sexta-feira, abril 10, 2009

O Pato Selvagem - Ibsen

A verdade liberta? Essa parece ser a questão que Ibsen coloca nesta peça que mostra um casamento feliz construído sobre uma mentira. Esta família ficaria melhor se soubesse da verdade? Ela continuaria a existir se a mentira fosse exposta?

Gregers descobre a verdade sobre a origem do casamento de um amigo de infância com a ex-governanta de sua casa. Este casamento já dura 14 anos e gerou uma filha, a encantadora Hedvig, dona do pato selvagem que produz a metáfora do título. Gregers quer resgatar o pato que fica preso no lodo do fundo do lago, uma referência à mentira. É um idealista, acredita ser seu dever mostrar a verdade ao amigo.

Existem muitas sutilezas aqui. Até que ponto Gregers quer realmente a verdade por um ideal e até que ponto deseja simplesmente se vingar do pai? Ele têm o direito de interferir na vida dos outros a este ponto?

Um leitor menos atento, pode achar que a peça é um argumento que a mentira pode ser mais saudável que a verdade, que pode trazer mais felicidade do que a verdade, contrariando a própria essência da filosofia, a busca pela sabedoria. Nada poderia ser mais falso. Ao colocar ao leitor que só existem dois caminhos, a verdade ou viver na mentira, o próprio Ibsen chama atenção que o caminho pela verdade poderia ser feito lá atrás, antes da consumação do casamento.

Mais do que isso, cabia ao próprio casal, pelo menos para Hjalmar, encontrar a verdade por si mesmo. A verdade pode ser muito mais profunda do que simplesmente saber sobre o passado da esposa ou mesmo da paternidade de Hedved, a verdade na verdade está na natureza das pessoas. Gina pode ter errado em esconder a verdade sobre seu relacionamento com o pai de Gregers, mas o casamento em si pode ter sido edificado em uma verdade maior do que todas as contingências, o amor de um casal e o amor pela filha. Essa é a verdade que importa. Quando Gregers conta o que aconteceu a Hjalmar, ele lança uma sombra que esconde esta verdade, que Hjalmar ama sua esposa e sua filha. Gregers não revelou nenhuma verdade de fato, ele lançou uma mentira sobre os verdadeiros sentimentos de uma família que até então vivia em harmonia e feliz. Foi preciso uma tragédia para que a verdade fosse a tona novamente.

Para mim, a mensagem mais importante é que ninguém, por melhor intenção que tenha, pode saber o que é melhor para o outro, interferir em uma família da maneira que Gregers fez. O mundo está cheio de pessoas que acham seu dever resolver os problemas particulares dos outros quando na verdade deveriam estar ocupados com suas próprias verdade. A verdade liberta sim, mas não do jeito que Gregers tentou fazer. A verdade não pode ser imposta a ninguém, deve ser encontrada por cada um.

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Now playing: Iron Maiden - Strange World
via FoxyTunes

Um comentário:

caetano trindade disse...

Vai aí uma poesia do meu Amigo da Paciência em Cipotânea MG com seu poema En-tortado.
Abracos xopotoenses,
Caetano Trindade

TORTAS

Tenho cinco tortas,
mas não posso escolher nenhuma,
senão eu não seria eu,
mas torta alguma.

Estou torto de idéias,
latejo como febre.
Fico doente com palavras, impérias.

Fico pasmo com os verbos de ligação ser, estar, ficar...
Estou doente, não tenho cura,
há médicos enfermos que almifica.

Pasmático combina a encantação,
pôr isso me deleito.
Porque minhas idéias voam em relação,
nunca fixa em coisa concreta, abstrai jeito-

Assim fico sendo reto em torta linha,
as colunas encurvadas nas costas em suas faces,
Pesos iguais das coxas de retalhos da “Fiinha”.

O muro não passa de uma divisão concreta no ponto da reticência...
Olhai os caminhos que enveredai.
Sou cascalho, concreto ausente, marco presença.


Sumo na estrada,
fica um sorriso intervalado entre janelas de vidros.
Deito e esqueço dos pormenores detalhes,
Entortacedorestes.