sexta-feira, julho 31, 2009

Três Homens em Conflito (The Good, The Bad and The Ugly, 1966)

Sergio Leone conseguiu sua obra prima com Três Homens em Conflito. Uma obra definitiva que deixaria uma marca sobre qualquer outro que viesse depois; o gênero passava a ter seu ponto de comparação absoluto.

Clint Eastwood é "blondie", pelo menos a alcunha que Tuco(Eli Wallach), o feio do título, lhe deu. A terceira ponta do triângulo é Olhos de Anjo(Lee Van Cleef), o mau, que de anjo não tem nada. Todos os três são pistoleiros endurecidos que atravessam uma Guerra Civil que devasta o país tentando sobreviver cada um a sua maneira. Acostumados a desconfiar de todos, só fazem alianças breves por objetivos definidos.

Por uma ironia do destino, ficam sabendo de um tesouro enterrado em um cemitério. O problema: Olhos de Anjo conhece a estória, Tuco o nome do cemitério, Blondie o nome da cova. Nenhum deles é capaz de encontrar o dinheiro sozinho, é preciso de aliar-se a outro e Blondie precisa participar.

Tudo é magnífico neste filme. As atuações, a estória, as paisagens, a tensão, a trilha sonora, os conflitos e a crueldade de uma Guerra que destruiu parte do país. Em um determinado momento, Tuco e Blondie assistem um combate sangrento entre confederados e a União. O personagem de Eastwood comenta que nunca havia assistido tamanho desperdício de homens.

A cena final é antológica. Os três pistoleiros já não precisam uns dos outros e encontram-se no meio do cemitério, prontos para sacar suas armas. O dilema é um só, em quem atirar. Se atirar em A e B resolver atirar nele, está morto. Poranto, para sobreviverem, é preciso que dois pistoleiros atirem na mesma pessoa. Em quem confiar?

Um filme magnífico, que prende a atenção do especator por quase três horas. Leone estica os momentos de tensão ao máximo, capturando cada detalhe de instantes que parecem eternos. Com uma trilha inspiradíssima de Ennio Morricone, Três Homens em Conflito é uma obra que figurará para sempre como um marco do cinema, uma de suas pérolas raras.

Quotes:

Blondie: I've never seen so many men wasted so badly.

Blondie: You see, in this world there's two kinds of people, my friend: Those with loaded guns and those who dig. You dig.

[Tuco has captured Blondie and is planning to hang him]
Tuco: Get on that stool and put the rope around your neck. I have a different system, my friend; I don't shoot the rope, I shoot the legs from under the stool.
[Sound of distant rumbling]
Tuco: Even when Judas hanged himself there was thunder.
Blondie: That might be cannon fire.
Tuco: Thunder or cannon fire, it's all the same to you. Adios, Blondie.

Blondie: [counting Angel Eyes' men] One, two, three, four, five, and six. Six, the perfect number.
Angel Eyes: I thought three was the perfect number.
Blondie: I've got six more bullets in my gun.



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Ritmo Louco (Swing Time, 1936)

Dezembro de 1996. Depois de uma aventura de dois anos na Amazônia, eu retornava para o sudeste. No caminho, passei as férias no Recife, na casa de meus pais. Foi um período difícil, eu estava frustrado pelo fim de um namoro de mais de dois anos. Meu irmão passava mais ou menos pela mesma coisa. Estávamos, os dois, curtindo uma boa e velha fossa.

Nesta época a Globo começou a mostrar filmes do Fred Astaire nos domingos, após a Fantástico. Virou um ritual entre nós, um pote de sorvete ou um pavê enquanto nos divertíamos vendo Astaire dançar e flertar. O que nos chamava atenção era a atitude dos personagens do ator, sempre com um certo cinismo e fugindo totalmente do estereótipo de bonzinho, o comum nos filmes das últimas décadas. Astaire tinha um ar maroto, uma certa malandragem, que não pega bem nos filmes certinhos de hoje.

Com ele aprendemos que o amor pode ser uma coisa leve, divertida. De uma certa forma, tanto eu quanto meu irmão, ainda éramos muito novos para levar a coisa tão a sério. Faltava-me esta molecagem de Astaire, este entendimento que o amor só vale a pena quando nos faz sorrir.

Ritmo louco é um filme assim. Um dos realizados em parceria com Ginger Rogers e que explora este lado divertido do amor. Não por acaso, o final é recheado de gargalhadas dadas por diversos personagens. Astaire é um jogador inveterado que procura sobreviver à grande depressão com sua dança e seu talento nos jogos de azar. Ginger interpreta uma instrutora de dança que sonha em conseguir um lugar nos espetáculos apresentados diariamente nos hotéis de Nova Iorque. Eles se encontram e se apaixonam. Simples assim.

Bons filmes não precisavam ser complicados e cheios de reviravoltas. Podem ser feitos apenas com honestidade, sensibilidade e intuição para o que nos é familiar. Os personagens de Ritmo Louco são bem reais, todos com suas falhas e qualidades. Costurar personagens assim com um diálogo inteligente já garante uma boa estória e a empatia com o público. Além de uma boa receita para não levar a sério demais o que não se deve, como o flerte e o romance.

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segunda-feira, julho 27, 2009

Yitzhak Rabin, O Soldado da Paz

Equipe do The Jerusalem Report

Os jornalistas do Jerusalem Report produziram esta apaixonada biografia do ex-primeiro ministro israelense Yitzhak Rabin, assassinado por um fanático judeu em 1995, quando avançava as negociações de paz com os árabes, particularmente com a Organização para Libertação da Palestina.

A biografia inicia pelo fim, narrando o último dia de Rabin, o dia
do seu ápice e morte. Enfrentando séria oposição interna por sua política de aproximação com os palestinos da OLP, o que incluía a devolução de territórios conquistados nas várias guerras entre árabes e israelenses, Rabin participou de um comício a favor da paz onde ficou comovido pela inequívoca manifestação de apoio de grande parte de seu povo. Depois de proferir seu último discurso, ao descer do palco para embarcar em seu carro, foi assassinado por um jovem israelense em uma falha inacreditável de segurança. Na verdade, Rabin jamais acreditou que um judeu pudesse matar outro por divergências políticas. O que ele não levou em consideração foi que para Yigal Amir ela não era mais um judeu, mas um traidor se sua pátria e, principalmente, de sua fé.

A despeito de sua narrativa com viés de esquerda _ o Likud, maior partido de direita de Israele, é tratado com desprezo no livro inteiro _ a biografia consegue mostrar a trajetória de Rabin de soldado até líder político. Outro ponto importante, é analisar o conflito árabe-israelense até a morte do primeiro-ministro em 1995. O leitor fica sabendo, por exemplo, que nem todo israelense é judeu e nem todo judeu é religioso. O secularismo europeu penetra cada vez mais fortemente em Israel e Rabin foi um exemplo disso; pode-se considerar que era muito mais israelense do que judeu.

Yitzhak Rabin é mais uma obra que fornece informações preciosas sobre como se desenvolve a política em Israel e o conflito do Oriente Médio.

domingo, julho 26, 2009

Adeus Zé Carlos!


Lembro do Zé Carlos assumindo o gol do Flamengo depois da passagem do argentino Fillol. Inicialmente visto com desconfiança, acabou conquistando a torcida na conquista do Carioca de 1986. Eu estava no Maracanã, aos 13 anos, e assisti o goleiro ser um gigante, principalmente nas bolas cruzadas, na grande final contra o Vasco.

Depois veio o Brasileiro de 1987 em mais uma grande conquista. Um dos seus momentos ruins foi o gol que sofreu de Paulo Roberto, lateral do Vasco, em um chuvoso Maracanã em 1989. Este gol colocou o Botafogo na final e com vantagem. O Flamengo acabou perdendo o título e aquele gol, de muito longe, sempre ficou marcado na minha memória.

Foi um dos goleiros que marcaram minha relação com o Flamengo, até porque foram 6 anos como titular. Depois teve uma passagem rápida em 1996, mas o goleiro já não tinha a agilidade de antes. Foi reserva na copa de 1990 e na Copa América de 1989, mostrando que tinha muito valor.

Fica o adeus a um goleiro que defendeu sempre com muita dignidade o gol do Flamengo. Valeu Zé!

14 Rodada do Brasileirão

Flamengo reage

Depois da saída de Cuca, em grande parte boicotado pelos próprios jogadores, comandado por Andrade, o Flamengo foi um time muito mais consciente e profissional em campo, mesmo quando esteve atrás no placar. Jogou fora de casa como se estivesse no Maracanã, com personalidade e procurando a vitória durante todo o tempo. Adriano empatou o jogo e no final um gol contra quando a bola sobraria para o mesmo Adriano definiu a partida. Um alento, mas ainda é muito cedo para dizer que o time pode alçar vôos mais altos. Já perdeu pontos demais.

Demais destaques

O Botafogo fez um excelente primeiro tempo e acabou derrotando o Internacional por 3x2 mostrando que tem time para estar melhor na tabela. Já vinha merecendo uma vitória destas.

O Fluminense mostrou alguma melhoria mas ficou no empate de um gol com o Cruzeiro. Continua seu calvário na zona de rebaixamento.

O grande nome da rodada foi Obina, que fez os três gols do clássico na vitória do Palmeiras diante do Corinthians. E precisava mais?

Outro destaque foi a vitória do Avaí fora de casa mostrando uma reação impressionante. De lanterna, o time agora esta na décima posição, para a alegria do Guga.

Os Sete Samurais (Schichinin no Samurai, 1954)


Uma aldeia de camponeses está ameaçada por um grupo de 40 bandidos que pretende saqueá-la após a colheita. No centro da mesma, os lavradores tentam decidir o que fazer para evitar a catástrofe. Entre suplicar e lutar, duas soluções que parecem desastrosas, resolvem consultar o velho da aldeia que apresenta o caminho: eles devem contratar samurais para defendê-los. Sem dinheiro, devem conseguir samurais que trabalhem apenas por comida. Assim começa a epopéia maravilhosa de Akira Kurosawa no Japão do século XVI.

Lá pelo meio do filme fica patente que o verdadeiro inimigo dos lavradores é seu próprio egoísmo. Não é verdade que possuem apenas arroz em suas propriedades. Ao longo do tempo realizaram saques em guerreiros caídos e possivelmente furtos. Vários aldeões possuem riquezas escondidas mas nenhum pensa em abrir mão do que é seu para se proteger. Este é o maior desafio que os sete samurais, na verdade um deles bastante duvidoso, enfrentam: fazê-los entender que devem colaborar uns com os outros para proteger a aldeia.

O filme possui várias mensagens. A principal dela é o desenvolvimento em uma comunidade do espírito de verdadeira fraternidade. Não por acaso, são os aldeões juntos que provocam as maiores perdas nos inimigos. A principal contribuição dos samurais é treiná-los, deixá-los prontos para se auto-defender.

Também é um filme sobre honra. Quando encontram Kambei, um samurai em decadência, ele está cortando seu cabelo, um símbolo de honra, para vestir-se como um monge e salvar uma criança. O veterano samurai não hesita em despir-se de exteriores para cumprir seu dever e é este sentimento que o leva a aceitar a difícil incumbência de defender os aldeões.

A montagem de uma equipe formada por diferentes personalidades e habilidades foi um dos marcos de os sete samurais. Várias obras beberam na sua fonte, tais como os 12 condenados, 11 homens e um segredo e por aí vai. Kurosawa consegue ao longo da película explorar a personalidade dos sete. Nenhum deles é perfeito, há um jovem totalmente inexperiente, um ex-lavrador completamente alucinado, um especialista em construções mas sem maiores habilidades com armas. O mérito de Kambei é conseguir explorá-los ao máximo no que possuem de melhor, mostrando o verdadeiro papel de um líder.

Outra contribuição dos "7 Samurais" foi a inclusão de alívio cômico para a tensão do filme, principalmente através da interação do lavrador Yohei e o transloucado samurai (?) Kikuchiyo. Este último é um dos grandes personagem do filme. De origem humilde, também era um lavrador, ele ousa considerar-se um samurai desafiando a casta que existia; para ser samurai era necessário também possuir uma linhagem nobre. Usando mais o coração do que a razão, mas dispondo de coragem e instinto de sobra, Kikuchiyo vai conquistando a confiança dos outros samurais e dos aldeões.

Em uma cena que mostra bem o papel de Kikuchiyo, ressentido pela idolatria que o jovem Katsushiro desenvolve em relação ao habilidoso e humilde Kyuzo, Kikuchiyo abandona seu posto e em uma missão suicida consegue capturar uma das três armas de fogo que estavam com os bandidos. Sua impetuosidade custa caro. Os bandidos invadem pelo posto que deixara abandonado e na sequência, um dos samurais perde a vida. Ele fica consternado mostrando o entendimento do erro que cometeu, algo que no início do filme parecia improvável. Kikuchiyo também cresce com a convivência com os companheiros.

Outro mérito dos sete samurais foi mostrar a dura condição de vida dos lavradores e seu desmerecimento em relação aos guerreiros. Kurosawa apresenta seu toque de mestre na cena final em que Kambei diante do túmulo dos samurais mortos e da alegria dos lavradores que voltavam ao cultivo comenta que mais uma vez saíra derrotado pois foram os lavradores que venceram a batalha, não os samurais. Os guerreiros nunca vencem uma batalha pois os beneficiados sempre serão os civis que desfrutarão do sangue que foi derramado para conquistar a paz; uma mensagem para todos os tempos.

Os Sete Samurais é sem dúvida um marco do cinema e um daqueles filmes inesquecíveis, para ser revisto com carinho por muitas vezes. Além de visualmente muito bonito, mesmo em preto e branco, possui uma estória cativante, que pende atenção por mais de três horas. Certa vez Kurosawa afirmou que um bom filme tinha que ter uma estória interessante e prova seu ponto neste filme. Um tapa na cara de muito diretor que faz o chamado "filme de arte" com estórias que espantam o espectador ao invés de instigá-los com fez Kurosawa.

Quotes:
Kukuchiyo: What do you think of farmers? You think they're saints? Hah! They're foxy beasts! They say, "We've got no rice, we've no wheat. We've got nothing!" But they have! They have everything! Dig under the floors! Or search the barns! You'll find plenty! Beans, salt, rice, sake! Look in the valleys, they've got hidden warehouses! They pose as saints but are full of lies! If they smell a battle, they hunt the defeated! They're nothing but stingy, greedy, blubbering, foxy, and mean! God damn it all! But then . . . who made them such beasts? You did! You samurai did it! You burn their villages! Destroy their farms! Steal their food! Force them to labour! Take their women! And kill them if they resist! So what should farmers do?

Kambei: Once more, we have survived.So. Again we are defeated. The farmers have won. Not us.


sábado, julho 25, 2009

O Galante Mr Deeds (Mr Deeds Goes to Town, 1936)


Meu cunhado disse outro dia que o capitalismo não pode estar certo. Retruquei que não era uma questão de estar certo pois o capitalismo não era uma ideologia que foi colocado em prática por grande parte dos países do mundo. Quando Adam Smith escreveu A Riqueza das Nações, ele não propôs um modelo econômico para o mundo, como Marx fez com o comunismo. Smith apenas retratou o que existia em comum entre as nações mais ricas de seu tempo e estas características ficaram conhecidas como capitalismo.

O capitalismo nada mais é do que a liberdade do homem aplicada à economia. Livre mercado, liberdade de dispor do próprio trabalho, liberdade para comprar e vender. Não é uma utopia a ser conquistada que redimiria o homem na terra, nada tem a ver com ética. O sistema capitalista reproduz o que o homem tem de melhor e pior, o que traduz sua força e também sua fraqueza. Uma sociedade doente apenas praticará um capitalismo doente pois o sistema leva para a economia o próprio homem.

Isso fica bem evidente neste clássico de Frank Capra. Longfellow Deeds é um homem simples, que nunca saiu de usa pequena cidade de Mandrake Falls, que de repente torna-se herdeiro de uma fortuna. Para cuidar de sua herança, é obrigado a ir para Nova Iorque onde passa a travar contato com uma série de aproveitadores interessados em seu dinheiro. Como fica evidente, o dinheiro é um meio para atingir um fim. Cabe ao homem decidir qual será este fim.

Capra rejeita a solução fácil de que o dinheiro corrompe o homem. Em nenhum momento isso acontece com Deeds, pelo contrário, sua honestidade e firmeza de caráter consegue trazer para o bem algumas das pessoas que trava contato mostrando que o bem também tem capacidade de se espalhar. Aliás, esta é a única forma de conversão que existe no filme, o chamado à virtude.

Deeds pode ser um simplório mas tem ao seu lado uma arma infalível, o bom senso. São regras básicas que o guiam em um mundo repleto de iniquidades e hipocrisia. Quando resolve desfazer de sua fortuna, ajudando fazendeiros que perderam suas terras, não se limita a dar dinheiro. Quer dar a eles uma oportunidade de produzir e superar a miséria por seus próprios esforços, dando terra, meios e um prazo para que provem ser merecedores do investimento. A caridade não pode vir sem a justiça, como evidenciou em sua última encíclica o papa Bento XVI.

Claro que é incompreendido. Para as pessoas guiadas pela ganância e amor ao dinheiro, suas atitudes só podem ser guiados por um louco. Deeds vai a julgamento onde tem de demonstrar sua sanidade, um espetáculo surreal apresentado por um grande diretor. Não é Deeds que está em julgamento ali, mas a capacidade do homem de dar sem esperar nada em troca.

Frank Capra nos presenteou com um filme sensível que ressalta o papel do homem, individualmente, em promover o bem. Por ter recebido uma grande herança, Deeds possui uma responsabilidade maior do que o homem comum e ele é o primeiro a entender. Não quer fazer nada com o dinheiro sem pensar muito pois precisar dar um fim digno ao que recebeu. Um sistema baseado na liberdade não é imperfeito por si próprio, mas sim pelo próprio homem em sua imperfeição. Curem o homem e curarão a sociedade. Esta é a principal mensagem que Capra quis no passar com este bonito filme.

Quote:

Longfellow Deeds: [to the Court] From what I can see, no matter what system of government we have, there will always be leaders and always be followers. It's like the road out in front of my house. It's on a steep hill. Every day I watch the cars climbing up. Some go lickety-split up that hill on high, some have to shift into second, and some sputter and shake and slip back to the bottom again. Same cars, same gasoline, yet some make it and some don't. And I say the fellas who can make the hill on high should stop once in a while and help those who can't. That's all I'm trying to do with this money. Help the fellas who can't make the hill on high.

sexta-feira, julho 24, 2009

Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas(2003)


Não por acaso, Peixe Grande começa com uma estória de pescaria. No imaginário popular, é o sinônimo de mentira, de farsa. Baseado em livro de Daniel Wallace, o maravilhoso filme de Tim Burton trata do amor pela vida, algo que não nos é nato. Para amar a vida, é necessário saber romanceá-la, torná-la atraente. É o que Edward Bloom tentou fazer a vida inteira ao contar suas estórias maravilhosas para o filho.

Will acreditou em cada uma delas, até ficar adulto o suficiente para entender que eram impossíveis de ter acontecido. O que antes era fascinante, tornou-se constrangedor para ele e terminou por afastá-lo do pai. Diante da morte eminente de Edward, vítima de câncer, Will retorna para casa e mais do que se despedir do pai, quer compreendê-lo. Para isso, entende que o pai tem que contar uma estória verdadeira, uma que possa acreditar. Queixa-se que não sabem que ele é pois a vida toda só soube de mentiras.

O que Will só consegue compreender no final, e sua mãe lhe dá a dica, é que toda a verdade que precisa está nas mentiras do pai. Nem tudo que ele contou é mentira, diz ela. Edward não criava estórias, ele romanceava suas próprias experiências, algo completamente diferente. Escutando com cuidado, era possível não só entender um pouco do pai, mas receber dele o dom de se maravilhar com a existência.

Peixe Grande é um dos grandes filmes da década, apesar de nunca ter recebido o valor que merecia. É um filme extraordinário, baseado em uma grande estória e nos leva a entender a admiração de Edward Bloom pelo mundo e partilhar com ele o amor pela vida. Mais uma prova que Tim Burton é o grande contador de estórias do cinema atual, sempre apoiado por um elenco talentoso e comprometido com a obra.

quarta-feira, julho 22, 2009

Alice no País das Maravilhas (1951)


Em 1951 a Disney resolveu encarar a difícil tarefa de adaptar o rico livro de Lewis Carroll para a animação. A dificuldade deve-se ao fato do mesmo livro ter sido escrito para dois públicos distintos: crianças e adultos.

Alice é mais do que uma estória infantil, é a primeira incursão séria de um escritor no sonho e seus significados, além de uma paródia da sociedade vitoriana. A paródia é uma forma superior de crítica pois exige do autor profundo conhecimento do que está retratando para poder evidenciar sua visão através do exagero, da ironia, do absurdo. Carroll conseguiu com maestria este objetivo nesta obra prima.

Na animação, Alice ficou mais para um divertida aventura de um menina explorando um mundo mágico do que uma obra de reflexão filosófica, o que contribuiu para diminuir, de certa forma, o valor do livro de Carroll para as gerações modernas. O homem massa ficou mais confortável com uma Alice "light" e suas aventuras inocentes do que com a seriedade das temáticas abordadas.

A Disney produziu um filme competente, dentro do seu padrão de qualidade, mas deixou de ousar e arriscar um pouco mais. Realmente é muito difícil usar o cinema para passar as duas mensagens que talvez apenas a literatura possa fazer com naturalidade.

domingo, julho 19, 2009

Party of One, The Loner's Manifesto - Anneli Rufus


Nos dias de hoje, ser solitário é quase uma doença. Parece ser uma exigência do mundo globalizado que sejamos seres sociais, que tenhamos ao redor de nós uma multidão de amigos e parentes para que possamos ser felizes. Ser só, seja na infância ou na vida adulta, inspira preocupação, implica em desajuste. Quantas vezes não são montada missões de resgate por conta de um conhecido que "está isolado", como se estivesse dando um grito silencioso e desesperado por socorro?

Anneli Rufus faz uma defesa do direito que todo ser humano tem de fica só. Posicionando-se como uma solitária, a autora procura desmistificar a visão que as pessoas não solitárias tem do solitário. Longe de ser um desajuste, o desejo de ficar só é para muitas pessoas algo natural e mesmo hereditário. Grandes gênios das artes e da ciência possuíram esta característica. Anneli vai mais além, para muitas atividades criativas, a solidão é uma necessidade.

Ser solitário não implica em ficar só o tempo todo. Implica em ter uma desejo de qualidade muito mais pronunciado do que quantidade. O solitário contenta-se em ter poucos amigos, muitas vezes um só, mas entrega-se a eles de corpo e alma. O solitário possui necessidade de realizar atividades para si mesmo, com paciência e dedicação. Pense em uma pessoa que gosta de passar um sábado em sua garagem fazendo trabalhos manuais, sem desejo de ser importunado e terá uma imagem do que significa para ela a solidão.

Anneli trata de vários assuntos e sua ligação com a solidão. Como um solitário se relaciona com a cultura popular? Como o cinema e a literatura tratam a solidão? Como o mercado publicitário encara as pessoas solitárias? E a religião? Solitários são mais propensos a serem assassinos seriais?Artes, literatura, amizade, infância. A autora aborda a solidão de vários pontos de vista diferentes, buscando justificar uma escolha que para ela não tem nada de absurdo, a escolha em ficar só.

Party of One é um livro que trata da solidão mas que trata também da modernidade e seus desafios. Através de suas páginas não consegui deixar de pensar no clássico de Huxley, Admirável Mundo Novo, onde ficar só era proibido pelo estado perfeito. As pessoas eram encorajadas a estarem sempre em multidões, até mesmo nas relações sexuais. Será que a solidão não é um dos refúgios do indivíduo diante da opressão do coletivo? O fato é que o bom livro de Anneli Rufus nos dá uma interessante perspectiva para olhar este mundo dinâmico e globalizado que nos acolhe neste início de século.

"Inspiration comes to those who know how to be silent,
how to wait, how to translate the ineffable.
Sound like anyone you know?"

sexta-feira, julho 17, 2009

Fédon - Platão

De todos os livros que li do filósofo grego, Fédon é talvez um dos mais significativos e rico. Também conhecido como "Da Alma", Fédon trata dos últimos ensinamentos de Sócrates, um diálogo com seus discípulos Sebes e Símias que ocorre no dia de sua morte. O assunto é o destino do mestre após a morte.

A Imortalidade da Alma

Em Fédon, Platão trata de suas idéias sobre a alma. Para ele, a alma era imortal, indestrutível. Os discípulos estão perplexos com a tranqüilidade de Sócrates diante da perspectiva da morte. O filósofo explica porque o verdadeiro amante da sabedoria não pode temer a morte. A vida é uma prisão para o espírito, uma prisão que o homem não tem direito de evadir-se, de libertar a si mesmo. Como a alma é imortal, a morte eqüivale a uma libertação e seu destino para os que se dedicaram a purificar-se, é um mundo melhor em companhia dos Deuses e das pessoas que foram melhores do que ele. Para os maus, é uma punição antes da volta à vida através de outro corpo.

Filosofar é preparar-se para a morte pois a alma se separa do corpo e fica livre para atingir a verdadeira sabedoria. O corpo, através dos sentidos, é um entrave para a pura compreensão pois nos engana com suas sensações e prazeres. É impossível obtermos qualquer conhecimento puro enquanto a alma estiver unida ao corpo pois é confundida por ele. A purificação consiste em apartar-se cada vez mais do corpo e este é o exercício do filósofo. Nas palavras do filósofo:

Eis o que deve pensar, meus companheiros, um filósofo, se realmente é filósofo; poins nele há de existir a forte convicção de que em parte alguma, a não ser num outro mundo, poderá encontrar a pura sabedoria.

Platão também apresenta a teoria dos contrários ou seu Princípio da Geração. O maior só existe porque antes foi menor, o mais forte só existe porque antes foi mais fraco, a vida só existe porque antes havia a morte. Em outras palavras, sempre que existe um contrário, este não nasce de outra coisa que não seja do contrário. "Assim obtemos este princípio geral de toda a geração, segundo o qual é das coisas contrárias que nascem as coisas que lhes são contrárias". Um conseqüência é que os vivos provém dos mortos, assim como os mortos provém dos mundos, implicando na imortalidade da alma.

Aprender é recordar

Platão trata também de sua teoria do conhecimento. As almas, antes de unirem-se ao corpo, possuem o conhecimento das coisas em si pois a contemplam no outro mundo. No nascimento, elas esquecem do que sabem e através da vida, ao tomar contato com o que já conheciam, vão relembrando, aprender nada mais é do que recordar.

Este objeto que estou vendo agora tem tendência para assemelhar-se a um outro ser, mas, por ter defeitos, não consegue ser tal como o ser em questão, e lhe é, pelo contrário inferior. Assim, para podermos fazer estas reflexões, é necessário que antes tenhamos tido ocasião de conhecer esse ser de que se aproxima o dito objeto, ainda que imperfeitamente.

O Mundo das Idéias

O conhecimento começa com a comparação das coisas e a percepção da igualdade entre elas. Ao contemplar-mos diversos cavalos, passamos a reconhecer o animal, embora haja diferença entre cada cavalo da natureza. No entanto, a alma tem a percepção do que seja um cavalo porque já contemplou a idéia do cavalo no Mundo das Idéias.

Assim, pois, antes de começar a ver, a ouvir, a sentir de qualquer modo que seja, é preciso que tenhamos adquirido o conhecimento do Igual em si, para que nos seja possível comprar com essa realidade as coisas iguais que as sensações nos mostram, percebendo que há em todas elas o desejo de serem tal qual é essa realidade, e que no entanto lhe são inferiores!

O Destino das almas

Para Platão, a alma se assemelha ao que é divino enquanto que o corpo aproxima-se do mortal. O corpo relaciona-se à alma através da servidão e obediência. A alma possui a capacidade de pensar, possui uma forma única e é indissolúvel enquanto que o corpo é desprovido de inteligência, multiforme e que está sujeito à decomposição.

O destino das almas, como é imortal, é a purificação. Para isso, é necessário a doutrina da reencarnação. A alma, ao separar-se do corpo, retorna para o mundo dos mortos onde é julgada por seus atos. Depois de um período de punição, retorna ao mundo dos vivos através de outro corpo até que atinja a purificação necessária para permanecer no outro mundo.

que esteja poluída, e não purificada, a alma que se separa do corpo; do corpo, cuja existência ela compartilhava; do corpo, que ela cuidava e amava, e que a trazia tão bem enfeitiçada por seus desejos e prazeres, que ela só considerava real o que é corpóreo, o que se pode tocar, ver, beber, comer e o que serve para o amor; ao passo que se habituou a odiar, a encarar com receio e evitar tudo quanto aos nossos olhos é tenebroso e invisível, intelegível, pelo contrário pela filosofia e só por ela apreendido! (...) E quanto à espécie divina, absolutamente ninguém, se não filosofou, se daqui partiu sem estar totalmente purificado, ninguém tem o direito de atingi-la a não ser unicamente aquele que é amigo do saber!

Platão apresenta então o que seria o mal supremo da ilusão dos sentidos, um mal que está muito presente na sociedade moderna:

É que em toda alma humana, forçosamente, a intensidade do prazer ou do sofrimento, a propósito disto ou daquilo, se faz acompanhar da crença de que o objeto dessa emoção é tudo o que há de mais real e verdadeiro, embora tal não aconteça.

Platão já apresentava um dos males dos nossos dias, a ideologia, a substituição da verdade por uma idéia. Ao invés de criar uma idéia, o homem deveria se guiar pela idéia verdadeira, pelo mundo real.

Conclusão

Fédon é seguramente um dos livros mais importantes de Platão. Nele fica patente que para o filósofo, a alma é imortal e não pode ser destruída. Rejeita o mundo captado pelos sentidos como falso e um obstáculo para obtenção da verdadeira filosofia. O verdadeiro filósofo não pode temer a morte pois esta nada mais é que a libertação de sua alma da imperfeição do seu corpo.

A filosofia de Platão é extremamente otimista pois independente do nosso atraso e de nossas iniqüidades, a imortalidade da alma nos garante que um dia chegaremos à purificação, como pode ser constato no seguinte trecho:

uma vez evidenciado que a alma é imortal, não existirá para ela nenhuma fuga possível a seus males, nenhuma salvação, a não ser tornando-se melhor e mais sábia.

O homem pratica o mal por ignorância, por não ter conhecimento, não ter a sabedoria. Através da filosofia, se purifica cada vez mais, atingindo então a bondade absoluta e seu descanso junto aos deuses e espíritos perfeitos.

Mais um artigo sobre ambientalismo

João Pereira Coutinho falou sobre o cientista Ian Plimer. Aqui vai outro artigo que fala do homem, mais um cético quanto ao poder do homem em mudar as condições climáticas do planeta.

Mais um grande artigo de João Pereira Coutinho

Sobre o ambientalismo, só tenho uma certeza: a de não ter certeza de nada. Não estou convencido que o homem (o serumanú) está provocando o aquecimento global até porque os ambientalista tiveram que trocar o nome do fenômeno. Não é mais aquecimento global, é mudança climática. Tudo porque o último inverno tinha deixado a turma do Al Gore sem resposta. Foi mais fácil mudar o nome da coisa. Aliás, ter este senhor como porta voz já me deixa muito ressabiado, ainda mais acompanhado de um monte de artista miolo mole como Sting (aquele que levou fé no índio brasileiro).

Não tenho a pretensão de dizer que o homem não está fazendo mal ao clima do planeta. A questão é que acredito que ninguém pode fazer esta afirmação, ninguém pode saber o que vai acontecer daqui a vinte ou cinqüenta anos em termos de clima. O ambientalismo tornou-se uma nova religião secular, com um promessa de Deus verde para punir os malvados capitalistas, já que o comunismo foi aquele fracasso todo.

João Pereira Coutinho, melhor colunista da Folha, mandou ver neste excelente artigo. Confira.

quinta-feira, julho 16, 2009

E deu Estudiantes

Foi triste, mas não se pode dizer que foi injusto. O Estudiantes jogou melhor e conseguiu uma virada para cima do Cruzeiro, em pleno Mineirão, e levantou a Taça Libertadores pela quarta vez.

Assisti o jogo pela sportv e chamou-me atenção que em nenhum momento os comentaristas levantaram que o Cruzeiro perdeu o jogo quando deixou de marcar Verón. Um jogador como ele é capaz de fazer o que fez. Recebeu uma bola livre no meio campo, avançou, cortou e fez um passe por dentro da zaga do Cruzeiro que deixou tudo aberto para o primeiro gol. No segundo, bateu o cruzamento na cabeça de seu companheiro e a fatura foi liquidada.

Ramirez mostrou mais uma vez que não adianta contar com jogador negociado. Foi um jogador totalmente inútil em campo, destacando-se apenas pelas provocações. Para piorar, Wagner não estava bem e Wellington Paulista mais uma vez jogou apenas com empáfia, confiando demais no futebol que não tem.

Uma pena. Seria uma bonita festa no Mineirão e o Cruzeiro era franco favorito.

Mais uma vez o futebol mostra que favoritismo não ganha jogo, pelo menos em uma final. Venceu quem foi melhor.

domingo, julho 12, 2009

São Paulo 2 x 2 Flamengo

Empate justo pela bobagem

O Flamengo terminou o primeiro tempo jogando melhor, vencendo o jogo e com um jogador a mais. Entretanto, ao invés de partir para definir logo a partida no segundo tempo, resolveu cozinhar o jogo e esperá-lo acabar. A partida estava tranquila, o São Paulo não conseguia ameaçar até que Williams fez a bobagem. Um penalti totalmente desnecessário em Miranda e a partida foi definida em 2 x2. Depois ainda teve outra penalidade, mais idiota ainda, não marcada pelo juiz da partida.

Uma pena, era um jogo que o Flamengo poderia ter vencido. Ficou o gosto da oportunidade perdida. Bola para frente.

sábado, julho 11, 2009

A Tempo e Contratempo - Gustavo Corção

Um dos momentos mais significativos da minha vida foi um curso livre de extensão em filosofia que fiz durante meu mestrado no Instituto Militar de Engenharia. Aconteceu na hora que começava a me despertar a curiosidade intelectual por aquele mundo de pensadores que então apenas vislumbrava de longe. Agradeço ao professor Luciano, um engenheiro mecânico apaixonado pelo saber, pela iniciativa e dedicação que teve ao montar a empreitada que contou com um grupo de alunos totalmente díspares, professores, alunos, funcionários e familiares, mas unidos na vontade de expandir um pouco mais o que conheciam como mundo. Fazem já três anos e lembro com muita saudade daquelas duas horas semanais, nas tardes de quarta, em que debatíamos os mais variados assuntos.

Foi neste curso que fui apresentado a Gustavo Corção. Pouco sabia dele, apenas que fora um professor do IME que no meio medidores eletrônicos dos laboratórios da escola, havia sido picado, sabe-se lá como, pela mosca da curiosidade; assim como nós, assim como eu. Tive um vislumbre de sua escrita talentosa e suas idéias claras através de alguns artigos mantidos na internet pelo grupo Permanência, nesta página. Encantou-me o Corção. Desde então, sempre que estou em um sebo é um dos primeiros autores que procuro, normalmente sem sucesso. O homem tinha sido banido da vida cultural brasileira.

É fácil entender o porquê lendo as páginas de A Tempo e Contratempo. Corção tinha dois pecados que o tornavam incompatível com o que se chama de cultura brasileira, o segundo conseqüência do primeiro. Descobrira-se um católico fervoroso, defensor da tradição cristã e da Igreja; logo, era um conservador autêntico. O sujeito pode até ser um católico progressista ou um ateu conservador, mas católico e conservador ao mesmo tempo já é demais para os nossos "guardiões do saber".

O livro é uma coletânea de artigos que publicou na imprensa carioca durante três meses do ano de 1968. Mostra a visão de corção sobre dois movimentos distintos e coincidentes, a penetração do progressismo (e socialismo) nas fileiras da Igreja e a rebeldia da juventude. Por que coincidentes? Por que no Brasil diversos padres e bispos resolveram instigar a juventude à rebelião, ao rompimento com os pais.

Para Corção era uma clara e inequívoca apostasia, um rompimento com o próprio cristianismo. O seu horror com uma frase singela de Don Heldér Câmara que resumia bem o que estava acontecendo: "temos que dar um crédito ilimitado à juventude". Como assim?, questiona; um bispo pedindo um crédito ilimitado não a Deus, o que seria normal, mas a uma categoria abstrata, à juventude como se esta tivesse todas as respostas para os problemas do mundo?

Corção mostra que não existe juventude, do mesmo jeito que não existe velhos ou pessoas de mais de um metro e oitenta. A única coisa que a juventude tem em comum é ser jovem. Em seu meio existem pessoas boas e ruins como em todos os grupos humanos. Acompanhando a revolta de estudantes em São Paulo, Corção argumenta que em geral estudantes tem sempre razão nas coisas concretas e pequenas, como estado dos laboratórios ou condições das salas de aula, o que demonstra vontade de aprender e estão quase sempre errados quando defendem questões complexas e abstradas, como a justiça social. Seu amor pelos jovens é pela pessoa em si, por cada aluno seu que mostrou disposição de aprender e crescer e não por categorias genéricas.

No último artigo do livro, Corção faz uma bonita comparação com um padre que perdera a vida ao salvar uma menina de morrer afogada na praia e o batismo. Nos dois casos trava-se do religioso fazendo o que de mais santo lhe era exigido, salvar. Um padre não está no mundo para promover revoluções ou justificar a violência, um padre estava no mundo para salvar almas.

Outro artigo interessante, fala sobre os meios e os fins do socialismo. Condena o ataque que normalmente os conservadores faziam à violência da revolução socialista, como se o fim fosse belo e os meios é que fossem o problema. Não. O socialismo era um perverso como fim, mesmo que fosse atingido com o mais florido e indolor dos caminhos. O socialismo é o desaparecimento da pessoa humana em um todo social, é a morte do que temos de divino, é a recusa do homem em tornar-se a imagem de Deus.

Esta semana aconteceu um episódio aqui na quadra. A prefeitura fez uma bonita área para as crianças brincarem, com bancos e uma casinha. Quatro meninas com 12 anos ou mais entraram em confronto com o sub-prefeito da quadra pelo direito de pichar a área. O absurdo é que pelo menos uma delas teve o apoio explícito do pai, para espanto de minha sogra e minha filha que assistiram a tudo. Esse pai deve ser um dos jovens de 1968, que aprenderam que tinham direito à contestar qualquer autoridade.

Vivemos um mundo em que os jovens vistos por Corção, em sua anarquia sem sentido, tornaram-se os pais e educadores de hoje. Não deveria ser estranho que o mundo estivesse de cabeça para baixo e que o jovem estranho tornou-se aquele que obedece os pais, respeita as pessoas e guia-se por princípios. A geração de 68 está guiando a humanidade. O pesadelo de Corção tornou-se realidade.

Alice's Adventures in Wonderland - Lewis Carroll


Difícil analisar uma obra como Alice's Adventures in Wonderland, obra do matemático Lewis Carroll ainda no século XIX. A primeira vista, temos um conto infantil meio sem pé nem cabeça. Olhando com um pouco mais de atenção, temos uma série de insights que nos remetem a nossa própria infância e ao mundo que nos cerca.

Alice está entediada no jardim quando surge um coelho branco com um relógio na mão e se atira em um buraco. Sem pensar duas vezes, a menina pula atrás do bicho. Quantas vezes na nossa vida, para fugir do tédio, não nos metemos em uma loucura parecida? Levando para o lado mais intelectual, quantos não se atiram na aventura da irrealidade, por ser mais estimulante, que um mundo que considera tedioso? Será que Carroll tinha isto em mente quando começou sua estória?

De uma ora para outra, Alice passa a ser a pessoa mais racional de toda uma realidade. Uma coisa, entretanto, chama atenção. Embora questione quase tudo, a menina nunca questiona o principal. Por que os animais falam? Por que o coelho tem pressa? Por que o chapeleiro ficou louco? Por que a rainha é uma carta de baralho? Parece que Alice sabe intuitivamente que uma pergunta destas pode acabar com o encanto e desfazer o estranho mundo que penetrou. Fico pensando em gente que cria uma imagem para o mundo mas evita se perguntar o mais importante, justamente por saber que este mundo se desmoronará. Carroll já compreendia a segunda realidade e suas armadilhas.

O mundo encontra-se refletido em muitas das aventuras de Alice. A assembléia de pássaros discutindo o irrelevante não é muito diferente das assembléias que surgiam no século XIX na ilusão de encontrar solução para o mundo; o chá na casa do chapeleiro, uma crítica à Inglaterra vitoriana; o absolutismo da rainha de copas; a farsa de um julgamento para dar uma aparência de legalidade aos arbítrios dos monarcas.

Alice's Adventures In Wonderland é um livro escrito para crianças e adultos. As primeiras terão uma divertida estória de uma menina descobrindo um mundo fantástico, assim como nós fazemos desde que nascemos. As últimas terão uma sátira ao que o mundo se tornava. Como dizia Jesus, apenas para os que tem olhos para ver e ouvidos para escutar. Uma obra de gênio.

sexta-feira, julho 10, 2009

Consegui!!!

Depois de dois anos a espreita, consegui finalmente achar no Sebo Virtual o livro "O Século do Nada" de Gustavo Corção.

Para quem não sabe, Corção foi uma das maiores mentes que o Brasil já teve. Por que nunca ouviram falar dele? Porque o homem era ao mesmo tempo católico e conservador. A esquerda, que passou a dominar o mercado editorial brasileiro ainda na década de 70 (pode-se chamar de ditadura um regime que permite tal coisa?), resolveu jogá-lo no anonimato tamanho era o ódio que tinha pelo velho intelectual(no melhor sentido do termo).

Já li a introdução deste livro na biblioteca da UNB ano passado. Foi de cair o queixo. Que estilo! Que visão! Que caráter! Ainda lembro de sua narrativa lamentando que os soviéticos tivessem chegado antes de Berlin; reclamava que tínhamos vencido a guerra mas perdido a paz. Como podia-se sair nas ruas comemorando o fim de um regime que no fim das contas foi derrotado por um regime ainda mais cruel e desumano?

Este era corção. Estou lendo um livro dele agora, também encontrado depois de muita procura em um sebo aqui em Brasília. Chama-se A Tempo e Contra Tempo. Fala, entre outras coisas, de sua tristeza com a onda progressista dentro da Igreja Católica e a influência nefasta dos padres socialistas. Sobre ele, falo depois.

Que venha mais este livro do mestre!

quinta-feira, julho 09, 2009

Leitura de gente grande

Ontem, às 22:00, comecei a leitura de El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha. Em espanhol.

Tarefa de gente grande.

Veremos por quanto tempo vou ler as aventuras de um homem que se recusava a ver a realidade do mundo.

Um precursor dos modernistas.

segunda-feira, julho 06, 2009

Nada mais triste...

...do que ver o presidente dos Estados Unidos correndo para se alinhar com Hugo Chávez, Rafael Corrêa, Cristina K. e Daniel Ortega.

Um verdadeiro circo de aberrações.

Barack Hussein Obama faz questão de deixar aberto diálogo com gente como estes esquerdistas de miolo mole, além de gente do estirpe do presidente iraniano e da Coréia.

No entanto, não quer papo com as autoridades de Honduras que cumpriram a constituição e afastaram do poder um presidente, eleito sim, mas que conspirava (ele não nega) para mudar as leis do país e conseguir a re-eleição, o que é frontalmente proibido pela carta. Tão proibido que qualquer autoridade deve ser imediatamente de ousar propor qualquer medida neste sentido, o que aconteceu com o presidente hondurenho.

Tem muito mais coisa em jogo do que a pequena Honduras. Existe um princípio que vai se firmando nas Américas, inclusive ao norte do México, que se existe eleição então a democracia está garantida. Não foi a toa que o governo americano, através de Hilary Clinton, comprimentou Chávez por sua vitória em um referendo para lá de duvidoso. Este negócio de obedecer constituição e, principalmente, princípios democráticos como alternância de poder, causa calafrios na esquerda do continente. Não pode haver limites para o poder.

Quando Rafael Corrêa usou seu país para abrigar terroristas das FARCs e o governo colombiano os bombardeou impiedosamente e o circo latino americano se levantou contra Uribe, George Bush, o odiado, foi praticamente o único (só lembro do presidente peruano), que se colocou ao lado de um governo democrático contra um bando de sanguinários.

Agora, o pacifista Obama corre para defender um presidente que tramava um golpe de Estado.

Esse é o change que tanto prometeu. Ninguém pode reclamar que não foi avisado.

Receita para sair da barbárie

Pouco mais é exigido para que um estado, saindo do maior barbarismo, seja levado ao mais alto grau de opulência, do que paz, impostos simples e uma tolerável administração da justiça.


Adam Smith

El Informe de Brodie - Jorge Luis Brodie

Já há algum tempo eu planejava ler um livro no idioma espanhol. Resolvi começar por um de contos e escolhi este do argentino Jorge Luis Borges, seguindo dica sempre proveitosa do peruano Mario Vargas Llosa.

Os contos que constituem El Informe de Brodie caracterizam-se pela simplicidade e pela fluidez com que Borges apresenta suas situações, além da elegância do estilo, coisa de quem sabe. Como todo grande escritor, percebe que vida e morte são os grandes assuntos da literatura, e a última sempre vence a primeira.

Situações triviais acabam por encontrar um desfecho muitas vezes surpreendente, como nos excelentes El Evangelio según Marcos e El Otro Duelo. Muitas vezes a solução é bem simples, como no conto que abre o livro, La intrusa, que chega ao leitor como um soco no estômago, de forma inesperada.

Borges mostra todo seu talento como contista, figurando na galeria dos mestres. Consegue aliar o simples ao profundo e arrancar do leitor o espanto, a reflexão; além de um panorama dos tipos que fizeram a América Latina no século passado.

domingo, julho 05, 2009

Eugênia Grandet - Honoré de Balzac

Publicado pela primeira vez em 1833, Eugênia Grandet é uma das genuínas grandes obras literárias da história. Impressiona a concisão e escolha de palavras de Balzac para narra sua estória. O leitor fica sabendo de toda a avareza do Sr Grandet quando ele anuncia com uma simples frase:

"Como é aniversário de Eugênia, vamos acender o fogo!"

Que palavras a mais precisa quando o pai de uma única filha diz que precisa de uma ocasião especial, o aniversário dela, para acender a lareira? Balzac mostra o poder que o dinheiro tem sobre os que cobiçam, sobre os pobres de espírito. Toda uma corte se reúne em volta do velho, conspirando para conseguir a mão de Eugênia e, com ela, a fortuna que apenas especulam.

Contrastando com eles, um trio de mulheres mostram-se a expressão do valor moral, da solidariedade, do desapego a tudo que for material. Trata-se da jovem, sua mãe, a senhora Grandet, e a criada Nanon.

Eugênia apaixona-se pelo primo, Carlos, criado em Paris, em quem reconhece uma alma semelhante a sua, um jovem que sofre pela perda do pai. Entretanto, em sua inocência, ela não percebeu que já existia nele as sementes do amor ao dinheiro e da frouxidão moral. Balzac já visualizava o caminho que o relativismo levaria a humanidade: "À força de rolar entre homens e países, observando-lhes os costumes contraditórios, suas idéias se modificaram, tornou-se um cético. Passou a não mais ter noções fixas sobre o justo e o injusto, vendo tachar de crime num país o que em outro era virtude".

Balzac mostra que o amor ao dinheiro leva a um paradoxo final, a morte. Por mais ouro que acumule, o Sr Grandet e seus semelhantes só possuem um final, mas cedo ou mais tarde, a morte. O desespero de um avaro quando depara-se com seus últimos dias, e sabe que não pode levar com ele o que possui, é uma triste lembrança que temos que ter mais na vida do que bens materiais. Grandet não chega nem a aproveitar para si o que possui, o conforto que o dinheiro pode dar; ao contrário, obcecado por seu tesouro, sofre por gastar cada moeda. A posse do dinheiro vale mais do que o que ele pode comprar. Grandet esquece que o dinheiro não tem nenhum valor em si mesmo quando separado de seu poder de compra.

Eugênia, uma heroína autêntica, mostra que só a um caminho para uma vida digna, o comprometimento com os valores mais elevados como a honestidade, o amor, a solidariedade. O mesmo dinheiro que para o pai é tudo, para ela não tem significado nenhum. A vida em uma sociedade que se destrói por sua própria cobiça lhe é penosa, e anseia o dia que se libertará dela. A morte, para Eugênia, assim como sua mãe, não é o fim, não é para ser temida; é a libertação de um mundo mesquinho que lhes trás apenas sofrimento.

Eugênia Grandet é um livro que mostra que no final, só podemos carregar o que temos dentro de nós. O resto é pura ilusão.

Flamengo 2 x 1 Vitória

Falta de profissionalismo

Pode uma vitória deixar o torcedor injuriado? Pois aconteceu ontem, no jogo em que o Flamengo bateu o Vitória por 2 x 1. Ficou claro, pelo menos para mim, que para o clube voltar a ser grande de fato e disputar um título brasileiro depois de duas décadas, é preciso um profissionalismo que efetivamente perdeu.

Como pode um time, vencendo apertado por 2 x 1, utilizar uma cobrança de penalti para homenagear um jogador? O que foi aquele sorriso de Ibson antes de bater mal a cobrança que poderia garantir um final tranquilo de jogo? Se o jogo tivesse 4 x 0, vai lá, mas 2 x 1?

Para completar a lambança, Pet resolve fazer uma brincadeira na saída de bola e a jogada acaba com a expulsão de Kleberson, além de sua suspensão para o próximo jogo. O que acontece no Flamengo para que as coisas sejam assim? Salários atrasados? Clima eterno de festas?

Pois o torcedor está começando a ficar cansado disso e quer ver o time campeão brasileiro novamente. Não pode um time com a torcida que tem, a história que tem, ficar mais de 15 anos sem disputar para valer o principal título nacional.

Ontem o Deus dos estádios evitou punir o Flamengo pela falta de respeito. Não vai ser sempre assim, infelizmente.

sexta-feira, julho 03, 2009

Poucos posts

Nas últimas semanas, estive voltado para minha volta do Haiti e o nascimento de mais uma filha, a Heloísa. Por isso as coisas andaram meio devagar por aqui, com o blog quase as moscas.

Voltei para casa na sexta passada, dia 26. A desmobilização foi tranquila e agora posso dizer que enfim acabou. Em termos. Ainda sonho bastante com o Haiti, mas acho que com o tempo estes sonhos vão desaparecendo. Brinco com minha família, agora sou veterano de guerra. He He He.

A Heloísa nasceu ontem com seus 2,935kg e 47cm. Seja bem vinda minha querida! Só de sacanagem, ela esperou os avós irem para o aeroporto para dar as caras. Só para espezinhar. De qualquer forma eles voltam dia 15 para conhecer a netinha.

Dentro em breve, o blog volta à ativa.

quarta-feira, julho 01, 2009

Literatura e Política - George Orwell

George Orwell é chamado igualmente de esquerdista e direitista por ambos os lados até hoje, o que só mostra o quando foi incompreendido e a necessidade de se rotular um autor. A confusão começa pelo fato de Orwell ter sempre se intitulado socialista mas ter sido um dos autores que mais veementemente condenou o regime implantado na Rússia, isso quando ainda os crimes do regime Stalinista eram em grande parte desconhecidos. O que seus críticos não conseguem compreender, é que Orwell era comprometido com a verdade, mesmo que contrariasse suas próprias idéias. Ele não tinha compromisso com o erro.

Literatura e Política reúne artigos que escreveu no Observer durante a II Guerra Mundial e os anos que se seguiram ao fim do conflito. Mais do que os acontecimentos em si e as obras retratadas, os artigos possibilitam entender um pouco as convicções do jornalista, entender como foi possível obras como 1984 e A Rebelião dos Bichos.

Sim, Orwell era um crítico do capitalismo, achava que haveria uma outra solução para a humanidade, uma baseada na solidariedade. No entanto, essa solução jamais poderia vir pela força, pela submissão do indivíduo ao estado. Orwell rejeitava inteiramente a solução totalitária, uma convicção que só cresceu diante da carnificina da II Guerra Mundial.

No conjunto, os artigos mostram uma mente arguta, sempre atenta aos acontecimentos e às possíveis repercussões. Seu compromisso com os fatos, com a verdade, mostram como faz falta nos dias de hoje uma mente como a sua, independente de posições políticas.