sexta-feira, novembro 13, 2009

Tia Célia, até breve.

Muitas pessoas enfrentam uma vida com muitas dificuldades, cheia de privações e provações. Minha tia Célia teve uma vida assim, quando menos se esperava, vinha uma pancada, um acontecimento que atingia-a em cheio, muitas vezes em momentos que parecia que nada poderia dar errado. No entanto, se a dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Uma das inúmeras coisas que aprendi com ela foi sua extraordinária capacidade de superar as adversidades e rapidamente se recompor. Com tudo que passou na vida, é auspicioso observar que seu sorriso está muito mais em minha memória que sua tristeza, que ela soube encontrar felicidade sempre que possível e enfrentar com dignidade e resignação as horas mais amargas.

Convivi especialmente com ela nos meus quatro anos como Cadete em Resende. Praticamente passei em sua casa quase todos os fins de semana. Talvez tenha sido o momento mais feliz em sua vida, estava casada com um homem muito bom e criava seus dois filhos, ainda muito pequenos. O Eduardo passava a semana viajando, vendendo queijos. Quando chegava na sexta feira era uma alegria na casa, tanto dos dois pequenos, Paulinha e Rafael, quanto de minha tia que se deixava contagiar com a alegria fácil do marido. Várias vezes fui com eles para um sítio que tinham na Fumaça e o que vi foram momentos de intensa felicidade de uma família que tinha o amor como elo de ligação muito forte.

Ela não tinha muitos amigos, mas os que tinham faziam a diferença. Ela daquelas pessoas que quando abaixava suas defesas, era porque abria sua alma. Lembro especialmente do Nei e da esposa, que passaram muitos destes fins de semana no Sítio. As angústias do dia a dia ficavam para trás e aproveitavam tudo que uma amizade podia oferecer.

Outra virtude sua era a facilidade como ela se sacrificava para as pessoas que amava. Sejam os filhos, o marido, os parentes ou mesmo os amigos. Eles estavam sempre em primeiro lugar na sua vida e esse é um dos ensinamentos que ela me deixou. Tento me esforçar para chegar perto do que ela era capaz, mas é difícil, o que só mostra que possuía grande desprendimento e fortaleza moral. No meio de uma vida muitas vezes difícil, era incapaz de negar uma mão a quem precisava. Todos sabíamos disso, que poderíamos contar com ela, sempre. Além disso, possuía um forte senso moral, sabia distinguir o certo do errado, mostrando que as dificuldades não são motivo para a falta de ética e que basta coragem para fazer o bem.

Tia Célia sempre foi um refúgio. Podíamos correr para ela sempre que tínhamos um problema ou que sentíamos tristeza porque ela nos acolhia e nos dava sua compreensão e dividia conosco um pouco de sua força. O que me lembra outra virtude sua. Ela não julgava as pessoas e nem as condenava. Ela podia saber muito bem julgar os atos, mas sabia separá-los de quem os praticava. Sua humanidade se mostrava na capacidade que tinha de entender o próximo, evitar julgá-lo e esperar sempre o melhor de cada um. Muitos dizem que isso é ingenuidade, pois digo que chama-se caráter. Minha tia foi uma das pessoas de maior caráter que tive a oportunidade de conviver.

Agora que ela nos deixa, seguramente para um repouso merecido, só posso tentar guardar todas as bonitas lições que deixou para todos nós. Quando uma pessoa que amamos nos deixa e conseguimos lembrar com mais facilidade de suas alegrias do que suas tristezas, é talvez uma mostra de como devemos encarar a vida, não como uma sucessão de obstáculos e sofrimentos, mas sim como oportunidades para provarmos nosso valor e crescermos como indivíduos.

No fim, é o que conta.

Que descanse em paz.

Um comentário:

Alexandra disse...

Obrigada pelo post. Eu ainda não tinha chorado de verdade...