sábado, agosto 29, 2009

Reflexões

Uma das coisas que aprendi com Ortega Y Gassett foi que o homem massa, o homem do nosso tempo, sabe cada vez menos. As possibilidades ilimitadas do mundo contemporâneo o deixa sem fôlego, tentando aproveitar de tudo um pouco; em consequência, dedica-se cada vez menos a coisas específicas. Ele tem que trabalhar para ganhar seu sustento, dar atenção para sua família, manter-se em boa forma física, interagir socialmente, assistir televisão, ler, ir a atividades culturais, etc. Em suma, ele troca qualidade por quantidade. A vida contemplativa é coisa que ficou no passado dos filósofos gregos ou dos padres escolásticos, a palavra de ordem da nossa sociedade é ação.

O paradoxo é que ao mesmo tempo que seu conhecimento é de uma profundidade rasa, este homem possui cada vez mais opiniões. Pior ainda quando julga que é um direito seu impor sua opinião ao outro. Além de acreditar possuir a verdade, quer esfregá-la na cara do seu semelhante. A estupidez realmente tomou conta do mundo e os exemplos se multiplicam a cada esquina, uma estupidez que se torna perigosa quando aliada à imposição. Curioso é que os que se julgam mais tolerantes costumam ser os mais intolerantes, os mais certos de suas idéias. Eles podem não dizer, mas consideram-se melhores do que a média da humanidade por acreditar possuir altos ideais para a vida na sociedade.

Nos últimos três anos tenho lido muito, livros e noticiário, para tentar entender a ciranda do nosso tempo. Considero-me longe de entender com funcionam estas complexas relações modernas que formam o mundo de hoje. Globalização, capitalismo, política, economia, ecologia, são realdiades cada vez mais difíceis de se compreender e se avancei alguma coisa em meus estudos foi em aumentar exponencialmente minhas dúvidas.

Ao mesmo tempo vejo que existem milhões de pessoas que parecem compreender bem cada um destes fenômenos pois estão certas de possuírem as soluções que resolverão os problemas e contradições de nossa sociedade. Eu leio textos e mais textos sobre determinados assuntos e termino com mais dúvidas de que quando comecei; ao mesmo tempo, vejo pessoas que assistem uma entrevista ou uma reportagem na televisão e não só exclamam "que absurdo!" como, ato contínuo, apresentam a solução para o problema. Normalmente lugares comuns que encontram em prateleiras de "fast-conhecimento". Muitas vezes termos abstratos que mal sabem definir, nem notar as contradições que seus raciocínios levantam.

Quando penso que Sócrates praticamente deu o grande salto da filosofia ao afirmar "só sei que nada sei", fico pensando se afinal, avançamos ou recuamos? Será que o sofismo que tanto combateu está mais presente hoje do que jamais esteve na humanidade? Será que convencer tornou-se imperativo enquanto conhecer tornou-se uma abstração? Sim, porque existem muitos ditos intelectuais que já afirmaram com todas as letras que é impossível conhecer. Outros foram ainda além, afirmaram que é impossível afirmar nossa própria existência.

Assim chegamos a este maravilhoso mundo novo onde todos possuem solução para os problemas da sociedade e uma visão de um mundo justo e bom. Sabem o caminho que devemos trilhar e revoltam-se contra aqueles que ousam levantar dúvidas ou, pior ainda, discordar de seus dogmas. Estão certos que devemos todos agir para melhorar a sociedade e o mundo que vivemos. Será que não estão incutindo no erro logo na premissa inicial? Que podemos melhorar a sociedade agindo em suas estruturas? Será que a solução para nossos problemas não começa pelo indivíduo? Será que não deveríamos olhar um pouco mais para nós mesmos e menos para o que acontece a nossa volta? Será que a melhor ajuda que podemos dar ao nosso semelhante é dar a ele possibilidades de se desenvolver como pessoa e bons exemplos? Será que a verdadeira reforma a ser feita não é de natureza íntima?

Pois houve um homem que defendeu exatamente isso. Não disse como a sociedade deveria ser organizada, como deveria ser seus fundamentos políticos e econômicos. Sempre que instado a falar sobre o assunto deixou claro que esta não era sua preocupação e nem deveria ser a nossa. O novo homem deveria ocupar-se de sua alma; o mundo justo seria a conseqüência de homens justos e não o contrário. Uma das coisas que Cristo e os santos repetiram com monotonia foi que estamos neste mundo para salvar nossas almas e não a humanidade.

Pois meu pensamento existencial começa neste ponto: reforma íntima. Não há nada melhor que eu possa fazer para a humanidade do que me tornar uma pessoa melhor. Isso não quer dizer tornar-me insensível ao meu próximo, Jesus jamais disse isso. Esta reforma íntima está ligada a amar o próximo, ao ideal da caridade, à obrigação moral de ajudar meu semelhante. Não se salva a própria alma sem estender a mão ao próximo, sem sentir com ele suas dores. Esta ajuda não implica e obrigá-lo a ser salvo, nem a tomar decisões por ele.

O homem de hoje considera o próximo um idiota, que deve ser protegido dos homens maus e, principalmente, de si mesmo. Julga-se acima do bem e do mal e considera-se conhecedor do cosmos. Cada vez abraça mais a própria arrogância e perde de vista as verdades que estão impresas em nossas almas, as verdades que foram escritas por Deus e que nos dizem exatamente como devemos proceder para chegarmos a Ele. Não acredito em mundo sem Deus. Esta é a aposta do homem de hoje. Será uma aposta sábia?

2 comentários:

Alexandra disse...

Não sei se concordo com a generalização do Ortega y Gassett sobre o que ele descreve como "homem massa"

Algumas das mudanças que ele parece atribuir ao mundo moderno não conferem...
A vida contemplativa sempre foi limitada a um segmento pequeno da população - como vc mesmo disse, aos filósofos gregos e aos padres escolásticos. Isso não mudou - hoje quem se dedica a contemplação são os acadêmicos nas ivory towers da vida...

Quanto ao homem comum, este sempre teve suas opiniões sobre o mundo a sua volta, muitas delas bem loucas, e muitos também se achavam no direito de impô-las a vizinhos e familiares. O que mudou foi o acesso a meios para tornar essa opinião conhecida por mais pessoas e o fato de que esses que têm essas opiniões não mais são categorizados como herejes e punidos como tais pela sociedade.

Marcos Guerson Jr disse...

A vida contemplativa não quer dizer afastar-se do mundo ou deixar de interagir com ele. Sócrates, Platão, Santo Agostinho, todos defenderam a vida contemplativa como forma de chegar à verdade, mas ao mesmo tempo foram homens que interagiram ativamente com seus semelhantes. O que não se poderia perder era o ideal contemplativo, a necessidade de identificar a beleza e a verdade pela observação. Assim, um camponês que do alto de uma colina contemplava as terras à sua volta era capaz de refletir e se deixar atingir pela beleza do mundo. Será que o homem moderno é capaz de parar e contemplar? Não vejo assim. Meus amigos não cansam de falar que não conseguem ficar sem fazer nada, que ficar sozinho é um suplício. Possuem necessidade de estar sempre em atividade, sempre interagindo com alguém. A contemplação é o caminho para a reflexão. Portanto, não concordo que quem se dedica à contemplação são os acadêmicos nas ivory towers; aliás, tenho visto os acadêmicos cada vez mais imersos no ativismo, adotando causas e defendendo-as. Será que não perdem a perspectiva? Desta forma não se preocupam mais em provar que estão com a razão do que obtê-la?

Até meados do século passado, tenho a impressão que o homem tinha uma certa humildade que perdeu. O homem simples, o homem comum, tinha consciência de sua ignorância e até uma certa vergonha dela. Hoje, ele ao mesmo tempo que orgulha-se da ignorância, coloca-se na posição de ter a chave para o futuro. O mundo de hoje é o mundo das massas e cada vez mais existe uma pressão para a uniformização destas massas. Desconfio desta uniformização, desconfio das unanimidades pois podem indicar que na verdade as pessoas deixaram de pensar e passaram a repetir discursos de formadores de opinião que encontram-se em posições que nunca deveriam estar.

já te falei várias vezes, leia a filosofia grega, sobretudo Platão. É um dos pilares de nossa civilização. Não acredito que alguém seja capaz de começar a pensar o que somos antes disso, não acredito que se possa iniciar uma crítica sincera a sociedade sem conhecer a filosofia grega.