreensão. Não consegue entender direito o que aconteceu e principalmente, por que aconteceu.

Com a visita do espírito do rei morto, Hamlet começa a compreender. Não só as circunstâncias da morte do pai como também a natureza do homem. Os primeiros atos da peça são sua compreensão de sua realidade e seu desligamento da mesma. Uma constante indiferença vai surgindo ao supérfluo, como o mito da caverna de Platão, Hamlet se livra dos grilhões que o mantinham preso na ignorância. Tenta dizer a todos o que viu, é tido como louco, mas ao mesmo tempo espanta pela profundidade de seus pensamentos. Até seu tio Cláudio chega a comentar que estava realmente louco, mas havia inteligência no que dizia.

Um ator para representar Hamlet deveria justamente captar esta melancolia e este crescente deslumbramento com a realidade.

Este é o maior mérito de Laurence Olivier, que não só o interpretou de modo definitivo como também dirigiu a peça. Imagino que os puristas devem ter reclamado, afinal ele também alterou diálogos, mudou a ordem de algumas cenas, tirou partes da estória. Acredito, no entanto, que captou o essencial, a alma do príncipe mais famoso da literatura.

O filme levou os oscars de melhor filme e ator. Bons tempos que a academia estava mais preocupada em reconhecer o mérito do que fazer apologia das idéias liberais. Hamlet é o que se pode chamar de sétima arte, a beleza pelo que é e não pela mensagem que tenta transmitir.

Esta é a força de um clássico.

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quinta-feira, março 05, 2009

Brideshead Revisited - Evelyn Waugh

O período entre guerras foi marcado pela desilusão de toda uma geração. Em 1914, jovens pegaram em armas movidos ainda por conceitos como honra e patriotismo. O que viram no front foi um golpe violento para todos eles. O confronto sangrento da I Grande Guerra foi diferente de tudo que houvera antes; descobriam que o mundo nunca mais seria o mesmo.

A Inglaterra do entre-guerras foi o símbolo deste período. O Império britânico já encontra seu declínio que iria culminar com o fim da II Guerra Mundial. Junto com a Inglaterra, uma era findava e 1939 chegaria com uma força ainda maior e um espetáculo ainda mais assustador.

Brideshead Revisited não tem nada a ver com estas guerras, mas consegue captar este movimento de decadência e esfacelamento de uma sociedade e seus ideais. A modernidade chegava avassaladora, a tradição dava lugar a um mundo que tudo prometia e pior, cumpria. O grande problema era constatar que a satisfação não fazia parte deste pacote.

Charles Ryder, um capitão de infantaria na II Guerra Mundial relembra o tempo que passou em Brideshead, uma mansão aristocrática com sua fascinante família. Passa a experimentar a convivência com pessoas que representavam como ninguém a decadência de sua época. Os Marchmain deixavam para trás a tradição e se entregavam de corpo e alma a um novo mundo em que o niilismo tomava conta.

A moralidade era simplesmente colocada de lado. O importante era a busca da felicidade, com todos os excessos permitidos pelo dinheiro. Waugh mostra que em um mundo sem moral, guiado pela busca do prazer, este nunca consegue saciar. Quanto mais os Marchmain conseguiam, mas insatisfeitos se tornavam. E Charles é arrastado por eles.

A religião é a representação da moralidade no livro. Charles não consegue entender o catolicismo e seus dogmas. De uma posição de incredulidade, passa a opor uma resistência feroz que explode na impressionante narração dos últimos meses de Lord Marchmain. Em seu leito de morte, desesperado pela perspectiva que se aproxima, Charles opõem-se violentamente contra o desejo das filhas de trazer um padre para fazer a última confissão. Fica evidente no final que Charles estava mais preocupado em ter razão e provar para si mesmo o charlatanismo da Igreja do que o próprio conforto do moribundo, o que custará sua própria felicidade.

Evelyn Waugh vai além do que Dotoievsky defendeu em Irmãos Karamazovi, que sem Deus tudo seria possível. Para ele, sem Deus, tudo era fútil e a felicidade efêmera. O fim de uma vida sem fé era o vazio e o desespero, era o nada.

Em uma prosa brilhante, Waugh narra uma estória como apenas os grandes escritores eram capazes. Seu livro o coloca como um dos melhores autores modernos, no mesmo patamar de gente como Joyce, Mann e Conrad. Brideshead é uma obra de gênio.


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Now playing: Hans Matheson - Live for Today
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Acordando no Haiti

Com a passagem do tempo, uma das coisas que se modificou aqui no Haiti foi a disposição de acordar. No início da manhã, até por ajuste de fuso horário, era normal acordarmos por volta das cinco da manhã. O tempo foi passando e nos ajustamos ao horário da alvorada, seis.

Passado a metade da missão, até o horário das seis está cada dia mais difícil. Hoje um determinado companheiro, estava dormindo tranquilamente, imerso em seus sonhos, quando escutou o toque de corneta. Era a alvorada. Mas havia algo de estranho.

Ainda sonolento, enfim compreendeu. Não era o toque de alvorada, era o toque de hasteamento da bandeira! Ao invés de seis da manhã, já eram sete e a formatura já estava acontecendo. Desesperado, ainda teve um pequeno alívio, pelo menos na consciência. Seu companheiro de container ainda dormia.

Tratou logo de acordá-lo.

__ Acorda cara. Estamos atrasados, a formatura já começou!

O companheiro abre os olhos e responde tranquilamente:

__ Estou de leave...



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Now playing: Led Zeppelin - Dazed And Confused
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quarta-feira, março 04, 2009

Economia em tempos de Obama

Uma das coisas que estou aprendendo em meus estudos de economia é que impostos encolhem o mercado. Essa é uma verdade que não é suficientemente dita, embora tenhamos uma vaga noção dela. Se o governo deseja limitar a poluição, por exemplo, uma medida é taxar fortemente a gasolina. Com o tempo, o consumidor dará preferência a carros econômicos, álcool ou mesmo o transporte público. Uma das medidas que os governos usam contra o cigarro é a taxação. O mesmo vale para o pão, material escolar, etc. Quando se taxa um produto, ele aumenta seu preço e menos pessoas estão dispostas a pagar por ele.

Ao mesmo tempo, é uma constatação que o estado sempre aumenta seu poder tem tempo de crise. Principalmente pelo medo que se espalha na sociedade. Medo de perder o emprego, perder a aposentadoria, das pessoas pararem de comprar. Em tempos de pânico, indivíduos e empresas olham para o estado como uma espécie de salvador. O que não percebem é que o estado muitas vezes é parte do problema.

Juntando estas duas constatações, temos o pacotaço do Obama. Um trilhão de reais para estímulo da economia. Redução de impostos? Ao contrário, eles aumentam. O que o governo americano pretende é tirar dinheiro da sociedade para ele próprio estimular a economia.

Ninguém conseguiu ainda ler todo o pacote (tem mais de mil páginas, cheias de tecnicidades), que foi aprovado assim, como se os Estados Unidos fossem uma república bananeira qualquer. O que se conseguiu perceber, é que no meio do pacote, existe uma grande previsão de gastos sociais puro e simples; trata-se de uma autorização para implementação de políticas sociais dos democratas sob uma roupagem de incentivar o consumo. O pacote corresponde ao aumento do tamanho do estado e seu poder sobre os indivíduos. Com o apoio dos chamados "republicanos reformistas".

Estas idéias não deram certo na década de 30 quando Roosevelt implantou o New Deal, embora tenha sido bastante popular. Nem no governo Johnson, nem em 1979, e muito menos agora. Nenhum governo substitui a capacidade da sociedade em estimular sua economia. O melhor estímulo agora seria mais dinheiro nas mãos dos consumidores, o que seria possível com redução de impostos.

O presidente Obama solicitou autorização do Congresso para aumentar a dívida pública para 1,7 trilhões. Surgiu assim o "ato de responsabilidade". Não sei o que pode ter de responsável em se gastar mais do que arrecada (leiam 1984, novilíngua!). Deveria se chamar lei da irresponsabilidade.

Uma coisa parece certa, o governo vai aumentar e o indivíduo vai encolher. Os competentes terão que pagar pelos incompetentes, e as gerações futuras terão uma pesada herança para lidar. É questão de tempo.

segunda-feira, março 02, 2009

Guilty - Ann Coulter

Ann Coulter é uma jóia rara. Não só defende os valores conservadores com tenacidade, como o faz com extremo bom humor, expondo as contradições dos liberais americanos que a grande mídia faz questão de esconder.

Guilty, seu mais recente livro, é uma amostra. A tese central do livro é a prática dos liberais, e esquerdistas em geral, de assumir a condição de vítimas dos mais variados complôs quando na verdade são os verdadeiros culpados das práticas que denunciam. Como Coulter mostra muito bem, existe sim um complô, mas realizado pela esquerda americana.

Alguns pontos levantados por Coulter:

  1. Liberais tendem a bradar a condição de vítimas para esconder as próprias práticas. Ela mostra com abundância de dados __ a autora referencia tudo que diz __ que a grande imprensa americana tornou-se uma espécie de porta voz do partido democrata e dos liberais, fazendo para eles o trabalho sujo.
  2. As mães solteiras são cantadas por toda América como heroínas, o que Hollywood evidencia muito bem. Coulter coloca o dedo na ferida ao mostrar que mãe solteira possui muito mais dificuldade em criar um filho honesto do que uma família constituída. Sim, existem dados que apontam nesta direção.
  3. O propenção dos liberais em falar o tempo todo da máquina de destruir reputações dos republicanos. Se existe uma máquina, ela é inteira liberal. Entros os vários exemplos apontados destaca-se o papel vexaminoso da grande mídia em destruir Sarah Palin.
  4. A distorção do ensino da história nas escolas públicas que colocam sempre os presidentes democratas como os maiores de todos, embora tenham feito governos com explosão de desemprego e baixo crescimento econômico.
  5. A necessidade dos liberais em terem 100% de aprovação e suporte da mídia. Aqui Coulter denuncia como a Fox News é combatida por tentar furar este bloqueio da esquerda.
  6. Como os liberais são sempre retratados como bravos e bonitos. O papel de Hollywood é explorado aqui, sempre glorificando a esquerda. Mostra com dados a exposição que um artista recebe automaticamente sempre que critica um conservador, principalmente se for presidente.
Coulter escreveu seu livro durante o período das últimas eleições e evidencia como a grande mídia trabalhou para eleger Barack Obama (aquele que não pode ter o nome do meio escrito ou falado), inclusive contribuindo para derrubar um outro liberal (H. Clinton). As perguntas feitas nas entrevistas dos grandes jornais e emissoras mostraram a nítida fascinação pelo candidato enquanto que a dupla McCain-Palin era metralhada pela mídia "isenta".

Se é triste ver a que ponto os formadores de opinião chegaram nos Estados Unidos para promover a agenda liberal, fica a inveja de ver que lá existe gente, como Coulter, que defende os valores conservadores com o peito aberto, inclusive contra os próprios conservadores, como mostra suas críticas a McCain.

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