domingo, maio 31, 2009

Neoliberal Não, Liberal




Carlos Alberto Sandenberg captou muito bem, em poucas páginas, os grandes entraves para o desenvolvimento econômico no Brasil. Fugindo dos lugares comuns do discurso político no Brasil, o comentarista econômico da rádio CBN mostra que o grande problema está na cultura brasileira que é francamente anti-liberal e a favor do estado como nosso salvador, quando na verdade é o causador da grande maioria dos entraves para a criação de riquezas no país.


Nossa história recente mostrou que nada é o que parece no Brasil, a começar pela diferença de direita e esquerda no país. No fundo, todos os partidos brasileiros são, em maior ou menor grau, de esquerda. A confusão começa quando se considera o regime militar como de direita pela oposição dos movimentos de esquerda e alinhamento, pelo menos na primeira parte, aos Estados Unidos, quando na verdade possuía uma política econômica fortemente baseada em um estado forte com amplo controle de estatais nos mais diversos campos da economia.


Veio Fernando Collor e venceu as eleições de 1989 com um discurso francamente liberal e seu governo iniciou realmente com uma ampla abertura econômica cuja faceta mais visível foi a quebra das barreiras na área da informática. Entretanto a corrupção de seu governo acabou por sepultar de vez o discurso de direita no Brasil, pelo menos por um bom tempo.


Fernando Henrique Cardoso e seu governo do PSDB não tomou medidas liberais por convicção e sim por absoluta necessidade. Para enfrentar o problema da inflação foi necessário diminuir o tamanho do estado para equilibrar as contas públicas. A infra-estrutura do país estava quebrada, era preciso fazer caixa e as privatizações vieram. Foi uma ação decisiva dos tucanos, mas envergonhada. Quando a oposição ao desmonte do estado tornou-se significativa, o governo abandonou o programa nacional de privatização para nunca mais retomá-lo. Nas eleições de 2006 ficou patente que ninguém no PSDB estava disposto a defender os atos liberais do governo FHC.


Foi assim que uma agenda liberal foi parar nas mãos de um partido de esquerda e implementado dentro de um quadro de necessidade. Sandenberg mostra a diferença do que aconteceu na Inglaterra onde Margaret Tatcher assumiu governo, explicou para o eleitor o que pretendia e com decisão promoveu o liberalismo clássico.


A saúde de uma democracia, advoga Sandenberg, depende de uma alternância de governos de esquerda e direita, cada um impondo limites à visão do outro e buscando um equilíbrio entre a criação de riquezas e sua distribuição. Esta alternância é saudável na medida que é um chamamento à responsabilidade e busca dos verdadeiros anseios de uma nação e não a imposição da visão política de um grupo.


A conseqüência da história econômica recente é uma oposição muitas vezes irracional da elite cultural e política do país ao liberalismo econômico em seu sentido clássico. O que Sandenberg chama atenção é para o fato da eleição de Fernando Collor ter provado que uma candidatura com agenda liberal pode sim vencer o cerco e convencer o eleitor a apostar nela; o que falta é liderança política disposta a tanto. O Brasil precisa apostar mais na criação das riquezas ao invés de jogar todas as suas fichas na distribuição do pouco que consegue criar.


FHC e Lula promoveram um amplo desenvolvimento de programas sociais em detrimento de investimento em infra-estrutura e educação (esteio de qualquer programa de desenvolvimento econômico). Esta política tem um custo que só se ampliará com o passar to tempo, até que o país não conseguirá mais pagá-lo. A ausência de um equilíbrio entre o futuro (criação de riquezas) e presente (distribuição) é responsável pela estagnação do país e comprometimento do equilíbrio financeiro a médio e longo prazos. Um ajuste virá mais cedo ou mais tarde e será mais doloroso com o passar do tempo.


Sandenberg faz uma defesa dos princípios liberais mostrando a necessidade do Brasil promover uma maior abertura comercial, reduzir a carga tributária, desburocratizar a atividade econômica e reduzir o tamanho do estado. Defende a retomada das privatizações, incluindo gigantes como Petrobrás e Banco do Brasil. Argumenta que elas não servem ao povo, como se defende, mas sim aos interesses do partido do poder. Na prática já estariam privatizadas, só que uma privatização feita nos corredores de Brasília e longe dos olhos dos eleitores. Mostra que as privatizações realizadas no governo FHC foram um sucesso completo, principalmente nas telecomunicações e no caso da Vale do Rio Doce.


Neoliberal não, Liberal é para lavar a alma de quem acredita na liberdade econômica como essencial para o desenvolvimento do país e não suporta mais o lugar comum que se tornou o pensamento econômico no Brasil. Tudo em um livro curto, claro e com extrema objetividade. Sandenberg defende suas idéias não para a elite cultural brasileira, mas para o cidadão comum, aquele que sente os efeitos reais da estagnação econômica e que tem a intuição que precisamos apostar mais em nosso futuro.

terça-feira, maio 26, 2009

Lutando contra as cotas

Estadão:

O Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro concedeu ontem liminar suspendendo os efeitos da lei estadual que estabeleceu cotas em universidades públicas estaduais. A iniciativa contra as cotas para negros e estudantes de escolas públicas partiu do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PP ), que entrou na Justiça com uma ação direta de inconstitucionalidade.
O deputado, que também é advogado, defendeu a ação no plenário do Órgão Especial. Para ele, a lei é demagógica e discriminatória, além de não atingir seus objetivos. “O preconceito existe, não tem como negar, mas a lei provoca um acirramento da discriminação na sociedade. Até quando o critério cor da pele vai continuar prevalecendo? A ditadura do politicamente correto impede que o Legislativo discuta a questão”, afirmou Bolsonaro durante sua defesa.


Uma das características marcantes da civilização brasileira é a intensa miscigenação. Em nenhum lugar do mundo, que eu saiba, aconteceu e acontece o que se vê por aqui. Sim, houve a escravidão; mas esta se foi a mais de 100 anos e para os negros que vieram da África ela significou algo melhor do que tinham no continente de origem. Tanto que as primeiras rebeliões começaram com seus descendentes, os negros nascidos no Brasil.

O Brasil absorveu a cultura africana em quase todo o país, mas principalmente no Nordeste e no Sudeste, regiões onde a escravidão foi mais intensa. Pessoas preconceituosas com a cor da pele existem em todo o lugar, seja no Brasil, na Suiça ou em Marte. O principal ponto é a partir da abolição da escravatura conceceu aos negros os mesmos direitos de qualquer outro brasileiro.

Quanto ao preconceito, é fácil constatar que a cada geração sua queda é acentuada. A miscigenação e a brasilidade são mais efetivos para extirpar este mal do que qualquer ato governamental. Deixem a história seguir seu curso.

Sim, a quantidade percentual de negros e pardos pobres é superior ao branco e este é o principal argumento a favor das cotas. Mais um motivo de perseguir o combate à pobreza, pois necessariamente estaria se beneficiando mais os negros e pardos do que os brancos. O negro não precisa de uma vaga na universidade de bandeija, precisa de uma educação de qualidade que o possibilite lutar por seu espaço. A cor da pele não define capacidade. Sou contra política de cotas baseadas na cor por acreditar que não existe nenhuma inferioridade relacionada a ela.

Sei que é difícil combater à pobreza, ainda mais quando a opção é pelo assistencialismo e não contra a geração de riquezas. No entanto, é o único caminho. A combinação de geração de riquezas (deixem o mercado trabalhar!) e educação de base ainda é o melhor caminho. Em outras palavras, o que o Brasil precisa é de livre mercado, menos estado da economia. Deixem as empresas produzirem e passem a cuidar de verdade da educação, começando por diminuir radicalmente a carga tributária. A melhor política social que existiu nos últimos 20 anos foi o plano real, este tirou muitos brasileiros da miséria; mais importante ainda, tirou muitos negros da miséria.

Não acredito que esta liminar vai durar muito. O politicamente correto é muito forte e atinge os juízes, assim como aconteceu nos Estados Unidos. Logo vai ter um juiz interessado em "ouvir a voz do povo" para usar um monte de termos técnicos para passar por cima de um artigo muito claro da constituição que diz que nenhuma brasileiro pode ser descriminado por causa de sua cor. Foi assim com a Suprema Corte Americana, será assim por aqui. Até que o desastre seja grande o suficiente para ser ignorado.

segunda-feira, maio 25, 2009

Say Anything (1989)


Cameron Crowe soube contar estórias de adolescentes como poucos. Fugindo dos estereótipos comuns das comédias românticas, o diretor usou da sensibilidade para traçar o perfil da juventude, particularmente de Seattle, na passagem dos anos 80 para os anos 90.

Lloyd é um rapaz que termina o colegial e encontra-se perdido como quase todos. Sonha em ser lutador de um novo tipo de arte marcial que estava surgindo, o Kikboxing. Vivendo com a irmã, mãe solteira, vive sua vida com extrema honestidade. Apaixonada pela melhor aluna de sua turma, resolve fazer o mais simples e óbvio, ligar para ela e convidá-la para sair. Nada de planos mirabolantes ou coincidências incríveis, simplesmente pegou um telefone e ligou para Diane.

Diane é a melhor aluna e oradora da turma. Nas mãos da maioria dos diretores, seria a "popular girl", nas mãos de Crowe é uma desconhecida pelos próprios colegas. Dedicada ao estudo e a construção de seu futuro, não chegou a fazer um único amigo de verdade na escola. Quando perde a virgindade não tem uma única colega para compartilhar, apenas o pai. Angustiada mas sem saber porque, é assim que Diane se encontra quando recebe o telefonema de Lloyd.

Na festa que vai com Lloyd, já no fim, uma amiga dele pergunta a ela: por que saiu com ele? Ela responde sem pensar: ele me fez rir. Parece banal, mas para aquela menina que vive uma vida planejada nos mínimos detalhes é algo quase inacreditável, encontrar alguém que a faça rir.

James(o excelente John Mahoney) é o pai de Diane. Um pai super protetor, que vive em função da filha. Novamente fugindo ao padrão, nada faz para afastar a filha do genro que considera inferior além de dar seus conselhos. O problema é que começa a ser investigado por fraude contra os idosos que cuida em seu asilo. James vive em uma realidade onde possui o direito de usar o dinheiro deles para assegurar o futuro da filha, acreditar realmente que nada fazia de errado.

É assim que Crowe constrói uma bonita estória de amor que prima pela vorossimilhança. De quebra ainda conseguiu uma imagem para entrar para a história do cinema, a de John Cusack fazendo uma serenata com uma estéreo.

Quote:

Mike Cameron: I don't know you very well, you know, but I wanted to ask you - how'd you get Diane Court to go out with you?
Lloyd Dobler: I called her up.
Mike Cameron: But how come it worked? I mean, like, what are you?
Lloyd Dobler: I'm Lloyd Dobler.
Mike Cameron: This is great. This gives me hope. Thanks.

Emma - Jane Austen

Li em algum lugar que Jane Austen tentou criar em Emma uma heroína que só ela fosse capaz de gostar. Eu disse tentou. Na verdade a grande escritora fracassou completamente. Não tem como não gostar da jovem apesar de todos os seus defeitos e são muitos. Talvez o motivo de seu fracasso seja que Emma é acima de tudo humana, sofre com seus erros, arrepende-se, comete outros tantos, mas não desiste; quer construir sua própria felicidade e, de sua maneira, atrapalhada ajudar na dos outros.

A sua incapacidade de julgar as pessoas e perceber a verdade em suas intenções é uma mistura de inexperiência e autoconfiança. O que falta a Emma era a capacidade de se colocar em dúvida, de pensar por um minuto que poderia estar errada. Acostumada ao mimos de seu pai e de sua babá, ela realmente acredita ser uma excelente julgadora de caráter, de compreender os segredos da condição humana. Emma mostra os males que o excesso de confiança pode trazer para as pessoas.

Ao longo do livro, ela vai aprendendo da maneira mais difícil que não pode fazer o destino das pessoas, que não pode querer escolher por elas. A humildade é uma das maiores qualidades que o ser humano pode trazer (a despeito do que a cultura da alto ajuda preconiza) e Emma adquire sua dose aos poucos e da forma mais dolorosa.

No entanto Austen equilibra qualidades e defeitos, conferindo para sua heroína uma humanidade rara nos romances. Só quando consegue compreender suas limitações e seus erros é que Emma consegue se abrir para o amor e para sua própria felicidade.

Jane Austen mostra neste romance que não temos o direito de interferir tão decisivamente na vida dos outros, que não possuímos a verdade sobre os sentimentos que não são nossos. Para ajudar as pessoas não devemos fazer o que achamos melhor para elas pois podemos estar errados. Precisamos tentar entendê-las antes de tentar ensiná-las. Principalmente quando a inexperiência está do nosso lado.

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Now playing: Camisa De Vênus - Homen Não Chora
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domingo, maio 24, 2009

Myst no itouch

Na minha última andança por Miami acabei comprando o ipod touch. Foi mais num impulso, até então não tinha pensado em comprar o aparelho. Como estava com algum tempo antes de embarcar novamente para Porto Príncipe e o dinheiro coçando no bolso, acabei comprando.

O aparelho está me surpreendendo bastante. Ainda mais quando descobri que por $5 eu poderia comprar o Myst. Para quem não conhece, é um dos jogos clássicos dos anos 90. Você começa em uma ilha deserta, em uma era que não se consegue precisar, tentando resolver uma série de quebra-cabeças para entender o que aconteceu e tentar achar uma saída.


O jogo parece ter sido construído para o ipod touch! Tudo porque você controla o tempo todo uma mão que aperta botões, arrasta alavancas e etc. Justamente o que se faz no aparelho! Durante a última semana viajei pelas eras de Myst e terminei ontem o jogo. Infelizlmente ainda não tem a continuação, Riven, no iphone. Mas como tinha comprado os cds, já instalei no mac. Nem tudo é perfeito, o novo sistema operacional, Leopard, não reconhece mais o ambiente clássico do mac e precisa uma certa ginástica para poder jogar. Felizmente uma fizeram o RivenX, um arquivo que cria um ambiente virtual para o Riven.


Voltando ao Myst, é um dos jogos mais perfeitos que já vi e me transportou um pouco para aqueles momentos em que passei dias e dias tentando desvendar seus mistérios. A internet ainda era incipiente, não havia foruns ou blogs para pegar dicas, tinha que advinhar tudo sozinho mesmo.

Poder jogar não só o Myst, mas os clássicos da LucasArts já é um grande presente que este modelo do ipod nos proporciona. Uma verdadeira viagem no tempo!

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Now playing: Iron Maiden - Doctor Doctor
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quinta-feira, maio 21, 2009

A Ordem - Santo Agostinho

A Ordem é mais um dos diálogos com que Agostinho começou sua produção filosófica e teológica. É onde começa sua investigação sobre o plano divino e a existência do mal, sobre a crença na perfeição Divina. Mais uma vez através de diálogos com Licêncio e Trigécio, ele coloca as questões que o ocupariam por toda sua vida.

O ponto de partida para a discussão é o questionamento sobre a ordem das coisas, sobre a ordem da existência. Existiria o acaso? Ou tudo faria parte de um plano perfeito de Deus? Onde ficaria o livre arbítrio se nosso destino já está traçado? Se Deus criou todas as coisas e é perfeito, como pode existir o mal?

Para Agostinho, o mal não foi criado. O mal não existe por si só, ele representa a ausência do bem; a recusa do homem em aceitar o que lhe foi dado por Deus. Desta forma, tudo se insere na ordem, até os erros. Tudo pertence a ordem. O caminho para Deus passa pela sua compreensão, o que só pode ser conquistada pela sabedoria, mostrando a influência de Platão no pensamento do filosófo.

O homem precisaria passar por uma educação liberal que o permitisse abrir seu espírito para a razão e para a autoridade, tanto humana quanto divina. O homem se diferencia dos animais por ser racional e de Deus por ser mortal. No entanto esta morte era apenas do corpo, a alma sobrevive. O homem deve dedicar-se a filosofia para conhecer sua alma _ contemplar a si mesmo __ e a Deus __ conhecer a si mesmo. Desta forma o homem é duplamente purificado, pela fé e pela razão.

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Now playing: Creedence Clearwater Revival - Bad Moon Rising
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quarta-feira, maio 20, 2009

Atraso

Fui verificar agora que estou bem atrasado nas resenhas dos livros que li nas últimas semanas. Estou devendo:

- Sobre a Ordem - Santo Agostinho
- The Sun Also Rises - Ernest hemingway
- Neoliberal não, liberal - Carlos Alberto Sandenberg
- Emma - Jane Austen

E hoje acabo Hitler e os Alemães, de Eric Voegelin (um gênio!).

Aguardem!

Com atraso: Um artigo de Alexandre Garcia

Só hoje fui ler este artigo de Alexandre Garcia publicado no dia 13 de março.



Reescrever a História

No último fim de semana, eu lia Desvios do Poder, do ex-Consultor da República Galba Veloso, para entender a legalidade da reunião com os prefeitos em Brasília, e descobri, no livro, uma lei sobre abusos de poder.

A lei 4898 trata com severidade a autoridade civil ou militar que praticar abuso de poder. A lei diz que todo cidadão tem o direito de agir penal e civilmente contra a autoridade, civil ou militar, que abusar do poder atentando contra a liberdade de locomoção do indivíduo, a inviolabilidade do domicílio, o sigilo da correspondência, o direito de união, a incolumidade física, privação de liberdade, como manter alguém sob custódia ou submetê-lo a vexame, não comunicar prisão ao juiz, prender mesmo com possibilidade de fiança — e por aí vai.

Agora, a minha surpresa: sabem de quando é a lei? De 9 de dezembro de 1965. Em pleno regime militar, sob a chefia do marechal-presidente Castello Branco. Lembrei-me de registrar isso porque no dia 17 último, a insuspeita Folha de S.Paulo, em editorial, chamou de ditabranda aquela época brasileira, em contraposição com ditaduras como de Fidel Castro e a disfarçada de Hugo Chavez.

Houve gente que ficou furiosa com a Folha, por causa do editorial. "Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de ditabranda?" - perguntou uma professora da Faculdade de Educação da USP, segundo a Veja. Minha neta me fez a mesma pergunta, porque o professor dela contou que foram anos de chumbo, que ninguém tinha liberdade.

Desconfiei que o professor nem havia nascido em 1964 e ela me confirmou isso. Eu vivi aqueles tempos. Fui presidente de Centro Acadêmico em 1969. Fui jornalista do Jornal do Brasil de 1971 a 1979. Cobria política e economia e nunca recebi qualquer tipo de ameaça, censura ou pressão.

Sei que havia censura. Comigo, nunca houve. Sei que havia tortura. Certa vez me chamaram para identificação no DOPS, de suspeitos presos por um assalto ao Banco do Brasil, que eu havia testemunhado. Os dois estavam no chão, gemendo, com sinais evidentes de tortura. Fiquei revoltado e não fiz o reconhecimento. Nada me aconteceu.

Nesse último carnaval, contou-se que o governador do Rio preparou uma claque para afastar o temor de vaia para o presidente Lula — que no Rio já havia sido vaiado na abertura do Pan, no Maracanã. O temor existia, mesmo com o alto índice do presidente nas pesquisas de popularidade.

Lembro que o general Médici foi o mais duro entre os generais-presidentes. Mas ele entrava no Maracanã, de radinho no ouvido e cigarro no canto da boca,e quando aparecia na tribuna o estádio inteiro o aplaudia. E ele estava reprimindo os grupos armados de esquerda que sequestravam e assaltavam bancos.

Os carros dos brasileiros andavam com um plástico verde-e-amarelo que dizia "Brasil - ame-o ou deixe-o". Alguém explica isso? Os generais-presidentes foram todos eleitos pelo Congresso, onde havia oposição. O último deles, ao contrário de Fidel e Chavez que negam suas ditaduras, assumiu fazendo uma promessa: "Eu juro que vou fazer deste país uma democracia".

Coisa rara, um suposto ditador reconhecer que não governava numa democracia. Por tudo isso, já está em tempo de se esquecer a propaganda, os rancores, as mentiras, e reescrever nossa História recente. História sem verdade não é ciência, é indecência.

Estado avança ainda mais sobre a sociedade

Ontem saiu a notícia sobre a fusão da Perdigão com a Sadia. Sempre é uma preocupação quando duas grandes empresas se fundem pois é uma empresa a menos para concorrer no mercado. Mas o pior só fui ler hoje pela manhã:

Os fundos de pensão - que controlam a Perdigão - e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) planejam comprar pelo menos 50% - se possível até 65% - das ações a serem emitidas até o fim de julho pela Brasil Foods, a companhia formada por Sadia e Perdigão. A oferta dos papéis para reforçar a companhia deverá atingir R$ 4 bilhões. Com essa compra agressiva, os fundos querem ampliar, de 26% para 35%, sua participação no capital total da nova empresa. O BNDES ficaria com algo como 9%. Juntos, passariam a ter 44% da Brasil Foods.

Os fundos de pensão são controlados pelas estatais, particularmente pelo Banco do governo, ou melhor, o Banco do Brasil. Tudo feito sob aplausos, pois o que o brasileiro gosta mesmo é de estado. Quanto maior, melhor. O atual governo está aproveitando a crise, como acontece no mundo inteiro, para avançar sobre a sociedade civil. O grande problema é que passado a crise, a volta nunca é natural e nunca é total. Tirar poder do estado é um trabalho que exige líderes de verdade, coisa cada vez mais rara.

O mais curioso é que o estado brasileiro está na raiz da maioria dos nossos problemas econômicos e o remédio é sempre mais estado. Um ciclo danoso que não só impede nosso desenvolvimento, mas aprofunda nosso atraso econômico. O Brasil está de fato andando para trás. O termo atraso é tecnicamente incorreto, estamos na verdade nos afastando do caminho correto. Estamos, mais uma vez, fazendo as escolhas erradas.

terça-feira, maio 19, 2009

Muito trabalho

Depois de 10 dias de dispensa, voltei para meu último período no Haiti. O ritmo aumentou bastante e estou quase sem tempo para manter o blog. Estou me reajustando para continuar blogando; aos poucos vou voltando ao normal.

Mal entrei na internet e já tenho que sair. Hora de fazer educação física.

Faltam 35 dias agora.

segunda-feira, maio 18, 2009

Diálogo de Lorena

__ Mão, agora você vai colocar o densado no bolo?
__ Leite condensado?
__ É. O densado.
__ Por que você está falando densado?
__ Mãe, uma coisa é o leite e outra é o densado e quando junta tudo na lata , fica leite com o densado e eu gosto de falar só densado, entendeu??

quinta-feira, maio 07, 2009

Demografia e a crise econômica

Quando a crise econômica explodiu no ano passado, o ponto óbvio de comparação foi a Grande Depressão, a grande crise que abalou o capitalismo nos anos 30. O nome de John Maynard Keynes foi resgatado das trevas para inspirar uma nova tropa de políticos e economistas na dura tarefa de colocar os governos para combaterem mais uma crise provocada pelas imperfeições do capitalismo. Novas políticas econômicas foram implantadas, principalmente nos Estados Unidos, para resolver um problema essencialmente econômico. Uma importante questão, entretanto, foi colocada de lado. Uma questão tão importante que poderia invalidar todos os esforços que estão sendo feitos e o sacrifício que está sendo cobrado das sociedades. E se a crise não tiver sua origem em problemas econômicos?


Esse é o ponto de reflexão que David P. Goldman usa como ponto de partida para uma série de artigos que escreveu para o Asian Times com o pseudônimo de Spengler e que aborda em artigo recente publicado no site First Things. Para ele, a chave de toda a confusão é a demografia.

Leia mais aqui.

domingo, maio 03, 2009

Tri-campeão


Uma nova bandeira tremula no Haiti!

Semana agitada

Esta semana foi cheia de atividades, sobrou pouco tempo para qualquer coisa a mais, como atualizar o blog. Entretanto, foi uma boa semana, o tempo passou rápido e estou mais próximo de uma nova ida ao Brasil, desta vez mais curta. A última da missão.

Na verdade, não estava nos planos. Mas esta extensão do período aqui no Haiti deixou a data de fim de missão muito distante, precisei quebrar este tempo em dois. Chegarei em Brasília no dia das mães, ainda em tempo de almoçar com minha família. Apesar de mais curto, preciso deste tempo em casa.

Por aqui os sinais de que a missão está entrando em sua reta final começam a se evidenciar. As conversas sobre as datas de retorno, os planos de volta ao trabalho no Brasil, do período de dispensa por final de missão ficam mais freqüentes. Aos poucos vamos nos preparando para voltar. Daqui a pouco o Haiti será passado, embora muitos de nós pretendam cumprir um novo período aqui. Por mim, bastou. Não pretendo me afastar novamente da minha família como fiz agora.

Enfim, a famosa luz no fim do tunel começa a surgir.

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Now playing: Bad Company - Morning Sun
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