segunda-feira, agosto 31, 2009

Brasileirão: prognósticos e bruxaria

Primeiro a seção de prognósticos.

Tudo indica que o título este ano ficará entre Palmeiras, Internacional e São Paulo. O Goiás ainda é uma azarão pois nos momentos decisivos constuma falhar, ao contrário dos outros três. Com a abertura de três pontos entre o quarto e o quinto, começa a aparecer uma linha de corte entre o G4 e o restante. Ainda podem entrar no grupo o Atlético e o Avaí, mas a luta pela Libertadores deve ficar por aí.

No grupo de baixo, Fluminense e Sport estão na UTI já chamando o padre para os últimos ritos pois não devem escapar. Botafogo e Náutico ainda respiram e disputarão as duas vagas restantes com Santo André, Coritiba e Atlético-PR. Do Cruzeiro para cima, a briga é para completar o campeonato sem maiores traumas. Sul-Americana? Fala sério.

Seção de bruxaria.

Acho que o título vai ficar com o Internacional, com Palmeiras, São Paulo e Goiás completando o G4.

Vão cair Sport, Fluminense, Náutico e Santo André.

Mas é tudo palpite. Ou não.

domingo, agosto 30, 2009

Jardim das Aflições(1995) - Olavo de Carvalho

A partir de uma palestra de José Américo Motta Pessanha, em um seminário de ética em 1993, Olavo de Carvalho constrói uma desoncertante narrativa sobre a falência intelectual de nosso tempo e a consolidação da nova era em que o indivíduo é destruído dentro de uma nova concepção de Império.

O título do livro remete ao jardim de Epicuro, que o autor identifica como raiz da nova ordem, o abandono do mundo real em favor de uma realidade artificial criada para iludir o homem em um esquema mental de felicidade. O epicurismo é apresentado como um disfarce do materialismo, uma falsa filosofia que só se sustenta pela abolição da consciência e a completa dissociação da prática com a teoria.

Pessanha teria apresentado Epicuro como modelo para a ética moderna e a partir deste ponto começam as reflexões de Olavo. Na verdade, o palestrante não queria construir um debate sobre ética mas usá-la como instrumento político. Analisando o caso do ex-presidente Collor, afastado do poder por um movimento de ética na política, Olavo mostra que o discurso foi apenas uma arma para atingir um objetivo claro: afastar do poder um presidente indesejado.

Olavo denuncia o uso das modernas técnicas de psiciologia como arma de convencimento e o epicurismo como a origem na história da humanidade da manipulação das mentes.

A história ocidental a partir dos primeiro séculos é a disputa pela herança do Império Romano e o inimigo a ser batido é o cristianismo, única religião de caráter individualista e contrária a idéia de absorsão do ser humano no todo social.

Através de uma viagem sobre as diversas tentativas do restabelecimento do Império, sempre com mutações, chega-se ao modelo atual, o Império Leigo, que tem sua expressão nos Estados Unidos da América e a difusão dos novos valores culturais que afastam o homem da religiosidade autêntica empurrando-o para o jardim de Epicuro.

Um livro denso e pesado, com uma análise apurada dos vários movimentos que marcaram a modernidade e seus reflexos nos dias atuais.

Link para resenha completa

sábado, agosto 29, 2009

Homem Massa

A Europa ficou sem moral. Não é que o homem-massa menospreze uma antiquada em favor de outra emergente, mas é que o centro do regime vital consiste precisamente na aspiração de viver sem se submeter a qualquer moral. (…) O imoralismo chegou a uma vulgaridade extrema e qualquer um se vangloria em exercita-lo (…) Se deixarmos de lado __ como já fizemos neste ensaio __ todos os grupos que representam a sobrevivência do passado __ os cristãos, os “idealistas”, os velhos liberais etc. __ não se achará entre os representantes da época atual uma única pessoa cuja atitude diante da vida não se reduza a crer que tem todos os direitos e nenhuma obrigação”.

Ortega Y Gasset, A Rebelião das Massas

Reflexões

Uma das coisas que aprendi com Ortega Y Gassett foi que o homem massa, o homem do nosso tempo, sabe cada vez menos. As possibilidades ilimitadas do mundo contemporâneo o deixa sem fôlego, tentando aproveitar de tudo um pouco; em consequência, dedica-se cada vez menos a coisas específicas. Ele tem que trabalhar para ganhar seu sustento, dar atenção para sua família, manter-se em boa forma física, interagir socialmente, assistir televisão, ler, ir a atividades culturais, etc. Em suma, ele troca qualidade por quantidade. A vida contemplativa é coisa que ficou no passado dos filósofos gregos ou dos padres escolásticos, a palavra de ordem da nossa sociedade é ação.

O paradoxo é que ao mesmo tempo que seu conhecimento é de uma profundidade rasa, este homem possui cada vez mais opiniões. Pior ainda quando julga que é um direito seu impor sua opinião ao outro. Além de acreditar possuir a verdade, quer esfregá-la na cara do seu semelhante. A estupidez realmente tomou conta do mundo e os exemplos se multiplicam a cada esquina, uma estupidez que se torna perigosa quando aliada à imposição. Curioso é que os que se julgam mais tolerantes costumam ser os mais intolerantes, os mais certos de suas idéias. Eles podem não dizer, mas consideram-se melhores do que a média da humanidade por acreditar possuir altos ideais para a vida na sociedade.

Nos últimos três anos tenho lido muito, livros e noticiário, para tentar entender a ciranda do nosso tempo. Considero-me longe de entender com funcionam estas complexas relações modernas que formam o mundo de hoje. Globalização, capitalismo, política, economia, ecologia, são realdiades cada vez mais difíceis de se compreender e se avancei alguma coisa em meus estudos foi em aumentar exponencialmente minhas dúvidas.

Ao mesmo tempo vejo que existem milhões de pessoas que parecem compreender bem cada um destes fenômenos pois estão certas de possuírem as soluções que resolverão os problemas e contradições de nossa sociedade. Eu leio textos e mais textos sobre determinados assuntos e termino com mais dúvidas de que quando comecei; ao mesmo tempo, vejo pessoas que assistem uma entrevista ou uma reportagem na televisão e não só exclamam "que absurdo!" como, ato contínuo, apresentam a solução para o problema. Normalmente lugares comuns que encontram em prateleiras de "fast-conhecimento". Muitas vezes termos abstratos que mal sabem definir, nem notar as contradições que seus raciocínios levantam.

Quando penso que Sócrates praticamente deu o grande salto da filosofia ao afirmar "só sei que nada sei", fico pensando se afinal, avançamos ou recuamos? Será que o sofismo que tanto combateu está mais presente hoje do que jamais esteve na humanidade? Será que convencer tornou-se imperativo enquanto conhecer tornou-se uma abstração? Sim, porque existem muitos ditos intelectuais que já afirmaram com todas as letras que é impossível conhecer. Outros foram ainda além, afirmaram que é impossível afirmar nossa própria existência.

Assim chegamos a este maravilhoso mundo novo onde todos possuem solução para os problemas da sociedade e uma visão de um mundo justo e bom. Sabem o caminho que devemos trilhar e revoltam-se contra aqueles que ousam levantar dúvidas ou, pior ainda, discordar de seus dogmas. Estão certos que devemos todos agir para melhorar a sociedade e o mundo que vivemos. Será que não estão incutindo no erro logo na premissa inicial? Que podemos melhorar a sociedade agindo em suas estruturas? Será que a solução para nossos problemas não começa pelo indivíduo? Será que não deveríamos olhar um pouco mais para nós mesmos e menos para o que acontece a nossa volta? Será que a melhor ajuda que podemos dar ao nosso semelhante é dar a ele possibilidades de se desenvolver como pessoa e bons exemplos? Será que a verdadeira reforma a ser feita não é de natureza íntima?

Pois houve um homem que defendeu exatamente isso. Não disse como a sociedade deveria ser organizada, como deveria ser seus fundamentos políticos e econômicos. Sempre que instado a falar sobre o assunto deixou claro que esta não era sua preocupação e nem deveria ser a nossa. O novo homem deveria ocupar-se de sua alma; o mundo justo seria a conseqüência de homens justos e não o contrário. Uma das coisas que Cristo e os santos repetiram com monotonia foi que estamos neste mundo para salvar nossas almas e não a humanidade.

Pois meu pensamento existencial começa neste ponto: reforma íntima. Não há nada melhor que eu possa fazer para a humanidade do que me tornar uma pessoa melhor. Isso não quer dizer tornar-me insensível ao meu próximo, Jesus jamais disse isso. Esta reforma íntima está ligada a amar o próximo, ao ideal da caridade, à obrigação moral de ajudar meu semelhante. Não se salva a própria alma sem estender a mão ao próximo, sem sentir com ele suas dores. Esta ajuda não implica e obrigá-lo a ser salvo, nem a tomar decisões por ele.

O homem de hoje considera o próximo um idiota, que deve ser protegido dos homens maus e, principalmente, de si mesmo. Julga-se acima do bem e do mal e considera-se conhecedor do cosmos. Cada vez abraça mais a própria arrogância e perde de vista as verdades que estão impresas em nossas almas, as verdades que foram escritas por Deus e que nos dizem exatamente como devemos proceder para chegarmos a Ele. Não acredito em mundo sem Deus. Esta é a aposta do homem de hoje. Será uma aposta sábia?

sexta-feira, agosto 28, 2009

Quanto mais eu penso...


Quando até Josias de Souza, um petralha de primeira, fica indignado com a decisão de ontem do supremo, alguma coisa deve estar errada. Quanto mais eu reflito, mas me convenço que havia indícios mais do que suficientes para abrir processo contra Antonio Palloci e votação apertada indica que não estou sozinho nesta, 4 membros do supremo tiveram a mesma visão.

Para mim, o caso é o mais grave de todo o governo Lula. A investida da alta burocracia do estado contra um indivíduo é algo que mais do que me deixar indignado, me provoca enorme desconforto. Será que as pessoas já se convenceram que o estado é nosso tutor? Que não há nada de errado contra o que aconteceu? Não estou nem levando em consideração a pessoa de Francenildo, poderia ser qualquer um, poderia ser um milionário, poderia ser o Daniel Dantas. Não uso posição social para qualificar um indivíduo, sua dignidade está em si mesmo, em sua essência. Ficou evidente na discussão de ontem que o estado investiu pesadamente contra um indivíduo com a única intenção de desqualificá-lo e livrar a cara de um ministro com cara de boa gente e queridinho da imprensa. Como não havia indícios suficientes?

Cada vez mais a sensação de impunidade toma conta da sociedade. Em 1992, o depoimento de um motorista e uma secretária foram suficiente para impedir um presidente corrupto. Fica claro que tudo aquilo foi um pretexto. Collor não foi impedido por ser corrupto, a corrupção foi apenas o motivo para tirá-lo do cargo; o que houve foi uma luta política que o povo, mais uma vez, foi massa de manobra. Sim, meus caros. Todos aqueles caras-pintadas, todo aquele movimento, foram instrumento para grupos políticos removerem um presidente indesejado do poder. Um presidente que foi eleito defendendo uma plataforma liberal que contrariou poderosos interesses pois ao mesmo tempo que desmontava o estado paquiderme, investia pesadamente contra os monopólios. Não tenho simpatia nenhuma pelo senhor Fernando Collor, até porque se tratava de um irresponsável, mas cada vez creio mais evidente que fomos enganados; Collor foi derrotado em um embate eminentemente político.

Fico pensando agora, depois do mensalão e do caseiro. Qual as chances de um indivíduo sem interesses políticos testemunhar contra figuras do governo? Vendo o que aconteceu com Francenildo, a secretária de Marcos Valério, até mesmo a ex-secretária da receita, é possível acreditar que um testemunho adiantará de alguma coisa?

Por fim fica o resultado, justo ou não, do que aconteceu ontem. De um lado um ministro da fazenda, um assessor de imprensa e um presidente de banco. De outro um caseiro. De que lado ficou o "partido do povo"? De que lado ficou o "governo popular"? Longe de defender luta de classes aqui, coisa que jamais fiz, fica evidente que quem clama fazer esta defesa só o faz até onde vai seu interesse. Quando este interesse desaparece, o povo que se ferre.

quinta-feira, agosto 27, 2009

Minhas dúvidas

Ainda sobre o julgamento, não sei se é o termo correto, da admissão da denúncia contra os violadores de sigilo. Afinal, para aceitar uma denúncia são necessários provas ou indícios? Tratava-se de um julgamento de culpa ou início de um processo judicial?

Fiquei com a impressão que o STF só aceitaria iniciar o processo se houvesse alguma prova contra Palloci. Isso vale para qualquer pessoa ou só para um ex-ministro? Será que não procurou-se julgar o mérito antes da hora?

Francenildo e Palocci

Gilmar Mendes acabou de anunciar seu parecer, como relator, sobre o acatamento da denúncia contra Antonio Palocci, Marcelo Netto e Antonio Matoso. Segundo o presidente do STF, não há provas materiais contra Palocci e Netto, mas indícios suficientes contra o último.

Se o voto de Mendes está correto, coisa que sou incapaz de julgar, resta mais uma evidência que a constituição de 88 foi um grande guarda chuva para proteger políticos da responsabilidade de seus atos. Ficou claro que houve a quebra de sigilo de um indivíduo, que Antonio Palocci recebeu o extrato da conta corrente e que o passou a seu acessor de imprensa. O principal beneficiado da ação; aliás, seu único, não será processado por falta de provas, como se este tipo de coisa se fizesse com ordem registrada em cartório.

Uma lástima.

segunda-feira, agosto 24, 2009

Governo aumenta o custeio

Reportagem do Estadão mostra que o governo aumentou, no período de um ano, as despesas de custeio em 2,44% do PIB. Como o PIB não retraiu no período, manteve-se estagnado, conclui-se que houve uma nova farra no aumento dos gastos com a máquina. Isso é muito ruim para o país pois cada real gasto com o elefante estatal é um real a menos para investimento ou abatimento da dívida pública.

Em 6 anos de governo Lula, o estado só fez aumentar de tamanho desfazendo muito das boas práticas econômicas do governo FHC. A redução do peso do estado tinha sido um dos fatores de sucesso do plano real, que nos tirou do atoleiro da inflação e nos colocou em um rumo de desenvolvimento. Agora, damos uma passo para trás.

Não é segredo para ninguém que estamos no limite da infra-estrutura existente, o que implica em uma séria limitação para o crescimento. O PAC é um fracasso colossal que só se mantém por força da propaganda milionária, obra do ex-terrorista Franklin Martins. Diante de uma crise econômica mundial, com repercussões no Brasil, o governo não deu bolas para a necessidade de apertar o cinto ou estimular a economia. Tratou de inchar ainda mais a máquina e contentar uma grande base eleitoral de funcionários públicos, além de reforçar o caixa dos aliados da base alugada e da própria companheirada.

O futuro presidente vai herdar uma herança pesada do atual governo pois diminuir o tamanho do estado é muito mais complexo e custoso do que aumentar. O custo ficará para as próximas gerações que terão que sofrerão os reflexos da falta de investimentos por parte de um governo preocupado apenas em contentar suas bases e aumentar o poder político de seu grupo. Tudo em detrimento de quem realmente produz, estes tratados a pontapés como se vê na extrema má-vontade do governo com o agro-negócio.

domingo, agosto 23, 2009

Um pouco de política

Foi uma semana interessante na política brasileira, para ficar com um termo bem ameno.

Vimos a conclusão da operação para evitar que José Sarney tivesse que enfrentar um processo no conselho de ética (risos) do Senado Federal. Digo enfrentar porque até as baratas da casa sabem que não havia muita chance de acabar em punição. No fim, seria absolvido como foi Renan Calheiros; o que se evitou fui que sangrasse durante algumas semanas.

O PT assumiu o papel principal no arquivamento dos processos. Os votos aparentemente envergonhados de Ideli Salvatti e Dulcídio Amaral, o pastelão daquele senador de bigode de São Paulo, o anúncio da saída de Flávio Arns, que particularmente não acredito, e os discursos cheio de sabedoria do Suplicy, o que nunca está com a responsabilidade na mão, tudo contribuiu para deixar bem claro o papel decisivo que o partido teve no arquivamento de 11 processos contra o presidente do Senado.

Para piorar mais ainda, espertamente, Marina Silva escolheu o dia da votação para se desligar do partido, reforçando uma imagem de que estaria de saída pelos desvios éticos. Marina saiu porque quando Lula escolheu Dilma Rousseff, seu desafeto, como candidata para 2010, ficou claro que ficaria sem espaço no partido; principalmente por colocar obras públicas como carro chefe da campanha. Naquele momento o governo deixou claro que o discurso ambientalista sempre seria um discurso dentro do partido. Marina Silva foi procurar o lugar que deveria estar desde o início, o Partido Verde. Não teve nada a ver com ética. Durante o mensalão e os inúmeros escândalos de corrupção protagonizados por seus colegas de partido, não se ouviu uma única queixa da ministra. Enquanto acreditou que poderia levar adiante a agenda ambiental dentro do governo, não se preocupou nem um pouco com o discurso ético.

Voltando ao Sarney, o senador do Maranhão-Amapá não é o maior problema político do Brasil, longe disso. Trata-se mais de um símbolo da grande doença estrutural que temos em nossa sociedade, como alertou Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. Sarney representa a confusão do público com o privado, a política com extensão das relações familiares, o paternalismo do estado que mantém o país no atraso, a reação a qualquer tipo de modernização das práticas políticas que enfraqueça os grupos regionais. O mesmo pode-se dizer de Renan Calheiros, Fernando Collor e outros.

Lula não é muito diferente na essência. Sua diferença é a roupagem. É um novo coronel, também usando o público como se fosse privado em benefício de sua família, política e de sangue. Seus compadres estão todos bem posicionados na máquina pública, seus filhos e irmãos sendo beneficiados por contratos e influência política, como atestaram Lulinha e Vavá.

O brasileiro médio, não confundir com classe social, este que decide eleições e encontra-se em todas as camadas da sociedade, não tem de fato um problema com a corrupção, até porque ele já considera que ela não pode ser combatido. Anos e anos de impostura e os efeitos da constituição cidadã deram a ele a certeza que todos os políticos são corruptos e que é impossível ser ético no trato da coisa pública. Sua maior queixa é que não tenha sua parte, que não receba os benefícios do estado. Sua ética é larga o suficiente para no fundo não ver nada errado em tirar do estado o que julga ser seu.

Lula é a representação deste brasileiro médio. De origem pobre, bem-humorado, com boa dose de malandragem, falando de futebol, usando metáforas por vezes chulas mas compreensíveis, bonachão, com aquele jeito de amigo que estende uma mão para dar um jeitinho. O brasileiro médio nunca conseguiu se enxergar em políticos como Sarney, Collor, FHC. Mas Lula? Lula é o brasileiro e o brasileiro é Lula.

Quando FHC saía pelo mundo, o povo sentia raiva. Quando Lula parte no seu aerolula, sente inveja, sente-se vingado. Por isso a ele tudo é permitido. Em parte explica-se a grande popularidade que desfruta ao mesmo tempo que os políticos nunca estiveram tão mal avaliados. O brasileiro médio não consegue identificar Lula com a política, considera-o uma espécie de outsider, muito embora tenha feito da política a sua vida.

Resta desta semana uma grande dúvida. Lula, em mais de seis anos de mandato, não se furtou de abandonar nenhum de seus aliados quando precisou. Por Sarney expôs seu partido, arriscou parte de sua popularidade. Por que? A grande maioria dos jornalistas apontam dois motivos, eleições e governabilidade. Será?

Eu não me convenço. Mesmo que Sarney fosse para o conselho de ética (mais risos). É altamente improvável que terminasse cassado, como o Senado deixou claro em oportunidades passadas. O PMDB deixaria de apoiar Dilma? Não existe apoio do partido a um candidato específico. O PMDB sempre se dividirá nos candidatos com chance de vitória, sempre será governo. Com Sarney ou sem Sarney. O mesmo vale para a governabilidade. É possível acreditar que em protesto o partido abandonaria o governo e entregaria Ministérios e estatais?

Nenhuma das duas hipóteses me convence. Gratidão pelo papel de Sarney no mensalão? Quem considera esta possibilidade não entendeu nem um pouco do que é Lula. Gratidão na política tem limites e o próprio Sarney sabe disso. Acredito que Lula usou toda sua força para proteger o aliado por motivos que só eles sabem, talvez Dilma. Lula é refém de Sarney, até o fim de seu mandato.

Por tudo isso, a semana foi por demais interessante. Os papéis estão ficando um pouco mais claros, alguns véus foram removidos. Não tenho simpatia por Marina Silva e suas idéias, mas acho que sua candidatura pode ser boa para o país porque estará no lugar certo, no Partido Verde. O efeito prático seria o rompimento da polaridade Dilma-Serra, o que pode fomentar o surgimento de novas candidaturas. Quem sabe até de um conservador autêntico, se é que existe esta espécie! Por enquanto vamos nos contentando em escolher as diversas matizes de esquerda.

Infelizmente.

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sábado, agosto 15, 2009

Períodos Filosóficos - João da Penha

Este pequeno livro, parte de uma coleção "Série Princípios", retrata os principais períodos filosóficos da humanidade. João da Penha analisa três: o helenismo, a filosofia moderna e a filosofia contemporânea. Em linguagem didática, voltada principalmente para os não iniciados em história da filosofia, o livro tem o mérito de ser claro e conciso. Uma pena, entretanto, que o autor tenha ignorado a filosofia da idade média, talvez um dos períodos mais ricos em termos de pensamento. Talvez por ainda existir na época que escreveu o livro a idéia de que a Idade Média tenha sido um período das trevas, com paralisação do pensamento, à despeito de pelo menos dois grandes filósofos, Agostinho e Tomás de Aquino.

Sobre o helenismo, João da Penha inicia descrevendo os pré-socráticos. A filosofia começou quando o homem deixou de lado a mitologia para explicar o mundo e passou a buscar uma explicação racional. Os primeiros filósofos dedicaram-se à tentar entender o cosmos. Por que existia o mundo? De que era constituído? Como se comportava a natureza? Qual o seu princípio básico? Foram os sofistas que chegaram a conclusão que não era possível conhecer a realidade e dedicaram-se à retórica como forma de convencer o próximo de uma idéia, seja esta falsa ou verdadeira.

Todo grande filósofo surge com uma reação ao consenso existente. Sócrates foi o primeiro desta estirpe. Posicionando-se contra os sofistas, não só acreditava que a verdade era atingível através da prática filosófica, mas que o homem era o principal assunto a ser pensado. Sócrates, Platão e Aristóteles foram talvez os grandes filósofos ocidentais e buscaram mostrar que a filosofia moral exigia a prática, a reforma íntima.

Por fim, o período de decadência grega esteve relacionado com filosofia mais sombrias e pessimistas, voltadas para identificar um mundo ideal como forma de fugir de uma realidade opressora. Assim, surgiram os movimentos do epicurismo e do estoicismo.

A filosofia moderna, inicia com Roger Bacon e relaciona-se com a evolução científica da época. Influenciados por Newton, Galileu, Copérnico e outros, a filosofia moderna separou-se em duas correntes principais. A primeira, acreditava que o conhecimento provinha da razão e seu iniciador foi Renê Descartes; a segunda, que o conhecimento baseava-se na experiência e teve Bacon como seu primeiro expoente.

Coube à Kant realizar uma síntese das duas correntes afirmando que o conhecimento era alcançável tanto pela razão quanto pela experiência, através de juízos sintéticos e analíticos. Hegel veio para mostrar o mundo a partir da idéia e a história como a manifestação da razão, Kierkegaard para criticar a utilização de sistemas para explicação do mundo em uma filosofia marcada pelo pessimismo.

A filosofia contemporânea teria como primeiro expoente Nietzsche, introduzindo a denúncia à hipocrisia da sociedade o niilismo, a inversão dos valores provocadas pelo afastamento da religião. Penha é um daqueles que defende que o filósofo alemão retratou as incoerências dos tempos que se iniciavam e suas contradições.

Marx foi outro nome importante ao defender que o filósofo deveria dedicar-se à transformar a sociedade e não a entendê-la. Sua filosofia centrou-se na abolição da propriedade privada e a defesa do proletariado como a única classe social realmente autêntica e o materialismo dialético como realidade do mundo.

Finalmente, Penha apresenta a fenomenologia e o exitencialismo como a inversão do pensamento de que a essência precedia da existência. Para Husserl e Sartre, primeiro o homem existia e só depois se definia.

João da Penha lança os principais tópicos da filosofia ocidental como um convite, uma introdução à história da filosofia. Uma pena que tenha deixado de lado a rica filosofia da Idade Média, talvez por ter sido inteiramente construída dentro da Igreja Católica e ter colocado a religião relacionada à razão; o que deixou de certa forma seu pequeno livro incompleto.


domingo, agosto 09, 2009

Bicho do Mato - O Bando do Velho Jack

Bom e velho rock'n'roll!

O Bando do Velho Jack é uma banda de Campo Grande praticamente desconhecida no resto do país. Inspirados no rock anos 70, principalmente do southern rock americano, o Bando conquistou uma fiel legião de fãs em sua cidade natal. Fazendo um rock de verdade e distante dos grandes centros, só assim para explicar que não tenha obtido a devida atenção do público brasileiro pois a banda é simplesmente fabulosa.

Bicho do Mato é o terceiro disco de estúdio da banda e seu último. Lançado em 2007, com excelente qualidade, o cd mostra a maturidade do bando. Deixando de lado os covers dos discos anteriores __ aliás, excelentes __ o grupo investe no próprio som com segurança e ousadia. Sem medo de beber na fonte do bom rock, fiel a suas raízes, o disco conquista o ouvinte da primeira à última nota; não há uma única música que não seja calcada em arranjos inspirados e muito bom gosto.

Duas faixas mostram as influências da banda com nitidez. Dois Caminhos remete ao Allman Brothers, blues de primeira com grande trabalho dos guitarristas e teclados que parecem ter saído das mãos de Greg Allman em pessoa. Prestem atenção nas linhas de baixo, coisa de quem sabe. Gasolina, por sua vez, lembra Lynyrd Skynyrd com riff marcante e ritmo para quem gosta de curtir um rock tomando cerveja gelada.

Lixo Humano mostra a banda nas pontas dos cascos. Marcação de bateria contagiante, riffs inspirados, baixo e teclados na media; atenção para as inúmeras viradas de João Bosco nas baquetas. Perto do final ainda tem uma acústica que praticamente fecha o cd com chave de ouro.

Bicho do Mato é uma prova que tem banda no Brasil capaz de tocar com muita qualidade. É triste ver um trabalho destes passar desapercebido enquanto as rádios vivem entupidas de pretensas bandas de rock com vocalistas esgoelando nos microfones para um público que não tem a menor noção do que seja uma boa música. Guardem este nome: O Bando do Velho Jack. Rock'n'roll de primeira!

sábado, agosto 08, 2009

Desejo e Reparação (Atonement, 2007)

O que realmente vê uma criança? Até que ponto ela é capaz de lidar com a realidade? Quando ela vê um fato objetivo, o que é capaz de captar realmente dele?

São perguntas como estas que estão na raiz do bom filme de Joe Wright, que já havia adaptado Orgulho e Preconceito, também com Keira Knightley, que mais uma vez mostra que é muito mais do que mais um rosto bonito no cinema.

No filme, uma menina é incapaz de lidar com uma terrível verdade que destrói o mundo que tinha imaginado para si. Aos 13 anos, incapaz de superar uma rejeição de um jovem que tinha se apaixonado, ela acusa-o de um crime que alteraria a vida dele e de sua irmã para sempre. Anos depois, ao ser perguntada se sabia o que estava fazendo ela responderia que sim e não. Não é uma resposta fácil. Briony tinha visto o que desejava ver, seus sentidos tinham sido alterados pela profunda emoção que estava sentindo. É o perigo que a imaginação fértil pode fazer na mente de uma jovem que apenas está aprendendo a viver.

Já dizia gente como Gassett e Musil, que o grande problema das pessoas e do mundo é a relação com a realidade. A nossa incapacidade de processá-la nos momentos de intensa angústia é a tônica do homem, principalmente o homem moderno. Imaginamos um mundo agradável em nossa mente o tempo todo; por vezes ele entra em conflito com um outro mundo diferente, a realidade. Alguns conseguem ter a coragem de enfrentar esta tensão, outros sucumbem. Como a jovem Briony.

O filme vai mais além, mostra que nem todos os pecados são possíveis de reparação. A Segunda Guerra Mundial impediria a jovem de redimir-se com os que magoou e faria com que carregasse por todo a sua vida o fardo do erro que cometeu. Uma idosa Briony, agora escritora de sucesso, lida com seu inferno pessoal em seu último livro. Tenta se redimir com a irmã e o amante na ficção e desta forma redimir com si mesma.

Desejo e Reparação é um filme sensível, muito bem filmado e com atuações seguras. Whight conseguiu criar um grande efeito ao montar o filme de forma não linear, mostrando a visão de Britney primeiro e só depois, em flashback, o que realmente tinha acontecido. Tenta reproduzir o efeito da consciência sendo formada, uma consciência que só poderá ter um fim, o arrependimento. Mesmo que tarde demais.

Os Brutos Também Amam (Shane, 1953)


Este é mais um dos filmes que o título em português é um completo equívoco. Impossível tratá-lo por esta bobagem que escolheram para nomeá-lo no Brasil.

Shane conta a estória de um ex-pistoleiro(Alan Ladd) que tenta mudar de vida pois percebe que o oeste já não é mais o mesmo. Uma nova ordem baseada no estado de direito estava sendo implantada, as armas estavam dando lugar ao entendimento e negociação.

Em suas andanças, acaba no rancho de um fazendeiro que resiste à pressão de um rico senhor de terras que deseja construir um enorme pasto. Acaba ficando para ajudá-lo. O motivo não é muito honroso; Shane sente atração pela esposa do fazendeiro(Jean Arthur) e ao longo do filme vive uma tensão constante devido a seus sentimentos. Desejaria a morte do marido? Não se sabe. Até o último momento, Shane recusa-se a usar armas e não interfere, pelo menos de início, a decisão do fazendeiro de enfrentar o senhor local no bar da cidade.

O filme mostra o conflito de um homem que tenta abandonar o pesado fardo que carrega e acaba derrotado. Como diz ao pequeno John, uma vez matado homens, não há mais retorno possível. O ato de matar deixa marcas profundas que deve carregar para o resto da vida e que o impediria de tentar ser uma pessoa normal.

Em um diálogo com o senhor local, Shane diz a ele que seus dias haviam terminado. O fazendeiro retruca dizendo o mesmo do pistoleiro que responde que pelo menos sabia disso. É a tônica do filme. Shane sabe que era a mudança de uma era, que não havia lugar para ele na nova ordem. O fazendeiro lutava contra esta verdade, tentando preservar seus métodos nos novos tempos.

Shane é um dos westerns que definiram o gênero. Seu herói solitário, capaz de amar, em constante conflito íntimo, deixaria uma de suas figuras constantes nos filmes que veriam depois. A cena final, em que se despede do pequeno John e ganha o oeste é um marco. O homem que escolhe a solidão para viver seus dias, o protótipo do herói que não tem mais lugar na sociedade de hoje.

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A Fortaleza Escondida (1958)


Dois aldeões, misto de cômicos e trágicos, atravessam um território devastado pela guerra no Japão feudal. Tentaram a sorte nos combates para descobrirem, ao chegar ao campo de batalha, que a guerra terminara e pertenciam ao lado perdedor. Por acaso, acabam tropeçando com um montanha de ouro, uma princesa procurada e um general samurai que a protege e tenta levá-la para reassumir seu trono. A partir desta premissa simples, Kurosawa constrói mais uma aventura que mistura comédia, tragédia e visão de uma época.

Boa parte do elenco tinha trabalhado no épico Os Sete Samurais, agora em uma inversão de papéis que ressalta o talento de seus atores. O transloucado samurai no filme anterior é agora o general que protege a princesa; o samurai lenhador é um dos aldeões.

Kurosawa inova ao narrar suas aventuras do ponto de vista dos personagens mais frágeis e de moral duvidosa do filme, os dois aldeões. George Lucas sempre reconheceu neste filme uma das inspirações para Guerra nas Estrelas, uma Nova Esperança. Os aldeões foram substituídos por dois andróides, o samurai por um cavaleiro Jedi.

Em certo momento a princesa, duvidosa, pergunta ao samurai como teriam certeza da coloboração dos dois. Ele responde que bastaria colocar uma carga de ouro nas costas de cada um e a cobiça deles se encarregaria do resto. Kurosawa retoma uma das premissas de Os Sete Samurais, a cobiça de lavradores endurecidos pelas constantes guerras. Desta vez, entretanto, não há remissão, ambos atravessam toda a estória sem mudarem suas tendências.

Outro ponto interessante do filme é a percepção crescente que a princesa vai adquirindo da situação dos camponeses. Perto do fim, ela comenta diante da morte eminente que se aproximava que aqueles dias de jornada haviam sido os mais ricos e felizes da sua existência, um contraste com sua vida de futilidade dentro do palácio. A aventura tinha transformado-a e fizera mais por um futuro reinado do que qualquer lição que tenha aprendido na vida. As privações e perigos abriram seus olhos para o sofrimento dos mais humildes.

Um dos melhores momentos da película é o duelo entre o samurai com o general do exército inimigo. Após a vitória do primeiro, ele recusa-se a executar o segundo, que por causa disso é duramente castigado por seu líder, situação que será crucial para os heróis no final da trama.

A Fortaleza Escondida é mais um grande filme de Kurosawa e uma amostra genuína de como um filme de aventuras deve ser. Mais uma influência sua na indústria do cinema e uma amostra de sua genialidade, uma das melhores mentes a terem se dedicado à arte de fazer filmes.

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Now playing: Bad Company - Man Needs Woman
via FoxyTunes

quarta-feira, agosto 05, 2009

Caritas in Veritate - Bento XVI

Ocupados em acompanhar tudo sobre a morte de Michael Jackson, o mundo deixou passar despercebido a terceira encíclica de Bento XVI.

Olavo de Carvalho odiou, Spengler apontou um escorregão. Acho que fiquei no meio termo entre eles.

Afinal, o Papa defendeu um maior poder global ou não?

Mais um teste ideológico

My Political Views
I am a right social libertarian
Right: 4.77, Libertarian: 3.53

Political Spectrum Quiz

segunda-feira, agosto 03, 2009

Jogos antigos

No sábado fui numa festa infantil, levar minha filha. Meu filho me acompanhou e conversamos um bom tempo. Um dos assuntos foram jogos de computador.

Ele está doido para conseguir um jogo antigo, para os padrões cibernéticos, o Grim Fandango. Tínhamos o jogo, mas ele simplesmente explodiu dentro do drive. Acabamos conversando sobre outros jogos como A Ilha dos Macacos, O Dia do Tentáculo, Full Throthle e outros. Quem viveu a década de 90 sabe do que estou falando.

Fiquei refletindo depois. Estes jogos eram de uma inteligência rara, exigiam do jogador criatividade, pesquisa, insight, visão de mundo. Lembro que em O Dia do Tentáculo era necessário alguns conhecimentos básicos sobre acontecimentos históricos dos Estados Unidos para desvendar alguns enigmas, como a declaração da independência e a descoberta da eletricidade por Benjamim Franklin. Senso comum também era exigido como por exemplo saber que depois que se lava um carro (ou carruagem), vem uma chuva ou que o vinho depois de alguns séculos transforma-se em vinagre.

Estes jogos simplesmente desapareceram. Hoje vejo muita ação, habilidade, concentração e pouco uso da mente pelo jogador. O que aconteceu? Por que este tipo de jogo sumiu das prateleiras? Por que as empresas como a Lucas Arts pararam o desenvolvimento de jogos como o Dia do Tentáculo?

É fácil responder que é coisa do mercado. No entanto, que mercado é esse que abandona um tipo de produto que sempre gerou lucro? Estes jogos desenvolviam uma importante característica nos jovens, o poder de raciocínio. Será que está aí o problema? É um paradoxo que ao mesmo tempo que a sociedade se torna mais tecnológica e supostamente mais inteligente, os jogos de raciocínio sejam substituídos por jogos de controle e repetição.

Um alento é o iphone. Alguns destes jogos mais antigos, como Myst e Monkey Island já foram lançados para o aparelho. Que seja uma porta sendo aberta e não o último suspiro de uma época que não retornará mais.