segunda-feira, dezembro 21, 2009

Espinosa (Série Mestres do Pensar) - Roger Scruton

É os segundo livro que leio desta coleção, o primeiro foi sobre Leibniz. Achei muito interessante os dois, excelentes introdução ao pensamento destes dois filósofos, sem deixar de tentar penetrar na natureza de suas filosofias. É comum que livros deste tipo se prendam mais à biografia dos autores do que suas idéias. Felizmente não é o caso dos dois livros que li.

Coube a Roger Scruton a tarefa de falar de Espinosa, o que faz com muita clareza e objetividade. Nem todos os pensamentos do filósofo espanhol são fáceis de serem acompanhados, muitos exigem conhecimentos básicos de filosofia e reflexão, o que valoriza ainda mais o trabalho de Scruton em tentar expô-los.

Scruton divide o estudo sobre o filósofo em quatro partes: Deus, o homem, liberdade e corpo político.

Espinosa acreditava que apenas Deus poderia ser concebido como substância, ou seja, apenas Deus existe de fato. É interessante este ponto de vista para um autor que foi renegado por todas as religiões de sua época e tratado como ateu. Pelo que entendi, Espinosa não questiona Deus e sim a idéia que se tem dele. As religiões foram construídas a partir de supertições que deveriam ser removidas para que se pudesse contemplar Deus como verdade, com a força do intelecto.

Para ele, tudo mais existia em completa interdependência, o que leva a certas implicações perturbadora para a autocompreensão humana. "A pessoa individual não é, ao que parece, um indivíduo". Se tudo acontece por necessidade, como Espinoza afirma, qual o espaço então para a moral?

A parte mais original da filosofia de Espinosa consiste em sua tentativa de responder aos três problemas que esboçamos __ o problema do espírito e do corpo, o da existência individual e o da liberdade __ e, ao fazê-lo, reconciliar a busca da felicidade com o conhecimento de Deus.


Espinosa tira o "eu" da reflexão filosófica. O conhecimento só seria possível quando o sujeito fosse eliminado da descrição do que é conhecido, que existe a concepção absoluta. Isso tem reflexões profundas na ética pois o "eu" também desaparece das considerações morais pois o homem nada mais é do que um dos modos de Deus, que tudo governa. O caminho para o homem é superar suas paixões e emoções para agir de acordo com a natureza das coisas, só assim teria liberdade.

No entanto, o homem simples não são homens livres pois são conduzidos pela imaginação e permanecem na ignorância. A política entra em sua discussão quando é necessário organizar a sociedade para que estes homens possam viver em harmonia. Vale citar o pensamento de Espinosa sobre o verdadeiro fim de um governo:

O objeto do governo não é transformar os homens racionais em animais ou bonecos, mas capacitá-los a desenvolver seus espíritos e corpos em segurança, e a empregar sua razão sem empecilhos; nem exibindo ódio, raiva ou logro, nem vigiando com os olhos da inveja e da injustiça. Com efeito, o verdadeiro fim do governo é a liberdade.


Se o livro de Scruton é apresentar os contornos de um pensamento complexo como o de Espinosa, esta resenha no máximo mostra algumas faces dos problemas que o filósofo se dedicou em vida. Longe de captar as várias idéias apresentadas por Scruton, seu livro despertou-me as primeiras dúvidas e curiosidades, o que sempre é um bom começo para a filosofia.

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