quinta-feira, março 05, 2009

Brideshead Revisited - Evelyn Waugh

O período entre guerras foi marcado pela desilusão de toda uma geração. Em 1914, jovens pegaram em armas movidos ainda por conceitos como honra e patriotismo. O que viram no front foi um golpe violento para todos eles. O confronto sangrento da I Grande Guerra foi diferente de tudo que houvera antes; descobriam que o mundo nunca mais seria o mesmo.

A Inglaterra do entre-guerras foi o símbolo deste período. O Império britânico já encontra seu declínio que iria culminar com o fim da II Guerra Mundial. Junto com a Inglaterra, uma era findava e 1939 chegaria com uma força ainda maior e um espetáculo ainda mais assustador.

Brideshead Revisited não tem nada a ver com estas guerras, mas consegue captar este movimento de decadência e esfacelamento de uma sociedade e seus ideais. A modernidade chegava avassaladora, a tradição dava lugar a um mundo que tudo prometia e pior, cumpria. O grande problema era constatar que a satisfação não fazia parte deste pacote.

Charles Ryder, um capitão de infantaria na II Guerra Mundial relembra o tempo que passou em Brideshead, uma mansão aristocrática com sua fascinante família. Passa a experimentar a convivência com pessoas que representavam como ninguém a decadência de sua época. Os Marchmain deixavam para trás a tradição e se entregavam de corpo e alma a um novo mundo em que o niilismo tomava conta.

A moralidade era simplesmente colocada de lado. O importante era a busca da felicidade, com todos os excessos permitidos pelo dinheiro. Waugh mostra que em um mundo sem moral, guiado pela busca do prazer, este nunca consegue saciar. Quanto mais os Marchmain conseguiam, mas insatisfeitos se tornavam. E Charles é arrastado por eles.

A religião é a representação da moralidade no livro. Charles não consegue entender o catolicismo e seus dogmas. De uma posição de incredulidade, passa a opor uma resistência feroz que explode na impressionante narração dos últimos meses de Lord Marchmain. Em seu leito de morte, desesperado pela perspectiva que se aproxima, Charles opõem-se violentamente contra o desejo das filhas de trazer um padre para fazer a última confissão. Fica evidente no final que Charles estava mais preocupado em ter razão e provar para si mesmo o charlatanismo da Igreja do que o próprio conforto do moribundo, o que custará sua própria felicidade.

Evelyn Waugh vai além do que Dotoievsky defendeu em Irmãos Karamazovi, que sem Deus tudo seria possível. Para ele, sem Deus, tudo era fútil e a felicidade efêmera. O fim de uma vida sem fé era o vazio e o desespero, era o nada.

Em uma prosa brilhante, Waugh narra uma estória como apenas os grandes escritores eram capazes. Seu livro o coloca como um dos melhores autores modernos, no mesmo patamar de gente como Joyce, Mann e Conrad. Brideshead é uma obra de gênio.


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