sexta-feira, novembro 27, 2009

Aquecimento Global e evidências de fraude

Nos últimos dias começou a pipocar na internet as informações sobre os tais e-mails que evidenciam que pelo menos alguns cientistas estavam escamoteando dados para confirmar suas previsões alarmistas sobre o aquecimento global. Além de tomar posições ativas para silenciar qualquer tentativa de debate sobre o assunto pressionando revistas científicas a não dar espaço para os céticos. Os grandes jornais estão ainda evitando o assunto talvez porque tenham aceitado rápido demais e sem espírito crítico a tese do Aquecimento Global. Acho que Olavo de Carvalho está mais que certo em sua regra número 1 para se entender o mundo atual:

O que quer que venha rotulado como consenso da opinião mundial, aprovado unanimemente por vários governos, pelos organismos internacionais, pela grande mídia, pela indústria do show business e pelos intelectuais públicos mais em moda, ou seja, pela quase totalidade dos "formadores de opinião", é suspeito até prova em contrário.


O papel dos cientistas que deturpavam estatísticas que contrariavam sua explicação para a realidade não é novo. O próprio Karl Marx utilizou de manipulação de dados para escrever O Capital. No longo período que levou para concluir o primeiro volume de seu tratado de economia, surgiram evidências que ao invés da classe operária ficar cada vez mais pobre, como previa em sua teoria da mais valia, ela começava a ter ganhos efetivos com a industrialização. O alemão ignorou todos estes dados e passou a selecionar apenas o que estava de acordo com suas idéias. Este fenômeno de comprimir a realidade dentro de uma idéia que se tem dela foi magistralmente descrito por Julien Benda no seu indispensável livro A Traição dos Intelectuais.

Cabe aqui também a advertência no mesmo sentido do injustamente esquecido Gustavo Corção. Para quem não conhece, Corção foi um engenheiro que depois de anos dentro dos laboratórios descobriu que a vida era muito mais ampla que a técnica e tornou-se uma das mais importantes vozes chamadas conservadoras no Brasil. Escreve ele na introdução de O Século do Nada fazendo uma ligação com os pescadores da Galiléia, primeiros apóstolos, e os engenheiros da primeira metade do século passado:

O que havia de comum entre os primeiros apóstolos e o engenheiro de 1937 ou 38 era o bom senso de quem sabe que o homem não pensa só com a cabeça, mas também com as mãos. Nós outros, engenheiros ou pescadores, sabemos assim, por várias vias, que o homem deve ser dócil e obediente à realidade das coisas. O "intelectual", ao contrário, é aquele refinadíssimo indivíduo que acha certa vulgaridade no real, e por isso prefere pensar a conhecer, isto é, prefere jogar com os entes da razão que ele mesmo fabrica ou compõe.


Não sei se o homem está aquecendo o planeta ou não, acredito que ninguém saiba. O que me parece cada vez mais claro é que o suposto consenso sobre o assunto é uma enorme falácia e fará muito bem que o tema seja colocado em discussão e os céticos possam ser ouvidos com seriedade e não tratados como porta vozes dos "interesses dos poderosos" ou coisa do gênero, como se não houvesse muita grana e poderosos por trás dos alarmistas que se pretendem cientistas.

segunda-feira, novembro 23, 2009

As Virtudes Cardeais

FANZAGA, Livio. As Virtudes Cardeais. Prudência, Justiça, Fortaleza, Temperança. Tradução de José Joaquim Sobral. Editora Ave-Maria, São Paulo, 1ª Edição, 2007.

O Padre Livio Fanzaga nasceu em 1940, em Bérgamo, na Itália. Laureou-se em Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma) e depois em Filosofia na Universidade Católica (Milão). É diretor da Rádio Maria e escreveu também As Virtudes Teologais: fé, esperança e caridade.

Foi Aristóteles quem primeiro chamou atenção para a existência de quatro virtudes que seriam os eixos cardeais para as demais. Posteriormente, Tomás de Aquino incorporou-as ao catolicismo e deu-lhes maior amplitude, ligando-as ao campo teológico. Livio Fanzaga mostra que longe de perder a importância, estar virtudes são cada vez mais necessárias em um mundo onde a globalização é uma realidade e se dispõe de meios materiais como nunca antes na história. Infelizmente, estas virtudes se perderam ou encontram-se profundamente deturpadas no entendimento atual.

Fanzaga faz um chamamento para a vida virtuonõsa, reiterando a mensagem dos filósofos clássicos, posteriormente confirmada pelos padres da Igreja, de que apenas uma vida em busca da virtude pode ser a receita para uma vida feliz. O contrário apenas carrega o homem para a infelicidade pois o objeto do vício jamais é suficiente para aplacar os apetites. Não é a rendição aos prazeres que sacia o homem e sim o seu domínio sobre eles. Fanzaga defende também que a virtude orientada apenas para a razão é insuficiente, embora muitas vezes louvável. A ligação com o divino é fundamental para orientar corretamente as virtudes. No caso das cardeais, estas devem estar subordinadas às virtudes teologais (que trata em outro livro): fé, esperança e caridade.

A sociedade na qual vivemos, onde até os cristãos arriscam-se a ser condicionados, não percebe mais a necessidade da formação moral do ser humano, recebida sempre da grande tradição grega da paideia (educação) ... Desde os mais tenros anos da vida é preciso educar o ser humano para o uso da razão, da liberdade e da responsabilidade.

Não é que a maioria dos educadores modernos não percebam a necessidade da formação moral, eles a desprezam. A escola moderna, verdadeiro instrumento de doutrinação do Estado, está preocupada apenas com o ensino da cidadania, o termo bonito que usam para ensinar a devoção ao sistema político existente. Razão, liberdade e responsabilidade ficam longe do que se prega em sala de aula, virtude então nem se fala. Afinal, se tudo é relativo, quem pode dizer que prudência, justiça, fortaleza e temperança tenham algum valor absoluto?

Uma Gota de Sangue

MAGNOLI, Demétrio. Uma Gota de Sangue. História do Pensamento Racial. Editora Contexto, São Paulo, 1ª Edição, 2009.

Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em geografia humana e um dos raros acadêmicos da USP que não é refém da idiotia esquerdista que tomou conta da Universidade, especialmente nas Ciências Sociais. Conhecido também por seus livros de geografia para o segundo grau, excelentes por sinal, especialmente o que faz um panorama do último século e pelos seus artigos sobre política externa, que inclusive rendeu um outro livro, não menos excelente, chamado O Nome do Jogo.

Magnoli é um acadêmico que não se limita ao superficial, ao contrário, busca aprofundar o estudo do problema em busca da verdade, muitas vezes escondidas sobre camadas de imposturas. Nunca li um texto seu que não estivesse ancorado em conhecimentos sólidos o que indica que só escreve sobre o que tem conhecimento, sem procurar evitar as polêmicas sempre que necessárias. Pode-se discordar de conclusões suas, mas elas estão sempre assentadas sobre trabalho sério, não são opiniões jogadas ao vento.

Uma Gota de Sangue se refere às primeiras leis raciais americanas que determinaram que qualquer cruzamento de um branco com um negro geraria um negro pois este teria uma gota de sangue negro. Seria uma espécie de contaminação, bem de acordo com as primeiras teorias raciais da ciência que colocavam a raça negra como inferior. Magnoli mergulha na história do pensamento racial, tanto nas américas quanto na África, sem deixar de tocar no problema típico do oriente e suas castas. A histórias do apartheid na África do Sul, Luther King e Malcon X, entre outros, na América, a questão indígena, o nazismo, os conflitos étnicos africanos, tudo é tratado com cuidado e embasamento por um autor que leva a sério seu trabalho. Ao final do livro, entrega o que promete, a história do pensamento racial e suas vertentes.

É bastante interessante que depois do início do século XX, quando a ciência afirmava a diversidade racial, mais que isso, a superioridade racial, levando alguns países, como os Estados Unidos a adotar a regra da gota de sangue única, estejamos voltando ao ponto inicial com os programas racialistas, mesmo com a ciência mostrando que inexistência da divisão racial. As diversas leis de cotas querem estabelecer o que não existe na natureza, a separação do homem por sua cor. Martin Luther King em seu discurso histórico, chamou os Estados Unidos nos brios com a constituição na mão, clamando pelo resgate da proposta histórica de sua nação, a da igualdade entre os homens:

Eu tenho o sonho de que meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação na qual não serão julgados pela cor da sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter.


Não sobra muito de Luther King nos dias de hoje em que a palavra-chave se chama multiculturalismo. Um país deixou de ser uma nação para se tornar um conjunto de nações, com a raça como critério de divisão, cujas relações devem ser reguladas por lei e a igualdade entre elas buscadas por força coerciva dos estados nacionais. Por igualdade não se entende oportunidades e sim resultados, levando à adoção das inúmeras leis racialistas, também chamadas de cotas.

Magnoli revela o papel da Fundação Ford na promoção do multiculturasimo ao redor do mundo, inclusive no Brasil, onde Fernando Henrique Cardoso tomou uma participação ativa, inclusive em sua presidência. Interessante observar que contrariando o senso comum, coube a um presidente americano republicano, Richard Nixon, o grande avanço do emprego das cotas raciais nos Estados Unidos. Magnoli mostra também que os critérios americanos são impossíveis de serem aplicados no Brasil, um país de intensa miscigenação. Como estabelecer uma linha divisória entre negros e brancos em um país onde os pardos caminham para se tornarem a cor predominante em poucos anos?

Para que o pensamento racial prosperasse no Brasil, foi necessário atacar em duas frentes. Primeiro, matar Gilberto Freyre. O pensamento do sociólogo que mostrou a miscigenação como uma grande contribuição do Brasil para a humanidade tinha que ser desmontado e transformado em uma forma mais dura de racismo, o racismo escamoteado. Para os arautos do racialismo, é preferível a existência de leis raciais explícitas e o confronto das raças do que uma forma de racismo não declarada que segundo eles existe no Brasil. Após a morte de Freyre, era preciso matar também o abolicionismo. A abolição dos escravos no Brasil não mais seria a obra que uniu jovens liberais, ricos e pobres, pequenos e grandes comerciantes, Igreja, políticos e tantos outros em talvez um primeiro projeto nacional, levando o Império a ceder a um desejo realmente popular, para se tornar a obra das elites econômicas para explorar ainda mais os negros através de uma falsa liberdade.

O lançamento deste livro foi cercado de protestos de grupos de pressão racialistas acusando-o de negar a existência de racismo no Brasil. Li algumas declarações de seus líderes, muitos afirmando que não leriam a obra por sua conotação preconceituosa. Não há debate possível com quem se recusa a ler o pensamento que julga se opor, que condena um pensador sem conhecer seus argumentos. Verdadeiras correntes foram montadas na internet para impedir a divulgação do livro, muitas para explicitamente impedir a participação de Magnoli em debates sobre o tema.

Parafraseando Martin Luther King, eu também tenho um sonho, um sonhe de que um filho meu jamais tenha que preencher um campo escrito "raça" em qualquer documento público ou privado. Infelizmente estamos caminhando na contramão deste meu sonho pois tornou-se obrigatório declarar a raça ao matricular um filho na escola. Houve um homem que viveu na Galiléia, que entre outras coisas, ensinou que somos mais espírito do que carne, e que espírito não tem cor. Prefiro continuar acreditando nele, até porque sua proposta de mundo é infinitamente melhor do que o que nos prometem todos os dias os reformadores sociais. Ninguém deve ter orgulho de ser negro. Nem de ser branco. Nem de ser índio. Aliás, o orgulho costuma ser mais um vício do que uma virtude. Se tivermos que ter orgulho de ser alguma coisa é de nossas obras concretas, obras de um indivíduo, independente da cor que carrega.

sexta-feira, novembro 13, 2009

Tia Célia, até breve.

Muitas pessoas enfrentam uma vida com muitas dificuldades, cheia de privações e provações. Minha tia Célia teve uma vida assim, quando menos se esperava, vinha uma pancada, um acontecimento que atingia-a em cheio, muitas vezes em momentos que parecia que nada poderia dar errado. No entanto, se a dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Uma das inúmeras coisas que aprendi com ela foi sua extraordinária capacidade de superar as adversidades e rapidamente se recompor. Com tudo que passou na vida, é auspicioso observar que seu sorriso está muito mais em minha memória que sua tristeza, que ela soube encontrar felicidade sempre que possível e enfrentar com dignidade e resignação as horas mais amargas.

Convivi especialmente com ela nos meus quatro anos como Cadete em Resende. Praticamente passei em sua casa quase todos os fins de semana. Talvez tenha sido o momento mais feliz em sua vida, estava casada com um homem muito bom e criava seus dois filhos, ainda muito pequenos. O Eduardo passava a semana viajando, vendendo queijos. Quando chegava na sexta feira era uma alegria na casa, tanto dos dois pequenos, Paulinha e Rafael, quanto de minha tia que se deixava contagiar com a alegria fácil do marido. Várias vezes fui com eles para um sítio que tinham na Fumaça e o que vi foram momentos de intensa felicidade de uma família que tinha o amor como elo de ligação muito forte.

Ela não tinha muitos amigos, mas os que tinham faziam a diferença. Ela daquelas pessoas que quando abaixava suas defesas, era porque abria sua alma. Lembro especialmente do Nei e da esposa, que passaram muitos destes fins de semana no Sítio. As angústias do dia a dia ficavam para trás e aproveitavam tudo que uma amizade podia oferecer.

Outra virtude sua era a facilidade como ela se sacrificava para as pessoas que amava. Sejam os filhos, o marido, os parentes ou mesmo os amigos. Eles estavam sempre em primeiro lugar na sua vida e esse é um dos ensinamentos que ela me deixou. Tento me esforçar para chegar perto do que ela era capaz, mas é difícil, o que só mostra que possuía grande desprendimento e fortaleza moral. No meio de uma vida muitas vezes difícil, era incapaz de negar uma mão a quem precisava. Todos sabíamos disso, que poderíamos contar com ela, sempre. Além disso, possuía um forte senso moral, sabia distinguir o certo do errado, mostrando que as dificuldades não são motivo para a falta de ética e que basta coragem para fazer o bem.

Tia Célia sempre foi um refúgio. Podíamos correr para ela sempre que tínhamos um problema ou que sentíamos tristeza porque ela nos acolhia e nos dava sua compreensão e dividia conosco um pouco de sua força. O que me lembra outra virtude sua. Ela não julgava as pessoas e nem as condenava. Ela podia saber muito bem julgar os atos, mas sabia separá-los de quem os praticava. Sua humanidade se mostrava na capacidade que tinha de entender o próximo, evitar julgá-lo e esperar sempre o melhor de cada um. Muitos dizem que isso é ingenuidade, pois digo que chama-se caráter. Minha tia foi uma das pessoas de maior caráter que tive a oportunidade de conviver.

Agora que ela nos deixa, seguramente para um repouso merecido, só posso tentar guardar todas as bonitas lições que deixou para todos nós. Quando uma pessoa que amamos nos deixa e conseguimos lembrar com mais facilidade de suas alegrias do que suas tristezas, é talvez uma mostra de como devemos encarar a vida, não como uma sucessão de obstáculos e sofrimentos, mas sim como oportunidades para provarmos nosso valor e crescermos como indivíduos.

No fim, é o que conta.

Que descanse em paz.

segunda-feira, novembro 09, 2009

O caso da UNIBAN

Quando li a notícia do que tinha acontecido na UNIBAN, a minha primeira reação foi de perplexidade. Achei que era uma destas notícias falsas que circulam pela internet pois custava-me a crer que algo assim era possível, mesmo acreditando que o comportamento de um indivíduo em massa pode ser bem distinto de quando isolado. A questão era que o caso todo era absurdo demais; consigo entender que se escondam dentro do espírito de manda, mas não a ponto do que se viu na dita universidade.


O que se viu depois foi ainda mais bárbaro e mostra porque ficou difícil distinguir nas imagens espalhadas pelo youtube se estávamos diante de uma instituição de ensino ou uma rebelião de presídio. Chamou-me atenção primeiro a quantidade de comentários em diversos blogs justificando o que aconteceu e colocando a culpa na vítima e seu vestido curto. Depois, pessoalmente escutei amigos praticamente defendendo a mesma opinião. Sempre começavam com "não justifica o que aconteceu...", tentando dizer que não queriam justificar mas na prática estão sim tentando livrar a cara daqueles vagabundos morais que tentaram agredir a moça, embora muitas vezes sem perfeita consciência desta defesa.


Outra coisa que chamou-me atenção foi a manifestação das mulheres contra Geisy, canalizando na estudante um profundo incômodo com o comportamento abertamente provocativo de outras mulheres. Na verdade, aquelas mulheres ressentem-se da impossibilidade de reação a um estado de coisas que é francamente hostil para quem ainda fala em algo como "bons costumes", uma espécie de palavrão na nova língua contemporânea. O que vale é a permissidade total em nome de um conceito deturpado de tolerância e uma o aprisionamento da mulher em uma categoria dentro de uma visão equivocada de feminismo. A mulher de hoje tem o dever de procurar sucesso profissional, ser independente e se igualar ao homem em tudo, principalmente no que ele tem pior. Já desviei do assunto, volto ao caso de Geisy.


O comportamento da sociedade organizada deixou-me ainda mais perplexo. Nos dias que se seguiram ao acontecido, nenhuma manifestação. Nenhuma ONG, nenhuma organização de direitos humanos, nada. Quando um policial mata um bandido nos morros do Rio a reação é imediata, mas para o azar de Geisy ela não é de nenhuma comunidade, não é de nenhuma minoria e, principalmente, não faz discurso de oprimida. Já imaginaram se fosse negra? O mundo já teria vindo abaixo mostrando tudo que aconteceu como mais uma prova de um país racista. Parece que só agora, começaram a surgir algumas manifestações tímidas em defesa da moça, um tanto quanto envergonhadas. No fundo, acham que ela fez bem por merecer.


Para terminar a barbárie pós-fato, temos o comportamento da própria universidade. Depois de flertar com justificativas mil para a ação de alguns de seus estudantes, a instituição de ensino (?) resolveu partir para a expulsão. Tomou uma atitude firme e mandou para a rua não os potenciais molestadores, mas a própria vítima. Além de estúpida, a decisão é de uma idiotia sem precedentes. Longe de defender a reputação (???) da UNIBAN, só arrastou ainda mais seu nome para lama, se é que isso é possível.


Quanto a Geisy, pouco me importa o caráter da moça, se ela provocou ou não os outros alunos, ou o tamanho de sua mini-saia. Acho que toda instituição deve ter um código de comportamento e ao que mostra a UNIBAN não tem nenhum já que prefere graduar agressores a portadoras de mini-saias. Também não me interessa se vai pousar nua, se vai para um reality show ou dar entrevista no Faustão. Na minha visão de mundo, o indivíduo é um fim em si mesmo, é inviolável. Nada que ela tivesse feito, mesmo que seja culpada de tudo que lhe acusam, justificam nada parecido com o que aconteceu.


Não julgo por categorias, penso sempre em indivíduos. Não há culpa coletiva dos estudantes, cada um seguiu sua própria consciência ao partir para cima da moca. Cada um deve ser individualmente responsável por seus atos. Aderir ou não a uma turba é decisão individual; nenhum ser humano é todo mundo. Uma das muitas coisas que minha mãe me ensinou, e muito bem, é que não sou todo mundo, que tenho nome. Isso acontecia sempre que eu tentava justificar um comportamento errado com a desculpa que todo mundo fazia. Aprendi minha lição, parece que aqueles alunos não.


O caso de Geisy é mais importante do que parece, revela toda a doença moral de boa parte de uma sociedade. Desde os que se comportaram como animais até os que buscam justificativas para o comportamento animalesco. No fundo o que está em jogo é a tese que o homem é produto do meio e por isso a esquerda está em silêncio completo. Condenar o comportamento dos bárbaros é reconhecer que o homem tem um livre arbítrio e um papel ativo no seu comportamento. Pode parecer estranho que muitos conservadores estejam do lado de uma moça que use saia curta em uma universidade mas este estranhamento deixa de existir quando se consegue enxergar através das blumas e ver a essência do problema. A capacidade de uma pessoa de pensar, decidir, agir e arcar com as consequências do seus atos, o fato de que não somos passageiros em um veículo chamado existência, que podemos nos elevar acima do meio que vivemos ou dos conceitos majoritárias. Por isso estou em defesa desta moça, independente de quem seja.

segunda-feira, novembro 02, 2009

Vícios privados, benefícios públicos? - Eduardo Gianetti

A ética na riqueza das nações
Companhia de Bolso, 1993

Despertei para o papel da ética no desenvolvimento econômico a partir de um artigo do papa Bento XVI que li no início do ano. Até então, via o problema econômico pelo foco da luta entre o livre mercado e a planificação econômica e, neste contexto, posicionei-me sempre pela mão invisível Smithiana contra o dirigismo socialista. Através das reflexões do papa eu comecei me questionar se o foco da discussão estava errada, ou seja, se o modelo econômico, por si só, seria capaz de garantir qualquer prosperidade pois é isso, em síntese, que se discute nos dias de hoje. Livre mercado ou economia planificada? Ou o meio termo da social-democracia? Bento XVI colocava que o livre mercado por si só não pode garantir prosperidade pois necessitaria ser assentado na ética de uma sociedade.

Eduardo Gianetti, economista e com formação em filosofia, segue as mesmas reflexões de Bento XVI e coloca em discussão o papel da ética na riqueza das nações. É possível obter-mos a prosperidade econômica defendida pelos liberais ou mesmo a igualdade distributiva dos socialistas, assim como a prosperidade com igualdade dos sociais-democratas, sem levar em consideração princípios éticos? Gianetti responde que não através deste livro interessantíssimo que mostra a história das idéias sobre a ética na sociedade e procurar levantar as questões e paradoxos sobre sua influência.

Para Gianetti, a ética lida com aquilo que pode ser diferente do que é, a diferença do mundo como é do mundo como poderia ser. Cada ação nossa poderia ser diferente? Poderíamos ter optado por outro caminho? Só tem sentido falar de ética quando existe a livre escolha, só se pode decidir pelo bem diante da possibilidade do mal. Se formos obrigados, por forças externas a nossa pessoa, a escolher sempre o bem, o homem estaria esvaziado de todo seu valor.

A primeira questão objetiva que Gianetti coloca é sobre o que chamou de neolítico moral, a tese de que um extraordinário avanço da ciência teria se desconectado do avanço moral gerando um hiato entre o que somos e o que podemos ser, pois o homem não estaria a altura de sua capacidade. Seria o progresso a causa do atraso moral ao transformar o caráter do homem, ao desperta-lhe a cobiça e o egoísmo? Ou seria o atraso moral um obstáculo que emperra o progresso? Gianetti refuta a tese do neolítico moral ao considerar que cada época é considerada única e diferente, sendo o passado e futuro vistos pelas categorias do presente e pelo descontentamento moral que o homem tem consigo mesmo. Não existe uma régua que se possa medir o progresso moral de uma sociedade pois são considerações que fogem ao escopo e capacidades das ciências, tanto exatas quanto sociais.

Gianetti passa a analisar o papel da ética como fator de coesão social e como fator de produção. No primeiro caso, argumenta que uma sociedade formada de homens preocupados apenas com a moralidade individual não conseguiria sobreviver, a moralidade cívica é essencial para a convivência social. Há uma tensão constante entre a moralidade individual e a cívica, entre a liberdade do indivíduo e o bem comum da sociedade. Nesta relação, o equilíbrio é essencial. Uma sociedade com a liberdade individual levada ao extremos, se desentegraria; uma sociedade sem liberdade individual seria desprovida de valor. Para ele, o valor de uma sociedade está nos indivíduos que a compõe e portanto deve haver um limite para a intervenção do aparato estatal (leis e governos) ou da moralidade cívica (opinião pública). A adesão a ao código moral não se pode dar apenas por coerção; além da submissão, esta adesão pode ser dar por identificação (desejo de dar exemplo e ser reconhecido) ou interiorização (reflexão ética).

O ponto central da obra de Gianetti, entretanto, é o papel da ética como fator de produção. Para ele, tanto os seguidores do livre mercado (Smith, Mandeville e a escola de Chicago) quanto do socialismo ocuparam-se de maneira bastante simplificada nas regras do jogo e deixaram de lado a qualidade dos jogadores. Para eles, as regras do jogo seriam suficientes para garantir a prosperidade pois esta se daria apesar da falta de ética (Smith) ou por causa dela (Mandeville). Já para os socialistas, adeptos do determinismo, a questão ética não teria sentido pois não haveria uma verdadeira livre escolha.

Gianetti rompe com esta dicotomia colocando como questão central da riqueza de uma nação a qualidade dos jogadores, sejam indivíduos, empresas ou governos. Jogar limitando-se apenas pelas leis, o que chamou de mínimo legal, é insuficiente; só através da interiorização da ética uma sociedade poderá avançar para a prosperidade. Rejeita, portanto, o egoísmo ético como condição para a riqueza.

Com enorme talento, Gianetti conseguiu escrever uma obra de leitura agradável e possui o grande mérito da honestidade intelectual. Apesar de ter suas opiniões, não deixa de mostrar com igual competência todas as faces do problema, com argumentações a favor e contra suas teses. Para ele, a discussão se o indivíduo deve servir ao estado ou o estado deve servir aos indivíduos está errada; ambos devem servir a um bem maior, ao desenvolvimento saudável da própria sociedade.