sexta-feira, abril 03, 2009

O Estrangeiro - Albert Camus

O estrangeiro é um destes livros que deixa o leitor perplexo e incomodado. Meursault, o anti-herói do romance, é um homem incapaz de estabelecer qualquer laço afetivo com o seu próximo. Camus retratou um dos espíritos que surgiu no seu tempo, o homem que evita se relacionar emocionalmente para não ter desilusões. Não por acaso, a principal característica deste homem é a indiferença.

Em um livro de impressionante concisão, o panorama que Camus faz de Meursault é estarrecedor. Nas mãos de um escritor menos talentoso, este panorama se derramaria sobre páginas e mais páginas. Já Camus expõe seu personagem nas primeiras frases, “Hoje minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem." Aqui já temos o retrato da indiferença de Meursault com relação à morte da mãe, o que lhe custará bem caro no futuro próximo.

Sim, no final da primeira parte do livro, Meursault mata um árabe que não conhecia em uma praia. Apesar da gratuidade de seu ato, havia atenuantes, mas o que entra em julgamento na verdade é o próprio desprezo do personagem pela sociedade, sua indiferença e sua incapacidade de mentir. Meursault não segue regras mínimas de convivência, ele não mente para agradar mesmo que freqüentemente tenha desejo de agradar o outro. O próprio conceito da justiça legal entra em questão, pois deveria estar sendo julgado pelo ato que cometeu e não pelo que é. Quando seu advogado levanta este ponto o promotor afirma que acusa Meursault de ter ido ao enterro da mãe com alma de assassino.

O julgamento possui elementos kafkanianos, do sistema contra o indivíduo. É possível sentir a opressão do juiz de instrução, do promotor e até mesmo do próprio advogado contra ele. O juiz de instrução, por exemplo, não se conforma que ele seja incapaz de crer em Deus; o promotor lembra com ênfase que ele em nenhum momento mostrou arrependimento e seu advogado mostra repulsa com a forma que Meursault referiu-se a própria mãe.

A genialidade de Camus aparece ao colocar o sistema contra um indivíduo mas com uma diferença: este indivíduo não é inocente. Meursault mostra uma personalidade que se fosse mais comum tornaria a convivência humana impossível e acabaria com qualquer chance de comunidade. Se Meursault renega a civilização, a sociedade, ela também deve renegá-lo. Como pode querer viver na sociedade sem respeitá-la? Viver só com o que lhe agrada, com o que oferece pequenos prazeres.

O juri o condena à guilhotina. O último capítulo narra seus pensamentos enquanto aguarda o resultado do recurso. Seu último embate é contra o capelão que de forma no mínimo inábil tentá lhe falar de Deus. Não é apenas a sociedade que ele rejeita, mas também a própria idéia de fé. É a única parte do livro que sai de sua fleuma e torna-se agressivo.

O Estrangeiro é um livro que nos apresenta características da modernidade e seus paradoxos. É para ser lido com carinho e atenção, há muitos pontos de partida para refletir sobre a condição humana e este mundo que nos acolhe.

Um comentário:

Bemba disse...

Jota Esse é um dos livros que mais gosto!!!!!Camus retrata de forma tão real a vida de Meursault que ele ganha vida nessas paginas!!!!!!
Grande Abraço!!!!!