terça-feira, setembro 22, 2009

Mais uma vergonha histórica para a diplomacia brasileira

Quando as brumas da impostura se dissiparem na cabeça das elites pensantes brasileiras o choque será brutal. A experiência de deparar-se com a realidade, também chamada de conhecimento, pode ser angustiante para quem lutou contra ela por tanto tempo, mas é necessária. Alguns, como Niemeyer, Saramago, Luis Fernando Veríssimo e Oliver Stone, são capazes de passar a vida inteira em uma estupidez do tipo radical, incensíveis ao mundo como ele é; mas a maioria percebe cedo ou tarde, com um certo horror, o tamanho do engano que se permitiu. Este dia chegará para muitos que hoje aplaudem o enorme equívoco que é o atual governo brasileiro.

Uma das faces nefastas da herança de atraso que comprometerá o futuro do país é a política externa de Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia, o rei do tártaro. Ontem eles se superaram mais uma vez ao interferir na autonomia de um país amigo, desrespeitando a auto-determinação dos povos, coisa explícita em nossa constituição. Tivesse o Brasil uma oposição de verdade estaria denunciando o governo por crime de responsabilidade, teria uma imprensa bradando a obviedade do inacreditável ato de agressão brasileira para Honduras. Como não temos nada disso pois somos um país de uma elite marcada pela mediocridade e falta de cultura, os gritos contra o absurdo patrocinado pelo Itamaraty parte de vozes isoladas e ditas reacionárias.

Podem dourar a pírula como quiserem, mas a realidade que não pode ser negada por quem tem um mínimo de honestidade intelectual é que o Zelaya foi removido do poder pelos poderes constituídos de seu país de acordo com sua Constituição. Gente como Noblat defende que a ação brasileira se justifica porque o candidato a ditador não sofreu processo legal. O blogueiro finge não ver que a constituição de Honduras prevê primeiro a remoção da presidência do traidor e depois o processo legal. A única ilegalidade foi a entrega do socialista na Costa Rica quando deveria estar respondendo pelos seus crimes contra a carta de seu país. Noblat pode ficar bravo que não exista lá a previsão de um processo como o que foi submetido Fernando Collor, mas é a constituição hondurenha e deve-se ser respeitada pelo princípio da auto-determinação dos povos. Honduras assim o quis.

Lula não é o único responsável pelo que poderá acontecer em Honduras com o retorno de Zelaya. A OEA mostra mais uma vez como os organismos supra-nacionais são incapazes de defender os princípios democráticos quando possuem entre seus membros uma grande quantidade, por vezes a maioria, de nações que não concordam com estes princípios. O convite para ingresso de Cuba é uma amostra da distorção que o Organismo possui sobre democracia e seus valores. Platão já tinha percebido o princípio antropológico ainda na Grécia antiga. Uma sociedade nunca terá valores melhores que os indivíduos que a compõem, caso da OEA e da própria ONU. Uma agrupamento de países que não respeitam a democracia só pode gerar um organismo que também não a respeitará.

No entanto, a OEA não teria se posicionado com tanta contundência em favor de um candidato a ditador e o Brasil não teria ousado tamanha interferência, se não tivesse ficado claro para todos a fraqueza de Barack Obama. O presidente americano deixou-se levar por fatores ideológicos ao se apressar em classificar a remoção de Zelaya do poder como golpe de estado. Sua vontade de aparecer para o mundo como o pacificador, o homem capaz de superar as diferenças através do diálogo, só tornará o mundo ainda mais inseguro. Obama está abrindo uma verdadeira caixa de Pandora que exigirá um grande esforço para fechá-la.

A situação hoje é que o Brasil levou para dentro de Honduras um homem que tenta um golpe de estado no país. Só não aconteceu um banho de sangue porque a grande maioria dos hondurenhos não o querem lá, falta massa para fazer uma revolução. Este é o lado patético de Celso Amorim e seu governo; se já é ruim contribuir para instalação de uma ditadura, pior ainda é tentar fazê-lo sem o menor apoio popular. Que o povo livre de Honduras deem mais um exemplo de vergonha na cara para a América Latina e mostrem que não aceitam um usurpador no poder, mesmo que tenha sido eleito por eles próprios. A democracia exige limites para o poder, tanto para os governantes quanto para os governados. É a afirmação destes limites que desconcertam os idiotas latino-americanos e o próprio Obama.

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