quarta-feira, dezembro 30, 2009

Os melancias recebem seu presente

Há muito notei o entusiasmo com que muitos militares se referem ao governo petista por conta das migalhas de aumentos que tiveram em seus contra-cheques. Reclamam que não tiveram tal tratamento no governo FHC e é verdade, embora não tenham levado em conta que o governo tucano teve a difícil tarefa de atingir o equilíbrio das contas públicas em um ambiente internacional bastante adverso (crise asiática, México, Rússia) e Lula encontrou um mar de rosas a sua frente e um estado saneado duramente.

Desesperam-se a todo tempo com Serra porque este "não gosta de militares". Concordo, não gosta mesmo. O que não significa que no governo vai se empenhar em afrontar suas forças armadas. Tem inteligência suficiente para não cair nesta armadilha.

O implícito deste pensamento dos melancias brasileiros (verde por fora e vermelho por dentro) é que o governo Lula gosta dos militares. Pois aqui está o presente de natal do líder deles. Façam bom proveito e engulam.

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,projeto-que-revoga-lei-de-anistia-fez-jobim-ameacar-se-demitir,488397,0.htm

É o que dá pensar em política apenas pelo contra-cheque.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Getting Things Done - David Allen

Foi através de um curto artigo sobre organizar sua conta gmail nos princípios do GTD, na revista Mac +, que cheguei neste livro. GTD? O que diabos era isso? Depois de uma pesquisa na internet, onde mais?, descobri o site de Allen, interessei-me e comprei o livro.

Como ser produtivo e sem stress? Para responder esta pergunta, Allen parte do princípio que a fonte de stress está nas inúmeras tarefas que temos que fazer mas adiamos qualquer decisão sobre elas, mantendo-as em nossos cérebros indefinidamente, sempre nos lembrando de suas existências. Não se trata de adiar uma tarefa, o que implica em uma decisão sobre ela, mas nos recusar a estabelecer o próximo passo sobre algo que está constantemente nos perturbando.

Outra premissa de Allen é que estamos sempre nos lembrando das coisas na hora errada, quando não podemos fazer nada a respeito. Estou em uma farmácia e lembro que tenho que mandar um e-mail. Como vou fazer isso na farmácia? Como vou arrumar o meu escritório se estou no mercado? Ou no cinema. Ou na feira.

O método que o autor desenvolve consiste basicamente em tirar tudo isso de nossas cabeças e colocar em um sistema confiável, esvaziando nossa memória RAM. Se tem coisas que só posso fazer no computador, esta lista deve aparecer só quando eu estiver no computador. Se tem coisas que só posso fazer fora de casa, esta lista deve aparecer só quando estiver fora de casa e assim por diante.

Durante as duas últimas semanas tenho aplicado o método GTD e até agora com bastante sucesso. Tenho um problema sério de adiar as coisas para fazer depois, não querer lidar com tarefas que me são desagradáveis, como cancelar um cartão de crédito. O grande problema é que quando nos recusamos a tomar decisões ou fazer de imediato uma tarefa simples, perdemos mais tempo para fazê-la e nos incomodamos mais. Se uma coisa pode ser feita em menos de dois minutos, deve ser feita imediatamente pois seguramente perderemos mais tempo em organizar lembretes ou mantê-la em algum arquivo para fazê-la posteriormente.

O GTD me deu uma motivação para fazer minhas tarefas, adoro riscar coisas da minha lista! Lembro-me do Earl e sua lista de bondades no seriado. Ainda tenho muito o que refinar na aplicação do método para meu caso, mas estou conseguindo seguir o básico. A questão principal agora é manter o sistema confiável para que não haja retrocesso ou abandono.

Um livro muito interessante para quem deseja dar um pouco de ordem a uma vida caótica. Pelo menos tem funcionado até aqui.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Espinosa (Série Mestres do Pensar) - Roger Scruton

É os segundo livro que leio desta coleção, o primeiro foi sobre Leibniz. Achei muito interessante os dois, excelentes introdução ao pensamento destes dois filósofos, sem deixar de tentar penetrar na natureza de suas filosofias. É comum que livros deste tipo se prendam mais à biografia dos autores do que suas idéias. Felizmente não é o caso dos dois livros que li.

Coube a Roger Scruton a tarefa de falar de Espinosa, o que faz com muita clareza e objetividade. Nem todos os pensamentos do filósofo espanhol são fáceis de serem acompanhados, muitos exigem conhecimentos básicos de filosofia e reflexão, o que valoriza ainda mais o trabalho de Scruton em tentar expô-los.

Scruton divide o estudo sobre o filósofo em quatro partes: Deus, o homem, liberdade e corpo político.

Espinosa acreditava que apenas Deus poderia ser concebido como substância, ou seja, apenas Deus existe de fato. É interessante este ponto de vista para um autor que foi renegado por todas as religiões de sua época e tratado como ateu. Pelo que entendi, Espinosa não questiona Deus e sim a idéia que se tem dele. As religiões foram construídas a partir de supertições que deveriam ser removidas para que se pudesse contemplar Deus como verdade, com a força do intelecto.

Para ele, tudo mais existia em completa interdependência, o que leva a certas implicações perturbadora para a autocompreensão humana. "A pessoa individual não é, ao que parece, um indivíduo". Se tudo acontece por necessidade, como Espinoza afirma, qual o espaço então para a moral?

A parte mais original da filosofia de Espinosa consiste em sua tentativa de responder aos três problemas que esboçamos __ o problema do espírito e do corpo, o da existência individual e o da liberdade __ e, ao fazê-lo, reconciliar a busca da felicidade com o conhecimento de Deus.


Espinosa tira o "eu" da reflexão filosófica. O conhecimento só seria possível quando o sujeito fosse eliminado da descrição do que é conhecido, que existe a concepção absoluta. Isso tem reflexões profundas na ética pois o "eu" também desaparece das considerações morais pois o homem nada mais é do que um dos modos de Deus, que tudo governa. O caminho para o homem é superar suas paixões e emoções para agir de acordo com a natureza das coisas, só assim teria liberdade.

No entanto, o homem simples não são homens livres pois são conduzidos pela imaginação e permanecem na ignorância. A política entra em sua discussão quando é necessário organizar a sociedade para que estes homens possam viver em harmonia. Vale citar o pensamento de Espinosa sobre o verdadeiro fim de um governo:

O objeto do governo não é transformar os homens racionais em animais ou bonecos, mas capacitá-los a desenvolver seus espíritos e corpos em segurança, e a empregar sua razão sem empecilhos; nem exibindo ódio, raiva ou logro, nem vigiando com os olhos da inveja e da injustiça. Com efeito, o verdadeiro fim do governo é a liberdade.


Se o livro de Scruton é apresentar os contornos de um pensamento complexo como o de Espinosa, esta resenha no máximo mostra algumas faces dos problemas que o filósofo se dedicou em vida. Longe de captar as várias idéias apresentadas por Scruton, seu livro despertou-me as primeiras dúvidas e curiosidades, o que sempre é um bom começo para a filosofia.

Sabrina(1995)

A refilmagem do clássico de de 1954 manteve a magia original mostrando a simpática estória da filha do chofer que apaixonada por um dos patrões, acaba conquistando o outro. Sabrina é um dos filmes que não me canso de assistir e me divertir, em qualquer uma das duas versões. Nem entro no mérito de qual das versões é melhor, deixo isso para os críticos profissionais.

O que acho interessante, ao comparar as duas versões é a diferença do papel da mulher na sociedade entre ambas as fitas. Realmente, muita coisa mudou em relação as mulheres em 40 anos e Sidney Pollack tratou de inserir estas mudanças na trama original, por vezes um tanto quanto exagerado.

Desta forma, Sabrina não vai mais para Paris para fazer um curso de culinária. Vai trabalhar com moda e termina como fotógrafa. Elizabeth Tyson era apenas a filha de um rico industrial; na nova versão é uma médica pediatra dedicada a salvar vidas. Desaparece o senhor Larrabee e seus charutos e Maude passa a ser a cabeça da família, agora uma viúva.

O politicamente correto também age sobre os irmãos Larrabee. David na versão original era muito mais cínico, agora é apenas um jovem sensível e incompreendido. Linus também foi suavizado, deixando de ser um apaixonado defensor do capitalismo como forma de transformação social para ser apenas um rico executivo a busca de um sentido para a vida.

Felizmente nada disso atrapalha o filme, mas fica o registro de que nos tempos de hoje fica cada vez mais difícil ter personagens com vícios e uma moral meio relaxada. O resultado é um mundo mais insípido e sem espaço para as ironias da vida.

domingo, dezembro 20, 2009

Máximas de um país mínimo - Reinaldo Azevedo


Criar aforismas exige uma boa dose de talento. Afinal, conseguir sintetizar em algumas poucas palavras um pensamento bem mais profundo ou um retrato da sociedade não é tarefa para qualquer um. A maioria das pessoas precisa de muitas palavras para descrever a mais simples das situações;outros, reproduzem o complexo em uma única frase, o que exige um grande conhecimento da linguagem e de suas sutilezas. Um dos únicos brasileiros capazes de tal feito é Reinaldo Azevedo, o blogueiro mais influente do país.

Reinaldo consegue aliar uma capacidade de observação impressionante e o pleno domínio da língua escrita. O resultado só poderia ser este festival de pérolas que a Record publica em uma simpática edição diminuta. Um livreto para guardar e consultar sempre. Organizado por verbetes em ordem alfabética, temos a síntese do pensamento de Reinaldo dos principais assuntos da atualidade. Alguns exemplos:

"O melhor remédio contra a esquerda ainda é a alfabetização moral."

"O que mais me espanta na Igreja dos Santos do Aquecimento Global dos Últimos Dias é a precisão. Se eu perguntar a Kofi Annan se vai chover amanhã, é bem capaz de ele molhar o dedo na saliva para interpretar os ventos. Ou de consultar alguma entidade tribal não eurocêntrica. Mas integra a turma que sabe exatamente qual será a temperatura média em 2130."

"As crises do capitalismo trazem em si o germe da própria solução, como não disse Marx."

"Celso Amorim é do tipo que fabrica massa negativa: quanto mais ele se esforça, pior. Se trabalhasse a metade, renderia o dobro."

"Noam Chomsky não passa de um Michael Moore alfabetizado, menos adiposo e, eventualmente, de banho tomado."

"A convicção da maioria não torna verdadeira uma mentira"

"O PT não inventou a corrupção, ele apenas a desmoralizou."

"A Teologia da Libertação trocou a Cruz, que é eterna, pela foice e pelo martelo, que são apenas velhos."

"Pregar a morte de Deus no Ocidente é covardia. Corajoso seria pregar a morte de Alá em Teerã."

"A utopia é sempre vizinha da vigarice, intencionalmente ou não."

Máximas de um país mínimo é acima de tudo uma grande diversão. E uma prova que faça o que quiser, a esquerda jamais terá senso de humor, por absoluta incapacidade de entendê-lo.

sábado, dezembro 19, 2009

O Século do Nada -Gustavo Corção

Em 1939 a Polônia foi invadida. Para deter o totalitarismo e preservar a liberdade no mundo, Inglaterra e França foram à guerra, assim como posteriormente os Estados Unidos. Em 1945 Berlin era ocupada e a II Guerra Mundial chegava ao seu fim com a derrota dos nazistas. Os aliados venceram.

Venceram? Venceram o que exatamente? Em 1939 a guerra foi feita para impedir que um país totalitário ficasse com a Polônia. Seis anos depois, as democracias ocidentais comemoravam a cessão de um território bem maior, incluindo metade da Alemanha a um outro país totalitário, um país que tinha participado da invasão da própria Polônia! Este é o ponto de partida das reflexões de Gustavo Corção, se é verdade que a Alemanha tinha sido derrotada, as democracias tinham cometido um terrível equívoco ao se aliar com um demônio ainda mais perigoso, a União Soviética.

É difícil falar de um livro escrito com tanta paixão como este texto fabuloso de Corção. A história trágica do século XX não estava nas tropas de Hitler, estava na revolução silenciosa que se fazia longe do grande público, na guerra cultural que demoliu o pensamento ocidental e levou ao triunfo do socialismo como novo ente de razão da humanidade. A tragédia do século tinha sido a aliança da Igreja com o socialismo resultando na esquerda católica e corrompendo o cristianismo em sua essência. Um casamento que se formou na França ocupada, dentro da resistência francesa e que resultou no triunfo da corrupção moral de toda uma sociedade, ao triunfo da impostura relativista.

A França é o centro da batalha que se travou na Europa pelos espíritos. Foi palco da maior traição do século. Não foram os exércitos nazistas que derrotaram os franceses no campo de batalha e sim a ação da esquerda francesa que levou ao desarmamento no final da década de 30, assim como a deterioração do espírito nacional. Ao final da guerra, a mesma esquerda não só ficava com os louros da vitória, mas conduziu um processo criminoso que levou seus inimigos aos fuzilamentos sumários enquanto os aliados estavam ocupados guerreando com os nazistas.

Corção não deixa pedra sobre pedra, guiando-nos desde o início do século, desde a eclosão do caso Dreyfus na França, da criação da Action Française, no alerta dos papas contra o grande mal socialista, passando pela tragédia de homens como Maurras, Brasillach, a corrupção moral do clero, e tantos outros acontecimentos. Uma história do século XX que passa ao largo dos livros de história, sempre preocupados com os fatos e deixando de lado as idéias que causaram tantas tragédias.

Corção nos convida a romper o jogo esquerda-direita, um jogo criado pela esquerda e que prende os não esquerdistas em uma armadilha mental intransponível. Em um capítulo memorável, nos mostra que esta dicotomia não tem o menor sentido e que envolve em um mesmo saco todos que por algum motivo não concordam com os valores da esquerda, ou mesmo a falta deles. Em suas próprias palavras:

Não, a esquerda propriamente dita jamais lutou contra a injustiça ou pela justiça; mas frequentemente lutou contra os que, por assim dizer. lhe fazem o favor de praticar certas injustiças. É melhor usar o termo próprio: as esquerdas aproveitam as injustiças, vivem das injustiças, para manter manter em movimento os dois cilindros da motocicleta do progresso na direção da luta de classes.


Gustavo Corção foi um pensador raro no Brasil. Foi um verdadeiro intelectual, ocupado em remover as camadas de imposturas que escondiam as verdades mais básicas. O Século do Nada é um verdadeiro manual para entender como a ideologia progressista se desenvolveu levando as trevas ao pensamento humano.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Reflexos da Inocência

Título Original: Flashbacks of a Fool (2008, Inglaterra)

Chesterton escreveu em Ortodoxia que uma das principais fontes de virtude para a humanidade se encontrava nos contos de fadas. A felicidade, segundo ele, consistia sempre em algo contido, uma situação com limites. Sempre há um "desde que", a pessoa é feliz "desde que não faça isso..". Um símbolo constantemente utilizado nos contos, verdadeiras criações coletivas elaboradas ao longo do tempo, é o cristal. O cristal é um material que pode ser bastante duro e resistente, mas dependendo do golpe quebra em pedaços e nunca mais é concertado.

Um exemplo desta tese é o filme Flashbacks of a Fool, escrito e dirigido pelo criador de video-clip Baillie Walsh, que estreiou com pé direito. A crítica ao filme foi bastante controvertida e na minha opinião o problema deste filme é a falta de compreensão. Na própria sinopse que li a confusão já começava ao afirmar que se tratava de uma estória de vota ao lar depois de vários anos em busca de uma jornada de redenção. Perderam o ponto, o filme trata de causas e consequências, sobre decisão individual e sim, sobre o cristal de Chesterton.

O título brasileiro chegou perto de pegar este espírito com a palavra "reflexos", embora não inteiramente apropriada pois utiliza-se reflexo para uma consequência indireta, distante. O erro maior, entretanto, é a palavra "inocência". Não é a inocência que provocou a desordem de alguns personagens, mas justamente a perda dela.

O filme tem duas partes bem distintas, começando pelos efeitos nos dias de hoje. Joe Scot é um ator famoso, mas decadente, vivendo uma vida de sexo e drogas, sem limite algum. Um mundo monocromático, sem paixão, imerso no tédio de uma vida vazia. Seu resto de consciência moral se resume nos conselhos e reprovações de sua empregada, Eve, que chuta o balde e se prepara para abandoná-lo. É quando recebe um telefonema de sua mãe dizendo que seu companheiro de infância, Boots, faleceu. Começa então o flashback de Joe.

Voltando 25 anos no tempo, Joe é uma adolescente descobrindo a sexualidade em uma pequena aldeia de pescadores na Inglaterra. Possui como vizinha uma mulher casada, com uma filha pequena mas profundamente insatisfeita com a monotonia de sua vida, uma espécie de Madame Bovary da década de 70. Dois movimentos colidem para Joe ao mesmo tempo, a sedução de Evelyn com sua promessa de sexo fácil e a porta do romance que se abre para Ruth, esta sim uma promessa para a vida inteira. A cena que Ruth dubla o clássico do Roxy Music, "If there is somethin" mostra todo o talento de Walsh com o video-clip e dá o tom ao filme. É o momento que Joe guardaria para toda sua vida.

Em um instante, o pobre adolecente é obrigado a fazer uma escolha. Indo para o encontro que iniciaria, de fato, o grande romance de sua vida, é abordado por Evelyn que sozinha em casa o chama para entrar. Alguns segundos de indecisão precedem a decisão fácil de aproveitar as duas ocasiões: ficar com Evelyn e depois ir para o encontro. O problema é que as decisões fáceis nem sempre são as sábias, como logo vai descobrir. Pode parecer que é exigir muito de um jovem deixar passar a oportunidade de viver uma aventura com uma mulher bonita, sedutora e madura, mas talvez seja neste momento que os valores são postos à prova.

Por fim, no dia seguinte, com o futuro romance com Ruth abortado, Joe entrega-se de vez à sua aventura, desta vez com trágicas consequências para muitas pessoas, levando Joe a fugir e nunca mais voltar. Até o momento da morte de Boots, que casara-se com Ruth.

Não é a redenção que Joe busca em sua volta à Inglaterra, mas um pouco de compreensão do vazio que se meteu ou simplesmente a tentativa de voltar a um ponto conhecido, onde a promessa de felicidade era mais real. A redenção, o encontro com a ordem, só possível pelo auto-conhecimento, pode até ser uma consequência, mas Walsh foge do convencional e deixa esta pergunta em aberto. E aqui vejo o grande mérito do filme, a recusa pelo final mais fácil. Fica a dúvida se o que Joe viveu no dia que passou na aldeia que foi criado foi suficiente para dar-lhe uma nova direção em sua vida.

terça-feira, dezembro 15, 2009

The Great Gatsby - Scott Fitzgerald

A década de 20, nos Estados Unidos, foi uma época de grande otimismo, onde nada parecia que poderia dar errado. As pessoas enriqueciam, a bolsa de valores subia sem parar, a I Guerra ficava para trás, o jazz tomava conta do país. Nem tudo eram flores, a sociedade ainda era bastante hierarquizada, a máfia ganhava força e preparava-se para desafiar o país, o desalento moral se aprofundava. Os novos ricos buscavam seu lugar em uma sociedade que não os queria, uma reação aos emergentes.

Fitzgerald narra seu curto e rico romance a partir do ponto de vista de Nick Carraway, um já não tão jovem operador da bolsa de valores que por destino vai morar ao lado da mansão do misterioso Jay Gatsby, um novo rico. O motivo do seu enriquecimento nunca fica claro, mas Nick fica sabendo que o vizinho enriqueceu ao lado do crime, que sua fortuna tem uma origem para lá de duvidosa.

Gatsby tem uma obsessão, retomar o ponto em que parou seu romance com a rica e fútil Daisy, prima de Nick. O romance não prosperou por conta da pobreza do personagem título e Daisy casou-se com um homem rico. A grande questão de Fitzgerald é aquele sonho do retorno ao momento perfeito, ao instante em que acreditamos termos tido a completa felicidade, embora isso tudo seja uma grande ilusão. Gatsby quer o retorno no tempo, a volta ao momento decisivo em que foi deixado de lado, sem perceber que já não eram as mesmas pessoas, que a situações haviam se transformado e que este instante nunca se repetiria da forma como imagina.

The Great Gatsby mostra que um livro não precisa ser grande para contar uma boa estória e nos fazer viajar no tempo. Uma obra sensível que colocou um marco na história literária americana.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Um pouco sobre orçamento e políticas públicas

Escutei ontem na rádio CBN, de Merval Pereira, que o governo brasileiro gasta 77% do seu orçamento em pagamento de pessoal, incluindo previdência. O analista político discutia com Sardenberg sobre a nova benece do executivo: um aumento real de 2,5% para os aposentados que ganham acima do mínimo, lembrando que o próprio salário mínimo teve um aumento real de 100% nos últimos 15 anos.

Sempre foi uma bandeira da esquerda os aumentos reais de salários, seja de ativou ou inativos, impostos pelo governo. Os conservadores e liberais, por sua vez, são obrigados a defender a difícil bandeira do equilíbrio fiscal, opondo-se a estes aumentos. É fácil ver que aos olhos da população, as políticas de esquerda são muito mais populares. Este é um grande problema da política, especialmente nestes dias de exposição intensa, boa parte dos eleitores não possuem conhecimento ou honestidade intelectual suficiente para reconhecer os efeitos não visíveis de medidas como esta. A negação da realidade é uma marca constante da esquerda e de seus eleitores, a maioria realmente acha que basta a boa vontade do governo para resolver os problemas econômicos.

Digo maioria, porque existe uma minoria que sabe exatamente o que está acontecendo. Os políticos da esquerda sabem que um orçamento não aguenta muito tempo este festival de benefícios a custa da sociedade e que um dia o caldo entorna. Por que então tomam medidas demagógicas como essa? Porque sabem que na hora que não estiverem no poder, alguém vai arrumar a casa e ficar com os custos políticos das políticas impopulares. Com a casa arrumada, a esquerda pode voltar faceira ao poder e conceder mais benefícios para os grandes privilegiados de suas políticas: funcionários públicos, sindicalizados e minorias em geral. Quem paga a conta? O restante da sociedade. Governo não cria riquezas. Pode até criar dinheiro, mas isso é outra história.

Na verdade, o grande trunfo da esquerda é a existência de seus adversários e a rotação no poder. Quando governos de esquerda se sucedem, o desastre é inevitável. É um dos problemas do Brasil. Estamos a 15 anos sendo governados pela esquerda e assim ficaremos por no mínimo mais 4. Claro que neste período a situação melhorou muito, principalmente pelo plano real. Sardenberg matou a charada em seu livro "Neoliberal não, Liberal: o PSDB adotou medidas francamente liberais não por convicção, mas por necessidade, aliás com grande dose de vergonha. Vem daí o grande problema da comunicação do governo FHC, os tucanos sempre se envergonharam das medidas que tomaram. Foi uma grande infelicidade que agenda liberal tivesse que ser tocada por um partido anti-liberal, o que originou grandes distorções. Ao invés de utilizar o equilíbrio fiscal atingido com grande esforço pela sociedade para alavancar o desenvolvimento com investimento em infra-estrutura, o fruto do sacrifício foi gasto em políticas sociais de cunho assistencialistas, culminando para a transferência direta de dinheiro com óbvio apelo eleitoral.

Infelizmente estamos perdendo grandes oportunidades e a situação só vai piorar pois a pressão sobre o orçamento é cada vez maior. O Brasil só se manteve até agora pelo excepcional desempenho das empresas que apostaram na modernidade, como as do agronegócio e Vale do Rio Doce, esta pegando bonde no extraordinário crescimento econômico chinês. O país cresceu fruto das medidas ortodoxas da economia e das empresas nacionais e não pelas políticas de esquerda. No geral, elas mais atrapalham que ajudam. O país cresceu a despeito delas e não por causa delas.

O quadro fica ainda mais agravado pelo extraordinário avanço da mídia, permitindo uma exposição sem precedentes dos governantes. A pressão pelas medidas de cunho populares aumentou extraordinariamente o que explica em parte o ressurgimento do populismo na América Latina e agora no próprio Estados Unidos. Obama se mostrou até agora nada mais do que um populista com pedigree. Espero que os americanos tenham mais bom senso que seus companheiros de continente e o coloque para fora nas próximas eleições, começando por tirar o Congresso das mãos dos democratas.

Estou dizendo que devemos lutar contra a tecnologia, colocar obstáculos para a exposição dos políticos? De modo algum. O que aponto é que para conseguir dar conta deste excesso de informações, de boa e má qualidade, é preciso que o indivíduo tenha mais capacidade de análise, que saiba usar a lógica, que consiga ver através das camadas de impostura que caracterizam a política atual. É preciso de um salto na capacidade de raciocinar. Infelizmente a educação moderna, tutelada pelo Estado, tornou-se um instrumento de doutrinação do cidadão, como queria Rousseau. A escola trocou o verbo ensinar por conscientizar. O resultado do cruzamento da educação ideológica com excesso de informações é o afastamento da realidade, é a queda da civilização.

Os resultados estão por aí, para quem quiser ver.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

HEXACAMPEÃO BRASILEIRO 80-82-83-87-92-09


O leitor atento, se é que tenho algum, deve ter reparado no silêncio deste blog sobre o andamento do Campeonato Brasileiro. A razão foi muito simples: superstição. O Flamengo começou a ganhar e lembrei de uma palestra que assisti do Bernadinho. Contanto sobre sua primeira experiência como técnico, treinando uma equipe feminina italiana, ele contou que o time era uma verdadeira baba e em um determinado jogo começou a jogar o que sabia e o que não sabia, virando todas as bolas e dando um show em quadra. O que lembro especialmente em sua estória foi que ele ficou estático no banco e diante da pergunta de seu auxiliar se iria mexer alguma coisa, ele respondeu:

_ Você está louco? Se eu mexer acaba o encanto!

Foi mais ou menos o meu sentimento, se eu escrevesse qualquer coisa iria quebrar o encanto deste time improvável que acabou levando a taça e tirando o Flamengo de uma fila que já levava 17 anos. Sinceramente eu não acreditava que o rubro-negro disputasse este título, contentava-me com a vaga na Libertadores. Inacreditavelmente, o time engrenou, começou a ganhar e seus rivais começaram a despencar pois não bastava ganhar, era preciso que as equipes que estavam na frente também perdessem. Como em uma conspiração dos astros, tudo começou a dar certo de forma tão espantosa que eu não ousei escrever uma única linha sobre o que estava acontecendo. Como Bernadinho, eu não queria quebrar o encanto.

Dizer mais o que? Hexacampeão!

Agora tenho que juntar dinheiro para me defender porque o presidente do Sport está ameaçando processar todo mundo que afirmar que o Flamengo possui 6 títulos brasileiros...

Complexo de inferioridade é coisa para Freud...

domingo, dezembro 06, 2009

O Rei Lear - William Shakespeare

O Rei Lear está velho e cansado. Sem um filho homem, resolve dividir seu reino entre suas três filhas e viver uma "aposentadoria", dedicando-se à caça e vivendo as custas das três. o problema é que sua capacidade de discernimento não é mais a mesma, junto com a velhice, perde rapidamente a prudência, aquela virtude que orienta os atos para os fins justos.

Sua desgraça começa na hora da partilha onde contenta-se com elogios vazios feitos por suas duas filhas casadas e não consegue compreender que a recusa da filha mais nova em se casar era a prova de amor que tanto queria. Cordélia, uma das maiores criações do bardo, é deserdada e casa-se com o rei francês, o único que a aceita sem dote.

Em qualquer obra de Shakespeare, é impressionante sua capacidade de transladar para os palcos uma visão ampliada da natureza humana. Em Rei Lear, seu talento chega à maturidade. A quantidade de dramas humanos representados por uma grande quantidade de personagem é impressionante. Temos vingança, inveja, luxúria, desejo de poder, angústia, honra, coragem, sacrifício, amor, calúnia, orgulho, vaidade e tantos outros. Não há um personagem principal na peça, todos tem seu momento de brilho, seu diálogo inspirado. Rei Lear é um tratado sobre a miséria e redenção do homem.

Abrindo o livro ao acaso, deixo esta passagem, nas palavras de Lear:

Oh, não vamos discutir necessidades! Nossos miseráveis mais miseráveis sempre têm alguma coisa que é supérflua às suas necessidades miseráveis. Se concedermos à natureza humana apenas o que lhe é essencial, a vida do homem vale tão pouco quanto a do animal.

sábado, dezembro 05, 2009

A Queda - As Últimas Horas de Hitler


Assistir este excelente filme alemão que mostra os acontecimentos derradeiros do bunker onde Hitler se refugiou nos últimos dias de abril de 1945 e a desesperada defesa de Berlim foi uma experiência angustiante. Não é fácil contemplar a face humana da maldade, a convivência de sentimentos tão conflitantes e radicalmente opostos na mesma pessoa, e isso não vale só para Hitler.

É fácil querer considerá-lo uma espécie de demônio e exclui-lo da humanidade, uma solução confortável para uma alternativa difícil de lidar, de que um homem seja capaz das maiores atrocidades por um ideal. Este talvez seja o grande desconforto do filme, contemplar a mistura de um ditador capaz de ser gentil e cruel em medidas extremas nos faz perceber que o mal existe dentro do homem, qualquer um. Não estou dizendo que todo mundo seja capaz de chegar ao extremo que ele chegou, mas todos têm seus próprios demônios para lidar. Acreditar que não se pode cair é o primeiro passo para a queda, como já dizia Chesterton.

Naquele bunker reuniu-se os vários tipos de personalidades que tornaram possível o nazismo. Os fanáticos seguidores, como Goebbels e sua esposa; os totalmente alienados, como Eva Brawn, capaz de dar um baile no meio de um bombardeio; as pessoas boas que fecharam os olhos para o que estava acontecendo, como a secretária que "narra" os acontecimentos; o soldado alemão por excelência, que despreza o nazismo mas por um sentimento forte de pátria se obriga a defendê-lo, como Weidling; os oportunistas que rondam o poder, como Himmler. Todos estes fizeram parte da camarilha nazista e representam o povo alemão de sua época. A Junge real acerta no ponto principal em sua última fala do filme, era possível entender a real natureza do nacional-socialismo. Houveram aqueles que compreenderam e recusaram-se a participar, muitas vezes com o sacrifício das próprias vidas. Insistir que todos os alemãos foram culpados por sua desgraça é profundamente injusto com estes, dizer que foi um truque de Hitler é tirar a responsabilidade moral de todos estes personagens que aproveitaram-se de alguma forma deste rompimento com a realidade que tomou conta da sociedade alemão, uma sociedade que encontrava-se em profunda desordem espiritual.

Destaco no filme algumas caracterizações. Bruno Ganz dá uma ala de interpretação, um desempenho que honra as grandes atuações da história. Não falo aqui da semelhança física, algo que considero irrelevante e superestimado no cinema, mas na completa emoção que transmite ao interpretar um personagem tão rico em dicotomias. O mesmo vale para a atriz que faz Magda Goebbels; a cena em que mata calmamente seus seis filhos e depois vai jogar paciência é a mais chocante do filme. Consegue dar toda a intensidade deste momento da intensa imbecilidade que foi necessária para aceitar o nazismo.

A Queda é mais do que um retrato de Hitler em seu desespero em ter que aceitar a dura realidade do fracasso do seu sonho. É um retrato do que a sociedade alemão tinha de pior em sua época e que sem ela Hitler teria morrido como um veterano de guerra com idéias esquisitas. É um retrato da busca pelo heroísmo de um bando de covardes, a começar pelo ditador, todos cometendo suicídio para não ter que lidar com a responsabilidade de seus atos.

O filósofo alemão Eric Voegelin estava certo. O nazismo foi um movimento que rompeu com a realidade de uma forma nunca antes vista e as consequências foram funestras para a humanidade. A Alemanha nazista foi o resultado de uma nação de idiotas que se deixou liderar por um idiota homicida. O filme mostra o epílogo deste pesadelo.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Grande Qualidade de Vida - João Ubaldo Ribeiro

Antigamente, não havia qualidade de vida. Quer dizer, não se falava em qualidade de vida. Agora só se fala em qualidade de vida e, em matéria de qualidade de vida, sou um dos sujeitos mais ameaçados que conheço. Na verdade, me dizem que venho experimentando uma considerável melhora de qualidade de vida, mas tenho algumas dúvidas.

Minha qualidade de vida, na minha modesta opinião pessoal, não tem melhorado essas coisas todas, com as providências que me fazem tomar e as violências que sou obrigado a cometer contra mim mesmo.

Geralmente suporto bem conversas sobre qualidade de vida, mas tendo cada vez mais a retirar-me do círculo ou recinto onde me encontro, quando começam a falar nela.
A comida mesmo me faz estar considerando, no momento, comprar uma balança de precisão e um computador de bolso com um programa alimentar especial. Antes eu comia do que gostava. Fui criado, por exemplo, com comida frita na banha de porco ou, mais tarde, na gordura de coco. Meus avós, todos mortos depois dos noventa (com exceção do que só comia o saudabilíssimo azeite de oliva — e ele morreu de AVC) comiam banha de porco e torresmo regularmente, mas, claro, ainda não tinha sido informados de que se tratava de prática mortal. Aliás, comida saudável, que se ensinava nos manuais até para crianças, era composta de leite integral, ovos, pão (com manteiga), carne vermelha ou peixe — frito, então, era uma maravilha para estômagos delicados — frutas e legumes à vontade.

Depois disso, até atingirmos a atual qualidade de vida, fulminaram o leite. Alimento completo, passou a ser encarado com desconfiança, e hoje não sei de ninguém que beba leite integral, a não ser, talvez, algum gorila do Zoológico. O ovo sofreu ataque violentíssimo, assim como o açúcar, a ponto de, tenho certeza, várias receitas tradicionais de doces serem hoje achados arqueológicos, e as poucas que restam constituam uma imitação desenxabida das que empregavam ingredientes normais e não essas massas e líquidos insossos que vivem distribuindo, como leite, manteiga etc. Claro, mudaram de idéia a respeito do ovo recentemente, mas a mudança de idéias deles só pode ser vista com desconfiança.

Não houve o tempo, e não é preciso ser nenhum Matusalém para lembrar, em que para substituir a manteiga era exigida margarina, alimento saudabilíssimo, que não fazia nenhuma das monstruosidades operadas pela manteiga? O negócio era margarina e durou bastante, até que descobriram que margarina pode ser até pior do que manteiga. Melhor, na verdade, abolir manteiga inteiramente. E margarina, claro, nem pensar. Carne vermelha é uma abominação. Carne de porco é um terror.

Vísceras de qualquer tipo devem ser evitadas como o diabo foge da cruz. Açúcar, meu Deus! Sorvete? Só para crianças, e crianças de pais irresponsáveis. Aliás, é um bom desafio achar algo unanimemente aprovado pelos nutricionistas, a não ser, tudo indica, capim.

Mas ninguém pode viver de capim, de maneira que, relutantemente, deixam a gente comer uma coisinha qualquer, contanto que não ultrapassemos o limite de calorias e não ingiramos o proibido e, mesmo assim, com restrições. Peixe cozido ou grelhado, por exemplo,
geralmente pode, mas paira sobre seu infeliz consumidor a ameaça de que não esteja fresco ou esteja contaminado por metais pesados e pelo lixo que jogam em rios e mares. Peito de frango (e eu que sou homem de coxas e antecoxas) também assusta, por causa dos hormônios que dão às galinhas e as neuroses que elas desenvolvem, nascendo sem mãe e sendo criadas em cubículos em que mal podem se mexer, a ponto de terem de ser debicadas, para não se autodevorarem histericamente. Ou seja, mesmo comendo um peito de galinha sem uma gota de qualquer
gordura e acompanhado somente por matos e alguns legumes (cuidado com a contaminação de tomates, cenouras e alfaces!), o infeliz se arrisca.

Mas vou usar o computador para calcular as calorias, as gorduras e outras características de cada refeição, porque, agora que minha qualidade de vida está melhorando a cada dia, preciso ser coerente.

Fumar, não mais, nem uma pitadinha depois do café (que ninguém sabe direito se faz bem ou faz mal, temperado com adoçante, que também ninguém sabe se faz bem ou faz mal). Beber, esqueça, vai deixar você demente aos 60, além de dar cirrose e hepatite. O famoso copinho de vinho, além de ser uma porção ridícula, também está sendo questionado no momento. Parece que não é bem assim, e uma autoridade no assunto disse outro dia no jornal que o melhor é tomar suco de uva — não industrializado, é claro, por causa dos aditivos.

Restam também os exercícios. Fico felicíssimo, quando, suando e bufando no calçadão, sinto o ar fresco invadir os meus pulmões (preferia logo uma tenda de oxigênio), as pernas doendo e a certeza de que minha qualidade de vida vai cada vez melhor. Até minha pressão arterial (13 a 14 por 8), que era considerada boa para minha idade, agora já é alta e o pessoal dos 12 por 8 já começa a entrar na faixa de risco. Enfim, é duro manter esta boa qualidade de vida, ainda mais agora que me anunciam que caminhadas somente não bastam, tem de malhar também. Ou seja, temos que nos dedicar o tempo todo a manter nossa qualidade de vida. Mas, aqui entre nós, se vocês no futuro virem um gordão tomando caldinho de feijão com torresmo no boteco, depois de um chopinho, e o acharem vagamente parecido comigo, talvez seja eu mesmo, sofrendo de uma pavorosa qualidade de vida. A diferença é grande. Tanto eu quanto vocês vamos morrer do mesmo jeito, mas vocês, depois da excelente qualidade de vida que estão desfrutando aí com sua rúcula com suco de brócolis, vão ter uma ótima qualidade de morte, falecendo em perfeita saúde e eu lá, no meu velório, com um sorriso obeso e contente no rosto dissoluto.