quarta-feira, março 25, 2009

Os Maias

Como é possível considerar O Primo Basílio como a obra-prima de Eça de Queirós? Não tem nem como comparar, "Os Maias" é simplesmente uma obra monumental. Agora entendo porque Machado de Assis, que entendia do riscado infinitamente mais do que eu, disse que Basílio era um cópia menor de Eugene Grandet (ou seria da Bovary?, ou das duas?). Mas deixemos Basílio de lado e vamos a "Os Maias".

A sociedade portuguesa retratada por Eça é uma aristocracia decadente, uma cópia inferior da inglesa, que lhe servia de inspiração. O autor reforçou bem este ponto usando palavras inglesas constantemente por seus personagens, principalmente os que almejavam se fazer notar na sociedade, como Dâmaso. Uma nova ordem começava a surgir inspirada pelos ideais de democracia e pela influência socialista que conquistava cada vez mais corações. Ao longo do livro, Eça retrata várias reuniões políticas em que aristocratas tentavam defender a velha ordem diante dos ideais que surgiam com Proudhome, Taine, Michelet e outros.

Carlos Maia vive nesta pertubação de querer abraçar o novo mas sem abandonar o velho. É uma aristocrata rico que tenta se convencer que pertence a nova ordem que se forma em Portugal. Tenta clinicar como médico, escrever um livro de medicina, tudo sem muito sucesso. Aos poucos vai assumindo seu papel na sociedade.

O abandono dos valores morais é evidente pelo afastamento de Deus e pela amoralidade de Carlos e seus amigos que divertem-se seduzindo mulheres casadas. Justificam seus atos ridicularizando os traídos. Em um momento impagável, João da Ega justifica a sedução da filha de uma padre casada com um homem rico dizendo que seu ato era, desta forma, duas vezes meritórios, pois atingia o clero e a aristocracia.

Eça consegue tanta realidade com seus personagens que não é difícil reconhecer várias situações que estivemos presentes ou vimos de perto. O asco que Carlos começa a sentir com a Condessa de Gouvarinho depois de terem se tornado amantes é um destes momentos. Assim como a sua tentativa de colocar toda a responsabilidade nas costas da amante que se tornara indesejada.

Acaba por imitar a tragédia de seu pai, adora pelo lado oposto. De reviravolta em reviravolta Carlos vai se confrontando com suas próprias escolhas e quando tudo parecia superado, até mesmo seus próprios preconceitos, é arrastado para um desfecho que jamais poderia imaginar. O leitor é arrastado com ele e perplexos aprendem que todo ato tem conseqüências.

A forma como Eça mudou o ponto de vista de Carlos para Ega nos momentos cruciais da trama foi de uma inspiração fenomenal. Perdemos a companhia de Carlos e assistimos de mãos atadas ao desespero de João em tentar ajudar o amigo e descobrindo que nada podia fazer.

Eça de Queirós escreveu uma obra genial, que merece constar como uma das obras-primas da literatura mundial. O seu domínio da linguagem e da estória que criou é fantástico e nos arrebata totalmente para aquela decadente Lisboa do fim do século XIX.

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