domingo, agosto 23, 2009

Um pouco de política

Foi uma semana interessante na política brasileira, para ficar com um termo bem ameno.

Vimos a conclusão da operação para evitar que José Sarney tivesse que enfrentar um processo no conselho de ética (risos) do Senado Federal. Digo enfrentar porque até as baratas da casa sabem que não havia muita chance de acabar em punição. No fim, seria absolvido como foi Renan Calheiros; o que se evitou fui que sangrasse durante algumas semanas.

O PT assumiu o papel principal no arquivamento dos processos. Os votos aparentemente envergonhados de Ideli Salvatti e Dulcídio Amaral, o pastelão daquele senador de bigode de São Paulo, o anúncio da saída de Flávio Arns, que particularmente não acredito, e os discursos cheio de sabedoria do Suplicy, o que nunca está com a responsabilidade na mão, tudo contribuiu para deixar bem claro o papel decisivo que o partido teve no arquivamento de 11 processos contra o presidente do Senado.

Para piorar mais ainda, espertamente, Marina Silva escolheu o dia da votação para se desligar do partido, reforçando uma imagem de que estaria de saída pelos desvios éticos. Marina saiu porque quando Lula escolheu Dilma Rousseff, seu desafeto, como candidata para 2010, ficou claro que ficaria sem espaço no partido; principalmente por colocar obras públicas como carro chefe da campanha. Naquele momento o governo deixou claro que o discurso ambientalista sempre seria um discurso dentro do partido. Marina Silva foi procurar o lugar que deveria estar desde o início, o Partido Verde. Não teve nada a ver com ética. Durante o mensalão e os inúmeros escândalos de corrupção protagonizados por seus colegas de partido, não se ouviu uma única queixa da ministra. Enquanto acreditou que poderia levar adiante a agenda ambiental dentro do governo, não se preocupou nem um pouco com o discurso ético.

Voltando ao Sarney, o senador do Maranhão-Amapá não é o maior problema político do Brasil, longe disso. Trata-se mais de um símbolo da grande doença estrutural que temos em nossa sociedade, como alertou Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. Sarney representa a confusão do público com o privado, a política com extensão das relações familiares, o paternalismo do estado que mantém o país no atraso, a reação a qualquer tipo de modernização das práticas políticas que enfraqueça os grupos regionais. O mesmo pode-se dizer de Renan Calheiros, Fernando Collor e outros.

Lula não é muito diferente na essência. Sua diferença é a roupagem. É um novo coronel, também usando o público como se fosse privado em benefício de sua família, política e de sangue. Seus compadres estão todos bem posicionados na máquina pública, seus filhos e irmãos sendo beneficiados por contratos e influência política, como atestaram Lulinha e Vavá.

O brasileiro médio, não confundir com classe social, este que decide eleições e encontra-se em todas as camadas da sociedade, não tem de fato um problema com a corrupção, até porque ele já considera que ela não pode ser combatido. Anos e anos de impostura e os efeitos da constituição cidadã deram a ele a certeza que todos os políticos são corruptos e que é impossível ser ético no trato da coisa pública. Sua maior queixa é que não tenha sua parte, que não receba os benefícios do estado. Sua ética é larga o suficiente para no fundo não ver nada errado em tirar do estado o que julga ser seu.

Lula é a representação deste brasileiro médio. De origem pobre, bem-humorado, com boa dose de malandragem, falando de futebol, usando metáforas por vezes chulas mas compreensíveis, bonachão, com aquele jeito de amigo que estende uma mão para dar um jeitinho. O brasileiro médio nunca conseguiu se enxergar em políticos como Sarney, Collor, FHC. Mas Lula? Lula é o brasileiro e o brasileiro é Lula.

Quando FHC saía pelo mundo, o povo sentia raiva. Quando Lula parte no seu aerolula, sente inveja, sente-se vingado. Por isso a ele tudo é permitido. Em parte explica-se a grande popularidade que desfruta ao mesmo tempo que os políticos nunca estiveram tão mal avaliados. O brasileiro médio não consegue identificar Lula com a política, considera-o uma espécie de outsider, muito embora tenha feito da política a sua vida.

Resta desta semana uma grande dúvida. Lula, em mais de seis anos de mandato, não se furtou de abandonar nenhum de seus aliados quando precisou. Por Sarney expôs seu partido, arriscou parte de sua popularidade. Por que? A grande maioria dos jornalistas apontam dois motivos, eleições e governabilidade. Será?

Eu não me convenço. Mesmo que Sarney fosse para o conselho de ética (mais risos). É altamente improvável que terminasse cassado, como o Senado deixou claro em oportunidades passadas. O PMDB deixaria de apoiar Dilma? Não existe apoio do partido a um candidato específico. O PMDB sempre se dividirá nos candidatos com chance de vitória, sempre será governo. Com Sarney ou sem Sarney. O mesmo vale para a governabilidade. É possível acreditar que em protesto o partido abandonaria o governo e entregaria Ministérios e estatais?

Nenhuma das duas hipóteses me convence. Gratidão pelo papel de Sarney no mensalão? Quem considera esta possibilidade não entendeu nem um pouco do que é Lula. Gratidão na política tem limites e o próprio Sarney sabe disso. Acredito que Lula usou toda sua força para proteger o aliado por motivos que só eles sabem, talvez Dilma. Lula é refém de Sarney, até o fim de seu mandato.

Por tudo isso, a semana foi por demais interessante. Os papéis estão ficando um pouco mais claros, alguns véus foram removidos. Não tenho simpatia por Marina Silva e suas idéias, mas acho que sua candidatura pode ser boa para o país porque estará no lugar certo, no Partido Verde. O efeito prático seria o rompimento da polaridade Dilma-Serra, o que pode fomentar o surgimento de novas candidaturas. Quem sabe até de um conservador autêntico, se é que existe esta espécie! Por enquanto vamos nos contentando em escolher as diversas matizes de esquerda.

Infelizmente.

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