sábado, julho 11, 2009

A Tempo e Contratempo - Gustavo Corção

Um dos momentos mais significativos da minha vida foi um curso livre de extensão em filosofia que fiz durante meu mestrado no Instituto Militar de Engenharia. Aconteceu na hora que começava a me despertar a curiosidade intelectual por aquele mundo de pensadores que então apenas vislumbrava de longe. Agradeço ao professor Luciano, um engenheiro mecânico apaixonado pelo saber, pela iniciativa e dedicação que teve ao montar a empreitada que contou com um grupo de alunos totalmente díspares, professores, alunos, funcionários e familiares, mas unidos na vontade de expandir um pouco mais o que conheciam como mundo. Fazem já três anos e lembro com muita saudade daquelas duas horas semanais, nas tardes de quarta, em que debatíamos os mais variados assuntos.

Foi neste curso que fui apresentado a Gustavo Corção. Pouco sabia dele, apenas que fora um professor do IME que no meio medidores eletrônicos dos laboratórios da escola, havia sido picado, sabe-se lá como, pela mosca da curiosidade; assim como nós, assim como eu. Tive um vislumbre de sua escrita talentosa e suas idéias claras através de alguns artigos mantidos na internet pelo grupo Permanência, nesta página. Encantou-me o Corção. Desde então, sempre que estou em um sebo é um dos primeiros autores que procuro, normalmente sem sucesso. O homem tinha sido banido da vida cultural brasileira.

É fácil entender o porquê lendo as páginas de A Tempo e Contratempo. Corção tinha dois pecados que o tornavam incompatível com o que se chama de cultura brasileira, o segundo conseqüência do primeiro. Descobrira-se um católico fervoroso, defensor da tradição cristã e da Igreja; logo, era um conservador autêntico. O sujeito pode até ser um católico progressista ou um ateu conservador, mas católico e conservador ao mesmo tempo já é demais para os nossos "guardiões do saber".

O livro é uma coletânea de artigos que publicou na imprensa carioca durante três meses do ano de 1968. Mostra a visão de corção sobre dois movimentos distintos e coincidentes, a penetração do progressismo (e socialismo) nas fileiras da Igreja e a rebeldia da juventude. Por que coincidentes? Por que no Brasil diversos padres e bispos resolveram instigar a juventude à rebelião, ao rompimento com os pais.

Para Corção era uma clara e inequívoca apostasia, um rompimento com o próprio cristianismo. O seu horror com uma frase singela de Don Heldér Câmara que resumia bem o que estava acontecendo: "temos que dar um crédito ilimitado à juventude". Como assim?, questiona; um bispo pedindo um crédito ilimitado não a Deus, o que seria normal, mas a uma categoria abstrata, à juventude como se esta tivesse todas as respostas para os problemas do mundo?

Corção mostra que não existe juventude, do mesmo jeito que não existe velhos ou pessoas de mais de um metro e oitenta. A única coisa que a juventude tem em comum é ser jovem. Em seu meio existem pessoas boas e ruins como em todos os grupos humanos. Acompanhando a revolta de estudantes em São Paulo, Corção argumenta que em geral estudantes tem sempre razão nas coisas concretas e pequenas, como estado dos laboratórios ou condições das salas de aula, o que demonstra vontade de aprender e estão quase sempre errados quando defendem questões complexas e abstradas, como a justiça social. Seu amor pelos jovens é pela pessoa em si, por cada aluno seu que mostrou disposição de aprender e crescer e não por categorias genéricas.

No último artigo do livro, Corção faz uma bonita comparação com um padre que perdera a vida ao salvar uma menina de morrer afogada na praia e o batismo. Nos dois casos trava-se do religioso fazendo o que de mais santo lhe era exigido, salvar. Um padre não está no mundo para promover revoluções ou justificar a violência, um padre estava no mundo para salvar almas.

Outro artigo interessante, fala sobre os meios e os fins do socialismo. Condena o ataque que normalmente os conservadores faziam à violência da revolução socialista, como se o fim fosse belo e os meios é que fossem o problema. Não. O socialismo era um perverso como fim, mesmo que fosse atingido com o mais florido e indolor dos caminhos. O socialismo é o desaparecimento da pessoa humana em um todo social, é a morte do que temos de divino, é a recusa do homem em tornar-se a imagem de Deus.

Esta semana aconteceu um episódio aqui na quadra. A prefeitura fez uma bonita área para as crianças brincarem, com bancos e uma casinha. Quatro meninas com 12 anos ou mais entraram em confronto com o sub-prefeito da quadra pelo direito de pichar a área. O absurdo é que pelo menos uma delas teve o apoio explícito do pai, para espanto de minha sogra e minha filha que assistiram a tudo. Esse pai deve ser um dos jovens de 1968, que aprenderam que tinham direito à contestar qualquer autoridade.

Vivemos um mundo em que os jovens vistos por Corção, em sua anarquia sem sentido, tornaram-se os pais e educadores de hoje. Não deveria ser estranho que o mundo estivesse de cabeça para baixo e que o jovem estranho tornou-se aquele que obedece os pais, respeita as pessoas e guia-se por princípios. A geração de 68 está guiando a humanidade. O pesadelo de Corção tornou-se realidade.

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