terça-feira, março 17, 2009

Mergulho radical

Enfrentar a realidade não é uma experiência fácil; ao contrário, é uma experiência radical. Você abandona o conforto da ignorância para descobrir algo realmente extraordinário: o real é angustiante.

Tem horas que você abraça esta realidade com fôlego, começa a ler os jornais com atenção, ver opiniões na internet, debater com os amigos, e o sentimento que vai crescendo é de perplexidade. Como chegamos a este ponto? Como nos tornamos esta sociedade mesquinha e hipócrita? Como perdemos a noção completa de uma coisa que deveria ser basilar, o bom senso.

Hoje passei praticamente o dia lendo. Sobre praticamente tudo, economia, poupança, aborto, criminalidade, feminismo, ideologia, subversão, esperança, esportes, política. No fim de tudo terminei cansado e triste. O caminho que estamos seguindo é opressivo para aqueles que não concordam com os valores, ou a falta de valores, que foram impostos nos últimos tempos.

São tantas coisas acontecendo, tudo ao mesmo tempo, que não deixo de me perguntar se não há uma conexão comum em todas elas, se não há um mesmo princípio conectando áreas aparentemente tão díspares. Sei que pareço vago, um tanto quanto abstrato, mas é que realmente não quero ser específico, não quero descer no particular. Quero tentar ver um pouco do geral, do comum.

Quando eu acha que o problema era meu país, a esperança era maior. O problema é descobrir que o Brasil é apenas uma parte de um contexto maior, um movimento que busca, em síntese, levar o homem para o nada, para o vazio. Todas estas esferas, econômica, política, social, cultural, etc, estão contaminadas pelo grande mal contemporâneo, a busca do vazio existencial. Ser ou não ser? Optamos por não ser.

Confesso que tem dias que me desligo desta realidade. Um pouco para conservar minha sanidade, outro tanto para meditar um pouco mais livremente. Tentar remover o véu de imposturas que são constantemente colocadas para impedirmos de vermos a verdade. Sinto como personagem Neo de Matrix. Todo dia tenho que optar pela pílula azul ou vermelha, se lembro corretamente das cores, pouco importa. A diferença é que não existem máquinas nos mantendo em uma vida artificial e escondida por um sonho; este papel é feito pelos amorais que tomam o poder em todos os lugares do mundo e nas mais variadas formas. Onde vamos parar? Difícil dizer.

Um dia um padre me disse, na época não sabia que era padre, era um curso de filosofia, o padre me disse que o ocidente estava vazio, sem valores, perdido. O consumismo tomou conta de nossa vida econômica, o permissivismo de nossa vida social, o "carpe diem" de nossa moral e a indiferença de nossa vida política. O homem ocidental perdeu suas crenças e deixou de acreditar em qualquer valor, o niilismo triunfara.

Em um mundo repleto de ideologias, o real perdeu seu valor. Começar a percebê-lo é assustador. Temos alguma noção, mesmo que intuitiva, que as coisas não vão bem, mas não imaginamos a que ponto. Se o que estou vendo é fruto de alguns meses de leituras, estudo e observação, o que ainda não sei? O que ainda está escondido de meus olhos?

Uma opção é largar tudo, começar a ler Paulo Coelho e ficar feliz em ser abraçado pela modernidade. Rejeito esta opção. O mergulho na realidade exige coragem. Que tipo de coragem? Coragem de acreditar que a verdade realmente nos liberta, que a melancolia que toma conta de nós, tão bem descrita em Hamlet, dará lugar à sabedoria, a compreensão do mundo e de sua natureza. Pelo menos no que Deus nos permite.

A presença de Deus é fundamental. Nada me dá mais esperança em nosso futuro que a providência divina, a crença que existe algo maior que este mundo material que nos encontramos e nossas infinitas imperfeições. Somos falhos, pecadores, imperfeitos, mas somos criaturas de Deus e através do amor encontraremos nossa redenção.

Com coragem para enfrentar a verdade, crença nos valores eternos e absolutos, fé em Deus, somos capazes de vencer o desafio que é viver em tempos tão difíceis para o espírito. Sim, o mergulho na realidade é necessário. Como Neo, temos que escolher a pílula certa e penetrarmos no horror de nossa existência. Só assim seremos salvos.

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