quinta-feira, dezembro 10, 2009

Um pouco sobre orçamento e políticas públicas

Escutei ontem na rádio CBN, de Merval Pereira, que o governo brasileiro gasta 77% do seu orçamento em pagamento de pessoal, incluindo previdência. O analista político discutia com Sardenberg sobre a nova benece do executivo: um aumento real de 2,5% para os aposentados que ganham acima do mínimo, lembrando que o próprio salário mínimo teve um aumento real de 100% nos últimos 15 anos.

Sempre foi uma bandeira da esquerda os aumentos reais de salários, seja de ativou ou inativos, impostos pelo governo. Os conservadores e liberais, por sua vez, são obrigados a defender a difícil bandeira do equilíbrio fiscal, opondo-se a estes aumentos. É fácil ver que aos olhos da população, as políticas de esquerda são muito mais populares. Este é um grande problema da política, especialmente nestes dias de exposição intensa, boa parte dos eleitores não possuem conhecimento ou honestidade intelectual suficiente para reconhecer os efeitos não visíveis de medidas como esta. A negação da realidade é uma marca constante da esquerda e de seus eleitores, a maioria realmente acha que basta a boa vontade do governo para resolver os problemas econômicos.

Digo maioria, porque existe uma minoria que sabe exatamente o que está acontecendo. Os políticos da esquerda sabem que um orçamento não aguenta muito tempo este festival de benefícios a custa da sociedade e que um dia o caldo entorna. Por que então tomam medidas demagógicas como essa? Porque sabem que na hora que não estiverem no poder, alguém vai arrumar a casa e ficar com os custos políticos das políticas impopulares. Com a casa arrumada, a esquerda pode voltar faceira ao poder e conceder mais benefícios para os grandes privilegiados de suas políticas: funcionários públicos, sindicalizados e minorias em geral. Quem paga a conta? O restante da sociedade. Governo não cria riquezas. Pode até criar dinheiro, mas isso é outra história.

Na verdade, o grande trunfo da esquerda é a existência de seus adversários e a rotação no poder. Quando governos de esquerda se sucedem, o desastre é inevitável. É um dos problemas do Brasil. Estamos a 15 anos sendo governados pela esquerda e assim ficaremos por no mínimo mais 4. Claro que neste período a situação melhorou muito, principalmente pelo plano real. Sardenberg matou a charada em seu livro "Neoliberal não, Liberal: o PSDB adotou medidas francamente liberais não por convicção, mas por necessidade, aliás com grande dose de vergonha. Vem daí o grande problema da comunicação do governo FHC, os tucanos sempre se envergonharam das medidas que tomaram. Foi uma grande infelicidade que agenda liberal tivesse que ser tocada por um partido anti-liberal, o que originou grandes distorções. Ao invés de utilizar o equilíbrio fiscal atingido com grande esforço pela sociedade para alavancar o desenvolvimento com investimento em infra-estrutura, o fruto do sacrifício foi gasto em políticas sociais de cunho assistencialistas, culminando para a transferência direta de dinheiro com óbvio apelo eleitoral.

Infelizmente estamos perdendo grandes oportunidades e a situação só vai piorar pois a pressão sobre o orçamento é cada vez maior. O Brasil só se manteve até agora pelo excepcional desempenho das empresas que apostaram na modernidade, como as do agronegócio e Vale do Rio Doce, esta pegando bonde no extraordinário crescimento econômico chinês. O país cresceu fruto das medidas ortodoxas da economia e das empresas nacionais e não pelas políticas de esquerda. No geral, elas mais atrapalham que ajudam. O país cresceu a despeito delas e não por causa delas.

O quadro fica ainda mais agravado pelo extraordinário avanço da mídia, permitindo uma exposição sem precedentes dos governantes. A pressão pelas medidas de cunho populares aumentou extraordinariamente o que explica em parte o ressurgimento do populismo na América Latina e agora no próprio Estados Unidos. Obama se mostrou até agora nada mais do que um populista com pedigree. Espero que os americanos tenham mais bom senso que seus companheiros de continente e o coloque para fora nas próximas eleições, começando por tirar o Congresso das mãos dos democratas.

Estou dizendo que devemos lutar contra a tecnologia, colocar obstáculos para a exposição dos políticos? De modo algum. O que aponto é que para conseguir dar conta deste excesso de informações, de boa e má qualidade, é preciso que o indivíduo tenha mais capacidade de análise, que saiba usar a lógica, que consiga ver através das camadas de impostura que caracterizam a política atual. É preciso de um salto na capacidade de raciocinar. Infelizmente a educação moderna, tutelada pelo Estado, tornou-se um instrumento de doutrinação do cidadão, como queria Rousseau. A escola trocou o verbo ensinar por conscientizar. O resultado do cruzamento da educação ideológica com excesso de informações é o afastamento da realidade, é a queda da civilização.

Os resultados estão por aí, para quem quiser ver.

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