quarta-feira, setembro 30, 2009

A Grandeza da Alma - Santo Agostinho

Santo Agostinho foi o filósofo que promoveu a primeira síntese entre a filosofia cristã e a tradição greco-romana. Influenciado inicialmente por Plotino, principal nome do neo-platonismo, procurou ancorar o cristianismo nas teorias pagãs gregas, particularmente em Platão. A Grandeza da Alma foi um de seus primeiros escritos e enquadra-se na categoria de diálogos, seguindo o método investigatório proposto pelos antigos.

Agostinho foi um dos chamados "pais da Igreja" e buscava filosofar sobre a relação do homem com Deus, contribuindo para formar a base teológica para a Igreja Católica, que se organizava nos escombros do Império Romano em agonia.

A Grandeza da Alma provavelmente foi escrito por volta do ano de 388, em Roma. Agostinho utilizou o diálogo entre ele e uma amigo, Evódio, para refletir sobre a alma, particularmente sobre sua grandeza. Evódio apresenta-lhe seis questões: de onde vem a alma? O que é? Qual a sua grandeza? Por que foi dada ao corpo? Como se une ao corpo? Em que se converte quando o deixa? Agostinho responde rapidamente as duas primeiras, concentra-se na terceira a na conclusão deixa as demais sem resposta, convidando o leitor a utilizar as respostas anteriores para buscar as demais.

Agostinho defende que a alma é a presença de Deus no homem, a sua ligação com o criador, a responsável pela semelhança do homem com Deus. Não é formada pelos elementos conhecidos (ar, água, terra e fogo), mas de uma natureza profundamente diferente da matéria. Enquanto a grandeza dos corpos materiais são definidos pela extensão (comprimento, largura e profundidade), a grandeza da alma é dada pela potência. Enquanto o homem cresce, sua alma também cresce, mas pela aquisição da sabedoria, que nada mais é que uma recordação pois Deus a criou com o conhecimento da verdade. Aqui Agostinho retoma uma das idéias de Platão sobre o conhecimento.

A alma deve ser orientada pela razão, pela busca da verdade. Critica os que tentam aprender pela força da autoridade pois não exige esforço e terminam por ficar presas a opiniões inverídicas; depois torna-se difícil a libertação delas. A alma é uma substância dotada de razão que governa o corpo e por isso é melhor que o corpo. Utiliza-se das sensações para perceber o mundo mas engana-se menos que os sentidos.

Agostinho apresenta os sete graus da alma:

  1. Animação - dar vida ao corpo, garantir sua existência; característica comum aos vegetais.
  2. Sensação - fruto dos sentidos, provoca movimentos; característica comum aos animais.
  3. Arte - oriundo da memória e da capacidade de aprender, capacidade do homem de realizar coisas; é próprio do homem mas não separa o bom do mau.
  4. Virtude - aqui o homem começa a se separar do mau através da busca pela purificação. Ainda teme a morte pois falta-lhe confiança em Deus.
  5. Tranquilidade - o homem está purificado e não apresenta mais temor, entende o quanto é grande. Busca agora a contemplação de Deus.
  6. Ingresso - possui o desejo de entender o que é verdadeiro, busca a perfeição. Já consegue enxergar Deus.
  7. Contemplação - possui a completa visão e contemplação da verdade, da suprema causa.

Agostinho mostra ainda que o livre-arbítrio foi concedido por Deus para que o homem percorra este caminho de purificação da alma; cada alma a seu tempo. A verdadeira religião é a reconciliação com o único Deus, do qual o homem se afastou pelo pecado; um caminho que o homem só pode percorrer pelo merecimento.

Interessante que Agostinho utiliza o número sete para descrever a alma. Desde tempos antigos este número é utilizado para representar a idéia de totalidade, normalmente utilizando o quatro como símbolo do mundo (4 pontos cardiais, 4 estações do ano, etc) e o três (trindade) como representando a transcendência. As quatro primeiras potências da alma podem se realizar apenas pela relação do homem com o mundo, mas as três últimas exigem sua relação com a divindade, a sua penetração nos mistérios.

A Grandeza da Alma é um diálogo que retoma a tradição iniciada por Sócrates e Platão de buscar a verdade através do questionamento e da reflexão, buscando utilizar definições precisas dos conceitos para que a linguagem aproxime-se cada vez mais da verdade e se consiga a iluminação necessária para o engrandecimento do homem, que só se realiza através da filosofia.

terça-feira, setembro 29, 2009

Silêncio no blog, culpa de Bastiat (quem?)

Andei meio ausente do blog por um bom motivo: as leituras. Além de uma coleção de estórias do Padre Brown, o padre-detetive de Chesterton, estou lendo o livro sobre a II Guerra Mundial de John Keegan, um diálogo de Santo Agostinho (A Grandeza da Alma) e um livro de ensaios de Bastiat. Este último está sendo muito importante para refletir sobre muita coisa que está acontecendo na economia mundial.

Até semana passada, nunca tinha escutado falar deste francês que viveu no século XIX. A dica foi dada por João Luiz Mauad em mais um artigo para o Mídia Sem Máscara. A tese central de Bastiat é que na economia, como muitas outras coisas na vida, existem dois tipos de efeitos, muitas vezes conflitantes. Um é o efeito imediato, o que ele chama "o que se vê", outro um efeito que pode ser a longo ou curto prazo, mas que é imperceptível para os olhos da maioria. O grande problema é quando "o que se vê" é benéfico e "o que não se vê" é nocivo para a sociedade. Políticos estão sempre de olho no primeiro tipo; são estes que lhe darão os votos para continuar suas carreiras. Cada vez mais decisões econômicas são tomadas dentro deste quadro.

Não é difícil perceber que os meios de comunicação aproximam cada vez mais o político do eleitor e as cobranças são cada vez mais imediatas. O grande problema é que a população em geral não sabe o que quer, fruto de uma massificação da educação, poluída de elementos marxistas, e não estou falando de Brasil. O que existe hoje é uma educação em que a quantidade superou em muito a qualidade e cada vez menos se é capaz de raciocinar fora dos lugares comuns impostos pela vitória cultural do pensamento esquerdista. É impressionante como doutores de algumas das maiores universidades do mundo, principalmente nas social-democracias, saem com o pensamento cada vez mais divorciados da realidade. O que dizer então do povo? Um povo que é educado por intelectuais traidores como bem observou Julien Benda? Educados por homens-massas como bem definiu Ortega? O resultado é um ciclo vicioso em que impostura tomou conta do mundo.

Um povo que não sabe o que quer passa a pressionar políticos que sabem muito bem o que querem e precisam deste apoio para sobreviver. Cada vez mais as sementes da destruição da própria sociedade são incorporadas nas fábricas de leis, como dizia Bastiat. A substituição da moral religiosa pela moral laica baseada no ordenamento jurídico é um dos maiores equívocos do ocidente, se não for o pior dele. A sociedade jamais deveria relegar aos políticos a definição do que se deve e o que não se deve fazer pois ela própria é incapaz de fazer esta definição e como sabemos, políticos não caem de marte, são oriundos da própria sociedade doente. Por isso já existe lei no Brasil dizendo que a banana deve ser vendida por quilo e não por cacho ou que não se pode utilizar saleiro em restaurante de determinadas cidades. Nem vou falar dos americanos que não só garantem a menores de idade o direito de abortar como também garantem o sigilo em relação aos pais que ficam privados de saber o que está acontecendo com seus filhos; cada vez mais os assistentes sociais se tornam os "pais" do estado burocrático.

A sociedade em geral está presa ao conceito do "que se vê" e não tem a menor idéia de que existam efeitos imperceptíveis nas leis e decisões políticas. Caberia às elites pensantes iluminar o vulgo e mostrar que muitas vezes são necessários sacrifícios para conseguir efeitos benéficos no futuro, como foi o caso do fim da inflação no Brasil. Infelizmente aconteceu o contrário, o vulgo "iluminou" as elites.

O verdadeiro estadista é aquele que consegue comprometer seu povo com medidas corretas, mas com custos imediatos. O populismo, cada vez mais presente na política mundial, agora com um representante na Casa Branca, apostam no contrário, na satisfação das necessidades imediatas ,e muitas vezes inconseqüentes, e jogam para seus sucessores os custos de concertar a lambança.

Bastiat ainda não tinha visto nada!

domingo, setembro 27, 2009

I Wanna Hold Your Hand (1978)


Robert Zemeckis estreou na direção sobre a proteção de Steven Spielberg com I Wanna Hold Your Hand, filme que também dividiu o roteiro. Utilizando um orçamento extremamente modesto, Zemeckis retratou a beatlemania mostrando a interação de jovens de New Jersey no dia da primeira apresentação da banda em solo americano, no show do Ed Sullivan.

Não foi a primeira vez que vi este filme; na verdade pode-se dizer que foi a enésima. Desta vez quis mostrá-lo ao meu filho, que começou recentemente a se interessar pelo rock'n'roll. O meu objetivo vou colocá-lo na perspectiva história da relação de fãs com seus ídolos. Nunca houve e talvez nunca haja algo parecido com a histeria que tomou conta dos americanos com a primeira visita dos Beatles a seu país, justamente o fenômeno que é mostrado com extrema competência por Zemeckis.

Como esquecer de cenas memoráveis como Rosie saltando de um carro em movimento para ligar para uma rádio e tentar obter ingressos para o show, de Pam tendo sua vida transformada ao acidentalmente ficar presa no quarto de John Lennon, de Susan, uma ativista política, tendo um choque de compreensão da realidade e percebendo que a vida não pode ser feita só de seriedade.

Infelizmente o filme foi um fracasso e acabou ficando esquecido nas prateleiras das locadoras de vídeo. No Brasil ainda foi exaustivamente exibido na "seção da tarde", o que leva a um rápido reconhecimento por parte da geração que viveu os anos 80. Para mim ficou sempre como um filme extremamente sensível em retratar a alma de jovens tocados pelo fenômeno da cultura pop e a relação com seus ídolos, com todo o exagero envolvido mas com uma certa inocência que não deixa de ser tocante.

sábado, setembro 26, 2009

Aborto, Suicídio e Pena de Morte - Celso Martins

Celso Martins é médico e espírita; seu livro tem estas duas abordagens pois envolve tanto os conceitos médicos envolvidos nestes temas tão polêmicos nos dias de hoje quanto a visão cristã destas chagas que ainda persistem nos dias de hoje. O livro ainda possui uma parte sobre a eutanásia.

O espiritismo é bem claro sobre todos estes temas.

O aborto é uma violência contra outro ser humano, com o agravante de este estar totalmente desprotegido e ser realizado pela pessoa que tinha a obrigação de protegê-lo. Nada é por acaso e geralmente não se recebe uma alma para cuidar sem uma combinação prévia; o que acontece, na grande maioria das vezes, é a fuga da responsabilidade assumida pelos pais da criança. Esta responsabilidade será cobrada de todos os envolvidos, pais, médicos, incentivadores, dependendo de seu grau de compreensão, do crime cometido contra as leis de Deus.

Igualmente o suicídio é outro crime contra a vida que lhe foi confiada. A doutrina espírita explica que a vida não cessa após a morte, continua em outro plano. Longe de fugir de suas angústias, o suicídio acrescenta outras ainda maiores e muito mais graves. Evocando a obra "Céu e Inferno" de Alan Kardec, Martins mostra toda implicação moral envolvida no ato do suicídio. Martins defende a importância da religião, qualquer que seja ela, para combater este mal que assola a humanidade desde sempre.

A pena de morte é afastada tanto como solução para o problema da violência tanto como fator de dissuasão quanto como forma de proteger a sociedade. Em última instância, a prisão perpétua seria suficiente para afastar o criminoso irrecuperável da sociedade. Lembra que a punição deve sempre buscar a recuperação do indivíduo e a importância da educação, entendida em seu conceito mais amplo, envolvendo moral e religiosidade, para combater a criminalidade.

Por fim, a eutanásia. Martins lembra que mesmo nos casos crônicos, a sobrevida do paciente pode ser fundamental para o resgate de muitas faltas. Sem contar que trata-se também de uma prova para os parentes que recebem a oportunidade de se doar para um ente querido.

Estes quatro temas são apresentados por Celso Martins e muitos casos que deparou-se em sua vida profissional e pessoal são apresentados como exemplos das explicações trazidas pelos espíritos nas mais diversas obras psicografadas. São temas polêmicos e que não podem ser tratados de maneira leviana, sem respeito e busca do aprofundamento. A vida na terra é um presente que Deus nos dá para nosso apefeiçoamento, não cabe a ninguém abreviá-la indevidamente.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Um verdadeiro discurso

As palavras do primeiro ministro israelense, Benjamim Netayanu, servem também para o Brasil que já visitou e prestou apoio a todos os governos hostis a Israel e jamais se interessou em visitar a única democracia da região. A Celso Amorim, Sargento Garcia e Lula fica o questionamento: vocês não têm vergonha?


quarta-feira, setembro 23, 2009

A palavra de Roberto Micheletti

A imprensa brasileira preferiu ignorar que o presidente constitucional de Honduras, Roberto Micheletti, escreveu um comunicado ontem sobre o retorno de Zelaya. Mais uma mostra da estupidez que toma conta das nossas redações e porque o Brasil continua patinando no submundo1.

Leiam as palavras de Micheletti e tentem mostrar onde ele está errado. Não conseguirão, não sem ignorar a realidade.




1: Segundo Alberto Carlos Almeida em seu livro "Cabeça de Brasileiro" o problema do Brasil são as classes mais pobres e sem escolaridade pois as pesquisas do PNAD mostram que a elite brasileira teria melhor compreensão dos valores democráticos e de moralidade. Esquece Almeida que qualquer sociedade tem esta característica, os mais escolarizados sempre terão mais condições de diferenciar o certo ou errado do que o vulgo; o problema é que a elite brasileira falha em seu papel que deveria ser principal, mostrar o caminho correto para o restante dos brasileiros. O problema do país começa justamente pela corrupção de seus intelectuais.

terça-feira, setembro 22, 2009

Mais uma vergonha histórica para a diplomacia brasileira

Quando as brumas da impostura se dissiparem na cabeça das elites pensantes brasileiras o choque será brutal. A experiência de deparar-se com a realidade, também chamada de conhecimento, pode ser angustiante para quem lutou contra ela por tanto tempo, mas é necessária. Alguns, como Niemeyer, Saramago, Luis Fernando Veríssimo e Oliver Stone, são capazes de passar a vida inteira em uma estupidez do tipo radical, incensíveis ao mundo como ele é; mas a maioria percebe cedo ou tarde, com um certo horror, o tamanho do engano que se permitiu. Este dia chegará para muitos que hoje aplaudem o enorme equívoco que é o atual governo brasileiro.

Uma das faces nefastas da herança de atraso que comprometerá o futuro do país é a política externa de Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia, o rei do tártaro. Ontem eles se superaram mais uma vez ao interferir na autonomia de um país amigo, desrespeitando a auto-determinação dos povos, coisa explícita em nossa constituição. Tivesse o Brasil uma oposição de verdade estaria denunciando o governo por crime de responsabilidade, teria uma imprensa bradando a obviedade do inacreditável ato de agressão brasileira para Honduras. Como não temos nada disso pois somos um país de uma elite marcada pela mediocridade e falta de cultura, os gritos contra o absurdo patrocinado pelo Itamaraty parte de vozes isoladas e ditas reacionárias.

Podem dourar a pírula como quiserem, mas a realidade que não pode ser negada por quem tem um mínimo de honestidade intelectual é que o Zelaya foi removido do poder pelos poderes constituídos de seu país de acordo com sua Constituição. Gente como Noblat defende que a ação brasileira se justifica porque o candidato a ditador não sofreu processo legal. O blogueiro finge não ver que a constituição de Honduras prevê primeiro a remoção da presidência do traidor e depois o processo legal. A única ilegalidade foi a entrega do socialista na Costa Rica quando deveria estar respondendo pelos seus crimes contra a carta de seu país. Noblat pode ficar bravo que não exista lá a previsão de um processo como o que foi submetido Fernando Collor, mas é a constituição hondurenha e deve-se ser respeitada pelo princípio da auto-determinação dos povos. Honduras assim o quis.

Lula não é o único responsável pelo que poderá acontecer em Honduras com o retorno de Zelaya. A OEA mostra mais uma vez como os organismos supra-nacionais são incapazes de defender os princípios democráticos quando possuem entre seus membros uma grande quantidade, por vezes a maioria, de nações que não concordam com estes princípios. O convite para ingresso de Cuba é uma amostra da distorção que o Organismo possui sobre democracia e seus valores. Platão já tinha percebido o princípio antropológico ainda na Grécia antiga. Uma sociedade nunca terá valores melhores que os indivíduos que a compõem, caso da OEA e da própria ONU. Uma agrupamento de países que não respeitam a democracia só pode gerar um organismo que também não a respeitará.

No entanto, a OEA não teria se posicionado com tanta contundência em favor de um candidato a ditador e o Brasil não teria ousado tamanha interferência, se não tivesse ficado claro para todos a fraqueza de Barack Obama. O presidente americano deixou-se levar por fatores ideológicos ao se apressar em classificar a remoção de Zelaya do poder como golpe de estado. Sua vontade de aparecer para o mundo como o pacificador, o homem capaz de superar as diferenças através do diálogo, só tornará o mundo ainda mais inseguro. Obama está abrindo uma verdadeira caixa de Pandora que exigirá um grande esforço para fechá-la.

A situação hoje é que o Brasil levou para dentro de Honduras um homem que tenta um golpe de estado no país. Só não aconteceu um banho de sangue porque a grande maioria dos hondurenhos não o querem lá, falta massa para fazer uma revolução. Este é o lado patético de Celso Amorim e seu governo; se já é ruim contribuir para instalação de uma ditadura, pior ainda é tentar fazê-lo sem o menor apoio popular. Que o povo livre de Honduras deem mais um exemplo de vergonha na cara para a América Latina e mostrem que não aceitam um usurpador no poder, mesmo que tenha sido eleito por eles próprios. A democracia exige limites para o poder, tanto para os governantes quanto para os governados. É a afirmação destes limites que desconcertam os idiotas latino-americanos e o próprio Obama.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Princípios da Natureza e da Graça Fundados na Razão - Leibniz

Princípios é um texto curto mas extremamente rico, onde Leibniz expõe mais uma vez seu conceito de nômadas, mas principalmente mostra a relação de multiplicidade existente na natureza. O mundo físico relaciona-se desta forma com o mundo metafísico, tudo sob a ótica da perfeição divina.

Para Leibniz a substância é um ser capaz de ação e pode ser simples ou compostas. No primeiro caso, temos a substância indivisível, a mônada, aquela que é uno e não possui partes; trata-se das vidas, almas, espíritos. No segundo temos uma reunião de mônadas, a multiplicidade. A natureza seria assim cheia de vida antecipando muito do que a biologia descobriria mais tarde com as células.

As mônadas são as substâncias indivisíveis, que não podem ter partes. Não podem ser fomadas e nem criadas, durando tanto quando o universo. Não podem ter forma, pois neste caso teria necessariamente partes. Possui ações internas de dois tipos:
  • percepções: percepção da substância composta ou externa na simples; e
  • apetições: passagem ou tendências de uma percepção para outra.
Em um corpo orgânico teríamos uma mônada central circundada por infinitas nômadas que custituiriam seu corpo próprio. Cada mônada é o espelho vivo do universo e a conseqüência é que na natureza tudo é pleno, tudo é cheio de vida.

Leibniz discordava nos mecanicistas de que as causas eficientes seriam capazes de explicar sozinhas os movimentos. Para ele, era preciso levar em conta também as causas finais e este seria próprio da alma. A harmonia entre o corpo e a alma seria o equilíbrio entre estas causas, um princípio ativo relacionado a um princípio passivo. O sentimento é a percepção acompanhada de uma memória; os seres capazes desta memória são os animais e possuem uma alma. Quando esta alma é iluminada pela razão e possui também consciência de seu estado interior, temos o espírito a alimentar um ser humano.

Passando para o plano metafísico, o filósofo defende o princípio da razão suficiente. A razão pode explicar porque uma coisa é de uma forma e não de outra, porque é assim e não de outro modo. Na natureza nada seria feito sem a razão suficiente, tudo teria uma razão para acontecer. O homem possui limitações para compreender a razão para tudo pois como parte do universo não poderia nunca explicá-lo totalmente pois a razão suficiente não poderia estar no próprio ser e esta para Leibniz era a maior prova da existência de Deus, um ser perfeito em potência, conhecimento e vontade; um ser que se manifesta de maneira onisciente, onipotente e de absoluta bondade.

O universo não poderia ser perfeito porque o tornaria Deus. Seria o melhor possível, concebido pelo criador para abrigar a maior variedade possível e a maior ordem possível. Para tanto, a suprema sabedoria teria criado as leis do movimento, a lei da natureza. Leis que teriam sempre uma imperfeição para que se diferenciassem do criador.

O mundo seria composto então de infinitas nômadas, de variáveis graus de perfeição mas ligadas da melhor maneira possível. Cada nômada teria em si a imagem do infinito, do universo, mas de maneira confusa, sem conseguir distinguir as coisas de forma a ter um conhecimento perfeito da realidade. Apenas Deus seria capaz de fazer a distinção de tudo. O espírito teria além do espelho do universo, o espelho da própria divindade.

Leibniz mostrava que a razão possuía limites, não poderia prever o futuro, papel exercido pela revelação. O amor de Deus anteciparia ao homem o gosto pela felicidade futura, uma felicidade perfeita mas que estaria acima de sua compreensão.

Princípios da Natureza e da Graça Fundados na Razão mostra a conclusão de anos de filosofia séria praticada por Leibniz. Por trás de cada conceito existem profundas investigações filosóficas mostrando que antes de tudo o verdadeiro pensador tem que ter compromisso com a realidade a sua volta, coisa que buscou até o fim de sua vida.

Reflexões sobre a carta

A modernidade praticamente acabou com um dos principais instrumentos de comunicação do homem em todos os tempos, a carta. Tão importante que muitas teses filosóficas e científicas foram escritas desta forma, na troca de correspondência entre pensadores. Verdadeiras auto-biografias de homens como Newton, Tostói, Marx, Voltare, Leibniz, sem falar das cartas de São Paulo, ficaram registradas para sempre através de suas correspondências. Com o advento da internet, a carta foi relegada ao ostracismo.

Vejam bem, dificilmente coloco a culpa de alguma coisa na internet precisamente porque a rede não é nada mais do que um poderoso instrumento colocado nas mãos dos homens e como instrumento não pratica juízo de valor. Quem decide o uso que fará dela, bom ou ruim, é o homem, este ser imperfeito, capaz de obras maravilhosas e ao mesmo tempo dos maiores horrores. Como instrumento, a internet é capaz de propagar o bem e o mal na humanidade, depende do uso que se faz dela.

Teoricamente a carta foi substituída pelo e-mail, com vantagens. Não se precisa mais esperar dias ou semanas por uma resposta, agora é tudo praticamente instantâneo. Na prática, esta substituição nunca ocorreu. O homem moderno nunca dispensou o mesmo tempo ao e-mail que dispensava à carta. Até porque o surgimento de outros instrumentos como o chat, as redes sociais e o barateamento da ligação telefônica tornaram muito mais fácil a interação entre pessoas distantes. Por que então perder um tempo cada vez mais precioso para escrever em uma folha de papel?

O problema, a meu ver, é que a carta era um indispensável exercício de reflexão, uma terapia. Sentar em uma mesa, colocar uma música, por vezes acender uma vela e colocar a cabeça para pensar com a finalidade de escrever uma boa carta era uma experiência que o indivíduo tinha consigo mesmo, uma abertura para seu próprio espírito. Ao escrever uma carta, o homem revelava uma parte de seu ser não só para o correspondente, mas para si mesmo, o que constituía o próprio ato de filosofar, o "conhecer a si mesmo" socrático.

A própria forma de ver o mundo era diferente. Ao deparar-se com uma cena interessante, a pessoa já tentava extrair o máximo de detalhes e reflexões para colocar em sua próxima carta para o amigo confidente ou ao amor ausente. Hoje, bate-se a foto com o celular, coloca logo em uma rede social e adiciona-se, quando muito, um comentário. Pode ser um "k k k" ou "rs rs rs" ou algo mais elaborado "legal, né?". Será que não estamos perdendo alguma coisa importante em tudo isso?

A carta, ou seu fim, talvez seja apenas mais uma exemplo de como o uso da tecnologia sem reflexão pode empobrecer o homem e a longo prazo causar mal a si mesmo. Estaremos em um mundo onde a quantidade está cada vez mais superando a qualidade? Sim, através do e-mail posso me comunicar com muito mais pessoas em menos tempo, mas qual a qualidade desta comunicação? Qual a qualidade da amizade? Recebo diariamente muitos e-mails de amigos, a grande maioria, seguramente mais de 90%, são de piadas, correntes, vídeos engraçados e coisas do gênero. Fico feliz quando o amigo ao menos se dá o trabalho de comentar o que enviou, pelo menos fico sabendo de algo seu; na maioria das vezes é só um repasse quase automático de algo que recebeu.

Não sei se chegaremos no dia que o papel e a caneta serão totalmente dispensados e figurarão como relíquias em um museu, pode ser, mas me pergunto se o abandona das cartas em favor de meios de comunicação onde prevalece a rapidez não se acompanha de um empobrecimento da linguagem, o que leva inevitavelmente ao empobrecimento do pensamento.

Um alento foi o surgimento do blog, uma forma de comunicação que permite uma abertura maior para nossos pensamentos. Para quem se dedica a um, pode ser um excelente exercício para se conhecer um pouco mais e usar a linguagem para compreender a realidade. Infelizmente a grande maioria que começa um blog desiste depois de um mês, poucos passam de um ano. Descobrem que exige muito mais tempo do que, por exemplo, o orkut. Além do fato de estar escrevendo para qualquer um, o que inibem, e com razão, algumas linhas de pensamento e reflexões.

Este post que escrevi é praticamente uma carta que poderia estar mandando para um amigo, o que mostra que o blog pode, em determinadas ocasiões, substitui-la, mas nem sempre. Acho que depois de tudo que escrevi, tenho a obrigação de largar um pouco o computador e escrever uma carta! E você, não quer tentar?

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Now playing: The Stooges - 1970
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quinta-feira, setembro 17, 2009

Leibniz - G. Macdonald Ross (Coleção Mestres do Pensar)


Gottfried Wilheim von Leibniz nasceu em Leipzing em 1646 e de modo algum pode-se dizer que ficou restrito aos limites da filosofia alemã de sua época. Ao contrário, viveu na França, Holanda, Inglaterra e esta mudança constante contribuiu para que perseguisse de fato um filosofar universal e rejeitasse qualquer noção de nacionalismo ou patriotismo. Na verdade, esta noção não fazia muito sentido para um homem que considerava conceitos como "povo alemão", "sociedade", "cientistas", "rebanho", algo sem existência real; o que existia era o indivíduo, o homem concreto.

Leibniz foi filósofo, cientista, matemático, inventor, empresário, político e teólogo; tudo com incrível competência. Esboçou um plano detalhado para que os franceses conquistassem o Egito que foi seguido por Napoleão quase um século depois; foi o artífice da coroação da família real de Hannover na Inglaterra (seu argumento que não falavam inglês e, portanto, não interfeririam no parlamento foi impagável); idealizou o submarino; criou o cálculo diferencial e o sistema binário. Leibniz foi um homem ativo no sentido de tentar compreender o mundo e retratá-lo e para tanto apoiou-se profundamente em tudo que veio antes dele. Ao contrário dos seus contemporâneos, não rejeitou a escolástica e os antigos, para ele todas as escolas filosóficas traziam verdades que deveriam ser consideradas, o problema era o que negavam.

Fiel aos conceitos dialéticos do platonismo, Leibniz acreditava que em uma discussão, na maioria das vezes, ambos os lados possuíam argumentos legítimos e erravam ao tentar desqualificar o lado contrário; o caminho era separar a verdade de ambos os lados e construir idéias melhores. Um exemplo foi crença de toda a vida que o catolicismo e o protestantismo deveriam ser unificados novamente como uma única Igreja baseado nas verdades que ambos afirmavam.

Macdonald Ross fez um relato claro não só da vida do filósofo, mas principalmente de suas principais idéias, agrupando-as em matemática, ciência, metafísica, lógica e teologia. Mostrou a luta de Leibniz para conciliar os cartesianistas com os atomistas, modernos com ecolásticos, mecanicistas com vitalistas, liberdade com determinismo. Pode-se dizer que Leibniz dedicou sua vida à compreensão mútua, combatendo os dogmatismos intelectuais, mostrando que sua obra é mais atual do que nunca.


quarta-feira, setembro 16, 2009

Rory Gallagher (1971)

Rory Gallagher apareceu para o mundo do rock com sua banda Taste no fim dos anos 60. Conseguiu ser uma das atrações do já legendário festival Isle of Wight na Inglaterra, menos famoso mas muito melhor que o Woodstock, que ocorreu um ano antes. Com o fim da banda no início dos 70, Gallagher, guitarrista e vocalista, lançou seu primeiro album solo em 1971, recebendo seu próprio nome.

E que disco de estréia! Aos 23 anos, já demonstrava domínio completo de sua técnica e talento de sobra para compor. Ao contrário de muitos egocentricos, fez questão de montar uma banda afiada e dar espaço para seus companheiros também brilharem, resultando em um grupo coeso e extremamente talentoso.

Em seu primeiro album, não só mostrou diversidade com composições de puro rock (Laudromat), baladas (I Fall Apart), folk (Just The Smile), blues (Wave Myself Goodbye), como também o fez com extremo talento mostrando que uma coisa é arranhar um estilo, outra bem diferente é dominá-lo. Gallagher mostra que para fazer arte é preciso antes compreedê-la para então inovar com seu estilo próprio; mais do que um guitarrista talentoso, era um verdadeiro artista.

Fall Apart é um exemplo perfeito de seu talento. Uma balada extremamente melódica, com uma excepcional trabalho de guitarra que termina em um crescendo constante até a explosão final que deixa o ouvinte admirado. Coisa de gente que sabe.

Rory Gallagher é um album rico e uma amostra inegável que um novo guitarrista tinha chegado para ficar. Que nunca tenha alcançado o reconhecimento que merece é um destes mistérios que só o rock'n'roll consegue, ou não, explicar. O jovem irlandês foi uma prova que para fazer um bom rock não basta só talento, mas também paixão. Isso ele tinha de sobra.

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Now playing: Ten Years After - 50,000 Miles Beneath My Brain
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domingo, setembro 13, 2009

Sermão da Sexagésima - Padre Vieira

Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus?


Este é o questionamento que o padre Antônio Vieira tentou responder neste sermão de 1655. Seu fundamento bíblico é a parábola do semeador, encontrada em Matheus capítulo XII, v 3. Na parábola, ao semear, os grãos de trigo tiveram quatro destinos e todas brotaram:
  1. as que caíram "ao pé do caminho", os homens pisaram e as aves levaram;
  2. as que caíram nos espinhos foram sufocadas;
  3. as que caíram nas pedras, secaram; e
  4. as que caíram na terra boa deram frutos.
O trigo é a palavra de Deus e o semeador é o pregador. Os locais onde caíram as sementes, a palavra de Deus, são os corações dos homens. Os espinhos são os corações emabaraçados com as riquezas e delícias da vida; a palavra de Deus se "sufoca" com a ilusões que ele carrega consigo. As pedras são os corações embrutecidos; seca pela falta de amor. O caminho é o coração atormentado e inquieto; a palavra de Deus é pisada porque não se tem a devida atenção à ela. Por fim, os corações puros são onde a palavra de Deus chega a frutificar.

Para analisar o problema colocado, o padre Vieira levanta três possibilidades. O problema estaria no pregador, no ouvinte ou em Deus.

De partida, Vieira afasta a hipótese de Deus por proposição de fé: Deus não falta, nem poderia faltar. A própria parábola mostra que nenhum efeito externo, chuva ou seca, fizeram as sementes lograr: "... deixar de frutificar a palavra de Deus, nunca é por falta do Céu, sempre é por culpa nossa".

Em seguida, afasta o ouvinte. Em todos os casos, as sementes brotaram mostrando que a força de Deus é tão poderosa que sempre terá um efeito no coração do homem, por mais bruto que seja.

Portanto, Veira coloca a culpa nos pregadores. E que culpa seria essa? Seria a própria pessoa do pregador? A matéria? O estilo? A voz? A ciência? Para ele, a grande questão seria o afastamento da palavra de Deus. O pregador estaria pregando palavras fora do seu significado verdadeiramente cristão, estaria pregando palavras de Deus e não a palavra de Deus. Lembra que as palavras fora de seu significado sempre foi uma arma do diabo, foi uma das maneiras de tentar Cristo no deserto.

Se os pregadores semeiam vento, se o que pregam é a vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr tormenta em vez de colher fruto? (...) De sorte que Cristo defendeu-se do diabo com a Escritura, e o diabo tentou a Cristo com a Escritura (...) Cristo toma as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido; e as mesmas palavras, que tomadas em verdadeiro sentido são palavras de Deus, tomadas no sentido alheio, são armas do diabo.


Para Vieira, os pregadores passaram a se preocupar com o que o ouvinte gostaria de ouvir, alimentando a própria vaidade. A verdadeira pregação cristã chama-o à responsabilidade, mostra seus pecados, mostra sua imperfeição. Esta é a que frutifica, esta é a verdadeira palavra de Deus.

Preguemos e armemo-nos conra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades.


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Now playing: Crosby, Stills, Nash & Young - Our House
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sexta-feira, setembro 11, 2009

O Príncipe - Maquiavel

O italiano Niccolo Maquiavel escreveu O Príncipe no início do século XVI e sem dúvida é um dos livros de maior impacto na teoria política em todos os tempos, lido a exaustão até os dias de hoje, não só por políticos como líderes nas mais diversas áreas. Por que? O que existe em um livro relativamente conciso, escrito há 5 séculos, a inspirar homens em pleno processo de modernização? O que há de especial em O Príncipe?

Para começo de conversa, o livro é um livro extremamente prático. Apesar de voltado para os príncipes e principados, para o regime do tipo monárquico absoluto, possui conselhos e orientações que podem ser adaptados ou mesmo aproveitados na íntegra por qualquer líder de grupo humano. Suas premissas são simples e voltadas para a aplicação, um guia para o poder absoluto.

Aí começa o facínio pela obra. Ela é talvez o primeiro roteiro do que um homem deve fazer para conseguir, e principalmente manter, o poder. Pouco importa se o regime é republicano, se é democrático, ontem e hoje homens sonham com e orientam sua vida em torno deste objetivo. É impossível não ver na recomendação de Maquiavel de eliminar a linhagem real ao se assumir um principado novo a exterminação da família do Czar russo por Lênin ou no conselho de contentar ao mesmo tempo o povo e os poderosos a receita para a demagogia moderna, o populismo.

Acima de tudo, e isso interessa ainda mais, Maquiavel coloca a política além do julgamento moral. O príncipe não está submetido aos mesmos princípios de conduta de seus súditos, está literalmente acima do bem e do mal. Para a manutenção do poder vale mentir, matar, conspirar, deixar de cumprir sua palavra. Vez por outra, meio que para fazer uma mea-culpa envergonhada, o autor ainda faz alguma ressalva de cunho moral mas não tem muito como disfarçar. Matar toda uma linhagem real, inclusive crianças, pode ser prático para se conseguir o poder, mas não quer dizer que seja aceitável moralmente.

Outra questão importante do livro é a defesa do Estado como única forma de se manter a ordem. Talvez tenha sido sua contribuição mais importante, o fortalecimento do estado com um líder a frente como uma necessidade da nação. Do tempo de Maquiavel para cá, o leviatã só fez aumentar seu poder até o nível asfixiante de hoje; pior, sua tendência é aumentar ainda mais.

Por fim, Maquiavel não diz na obra que os fins justificam os meios, até porque não se preocupa com nenhuma justificativa. O mais próximo disso é a indicação que o príncipe não deve medir esforços para manter seu trono, abstendo-se da preocupação moral com seus atos. Não diz que necessariamente deve ser mau, mas que deve abster-se deste tipo de julgamento.

O Príncipe será uma obra atual enquanto durar o pensamento dominante de que o estado deve ser a última palavra na organização social e na condução dos problemas humanos e homens estiverem obcecados em obter o poder absoluto através do controle do governo. Coisa que parece longe de acontecer.

quinta-feira, setembro 10, 2009

Cesare Battisti no STF

Começou ontem o julgamento do pedido de extradição do criminoso italiano Cesare Battisti pelo STF, que foi interrompido quando Marco Aurélio Melo pediu vistas ao processo quando estava 4 x 3 pela extradição e a seção encaminhava-se para um 5 x 4, mandando-o de volta para a Itália. Mais uma decisão dividida, assim como foi no caso Palocci, ocasião que o STF mostrou que a lei não é igual para todos.

Aproveitando a leitura do curso sobre Voegelin, recorro a ele para fazer algumas considerações. Sobre a posição dos 4 ministros que votaram contra o parecer do relator que demoliu, uma a uma, as teses de Tarso Genro, o homem que conseguiu ter seu português corrigido por Lula, a melhor análise, como sempre nos casos da alta corte, fica por conta de Reinaldo Azevedo.

Voegelin tinha muito claro que deveríamos respeitar a experiência do real, o que valia também para a área do direito. Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália pela morte de quatro pessoas quando lutava para instalar uma ditadura comunista em seu país. Ao contrário dos terroristas brasileiros, não pode alegar enfrentar um regime de exceção pois a Itália era, e é, um regime democrático. Os comunistas italianos tinham as urnas para buscar o poder mas diante da falta de votos, recorreram à violência. Tarso Genro ignorou tudo isso e prendeu-se apenas ao fato de Battisti ter lutado pelo comunismo para conceder-lhe o status de refugiado político quando até o comitê nacional de refugiados ter negado o pedido do italiano. Ressalta-se que Battisti foi condenado com todas as proteções de uma democracia, coisa que negou a suas vítimas.

Caso o STF contrarie sua tendência e recuse a extradição estará se afastando da experiência real que Voegelin tratou. Battisti é um criminoso e matou gente inocente. O fato de tê-lo feito por uma causa, ainda mais uma estúpida, não torna seus atos menos monstruosos. Aceitar este argumento, em uma alta corte, equivale a abrir uma caixa de pandora. Qualquer brasileiro, por exemplo, poderia matar o presidente Lula e alegar crime político, ou mesmo uma americano matar o presidente Obama. Já saberiam, pelo menos, para quem correr. Isso no aspecto prático proposto por Kant, o da generalização de uma norma. Na moral cristã não há escapatória possível, o "não matarás" é bem claro. O STF pode negar a extradição, mas não apagará da realidade o que realmente aconteceu.

Voegelin chamou também atenção para a figura de Bakunin ao se tratar de terrorismo político. O russo, idealizador do anarquismo, diferenciava-se de Marx (eram contemporâneos) por não acreditar em uma marcha científica da história, o que o animava era a paixão revolucionária. Diante da desigualdade social, era preciso combater as classes dominantes, mesmo com uso da violência.

Bakunin foi preso. Para escapar da morte, aceitou pedir clemência ao Czar. Em sua carta que ficou conhecida como Confissões, reconhece e pede perdão pelos seus atos. No entanto, isto é muito importante, afirma que a culpa não é particularmente dele, a sociedade que lhe fizera assim. O terrorismo era um caminho que o indivíduo era forçado a seguir pela injustiça do mundo em que vivia. Este pensamento é fundamental para entender o terrorismo político, arma que foi adotada por muitos comunistas e anarquistas; posteriormente por muçulmanos.

Muitos intelectuais aceitam que a violência seja uma arma aceitável na luta política. Estão tão divorciados da realidade quanto os ministros do STF que aceitam que um terrorista como Battisti possa ser solto como se não tivesse responsabilidade nenhuma pelo que fez. O fato de existir quem defenda os atos do italiano mostra a irresponsabilidade e a estupidez daqueles que deveriam mostrar alguma luz ao mundo ao invés de tentar enxergar o mundo por suas vistas míopes.

quarta-feira, setembro 09, 2009

Para meditar

João Pereira Coutinho falando sobre um debate eleitoral na televisão:

SEMPRE que os debates terminam, ouve-se pergunta costumeira: quem ganhou? A pergunta é absurda: na política portuguesa, a única questão genuína é saber quem não perdeu. Cada partido tem o seu nicho a preservar e, tirando algumas bicadas nos adversários mais próximos, a ideia é não espantar a manada. Os debates eleitorais, iniciados esta semana, cumprirão à risca este estafado guião: PC e Bloco precisam de conservar as suas esquerdas e, quando muito, roubar as sobras ao adversário; o PS precisa de conservar a sua esquerda ‘moderada’, mas também o centrão indeciso e amorfo que o elegeu; o PSD precisa do centrão, mas não pode esquecer a direita; e o CDS não pode ser esquecido por ela. No debate político português, não se ataca. Defende-se. E, para qualquer dos jogadores em campo, qualquer empate será sempre uma meia-vitória.


A pergunta que fica é: vale também para o Brasil?

Onde estavam os valentes?

Lauro Jardim sacou bem. Onde estavam os valentes do PSOL e do PT quando o caso de Francenildo, um caseiro, estava sendo julgado no STF?

Aparecem agora para defender um assassino que lutava contra um regime democrático para instalar uma ditadura comunista na Itália?

Falta só a UNE para fechar a impostura.

Filosofia Política em Eric Voegelin - Mendo Castro Henriques


Dos Megalitos à Era Espacial

Eric Voegelin nasceu na Alemanha, no início do século passado. Iniciou sua carreira acadêmica em Viena e fugiu na década de 30 para os Estados Unidos, escapando por pouco do nazismo. Foi uma das primeiras vozes a se levantar desde o início contra Hitler, mostrando que era sim possível saber onde o nacional-socialismo iria parar.

Mendo Castro Henriques, intelectual português, é talvez a maior autoridade hoje na obra do velho mestre alemão, falecido em 1985. Em 2008, Mendo esteve no Brasil para o lançamento de duas obras de Voegelin, "Hitler e os Alemães" e "Reflexões Autobiográficas", ocasião que ministrou um curso sobre a filosofia política deste autor. A É Realizaões editou o curso em um livro que foi vendido junto com três dvds contendo as palestras de Mendo.

O resultado é um primor. Voegelin é um pensador que conquista pela sua absoluta honestidade intelectual. O centro de sua obra é o respeito à realidade existencial, o que obriga qualquer autor, inclusive ele, a estar permanetemente revendo suas idéias para que não a afronte. Voegelin foi um anti-ideólogo na essência, não aceitava que o mundo fosse obrigado a concordar com os livros, para ele era justamente o contrário, os livros, ou seja, o pensamento, deveria estar de acordo com a realidade. Conhecer era a abertura do espírito para a experiência do ser.

Em se tratando de filosofia política, Voegelin rejeitava com vigor a idéia de "marcha da história", de que a história tinha um caminho a percorrer e o homem era um joguete em suas mãos. Resgatando os princípios da filosofia de Atenas, o homem existe em sociedade e constrói uma história e não o contrário. Se é verdade que a sociedade e a história influenciam o homem, esta influência não é decisiva. O homem carrega dentro de si a capacidade para buscar seus próprios caminhos e ser um sujeito ativo no mundo.

O curso foi tão rico que é impossível resumi-lo em uma resenha. Melhor ir aos poucos apresentando as idéias de Voegelin e deixar ao leitor a oportunidade de perceber a grandeza de um homem admirável e a força de um intelectual de verdade, não esta banalização do termo que existe por aí. Mendo nos deu um presente, mostrou-nos um pouco de luz para iluminar este tempo de impostura e de falsos profetas que vivemos hoje.

terça-feira, setembro 08, 2009

Mais um perdendo a vergonha


À medida que Chávez consolida seu poder como ditador da falsa democracia venezuelana, intelectuais e artistas (algumas vezes acumulam funções) perdem a vergonha e escancaram seu apoio ao "socialismo do século XXI", que nada mais é do que o "socialismo do século XX", mostrando que são na verdade trapaceiros intelectuais da pior espécie e saudosistas dos regimes políticos mais assaninos da história.

Depois de Noam Chomsky, um exemplo perfeito de traidor intelectual de Julien Benda, agora é a vez de Oliver Stone, o que acaba definitivamente com qualquer dúvida que alguns incautos ainda poderiam ter do que anda em seu coraçãozinho vermelho. O grande problema de Stone, para quem ama a liberdade, é que ele possui inegável talento, tornando ainda mais triste seu serviço pela utopia comunista.

Exaltar Chávez, um marxista de quinta categoria, só mostra vulgaridade e perda completa do senso do ridículo. É bom guardar esta imagem no arquivo como argumento suficiente para derrubar qualquer visão da história baseada em filmes deste estúpido1.




1Uso esta palavra no sentido rigoroso do termo, no sentido proposto por gente como Voegelin, Gasset e outros. Estúpido é aquele que recusa-se a olhar para o mundo real e só consegue enxergá-lo dentro dos limites estreitos de sua utopia.

Mais uma idéia genial

Esse governo é mesmo um poço sem fim de idéias geniais. Para incentivar a leitura, propõe agora um imposto... sobre o livro! Isso mesmo, contrariando qualquer lei básica de economia, o governo pretende incentivar a leitura aumentando o preço do livro. Bem a cara do presidente!

Leia Aqui.

segunda-feira, setembro 07, 2009

O menino e o pião


Este quadro do pintor francês Jean Batiste Chardin encontra-se no Museu de Artes de São Paulo e foi pintado em 1735. Mostra um menino que coloca seus estudos de lado para observar o movimento imprevisível de um pião. Um lembrete que não devemos nunca perder a visão da realidade, que tudo que encontramos nos livros deve estar de acordo com o real e não o contrário como adverte Mendo Castro Henriques no curso que estou assistindo sobre Filosofia Política em Eric Voegelin. Aliás, foi o próprio palestrante que falou desta tela.

Voegelin defendia que a consciência só se desenvolve pela abertura à realidade. O homem que recusa-se a ver o mundo real é um homem doente e se estiver investido de poder, será um doente muito perigoso como mostrou Adolf Hitler e até hoje mostra Fidel Castro. Eles nunca pararam para observar o pião.

domingo, setembro 06, 2009

Coletivo

Vivemos a época do coletivo. Quem não entendeu isso, não entendeu ainda os séculos XX e XXI. Ao apontar os maiores problemas da humanidade, surgem expressões como o consumismo, a agressão ao meio ambiente, o comunismo, o socialismo, a violência, o terrorismo, a ideologia. Não se enxerga mais que debaixo de tudo existe o homem e suas escolhas. Um homem individual, de carne e osso, que não consegue vencer seus próprios vícios, até porque a luta foi colocada longe dele. Querem melhorar a sociedade mas sem passar pelo homem.

Uma das característica do pensamento socialista de nosso tempo é que a revolução vai do social para o individual. Obriga-se a sociedade a agir de certa forma através de leis e o indivíduo será uma conseqüência; tudo em seu nome, claro. Para proteger o negro adotam-se políticas que por fim acabam por discriminá-lo ao tratá-lo como incapaz. Para proteger a sociedade da corrupção dos políticos, aceita-se que o estado avance ainda mais, deixando mais coisas nas mãos dos políticos. Para defender a suposta liberdade de escolha de uma mulher aceita-se o assassinato de seu filho ainda em seu ventre, sem qualquer possibilidade de defesa. A solução é sempre uma lei, uma medida do executivo. Falar em reforma moral é atrasado e conservador. Todos são muito otimistas em relação ao homem e suas possibilidades mas ao mesmo tempo não se pode deixar que façam suas escolhas. É preciso domesticá-lo.

Pecado? Não existe este tipo de coisa. Vejam os sete capitais. Luxúria deixou de ser pecado para ser um direito como nome de "liberação sexual". Vaidade passou a ser uma exigência do mundo de hoje com o nome de "amor próprio" como ensina qualquer um dos milhares de livros de auto-ajuda espalhados por aí. Gula então, nem se fala, pecado? Mas como? Acídia foi banido pela própria Igreja e substituído por preguiça, afinal o ativismo é uma virtude, ninguém pode ficar parado! Não existe mais a figura do bandido, o homem que fez a escolha errada entre o bem e o mal, agora ele se tornou uma vítima da sociedade em que vive de deve ser recuperado e reintegrado. Toda reflexão moral deixou a esfera do indivíduo e passou ao grupo social. Afinal, a verdade é relativa e portanto não existe o certo e o errado, tudo depende do ponto de vista.

Interessante que as mesmas pessoas que pensam assim se consideram as donas da verdade quando se trata do comportamento social. O homem não deve se preocupar essecivamente com esse negócio religioso, a moral, mas deve respeitar o meio ambiente, ter conciência social, acabar com o capital especulativo internacional, lutar contra a globalização. Lutar contra sua avareza? Sua vaidade? Sua Luxúria? Tudo isso são causas menores, o homem deve precoupar-se com o macro.

Não adiantar argumentar que se o homem melhorar intimamente automaticamente estará fazendo um mundo melhor. Consideram esta uma revolução impossível ou muito demorada. Não é possível que um homem racista deixe de sê-lo por sua própria evolução, é preciso obrigá-lo a deixar de sê-lo pois deeve-se encaixar o homem real, imperfeito, no modelo de novo homem, custe o que custar. Qualquer violação de seu livre arbítreo é tolerado se o resultado for este novo modelo aperfeiçoado, um modelo adequado a nossa época iluminada pela ciência e pelas boas intenções daqueles que pensam o mundo.

Os bem intensionados pensadores de nossa época defendem que os detentores do poder moldem o mundo de acordo com suas idéias libertadores. Não percebem a vaidade que existe em sua própria proposta, a de ter a imagem do mundo ideal, de estarem completamente errados em suas concepções. Posso estar errado também, claro! Mas não quero impor minha visão para ninguém, quero apenas que me deixem em paz para cuidar da minha alma, que já me dá trabalho demais. Isso não quer dizer me isolar do mundo pois já me ensinaram que para cuidar da minha alma devo amar ao próximo. A diferença é que tenho a convicção que sou incapaz de salvar a sua alma, embora possa ajudá-lo, nos limites de seu livre-arbítreo. Mais ainda, que não sei a respostas de suas angustias.

terça-feira, setembro 01, 2009

Introdução à Economia - Gregory Mankiw

Principles of Economy(2006)

Gregory Mankiw é professor universitário de Harvard e um dos economistas mais influentes dos dias atuais. Introdução à Economia é um livro destinado a cursos de economia em todo mundo e busca apresentar os princípios básicos da área e, principalmente, sua aplicação no mundo moderno.

Mankiw não esconde o jogo e seu primeiro capítulo, onde apresenta os 10 princípios fundamentais da economia, já resumem tudo que virá pela frente. Partindo sempre do consenso existente entre os economistas, o autor não se furta a confrontar o dissenso deixando para o leitor a dúvida sobre qual corrente estaria certa e mostrando que muitas vezes, ambas podem ter razão até certo ponto.

A economia não é uma ciência exata, mas tão pouco um grande chute. Possui base de estudos e sua compreensão é fundamental para entender e atuar com mais clareza nas grandes questões do mundo contemporâneo, mesmo quando a ligação com a economia não é bastante clara como os congestionamentos das grandes cidades ou políticas de combate à criminalidade. O que Mankiw mostra com nitidez é que devemos desconfiar sempre de soluções fáceis, principalmente se parecem mágicas, normalmente são um grande engodo.

Outro ponto importante do livro é a constante ligação da economia com a política pública. Até que ponto pode-se resolver problemas de fundo econômico com soluções políticas? Se é certo que as soluções devem ser implementas a partir da política, elas não realizam apenas por boas intensões. O estudo dos princípios econômicos podem evitar que os problemas se agravem por intervenções indevidas do poder público.

No último capítulo, Mankw discute brevemente cinco debates econômicos bastante atuais e mostra para cada situação os ponto de vistas conflitantes. Novamente, evita tomar um partido e convida o leitor a refletir e buscar se apoiar nos consensos existenes para chegar a uma opinião com um pouco mais de base do que um simples achismo.

Este livro me desmistificou muitas coisas e mostrou que em se tratando de economia, devemos ter muito cuidado ao se engajar em nossas posições. Existe sempre um lado do problema que não estamos enxergando ou dando a devida atenção. Se o conhecimento começa com a dúvida, esta obra é um bom caminho a ser seguido para quem deseja alcançá-lo pois dúvidas não faltarão.

Carlos Alberto Menezes Direito

O STF perdeu uma de suas vozes mais lúcidas. Das decisões que acompanhei nos últimos anos, Direito sempre foi uma voz ponderada e com os olhos voltados para sua missão e não para os holofotes como está se tornando freqüente na Corte. Teve que enfrentar sempre a desconfiança da Imprensa por admitir abertamente um grande pecado: ser católico. Vezes sem conta quiseram exigir dele uma declaração que não deixaria sua fé atrapalhar seu julgamento, coisa que nunca exigiram de nenhum outro juiz, como se o ateísmo não fosse também uma fé e não pudesse afetar a capacidade de julgamento de alguém.

Dificilmente será substituído por alguém à altura.

Que descanse em paz.