domingo, abril 26, 2009

Eu sei que Vou te Amar (1986)


Eu sei que Vou te Amar tem muito a ver com uma determinada fase da minha vida; na verdade, de um amor que eu já tive. Quando o personagem de Thales Pan Chacon afirma "você simplesmente deixou de me amar", senti aquela dor no estômago de recordações nem um pouco agradáveis retornando. Levantei da cadeira e constatei o óbvio: este cara sou eu! Ou melhor, esta cara fui eu.

A primeira vez que vi este filme, tinha 14 anos. Nesta idade estava mais preocupado em ver a Fernanda Torres nua do que qualquer outra coisa. Diga-se de passagem que ela estava linda no filme e ganhou o maior prêmio da sua carreira, melhor atriz no Festival de Cannes. Na visão de um adolecente, tratava-se de um filme muito chato.

O tempo passa e vinte anos depois estou diante do mesmo filme, só que agora de um outro ponto de observação, acentado em experiências reais vividas e uma bagagem de reflexão de mundo que estas duas décadas trazem. É sempre um prazer assistir uma obra como essa através de novos olhos e descobrir o quanto somos ingênuos em nossa juventude.

O filme é muito bom e o diálogo de Jabour inspiradíssimo. Explora a relação entre uma mulher amorosa e um homem incapaz de amar, entre uma mulher que quer exteriorizar seu amor e um homem que tem medo do que sente. Explora a traição e como afeta de maneira diferente homens e mulheres. Para Jabour, não tem essa de homens e mulheres serem iguais. Sentem de maneira diferente, agem de maneira diferente. O homem trai sem deixar de amar. A mulher deixa de amar e trai. Por isso Thales grita que ela simplesmente deixou de amá-lo, e é verdade.

Ele sabia que estava sendo traído mas não queria confrontar-se com a verdade porque sabia que seria o fim de tudo. Sentia como se uma guilhotina estivesse sobre sua cabeça o tempo todo, pronta para decepá-la. Já estive ali. E foi exatamente como me sentir por pouco mais de um ano. Até que ela decepou-me a cabeça.

Já ele tinha medo do próprio sentimento, de entregar-se por inteiro a uma mulher. O amor pode ser aterrador quando não compreendido. O personagem de Thales temia desaparecer como pessoa diante da força de seus próprios sentimentos e talvez por isso tenha lutando contra ele.

Eu sei que vou te amar é um grande filme porque além de belíssimo, trata com sensibilidade e inteligência o amor entre duas pessoas. Um amor que longe de ser perfeito é intenso e verdadeiro. Sim, o amor pode trazer sofrimento. Mas é bem melhor do que não ter amado.

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Now playing: Dirty Mac - Wild thing
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quinta-feira, abril 23, 2009

The Sun Also Rises - Ernest Hemingway (1926)

Hemingway faz um retrato de um grupo de amigos que enfrentam a desilusão e desesperança de toda uma geração no período entre guerras. Tendo como foco narrativo o personagem de Jake Barnes, eles entregam-se a uma vida de excesso que cada vez os satisfazem menos. Procuram um tempo perdido, uma felicidade que poderia ter existido em um passado remoto, mas que não resta nem a esperança. Jake é o retrato do homem sem que surgia, um homem sem ideais, sem fé, sem nada por que viver.

A bebida está constante da primeira a última página do romance, todos bebem muito e o tempo todo. Justamente no momento da embriaguez mostram-se como de fato são, pessoas que vivem uma vida sem sentido, procurando não perceber o vazio existencial que encontram diante de si próprios.

A primeira parte do romance acontece em Paris, com a apresentação dos personagens e das situações de cada um. Na segunda parte, encontram-se na Espanha para um festival. O amor existe apenas na impossibilidade de ser realizado e se dissipa com sua consumação.

Um livro sombrio que mostra o ponto que se chega ao entregar-se a uma busca frenética de prazer. A solidão está presente o tempo todo, mesmo nas multidões. A violência latente, seja nas touradas, seja nas brigas. E no fim, o vazio. A constatação seca de Brett que tudo poderia ser diferente. Mas não foi. Foi exatamente como deveria ser.

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Now playing: Camisa De Vênus - Batalhões De Estranhos/Coiote No Cio (Pink Panther)
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Susan Boyle

Como vejo muito pouca televisão e a cobertura cultural dos jornais brasileiros é um lixo, sendo bastante condescendente, não tinha visto ainda este caso de Susan Boyle, a escocesa de 47 anos, que passou a vida cuidando da mãe, nunca foi beijada e mora com um gato. Parece um conto de fadas, e é, mostrando que Chestenton estava certo quando dizia que os contos de fadas era o que tínhamos de mais real.

A dica veio do blog do Angelo.

O vídeo do Youtube está aqui.

O comentário de J. P. Coutinhos está aqui.

Confiram por si mesmos.

domingo, abril 19, 2009

Flamengo 1 x 0 Botafogo


A Taça Rio é Nossa!

Para variar um pouco, este ano não ficamos com a Taça Guanabara, acabamos com a Taça Rio. Novamente Flamengo e Botafogo farão a finalíssima, é a terceira seguida. Depois do Tri em cima do Vasco, pode ser a hora do Tri em cima do Botafogo. Para os vascaínos não levarem para o lado pessoal.

O jogo hoje foi meio esquisito. O Flamengo dominou o tempo todo, mas o Botafogo teve as melhores chances da partida. A maioria em contra-ataques. Mais esquisito que o jogo foi o gol, contra, daqueles bem bizonhos. Enfim, o título ficou na Gávea.

Que venham os dois jogos finais!

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Now playing: The Beatles - Boys
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sábado, abril 18, 2009

chesterton e o Universo - Scott Randall Paine

O nome de Chesterton é pouco conhecido no Brasil. É uma pena. Trata-se de uma mente extraordinária que torna-se mais importante à medida que o tempo passa. Difícil dizer qual foi o seu papel na interpretação do mundo que se estabelecia no fim do século XIX, o mundo moderno. Esta foi a tarefa que Scott Randall Paine se propôs em “Chesterton e o Universo”.

Paine rejeita classificá-lo como um simples escritor cristão, ou mesmo filósofo; para ele, o papel que melhor caberia a Chesterton é o de retórico. Não no sentido depreciativo da palavra, mas na melhor acepção proposta por Aristóteles, aquele capaz de comunicar a verdade da melhor maneira possível. Paine sustenta que precisamos cada vez mais de Chesterton porque somos incapazes de ler Platão, Aristóteles e Tomás de Aquino. O mundo moderno tirou esta nossa capacidade. O principal papel desempenhado por Chesterton foi o de compreender a mensagem desses gigantes e conseguir comunicá-las de uma forma que une simplicidade com beleza. Chesterton foi acima de tudo um comunicador.

Chesterton foi quem melhor soube procurar e entender o senso comum, a sabedoria das coisas ordinárias sobre as extraordinárias. Para ele, tudo começava com a constatação da existência do mundo. Não só sua existência, mas sua beleza. O grande mal da filosofia moderna, que muito se aproximou das religiões orientais, foi recusar aceitar o princípio da existência do mundo. Para ele, só era possível filosofar a partir do universo, só se entenderia as partes vendo o todo. De tanto procurar este senso comum, acabou encontrando o que rejeitara na juventude, o cristianismo.

Este é mais um daqueles livros que merecem um artigo mais apurado, que pode ser conferido no link abaixo. Eu sou fão do cara. Dizer mais o que?

Artigo Completo

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Now playing: Chicago - Saturday In The Park
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Torneio de Xadrez

Esta semana está tendo um torneio de xadrez aqui na Companhia. Perdi a primeira partida, venci as duas seguintes. Hoje jogo contra o comandante, o único que venceu todas as três partidas. O total é de cinco partidas para cada um.

Independente do resultado, o que vale mesmo é a oportunidade de jogar. A quantidade de atividades que temos neste mundo moderno caracterizado pela infinidade de opções que temos, acaba nos deixando com pouco tempo. Como o xadrez é uma atividade que exige uma certa dose deste tempo, acaba relegada. Nos últimos anos, meu contato com o xadrez tem sido o palm top em filas ou no transporte público. Nada mais sintomático do nosso tempo do que jogar xadrez no metrô ou na fila do banco.

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Now playing: The Allman Brothers Band - Back Where It All Begins
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sexta-feira, abril 17, 2009

Tempestade

O mar revolto balança a embarcação
ventos que não cessam, tempestade sem fim
turbilhão de pensamentos perdidos
na tentativa de continuar navegando
oh, mar revolto,
oh, ventos sem fim.

Perde-se a noção do tempo, dos dias
e noites que sucedem-se implacáveis
no coração de homens rústicos
que lutam incansavelmente por mais um amanhecer
oh, mar revolto,
oh, ventos sem fim.

Houve momentos que pensou-se em desistir,
largar as amarras, soltar o leme,
mas um fiapo de sol surgia e com ele
a esperança de vencer as rajadas incessantes
oh, mar revolto,
oh, ventos sem fim

Mas logo o sol desaparecia, tão rápido
quanto surgira, um instante, uma pausa,
para logo voltar a tristeza, a impotência,
em vencer o oceano bravio.
oh, mar revolto,
oh, ventos sem fim.

Até que surgiu o dia, enfim,
que o sol retornou, a princípio tênue,
depois radiante, em todo seu esplendor,
enchendo de alegria o coração dos homens
O mar voltou a ser azul,
a embarcação voltou ao seu rumo,
e o capitão da proa se pergunta:
o que se perdeu na tempestade
e o que se ganhou?
O oceano ainda era o mesmo?
Ele ainda era o mesmo?
Porque tempestades deixam marcas,
nos fazem crescer, amadurecer,
e continuar navegando
navegando neste mar sem fim.

Heleno Marques

Barrichello disputando título?

Olha, nem com o cambalacho do Ross Brawn dá para acreditar em um título de Barrichello. Até porque sua largada é ruim de dar dó.

Tem tudo para dar Button este ano, um piloto que começou promissor e depois se apagou.

Noite das surpresas

Botafogo

Jogando em casa, o glorioso não conseguiu a classificação diante do Americano configurando a primeira zebra do campeonato. De forma dramática fez o gol da vitória aos 47 minutos do segundo tempo, mas novamente não foi feliz nos penaltis. Só resta o Carioca agora onde, novamente, é o favorito ao título pela vantagem que tem. Mas é bom abrir o olho, se perder a Taça Rio, perde o favoritismo.

Fluminense

E o tricolor? O que foi aquilo? Tiago Neves chutando bola no gandula como se fosse jogo da Libertadores? Em um time comandando por Parreira? Menos mal que Fred descontou no final e deixou o time em boas condições para a classificação no jogo de volta. Por outro lado, os tricolores estão tendo que aguentar a zoação da urubuzada, que ri à toa nesses dias que antecedem à final da Taça Rio.

segunda-feira, abril 13, 2009

Páscoa

O problema da impunidade

Quando começou a lei seca eu alertei para algo que me parece óbvio, o problema não estava na prevenção e sim na impunidade. A falta de punição é um dos principais motivos, junto com o péssimo estado de conservação das estradas, e ainda citei um exemplo:

(...) Não adianta querer ser rigoroso com quem não cometeu nenhum crime e ser extremamente tolerante com quem o faz. Existem exemplos mil, o mais famoso deles é do jogador Edmundo. Embriagou-se, matou e até hoje está livre. Quantos mais estão na mesma situação? Quantos já realmente cumpriram alguma pena pelos acidentes que provocaram?

E o que leio hoje no Uol?

O mesmo Edmundo acabou de perder a carteira depois de perder 70 pontos em um único ano ao atingir a incrível marca de 17 infrações, a maioria por excesso de velocidade. Enquanto isso, o estado está preocupado se eu comi um bombom com licor. Tem como dar certo?

Flamengo 1 x 0 Fluminense

O Flamengo abusou do direito de perder gols no jogo de ontem contra o Fluminense mas acabou vencendo, tamanha foi a superioridade do rubro negro. No primeiro tempo foram apenas 5 passes errados no primeiro tempo. Tivesse sido mais equilibrado, os incríveis gols perdidos teriam feito falta.

O time está longe de ser confiável. A defesa sofre de apagões incríveis e deixa a torcida com o coração na mão.

Agora o Flamengo precisa vencer o Botafogo para repetir a decisão dos últimos dois anos. Parada difícil se o Botafogo jogar o mesmo que jogou contra o Vasco, mas o alvinegro também tem sido bem irregular. Tudo pode acontecer no domingo.

sexta-feira, abril 10, 2009

O Pato Selvagem - Ibsen

A verdade liberta? Essa parece ser a questão que Ibsen coloca nesta peça que mostra um casamento feliz construído sobre uma mentira. Esta família ficaria melhor se soubesse da verdade? Ela continuaria a existir se a mentira fosse exposta?

Gregers descobre a verdade sobre a origem do casamento de um amigo de infância com a ex-governanta de sua casa. Este casamento já dura 14 anos e gerou uma filha, a encantadora Hedvig, dona do pato selvagem que produz a metáfora do título. Gregers quer resgatar o pato que fica preso no lodo do fundo do lago, uma referência à mentira. É um idealista, acredita ser seu dever mostrar a verdade ao amigo.

Existem muitas sutilezas aqui. Até que ponto Gregers quer realmente a verdade por um ideal e até que ponto deseja simplesmente se vingar do pai? Ele têm o direito de interferir na vida dos outros a este ponto?

Um leitor menos atento, pode achar que a peça é um argumento que a mentira pode ser mais saudável que a verdade, que pode trazer mais felicidade do que a verdade, contrariando a própria essência da filosofia, a busca pela sabedoria. Nada poderia ser mais falso. Ao colocar ao leitor que só existem dois caminhos, a verdade ou viver na mentira, o próprio Ibsen chama atenção que o caminho pela verdade poderia ser feito lá atrás, antes da consumação do casamento.

Mais do que isso, cabia ao próprio casal, pelo menos para Hjalmar, encontrar a verdade por si mesmo. A verdade pode ser muito mais profunda do que simplesmente saber sobre o passado da esposa ou mesmo da paternidade de Hedved, a verdade na verdade está na natureza das pessoas. Gina pode ter errado em esconder a verdade sobre seu relacionamento com o pai de Gregers, mas o casamento em si pode ter sido edificado em uma verdade maior do que todas as contingências, o amor de um casal e o amor pela filha. Essa é a verdade que importa. Quando Gregers conta o que aconteceu a Hjalmar, ele lança uma sombra que esconde esta verdade, que Hjalmar ama sua esposa e sua filha. Gregers não revelou nenhuma verdade de fato, ele lançou uma mentira sobre os verdadeiros sentimentos de uma família que até então vivia em harmonia e feliz. Foi preciso uma tragédia para que a verdade fosse a tona novamente.

Para mim, a mensagem mais importante é que ninguém, por melhor intenção que tenha, pode saber o que é melhor para o outro, interferir em uma família da maneira que Gregers fez. O mundo está cheio de pessoas que acham seu dever resolver os problemas particulares dos outros quando na verdade deveriam estar ocupados com suas próprias verdade. A verdade liberta sim, mas não do jeito que Gregers tentou fazer. A verdade não pode ser imposta a ninguém, deve ser encontrada por cada um.

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Now playing: Iron Maiden - Strange World
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quarta-feira, abril 08, 2009

Pensamento: Thomas Sowell

We seem to be moving steadily in the direction of a society where no one is responsible for what he himself did but we are all responsible for what somebody else did, either in the present or in the past.

Thomas Sowell

Tradução:

Nós parecemos estar nos movendo na direção de uma sociedade onde ninguém é responsável pelo que fez mas todos são responsáveis pelo que outra pessoa fez, tanto no presente quanto no passado.

segunda-feira, abril 06, 2009

Maratona de My Name is Earl

Na última semana tive alguns problemas de insônia, parte pela notícia que ficaremos um mês a mais aqui no Haiti. Foi uma ducha de água fria para quem já começava a se preparar para ir embora.

Como estava com a terceira temporada de My Name is Earl, aproveitei para assisti-la toda. Na verdade tentei resistir, mas fui vencido. A temporada foi muito boa!

Uma das coisas legais do seriado são os questionamentos que ele faz sobre o politicamente correto, um dos males que está corroendo a sociedade americana e mundial. O mundo de Earl é um mundo de estereótipos criados pelos próprios esquerdistas que só conseguem raciocinar com o ser humano por categorias. Temos de tudo lá, a loira burra e preconceituosa, o negro vendedor de maconha, o americano médio preconceituoso, o homossexual no armário, a imigrante mexicana ilegal com sua cultura exótica e tantos outros. Nada é poupado, desde anões, prostitutas e deficientes físicos.

O interessante é que quando as pessoas são retratadas por seus estereótipos, elas não parecem reais. Somente quando enxergamos mais de perto e começamos a perceber que a loira não é tão burra assim, que o negro é o mais inteligente da turma, que a mexicana é trabalhadora e etc, é que começamos a ver uma realidade mais presente, mostrando que temos muito mais em comum do que diferenças, que não podemos ser representados por categorias! My Name is Earl é um seriado que fala do indivíduo e de seu imenso poder transformador na sociedade. Limitá-lo é limitar a sociedade.

O estado aparece sempre como algo bizarro, como algo que na verdade não consegue resolver os problemas mais comuns. Os problemas só se resolvem na verdade quando o senso de comunidade aparece. Ao empenhar-se, como indivíduo, em fazer o que é certo, Earl desenvolve a sua volta um senso de comunidade que o estado nunca conseguirá desenvolver.

My Name is Earl é sobre o triunfo do indivíduo sobre os falsos consensos impostos na sociedade pelos coletivistas pois parte de um princípio que não deveria ser esquecido: uma sociedade muda quando o indivíduo se transforma de maneira voluntária, pela reforma interior. Esta transformação tem que ir neste sentido, indivíduo para a sociedade e não o contrário, sociedade, ou melhor, quem fala em nome dela, em direção ao indivíduo, que é justamente o que faz o politicamente correto.

É preciso resgatar o papel do indivíduo na sociedade e lutar contra a visão que o representa em categorias. Não existe o negro, o imigrante, o deficiente, o branco, o índio. Existe João, Maria, José, Pedro, que por acidente são negros, imigrantes, brancos, deficientes e etc. Não é o acidente que define o que somos, é o que nos é comum, a nossa própria humanidade.

sexta-feira, abril 03, 2009

O Estrangeiro - Albert Camus

O estrangeiro é um destes livros que deixa o leitor perplexo e incomodado. Meursault, o anti-herói do romance, é um homem incapaz de estabelecer qualquer laço afetivo com o seu próximo. Camus retratou um dos espíritos que surgiu no seu tempo, o homem que evita se relacionar emocionalmente para não ter desilusões. Não por acaso, a principal característica deste homem é a indiferença.

Em um livro de impressionante concisão, o panorama que Camus faz de Meursault é estarrecedor. Nas mãos de um escritor menos talentoso, este panorama se derramaria sobre páginas e mais páginas. Já Camus expõe seu personagem nas primeiras frases, “Hoje minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem." Aqui já temos o retrato da indiferença de Meursault com relação à morte da mãe, o que lhe custará bem caro no futuro próximo.

Sim, no final da primeira parte do livro, Meursault mata um árabe que não conhecia em uma praia. Apesar da gratuidade de seu ato, havia atenuantes, mas o que entra em julgamento na verdade é o próprio desprezo do personagem pela sociedade, sua indiferença e sua incapacidade de mentir. Meursault não segue regras mínimas de convivência, ele não mente para agradar mesmo que freqüentemente tenha desejo de agradar o outro. O próprio conceito da justiça legal entra em questão, pois deveria estar sendo julgado pelo ato que cometeu e não pelo que é. Quando seu advogado levanta este ponto o promotor afirma que acusa Meursault de ter ido ao enterro da mãe com alma de assassino.

O julgamento possui elementos kafkanianos, do sistema contra o indivíduo. É possível sentir a opressão do juiz de instrução, do promotor e até mesmo do próprio advogado contra ele. O juiz de instrução, por exemplo, não se conforma que ele seja incapaz de crer em Deus; o promotor lembra com ênfase que ele em nenhum momento mostrou arrependimento e seu advogado mostra repulsa com a forma que Meursault referiu-se a própria mãe.

A genialidade de Camus aparece ao colocar o sistema contra um indivíduo mas com uma diferença: este indivíduo não é inocente. Meursault mostra uma personalidade que se fosse mais comum tornaria a convivência humana impossível e acabaria com qualquer chance de comunidade. Se Meursault renega a civilização, a sociedade, ela também deve renegá-lo. Como pode querer viver na sociedade sem respeitá-la? Viver só com o que lhe agrada, com o que oferece pequenos prazeres.

O juri o condena à guilhotina. O último capítulo narra seus pensamentos enquanto aguarda o resultado do recurso. Seu último embate é contra o capelão que de forma no mínimo inábil tentá lhe falar de Deus. Não é apenas a sociedade que ele rejeita, mas também a própria idéia de fé. É a única parte do livro que sai de sua fleuma e torna-se agressivo.

O Estrangeiro é um livro que nos apresenta características da modernidade e seus paradoxos. É para ser lido com carinho e atenção, há muitos pontos de partida para refletir sobre a condição humana e este mundo que nos acolhe.