sexta-feira, julho 17, 2009

Fédon - Platão

De todos os livros que li do filósofo grego, Fédon é talvez um dos mais significativos e rico. Também conhecido como "Da Alma", Fédon trata dos últimos ensinamentos de Sócrates, um diálogo com seus discípulos Sebes e Símias que ocorre no dia de sua morte. O assunto é o destino do mestre após a morte.

A Imortalidade da Alma

Em Fédon, Platão trata de suas idéias sobre a alma. Para ele, a alma era imortal, indestrutível. Os discípulos estão perplexos com a tranqüilidade de Sócrates diante da perspectiva da morte. O filósofo explica porque o verdadeiro amante da sabedoria não pode temer a morte. A vida é uma prisão para o espírito, uma prisão que o homem não tem direito de evadir-se, de libertar a si mesmo. Como a alma é imortal, a morte eqüivale a uma libertação e seu destino para os que se dedicaram a purificar-se, é um mundo melhor em companhia dos Deuses e das pessoas que foram melhores do que ele. Para os maus, é uma punição antes da volta à vida através de outro corpo.

Filosofar é preparar-se para a morte pois a alma se separa do corpo e fica livre para atingir a verdadeira sabedoria. O corpo, através dos sentidos, é um entrave para a pura compreensão pois nos engana com suas sensações e prazeres. É impossível obtermos qualquer conhecimento puro enquanto a alma estiver unida ao corpo pois é confundida por ele. A purificação consiste em apartar-se cada vez mais do corpo e este é o exercício do filósofo. Nas palavras do filósofo:

Eis o que deve pensar, meus companheiros, um filósofo, se realmente é filósofo; poins nele há de existir a forte convicção de que em parte alguma, a não ser num outro mundo, poderá encontrar a pura sabedoria.

Platão também apresenta a teoria dos contrários ou seu Princípio da Geração. O maior só existe porque antes foi menor, o mais forte só existe porque antes foi mais fraco, a vida só existe porque antes havia a morte. Em outras palavras, sempre que existe um contrário, este não nasce de outra coisa que não seja do contrário. "Assim obtemos este princípio geral de toda a geração, segundo o qual é das coisas contrárias que nascem as coisas que lhes são contrárias". Um conseqüência é que os vivos provém dos mortos, assim como os mortos provém dos mundos, implicando na imortalidade da alma.

Aprender é recordar

Platão trata também de sua teoria do conhecimento. As almas, antes de unirem-se ao corpo, possuem o conhecimento das coisas em si pois a contemplam no outro mundo. No nascimento, elas esquecem do que sabem e através da vida, ao tomar contato com o que já conheciam, vão relembrando, aprender nada mais é do que recordar.

Este objeto que estou vendo agora tem tendência para assemelhar-se a um outro ser, mas, por ter defeitos, não consegue ser tal como o ser em questão, e lhe é, pelo contrário inferior. Assim, para podermos fazer estas reflexões, é necessário que antes tenhamos tido ocasião de conhecer esse ser de que se aproxima o dito objeto, ainda que imperfeitamente.

O Mundo das Idéias

O conhecimento começa com a comparação das coisas e a percepção da igualdade entre elas. Ao contemplar-mos diversos cavalos, passamos a reconhecer o animal, embora haja diferença entre cada cavalo da natureza. No entanto, a alma tem a percepção do que seja um cavalo porque já contemplou a idéia do cavalo no Mundo das Idéias.

Assim, pois, antes de começar a ver, a ouvir, a sentir de qualquer modo que seja, é preciso que tenhamos adquirido o conhecimento do Igual em si, para que nos seja possível comprar com essa realidade as coisas iguais que as sensações nos mostram, percebendo que há em todas elas o desejo de serem tal qual é essa realidade, e que no entanto lhe são inferiores!

O Destino das almas

Para Platão, a alma se assemelha ao que é divino enquanto que o corpo aproxima-se do mortal. O corpo relaciona-se à alma através da servidão e obediência. A alma possui a capacidade de pensar, possui uma forma única e é indissolúvel enquanto que o corpo é desprovido de inteligência, multiforme e que está sujeito à decomposição.

O destino das almas, como é imortal, é a purificação. Para isso, é necessário a doutrina da reencarnação. A alma, ao separar-se do corpo, retorna para o mundo dos mortos onde é julgada por seus atos. Depois de um período de punição, retorna ao mundo dos vivos através de outro corpo até que atinja a purificação necessária para permanecer no outro mundo.

que esteja poluída, e não purificada, a alma que se separa do corpo; do corpo, cuja existência ela compartilhava; do corpo, que ela cuidava e amava, e que a trazia tão bem enfeitiçada por seus desejos e prazeres, que ela só considerava real o que é corpóreo, o que se pode tocar, ver, beber, comer e o que serve para o amor; ao passo que se habituou a odiar, a encarar com receio e evitar tudo quanto aos nossos olhos é tenebroso e invisível, intelegível, pelo contrário pela filosofia e só por ela apreendido! (...) E quanto à espécie divina, absolutamente ninguém, se não filosofou, se daqui partiu sem estar totalmente purificado, ninguém tem o direito de atingi-la a não ser unicamente aquele que é amigo do saber!

Platão apresenta então o que seria o mal supremo da ilusão dos sentidos, um mal que está muito presente na sociedade moderna:

É que em toda alma humana, forçosamente, a intensidade do prazer ou do sofrimento, a propósito disto ou daquilo, se faz acompanhar da crença de que o objeto dessa emoção é tudo o que há de mais real e verdadeiro, embora tal não aconteça.

Platão já apresentava um dos males dos nossos dias, a ideologia, a substituição da verdade por uma idéia. Ao invés de criar uma idéia, o homem deveria se guiar pela idéia verdadeira, pelo mundo real.

Conclusão

Fédon é seguramente um dos livros mais importantes de Platão. Nele fica patente que para o filósofo, a alma é imortal e não pode ser destruída. Rejeita o mundo captado pelos sentidos como falso e um obstáculo para obtenção da verdadeira filosofia. O verdadeiro filósofo não pode temer a morte pois esta nada mais é que a libertação de sua alma da imperfeição do seu corpo.

A filosofia de Platão é extremamente otimista pois independente do nosso atraso e de nossas iniqüidades, a imortalidade da alma nos garante que um dia chegaremos à purificação, como pode ser constato no seguinte trecho:

uma vez evidenciado que a alma é imortal, não existirá para ela nenhuma fuga possível a seus males, nenhuma salvação, a não ser tornando-se melhor e mais sábia.

O homem pratica o mal por ignorância, por não ter conhecimento, não ter a sabedoria. Através da filosofia, se purifica cada vez mais, atingindo então a bondade absoluta e seu descanso junto aos deuses e espíritos perfeitos.

Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente texto! Parabéns pelos comentários.