quarta-feira, setembro 30, 2009

A Grandeza da Alma - Santo Agostinho

Santo Agostinho foi o filósofo que promoveu a primeira síntese entre a filosofia cristã e a tradição greco-romana. Influenciado inicialmente por Plotino, principal nome do neo-platonismo, procurou ancorar o cristianismo nas teorias pagãs gregas, particularmente em Platão. A Grandeza da Alma foi um de seus primeiros escritos e enquadra-se na categoria de diálogos, seguindo o método investigatório proposto pelos antigos.

Agostinho foi um dos chamados "pais da Igreja" e buscava filosofar sobre a relação do homem com Deus, contribuindo para formar a base teológica para a Igreja Católica, que se organizava nos escombros do Império Romano em agonia.

A Grandeza da Alma provavelmente foi escrito por volta do ano de 388, em Roma. Agostinho utilizou o diálogo entre ele e uma amigo, Evódio, para refletir sobre a alma, particularmente sobre sua grandeza. Evódio apresenta-lhe seis questões: de onde vem a alma? O que é? Qual a sua grandeza? Por que foi dada ao corpo? Como se une ao corpo? Em que se converte quando o deixa? Agostinho responde rapidamente as duas primeiras, concentra-se na terceira a na conclusão deixa as demais sem resposta, convidando o leitor a utilizar as respostas anteriores para buscar as demais.

Agostinho defende que a alma é a presença de Deus no homem, a sua ligação com o criador, a responsável pela semelhança do homem com Deus. Não é formada pelos elementos conhecidos (ar, água, terra e fogo), mas de uma natureza profundamente diferente da matéria. Enquanto a grandeza dos corpos materiais são definidos pela extensão (comprimento, largura e profundidade), a grandeza da alma é dada pela potência. Enquanto o homem cresce, sua alma também cresce, mas pela aquisição da sabedoria, que nada mais é que uma recordação pois Deus a criou com o conhecimento da verdade. Aqui Agostinho retoma uma das idéias de Platão sobre o conhecimento.

A alma deve ser orientada pela razão, pela busca da verdade. Critica os que tentam aprender pela força da autoridade pois não exige esforço e terminam por ficar presas a opiniões inverídicas; depois torna-se difícil a libertação delas. A alma é uma substância dotada de razão que governa o corpo e por isso é melhor que o corpo. Utiliza-se das sensações para perceber o mundo mas engana-se menos que os sentidos.

Agostinho apresenta os sete graus da alma:

  1. Animação - dar vida ao corpo, garantir sua existência; característica comum aos vegetais.
  2. Sensação - fruto dos sentidos, provoca movimentos; característica comum aos animais.
  3. Arte - oriundo da memória e da capacidade de aprender, capacidade do homem de realizar coisas; é próprio do homem mas não separa o bom do mau.
  4. Virtude - aqui o homem começa a se separar do mau através da busca pela purificação. Ainda teme a morte pois falta-lhe confiança em Deus.
  5. Tranquilidade - o homem está purificado e não apresenta mais temor, entende o quanto é grande. Busca agora a contemplação de Deus.
  6. Ingresso - possui o desejo de entender o que é verdadeiro, busca a perfeição. Já consegue enxergar Deus.
  7. Contemplação - possui a completa visão e contemplação da verdade, da suprema causa.

Agostinho mostra ainda que o livre-arbítrio foi concedido por Deus para que o homem percorra este caminho de purificação da alma; cada alma a seu tempo. A verdadeira religião é a reconciliação com o único Deus, do qual o homem se afastou pelo pecado; um caminho que o homem só pode percorrer pelo merecimento.

Interessante que Agostinho utiliza o número sete para descrever a alma. Desde tempos antigos este número é utilizado para representar a idéia de totalidade, normalmente utilizando o quatro como símbolo do mundo (4 pontos cardiais, 4 estações do ano, etc) e o três (trindade) como representando a transcendência. As quatro primeiras potências da alma podem se realizar apenas pela relação do homem com o mundo, mas as três últimas exigem sua relação com a divindade, a sua penetração nos mistérios.

A Grandeza da Alma é um diálogo que retoma a tradição iniciada por Sócrates e Platão de buscar a verdade através do questionamento e da reflexão, buscando utilizar definições precisas dos conceitos para que a linguagem aproxime-se cada vez mais da verdade e se consiga a iluminação necessária para o engrandecimento do homem, que só se realiza através da filosofia.

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