segunda-feira, novembro 09, 2009

O caso da UNIBAN

Quando li a notícia do que tinha acontecido na UNIBAN, a minha primeira reação foi de perplexidade. Achei que era uma destas notícias falsas que circulam pela internet pois custava-me a crer que algo assim era possível, mesmo acreditando que o comportamento de um indivíduo em massa pode ser bem distinto de quando isolado. A questão era que o caso todo era absurdo demais; consigo entender que se escondam dentro do espírito de manda, mas não a ponto do que se viu na dita universidade.


O que se viu depois foi ainda mais bárbaro e mostra porque ficou difícil distinguir nas imagens espalhadas pelo youtube se estávamos diante de uma instituição de ensino ou uma rebelião de presídio. Chamou-me atenção primeiro a quantidade de comentários em diversos blogs justificando o que aconteceu e colocando a culpa na vítima e seu vestido curto. Depois, pessoalmente escutei amigos praticamente defendendo a mesma opinião. Sempre começavam com "não justifica o que aconteceu...", tentando dizer que não queriam justificar mas na prática estão sim tentando livrar a cara daqueles vagabundos morais que tentaram agredir a moça, embora muitas vezes sem perfeita consciência desta defesa.


Outra coisa que chamou-me atenção foi a manifestação das mulheres contra Geisy, canalizando na estudante um profundo incômodo com o comportamento abertamente provocativo de outras mulheres. Na verdade, aquelas mulheres ressentem-se da impossibilidade de reação a um estado de coisas que é francamente hostil para quem ainda fala em algo como "bons costumes", uma espécie de palavrão na nova língua contemporânea. O que vale é a permissidade total em nome de um conceito deturpado de tolerância e uma o aprisionamento da mulher em uma categoria dentro de uma visão equivocada de feminismo. A mulher de hoje tem o dever de procurar sucesso profissional, ser independente e se igualar ao homem em tudo, principalmente no que ele tem pior. Já desviei do assunto, volto ao caso de Geisy.


O comportamento da sociedade organizada deixou-me ainda mais perplexo. Nos dias que se seguiram ao acontecido, nenhuma manifestação. Nenhuma ONG, nenhuma organização de direitos humanos, nada. Quando um policial mata um bandido nos morros do Rio a reação é imediata, mas para o azar de Geisy ela não é de nenhuma comunidade, não é de nenhuma minoria e, principalmente, não faz discurso de oprimida. Já imaginaram se fosse negra? O mundo já teria vindo abaixo mostrando tudo que aconteceu como mais uma prova de um país racista. Parece que só agora, começaram a surgir algumas manifestações tímidas em defesa da moça, um tanto quanto envergonhadas. No fundo, acham que ela fez bem por merecer.


Para terminar a barbárie pós-fato, temos o comportamento da própria universidade. Depois de flertar com justificativas mil para a ação de alguns de seus estudantes, a instituição de ensino (?) resolveu partir para a expulsão. Tomou uma atitude firme e mandou para a rua não os potenciais molestadores, mas a própria vítima. Além de estúpida, a decisão é de uma idiotia sem precedentes. Longe de defender a reputação (???) da UNIBAN, só arrastou ainda mais seu nome para lama, se é que isso é possível.


Quanto a Geisy, pouco me importa o caráter da moça, se ela provocou ou não os outros alunos, ou o tamanho de sua mini-saia. Acho que toda instituição deve ter um código de comportamento e ao que mostra a UNIBAN não tem nenhum já que prefere graduar agressores a portadoras de mini-saias. Também não me interessa se vai pousar nua, se vai para um reality show ou dar entrevista no Faustão. Na minha visão de mundo, o indivíduo é um fim em si mesmo, é inviolável. Nada que ela tivesse feito, mesmo que seja culpada de tudo que lhe acusam, justificam nada parecido com o que aconteceu.


Não julgo por categorias, penso sempre em indivíduos. Não há culpa coletiva dos estudantes, cada um seguiu sua própria consciência ao partir para cima da moca. Cada um deve ser individualmente responsável por seus atos. Aderir ou não a uma turba é decisão individual; nenhum ser humano é todo mundo. Uma das muitas coisas que minha mãe me ensinou, e muito bem, é que não sou todo mundo, que tenho nome. Isso acontecia sempre que eu tentava justificar um comportamento errado com a desculpa que todo mundo fazia. Aprendi minha lição, parece que aqueles alunos não.


O caso de Geisy é mais importante do que parece, revela toda a doença moral de boa parte de uma sociedade. Desde os que se comportaram como animais até os que buscam justificativas para o comportamento animalesco. No fundo o que está em jogo é a tese que o homem é produto do meio e por isso a esquerda está em silêncio completo. Condenar o comportamento dos bárbaros é reconhecer que o homem tem um livre arbítrio e um papel ativo no seu comportamento. Pode parecer estranho que muitos conservadores estejam do lado de uma moça que use saia curta em uma universidade mas este estranhamento deixa de existir quando se consegue enxergar através das blumas e ver a essência do problema. A capacidade de uma pessoa de pensar, decidir, agir e arcar com as consequências do seus atos, o fato de que não somos passageiros em um veículo chamado existência, que podemos nos elevar acima do meio que vivemos ou dos conceitos majoritárias. Por isso estou em defesa desta moça, independente de quem seja.

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