quarta-feira, outubro 28, 2009

Longa Ausência

Existem épocas em que sinto uma necessidade enorme de parar e organizar o pensamento. São tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo que sinto uma necessidade de refletir sobre esta coisa extraordinária que é a natureza humana. Normalmente percebo isso quando tenho sempre uma opinião sobre tudo na ponta da língua; nesta hora um aviso vermelho de alerta acende em meu labirinto mental: alguma coisa está errada.

Não pretendo ter respostas sobre tudo que acontece na humanidade, não anseio em ter opiniões sobre a complexidade de nossa história sobre a Terra e não acredito que alguém tenha esta capacidade, por melhor que seja. Desconfio sempre das pessoas que parecem saber de tudo, uma espécie de enciclopédia ambulante. Taxa de juros, democracia, aborto, educação, pena de morte, dieta alimentar, ecologia, consumismo, exercícios físicos, história, política, drogas, família, etc. Se você tem uma opinião formada sobre cada um destes temas, desconfie. Há alguma coisa de errada sobre você.

Pensar com clareza envolve um lento processo de juntar informações, entender o problema, compreender os argumentos existente e por fim chegar a uma conclusão pessoal. Não se faz isso da noite para o dia, nem temos tempo para isso. Quem tem um pensamento sobre tudo na verdade não tem pensamento sobre nada; apenas repete pensamentos que não são seus. É muito mais fácil escolher algumas referências e decorar a pregação que recebe como um ato de fé. Se você tem menos de 40 anos a coisa é ainda pior; não tem nem a experiência ao seu lado.

Pegue um assunto qualquer, por exemplo a descriminalização das drogas. Como formar um pensamento racional, próprio sobre o assunto? Primeiro temos que ter acesso a uma enormidade de informações tais como custos para a sociedade, motivação para o consumo, motivação para o tráfico, eficiência das diversas políticas públicas, exemplos de experiências sobre descriminalização, etc. Só então podemos começar a entender o problema e conseguir formular nossas perguntas tais como: o consumo aumentará? os traficantes deixarão o crime? a violência vai diminuir? o viciado será melhor assistido? o viciado é uma vítima ou uma das causas? qual a responsabilidade individual do consumidor? Temos que escutar com atenção os argumentos já existentes sobre o assunto, entender o estágio em que se encontra o debate. Por fim, utilizamos a razão, nossos conhecimentos nas mais diversas áreas, para conseguir chegar a nossas próprias opiniões. Observa-se que quanto mais se entender das diversas áreas do conhecimento, melhores condições teremos para refletir sobre as respostas que procuramos. Não existe muita mágica, precisamos suar um bocado para construir nossas idéias sobre um assunto.

Quanto tempo seria necessário para passar por um processo destes? Difícil dizer, mas provavelmente levaria mais do que um dia, ou uma semana, ou mesmo um mês. Isso com dedicação integral, mas temos que ganhar nossa vida, interagir com as pessoas a nossa volta, descansar, etc. Quanto tempo sobra em um dia para se dedicar a uma questão objetiva? E se tivermos pensando em várias coisas ao mesmo tempo?

Talvez devêssemos ser um pouco mais humildes antes de sairmos pregando tudo que escutamos como se fossem verdades evidentes ou fatos. Quantos conseguem dizer na hora de uma discussão, com sinceridade, que está apenas dando uma opinião, sem qualquer base que a apóie? Que muitas vezes está confundindo o que deveria ser com o que realmente é. Que pode estar completamente errado em suas suposições?

Por isso tudo, é preciso ter calma antes de chegar a conclusões. Uma boa dose de ceticismo é importante para quem quer raciocinar com clareza e formar um pensamento próprio. Escolher alguns modelos e segui-los é um caminho fácil, difícil é se perguntar: e se ele estiver errado? E se este pensamento em que acredito for uma fraude? Temos a humildade suficiente para reconhecer um erro ou pelo menos compreender que podemos estar sendo enganados?

Quando começo a ter opinião sobre tudo, a dar respostas para qualquer questionamento é sinal de que estou com um problema pois ninguém pode ter a resposta para tudo. Hora de parar, tomar uma boa dose de humildade e começar a questionar. Quem tem respostas antes de se fazer as perguntas é um mero repetidor, provavelmente de um grande número de bobagens.

Quem escreve textos públicos, principalmente em blogs e redes sociais, deve rever o que andou escrevendo. Quantos questionamentos existem nos textos? Quantos pontos de interrogação? Se não vir nenhum sinal deles é porque existe uma grande chance de ter se deixado dominar pela própria vaidade e considerar-se em alguma missão de iluminar a humanidade. Não seria este um caminho para a ignorância? Para o preconceito? Para o obscurantismo?

Afinal, o que desejemos em matéria de sabedoria? Estar certos ou entender a realidade? Queremos ilusão ou verdade? O que desejamos para nós?

São perguntas que deve estar no princípio de cada pensamento que desejamos formular. Pelo menos na opinião deste ignorante que volta e meia julga saber mais do que de fato sabe...

quarta-feira, outubro 21, 2009

Obama joga duro em política externa!

Folha:

Com as negociações novamente estancadas em Honduras, os EUA voltaram a cancelar vistos de pessoas ligadas ao governo interino, de Roberto Micheletti, em apoio ao presidente deposto Manuel Zelaya.
A medida, adotada anteontem, foi anunciada pelo próprio Zelaya. "São membros muito próximos deste golpe de Estado, há vários grupos importantes de pessoas", disse, em entrevista anteontem à noite na embaixada brasileira em Tegucigalpa, quando divulgou um comunicado informando que o diálogo estava "bloqueado".
"Isso demonstra o mal-estar de Washington diante da intransigência no diálogo. Há outras atividades que, dentro do multilateralismo da OEA, os EUA também vão atuar", disse Zelaya, que mantém contato telefônico constante com o embaixador americano em Tegucigalpa, Hugo Llorens. Ele se recusou a especificar quais seriam as "outras atividades".
A legislação americana veta a divulgação do nome e do número de pessoas atingidas por medidas do tipo, mas, segundo a Folha apurou, desta vez entraram empresários pró-Micheletti e até estudantes filhos de membros do governo nos EUA.

Comento:

O mesmo governo que deseja conversa com tudo que tipo de democrata na face da terra(Irã, Sudão, Coréia do Norte, Cuba, etc) nega se entender com um terrorista que ameaça o mundo com seu arsenal de bananas, no caso o presidente de Honduras Roberto Micheletti. Seu crime? Cumprir a constituição do seu país e colocar para fora um vagabundo que desejava instalar o pacote boliviano à força. Aliás, nem foi Micheletti que o colocou para fora, foi a suprema corte de Honduras! Nunca se viu um golpe de estado assim! A suprema corte decidiu, o Congresso referendou, as forças armadas executaram a ordem (e depois voltaram para o quartel) e a linha de sucessão foi cumprida (o vice renunciou para não ficar inelegível). O novo ditador assumiu um governo com menos de um ano de mandato, não vai concorrer ao cargo em novembro nem nunca mais(a lei não permite) e pediu supervisão internacional para as eleições. Ah, e as pessoas podem entrar e sair do país sem problemas, exceto os chavistas por motivos óbvios.

Para Obama, democracia mesmo é a cubana.

Parabéns aos velhinhos de Oslo pelo merecido nobel da paz para um pacifista destes.

Simple Man - Lynyrd Skynyrd

Para quem acha que letra de rock é só bobagem, aqui vai um clássico do Lynyrd Skynyrd.

Simple Man

Mama told me when I was young
Come sit beside me, my only son
And listen closely to what I say.
And if you do this
It will help you some sunny day.
Take your time... Don't live too fast,
Troubles will come and they will pass.
Go find a woman and you'll find love,
And don't forget son,
There is someone up above.

(Chorus)
And be a simple kind of man.
Be something you love and understand.
Be a simple kind of man.
Won't you do this for me son,
If you can?

Forget your lust for the rich man's gold
All that you need is in your soul,
And you can do this if you try.
All that I want for you my son,
Is to be satisfied.

(Chorus)

Boy, don't you worry... you'll find yourself.
Follow you heart and nothing else.
And you can do this if you try.
All I want for you my son,
Is to be satisfied.

(Chorus)

segunda-feira, outubro 19, 2009

Três Sermões do Padre Antônio Vieira

Sermão Vigésimo Sétimo, com o Santíssimo Sacramento Exposto

Padre Vieira posiciona-se de maneira firme e mostra como o cristianismo é incompatível com a escravidão. As palavras abaixo são belíssimas e mostram sua inspiração e talento:

Estes homens não são filhos do mesmo Adão e da mesma Eva? Estas almas não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo? Estes corpos não nascem e morrem, como os nossos? Não respiram com o mesmo ar? Não os cobre o mesmo céu? Não os aguenta o mesmo sol? Que estrela é logo aquela que os domina, tão triste, tão inimiga e tão cruel?


Para falar da escravidão, Vieira trata do cativeiro da babilônia e apresentava uma mensagem de esperança aos negros escravos, nada acontece sem uma razão. O cativeiro dos filhos de Israel fez parte da conquista da liberdade que viria depois. Em uma mensagem bastante atual, lembra: David gerou a Salomão. David significa o guerreiro; Salomão o pacífico. "Nascer Salomão de David quer dizer que da guerra havia de nascer a paz; e assim foi". Vieira já entendia que muitas vezes a paz só pode ser assegurada pela guerra, um paradoxo mais vivo do que nunca nos tempos atuais.

Apesar da condenação que Vieira fazia à escravidão dos negros, sua crítica era mais profunda, referia-se ao conceito mais amplo. Para ele, haviam dois tipos de escravidão, a do corpo e da alma. O que usualmente considera-se como escravo é apenas um destes tipos, a do corpo. A segunda forma de escravidão era ainda mais profunda, a da alma. O mais interessante é que esta só ocorre por permissão do cativo, a escravidão da alma é opcional. "De que modo se cativam as almas? Quem são os que as vendem, e a quem as vendem, e por que preço? ... os que as vendem, é cada um a sua; a quem as vendem é ao demônio; o preço por que as vendem é o pecado".

Lembrei do martírio dos judeus na segunda guerra. Seus corpos foram escravizados pelos nazistas, mas suas almas permaneceram intactas ao caminharem com dignidade para os fornos crematórios. O mesmo vale para os camponeses russos dizimados pela engenharia social soviética, os escravos negros que vieram da África. O que mais me incomoda nos dias de hoje é que em nome de um progresso utópico se deseja a escravidão da alma, coisa que Orwell captou bem em 1984.

Padre Vieira conseguiu fazer um posicionamento claro contra qualquer tipo de escravidão e evidenciar que não havia lugar para a submissão de um homem ao outro dentro da doutrina de Cristo.

Sermão da Visitação de Nossa Senhora

Neste sermão, Vieira denuncia a enfermidade de todo um país, O Brasil. Para ele, o país carecia da privação da justiça. "É pois a doença do Brasil (...) falta da devida justiça, assim da justiça punitiva, que castiga maus, como a justiça distributiva, que premia os bons".

Vieira mostra que a justiça tem duas faces, uma punitiva e outra distributiva. Observando o debate(?) que existe no Brasil de hoje, há um clara confusão do conceito de justiça, contaminado por anos de contaminação cultural marxista. A justiça punitiva é rechaçada e busca-se um ideal utópico de inexistência do mal, de ausência do crime, de não responsabilização dos agentes. Por outro lado, muito se defende a mediocridade, a falta de valorização do bem, o nivelamento por baixo. Já escutei em um estabelecimento de ensino que não se deve premiar os bons alunos para não causar constrangimento aos medianos ou fracos, que um professor não pode ganhar uma bonificação por seu desempenho por ser uma injustiça com os menos competentes. Será que o diagnóstico de Vieira aponta ainda hoje para a raiz de nossos males? Será a falta de justiça o que temos de pior? Nas palavras do religioso:

.
.. e esta é a causa original das doenças do Brasil - tomar o alheio, cobiças, interesses, ganhos e conveniências particulares, por onde a justiça se não guarda e o Estado se perde.


Sermão do Espírito Santo

Este é um dos sermões de Vieira que possui uma mensagem evidente mas que pode revelar muito mais. Escrito como uma reflexão sobre a catequese dos Índios, serve para a relação do homem com a revelação da verdade divina ou mesmo para a educação em seu sentido mais completo.

Lembra que para ensinar não basta palavras e conhecimento, é preciso amor, "o mestre na cadeira diz para todos, mas não ensina a todos". Isto não vale apenas para quem ensina, mas para quem aprende também. Não basta apenas ouvir, é preciso que se deixe a luz penetrar no espírito. "Para converter almas, não bastam só palavras, são necessárias palavras e luz:.

Falando especificamente sobre o Brasil, Vieira lembra da lenda que São Tomé teria vindo ao país em sua viagem ao oriente. Deus teria dado esta incumbência para o mais incrédulo dos apóstolos porque aqui a carga seria mais pesada; no Brasil pregaria aos mais bárbaros. Quando os portugueses chegaram no século XVI teriam encontrado rastros do pregador, mas não rastros da pregação. E qual seria o grande problema dos índios brasileiros? A facilidade que tinham para crer. Esta facilidade traduzia-se também na grande rapidez para perder a crença adquirida. O índio brasileiro não opunha resistência ao evangelho, mas sua crença na verdade era uma incredulidade, uma falsa fé. Não seria o brasileiro de hoje um depositário da característica dos índios de ontem?

sábado, outubro 10, 2009

Miss Universo para o Nobel da Paz!

Dois amigos se encontram e no meio da conversa falam do nobel(com minúscula mesmo) dado ao Obama.

__ Sabe, eu acho que foi feito uma injustiça muito grande. Tem outra pessoa que também pede paz no mundo e não foi considerada.

__ Quem?

__ A Miss Universo!

__ ?!?

__ Não faça cara de assustado. Lembra daquele filme "Miss Simpatia"? Retrata bem isso, todas as candidatas a Miss clamam por paz no mundo quando é perguntado seu principal desejo.

__ Mas é da boca para fora! Não percebe que na prática elas não fazem nada neste sentido!

__ Ué, e tem que ter conecção com a prática? O próprio Obama disse ontem que seu nobel foi mais um convite a ação do que um reconhecimento, afinal, quando foi votado o prêmio não tinha nem 15 dias no cargo!

__ Você é um paspalhão. Não percebe que tudo na Miss Universo é falso! O sorriso protocolar, a beleza, é tudo falso!

__ ?!?

__ Por que a cara de espanto? Disse alguma besteira?

__ Não sabia que para receber um nobel tinha que ser autêntico...

quinta-feira, outubro 08, 2009

We're not Gonna Take It!

Na Opera Rock de Pete Towshend, interpretada magistralmente pelo Who, talvez meu disco preferido, Tommy é o líder espiritual de um culto que exige de seus seguidores que passem pela mesma experiência espiritual de seu mestre tornando-se cegos, surdos e mudos. Só assim poderiam ver a luz.

O fim justificaria toda a privação de liberdade com a nova condição, um futuro radioso é prometido a eles. No fim, eles se revoltam e bradando "We're not gonna take it" e literalmente quebram a banca.

É assim que vejo aqueles que defendem o Estado como grande transformador político. Em muitos casos, já passaram para o estágio de verdadeira adoração. Lembrei também de uma frase que li há pouco tempo em um artigo da Dicta e Contradicta: todo ser humano tem um mestre. O problema é o mestre que escolheu para si.

O mesmo problema já tinha abordado por Giovanni Reale em "O Saber dos Antigos". Quando Nietzsche evidenciou que o homem moderno tinha matado Deus, a pergunta que ficou foi: quem assume seu lugar? Reale aponta que a tragédia do homem passou a ser a substituição de Deus em sua vida. Uns escolheram o hedonismo, outros a ciência, outros a violência, a ideologia, o materialismo e assim vai. Está na morte de Deus, no niilismo, a raiz dos males atuais.

Vejo outros deuses atuando no coração dos homens e o Estado é um deles. Em um mesmo conceito foi concentrado nação, país, governo, virtude e futuro. Tudo que é importante para o homem deve ser gerido pelo Estado pois apenas este tem a superioridade moral necessária para lidar com nossos problemas. Nesta hora, enxergam-no como uma pessoa infalível esquecendo que na verdade não existe Estado, mas pessoas. Na verdade, nós somos o Estado. O que estamos transferindo é o nosso destino para um crescente grupo de burocratas profissionais e políticos, que agem sob o quarda-chuva de uma entidade divinificada.

Reparem como Tommy no início do vídeo abaixo, do filme de Ken Russel, corrige seus seguidores tomando de suas mãos bebidas, cigarros e mais interessante ainda, adverte uma pessoa que um "velho senhor normal" mostrando o ideal transformador de sua mensagem. Todos estes fogem do padrão que deseja estabelecer:

Hey you, gettin' drunk,
So sorry, I've got you sussed.
Hey, you, smokin' mother nature,
You missed the bus.
Hey, hung up old Mister Normal,
Don't try to gain my trust.
'Cos you ain't gonna follow me
Any of those ways,
Although you think you must!
Now you can't hear me,
Your ears are truly sealed!
You can't speak either,
'Cos your mouth is filled.
You can't see nothing,
And pinball completes the scene.
Here come willing helpers
To guide you to
Your very own machine!

Onde entra a máquina de Pinball? Não seria uma versão do famoso pão e circo? Ou de forma mais sutil, a máquina de Pinball é tudo aquilo que afasta do homem da compreensão do que está acontecendo, da privação que está se submetendo em favor de um ideal, por mais sem sentido que seja. Pete Towshend não estava condenando o Estado em sua obra, fazia uma crítica das falsas religiões. O fato do Estado encaixar perfeitamente em sua criação é mais uma evidência que o Estado, da forma que é visto hoje por grande parte das pessoas, tornou-se a maior delas. Não nos deixemos enganar, como diz a música, sempre terá ajudantes solícitos prontos para levar-nos para nossa "very own machine".

Parafraseando Marthin Luther King, eu tenho um sonho. Sonho com o dia em que as pessoas removerão as vendas de seus olhos, os tampões dos ouvidos, a rolha de suas bocas e bradarão como os seguidores de Tommy: we're not gonna take it! We're not gonna take it!

Quanto mais este dia demorar, maior será as dificuldades para eliminar o próprio monstro que a sociedade elevou a uma condição que nunca deveria ter alcançado.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Discurso de Metafísica - Leibniz

A noção mais aceita e mais significativa que possuímos de Deus exprime-se muito bem nestes termos: Deus é um ser absolutamente perfeito.

Assim começa Leibniz em Discurso de Metafísica. A compreensão do filósofo sobre a existência passa por esta idéia principal, a perfeição de Deus, o que implica que seus atos revestem-se da maior perfeição possível.

Leibniz caracterizou seu pensamento filosófico pela idéia da conciliação. Em uma época em que os debates tendiam ao radicalismo e as escolas preocupavam-se em provar o erro das que se opunham, o alemão dizia que havia um pouco de verdade em cada um delas, que o papel do filósofo era identificar e reunir estas verdades.

Ele deixa claro que não é possível alcançar a idéia de Deus inteiramente pela razão pois o homem estava limitado por suas imperfeições. Não se devia, entretanto, duvidar que o principal fim de Deus é a felicidade dos espíritos. Nada é feito fora da ordem, o que leva ao seu entendimento dos milagres:

Assim, aquilo que é tido como extraordinário, o é apenas relativamente a alguma ordem particular estabelecida entre as criaturas, pois quanto à ordem universal tudo está em conformidade com ela.

Uma das principais idéias de Leibniz em Discurso de Metafísica é sem dúvida a da substância individual. Tratando do sujeito e de seus predicados, partido dos conceitos de Aristóteles que uma substância individual seria formada por um sujeito que possui predicados que nenhum outro possui, ele argumento que esta idéia é insuficiente pois "a natureza de uma substância individual ou de um ser completo consiste em ter a noção tão perfeita que seja suficiente para compreender ou fazer deduzir de si todos os predicados do sujeito a que se atribui esta noção".

Para Leibniz, o predicado consistia também em todas as ações possíveis que poderia acontecer com o sujeito, todos os futuros contigentes. Assim, a substância individual, como a alma, já possui em si tudo que a caracteriza e que possa acontecer. O universo e Deus já se encontram na substância.

toda substância é como um mundo completo e como um espelho de Deus, ou melhor, de todo o universo, expresso por cada uma à sua maneira...

Esta questão para Leibniz analisar o confronto entre o determinismo e o livre arbítrio. Se Deus é perfeito e onipotente, se sabe o que acontecerá no futuro do homem, onde estaria sua liberdade de escolha? Com sua idéia de substância individual completa, Deus estaria na formulação de todas as possibilidades da existência, e o indivíduo teria a escolha entre estas possibilidades.

Leibniz apresenta uma crítica à física de Newton por esta considerar apenas a relação entre causa e efeito. Para ele, os fenômenos dependeriam também da propriedade de todos os corpos de ser influenciados por outros corpos. As causas eficientes seriam tão importantes para explicar os fenômenos quanto as causas finais. Ele trocava a idéia de conservação da quantidade de movimento pela conservação das forças, da interação das substâncias.

Por fim, Leibniz reafirma a teoria da reminiscência de Platão, em que todo conhecimento não passa de recordação de algo que o homem já sabe. No entanto, refuta a idéia de reencarnação do colega grego pois o as idéias já se encontravam na própria substância e não em uma contemplação em um mundo anterior ao nascimento.

Discurso de Metafísica é um livro curto mas com muitos pontos interessantes para reflexão. Leibniz centra seu entendimento da existência e da condição humana na perfeição divina e na idéia que fez um mundo o mais perfeito possível, com uma ordem, com uma razão que lhe é própria.

Olimpíadas no Brasil

Eu não cheguei a torcer contra a escolha do Rio de Janeiro, mas fiquei longe de torcer por ela ou fazer festa depois. Sempre acompanhei Olimpíadas e acho que sediar o evento pode ser bom para um país ou pode ser ruim também; depende muito de como for feito. O paradigma do sucesso é Barcelona, uma cidade que se transformou por causa do evento; terá o Rio o mesmo destino?

Que a cidade será beneficiada, não tenho a menor dúvida. Queiram ou não queiram as autoridades, o caderno de encargo terá de ser cumprido. Minha maior dúvida é se este aproveitamento será o máximo possível, se faremos a coisa corretamente ou se nos contentaremos com "maquiagem". O Rio tem problemas crônicos, em especial a violência. A Olimpíada pode ser a senha para obrigar as autoridades federais __ sim, pois o problema foge, em muito, à capacidade estadual __ a colocar pela primeira vez como prioridade o combate ao crime organizado.

Os desafios são enormes. De cara vejo dois: violência e meio ambiente. Parece que não, mas o tempo é muito curto. As obras do Rio de Janeiro precisarão de licença ambiental. Se esta licença demorar o tanto que leva normalmente, haverão sérios problemas. A infra-estrutura para as Olimpíadas é bem diferente do Pan. Não se trata mais de uma dúzia de praças esportivas e uma vila olímpica. Haverá necessidade de obras em transporte público, despoluição da baía, centro de imprensa, hotéis, etc. A cidade terá que abrigar aquela multidão de turistas que são atraídos pelos jogos.

Quanto ao problema da violência, como vai ser? Será feito o combate ao banditismo ou acordo com traficantes para não perturbar durante os jogos? O PAC está sento tocado nas favelas __ faço questão do termo __ através de acordo com traficantes, o que já levou um jovem tenente ao banco dos réus em uma obra que o Exército deveria ter passado longe. Seguiremos o mesmo roteiro para os jogos? E os órgãos de direitos humanos dos bandidos? Como ficarão nesta confusão? Vão aceitar que a polícia faça o que deve ser feito?

Por fim, uma questão não menos importante. O Rio será beneficiado com os jogos, mas e o resto do país? Será prejudicado? Dinheiro não se planta em árvore e o fato de ter sido escolhido para sediar os jogos não criou, por si só, recursos. Estão falando em algo como 30 bilhões de dólares. De onde sairá este dinheiro? Como ficará o desenvolvimento do restante do país? Será tudo canalizado para a cidade maravilhosa? Se assim for, como ficarão as receitas? Todas para o Rio ou serão repartidas por que pagou o evento? Incluindo o pagador de impostos. Aliás, falando dele, haverá novos impostos para pagar a conta? Pegaremos empréstimos? Passaremos as conta para as futuras gerações?

Lendo o que vai acima, parece que sou contra o evento. Não chego a tanto. Apenas acho que todas estas perguntas são pertinentes e devem ser respondidas. Não cheguei nem a tocar no assunto corrupção e desvio de recursos, isto é outra estória. Vejo as Olimpíadas como uma oportunidade, uma chance para o Brasil (e não para governos). Se vamos aproveitá-la é a grande questão.

segunda-feira, outubro 05, 2009

Enfrentando a realidade


O gráfico acima é bem interessante. Mostra a taxa de desemprego nos Estados Unidos e compara com as previsões do governo Obama utilizadas para aprovar o pacote de "estímulo" no início do seu governo. Estímulo é o nome que foi dado à autorização do Congresso para gastar sem receitas, aumentando o déficit público, ou tirando mais da sociedade, aumentando impostos, para ser utilizado pelo governo em uma série de projetos que resultariam em um estímulo à economia. Muitos destes projetos são controversos pois buscaram apenas atender os interesses das bases de apoio de Obama e dos democratas. Cada vez mais acredito que David Goldman está certo e não há nenhuma medida econômica que a resolva.

Normalmente quando um plano governamental não dá certo, principalmente na economia, a solução é aumentar a dose do remédio. Aguardemos o próximo pedido de dinheiro para aumentar ainda mais o "estímulo".

O mundo real é bem diferente dos sonhos da obamamania. Como atesta o segundo reator nuclear dos iranianos, mais um para produzir energia nuclear para fins "pacíficos" por um país montado sobre petróleo.

domingo, outubro 04, 2009

O Vermelho e o Negro - Stendhal

Stendhal nasceu em Grenoble, França, em 1783. Viveu com intensidade os anos posteriores à revolução francesa, o que se refletiu em sua visão anti-monárquica e anti-clerical, tornando-se abertamente republicano.

Publicou O Vermelho e o Negro em 1830, quando a França passava pelo período da restauração, o retorno da monarquia depois do período napoleônico. Este é um dos eixos de sua obra: uma visão crítica da alta sociedade francesa da época. Através de seus personagens, descreve uma corte sem ideais, onde o principal sentimento é o tédio, vivendo com o medo de uma nova revolução.

Este possível revolucionário, que surgiria para guilhotinar o que sobrou da monarquia, é personificado no herói do romance, Julien Sorel. Um pobre filho de carpinteiro que por seus conhecimentos de latim, aprendidos com o cura local, emerge como o professor dos filhos do prefeito de uma pequena província francesa. Interessante que o conhecimento de Julien não é autêntico, seu talento está em decorar trechos inteiros em latim e repeti-los, muitas vezes sem atentar para o que está declarando.

Surge então o segundo eixo do romance, as relações de um jovem ambicioso que passa a freqüentar uma sociedade que sempre desprezou. Seu sonho é retomar o papel de Napoleão, algo que na época jamais poderia ser admitido publicamente.

Na casa do prefeito, Julien torna-se amante de sua esposa e através deste amor Stendhal realiza sua crítica à moral religiosa. A sra de Renal procura na Igreja as forças para resistir ao amor profano pelo jovem professor, mas acaba fracassando sempre diante do amante. Seus conselheiros são os padres e um destes acaba por selar o destino de Julien no final da obra.

Depois de deixar a casa dos Renal e passar um breve período em um monastério, acaba por tornar-se secretário particular de um rico marquês, onde vive seu segundo grande romance, agora com a filha deste, a orgulhosa Mathilde. Agora, é a moral aristocrática que se impõe entre Julien e a concretização de um novo amor. Sua amante luta contra o orgulho ao ver-se apaixonada por alguém fora de seu nível social.

Ao longo do romance, Julien divide-se no fascínio e o ódio pelas classes dominantes da França. Chama atenção o fato do jovem ter sempre se recusado a manter qualquer relação com os mais pobres, inclusive sua família. Ainda em casa da Sra de Renal, recusou uma ligação com um linda camareira que lhe daria uma segurança financeira para toda vida. No fundo, Julien lutava contra um orgulho exacerbado que possuía em seu íntimo, um orgulho que direcionava sua ambição e o fazia sempre desprezar todas as suas conquistas, tanto no plano social quanto no amor. Julien queria sempre mais.

É este sentimento, mesclado com sua amoralidade, que o levará à brutal queda da parte final do romance. Diante de um tribunal formado por padres e nobres, Julien encontra os que considera razão de sua desgraça e de sua infelicidade. Passa a fazer o papel que aqueles esperam dele, o da ameaça popular, o da revolta do mais pobre diante da abastança e da falta de ideais das elites francesas.

Stendhal escreveu um clássico que mistura os sentimentos sempre em conflito dos amantes, o medo de uma sociedade recém restaurada de uma nova revolta popular, a tensa relação entre um emergente e a alta sociedade, a corrupção moral do clero e os perigos de uma ambição guiada por um orgulho sem limites.

quinta-feira, outubro 01, 2009

Divulgando!


A academia brasileira está prestes a testemunhar uma empreitada intelectual inédita no país. De Porto Alegre a Fortaleza, um grupo de jovens intelectuais percorrerá 13 cidades durante o mês de outubro com uma missão: apresentar aos estudantes universitários brasileiros o pensamento libertário, de apoio ao livre mercado, paz e direitos individuais. O objetivo é apresentar diretamente a tradição liberal, muito distante das caricaturas inventadas por seus oponentes intelectuais, de direita e esquerda, como "neoliberalismo".

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Toffoli no Supremo, reflexões sobre o tempo que vivemos

Em Hitler e os Alemães, Eric Voegelin mostra que o poder dado a Hitler fala mais sobre os alemães em sua época do que de si mesmo. Apenas uma nação de estúpidos poderia eleger um estúpido criminoso como líder.



A nomeação de José Antônio Toffoi, cuja maior característica e não ter nenhum predicado exigido na constituição para o cargo de ministro do Supremo, mostra mais sobre o brasileiro do que sobre o próprio estúpido que assumirá uma cadeira no STF. Fico pensando se algum dia alguém escreverá o livro "Lula e os brasileiros".



Voegelin se referia ao conceito de Platão de sociedade como a extensão do indivíduo, o homem com "h" maiúculo. Para o falecido filósofo alemão, uma sociedade não poderia expressar uma moral mais elevada do que a média dos indivíduos que a compõe.



O papel do intelectual é iluminar a sociedade, mostrar o caminho correto para o vulgo. Julien Benda diagnosticou um dos males da modernidade, os intelectuais tinham simplesmente recusado este papel. Ao invés de procurar a verdade e mostrá-la, como fez Sócrates, deixaram-se levar pela vaidade e passaram a querer ter razão. O intelectual trocou dúvidas por certezas, o caminho inverso para quem deseja buscar sabedoria e ajudar a sociedade. O ativismo político dos intelectuais é a manifestação deste cruzamento de vaidade com orgulho.



Por que digo isso? Porque não considero o povo o maior responsável pelo que vai de errado no Brasil. A responsabilidade depende do grau de conhecimento de cada um. Certamente quem vota em políticos corruptos, sabendo desta condição, fez uma escolha e responde por ela. No entanto, uma massa de semi-analfabetos, que não acredita que possa existir um político honesto, tem muito pouca condição de escolher o melhor.



A culpa maior está naqueles que deveriam iluminar e apontar as incoerências. O problema do Brasil começa na elite intelectual e sua corrupção. Não falo de dinheiro, falo de outros tipos de corrupção, falo de corrupção ideológica, moral, enfim, da traição relatada por Benda, da estupidez mostrada por Voegelin e Ortega. O homem massa tomou o poder e vai levando toda a sociedade, incluindo ele, para o buraco. O problema do Brasil é Marilena Chauí, Antônio Cândido, Dalma Dallari, Chico Buarque e tantos outros. Mas o povo nem sabe quem são eles? Não, mas os formadores de opinião sabem e muito bem.



Aqui entra a grande maioria dos jornalistas, educadores, políticos, juizes e etc. Estes teriam condições de ver o absurdo das teorias destas sumidades e rejeitar estes pensamentos como impostura intelectual. Ao invés disso a espalham para o vulgo, acrescentando ainda importações como Chomsnky e Hobsbawn. Além dos finados Gramsci, Marx e tantos outros. O perfeito intelectual brasileiro considera Cuba um modelo de sociedade, China o futuro do capitalismo, Che uma alma pura, chama os meios de comunicação de mídia, odeiam o capitalismo (embora vivam dele), tem horror a idéia que vulgo possa pensar por si próprio, divide a humanidade em categorias, acham que tem a solução para tudo e adoram substantivos abstratos.



Como sair desta arapuca? Parece um ciclo vicioso, a estupidez alimentando-se da estupidez, a elite pensante alimentando a sociedade de falsas concepções e esta formando os futuros membros desta mesma elite. A esperança é que em todas as épocas da humanidade surgiram pessoas com liderança e força para desafiar o consenço e romper ciclos destrutivos como este que estamos vivendo. Como é possível o surgimento de gente assim? Parece milagre. Talvez seja. Acredito que o criador espera até o último instante para que resolvamos os problemas que nós próprio criamos; até que fica evidente que não teremos esta condição, ocasião que envia um espírito iluminado para nos guiar e colocar um pouco de ordem de volta ao mundo. Assim surgiram os grandes homens da história e assim continuarão surgindo.



Enquanto esta liderança não chega, as pessoas que conseguem enxergar nestas brumas de impostura, sofrem e agonizam. É assim que me sinto hoje. Angustiado com esta série de coisas que estão acontecendo e da nossa incapacidade de virar o jogo. Somos tratados como párias pelos iluminados progressistas de nosso tempo pois estes são os mensageiros da verdade, embora repitam a todo tempo não existir verdade. Pior, o fato de não acreditarmos no que acreditam é incompreensível para eles, uma afronta. Querem simplesmente a unanimidade.



Toffoli como pessoa é irrelevante. No entanto representa a corrupção moral e intelectual de quase toda a sociedade brasileira, do intelectual ao formador de opinião, deste ao vulgo. A sua nomeação para o Supremo Tribunal Federal mostra que a constituição está mais fraca do que nunca pois faltam no Brasil homens dispostos a defender os verdadeiros ideais democráticos, que não se resumem a uma urna e um voto. A democracia exige cidadania (não esta defendida pelas ONGs), solidariedade (espontânea, nunca imposta), homens dispostos a trabalhar pelo bem comum (e não se servir dele), direito de minoria (o desejo da maioria não é soberano), e valores a serem defendidos. A nomeação de Toffoli é uma prova viva que não temos nada disso e que a democracia no Brasil é uma grande fraude.