quarta-feira, dezembro 08, 2010

Top 5: Músicas 2010

Estas foram as cinco músicas que marcaram para mim o ano de 2010, sem ordem estabelecida:

  1. Cold Fire - Rush: este ano fui em um dos melhores shows da minha vida, o da turnê Time Machine da banda canadense Rush. Foram muitos grandes momentos, mas confesso que não conhecia nenhuma das 3 músicas qu tocaram do disco Counterparts, de 1993. Depois, vendo o excepcional documentário Beyond The Lighted Stage, talvez o melhor que já tenha assistido, fiquei sabendo que se tratava do retorno do Rush ao rock básico depois de uma década de experiências com teclados na onda dos anos 80. Acabei comprando o disco e achei um grande trabalho. A penúltima música do disco acabou ficando como minha favorita e como marco deste fim de ano de muito Rush na veia. Uma música com clima, grandes passagens, bateria precisa, letra inspirada de Peart, ou seja, tudo que a banda sabe fazer de melhor.
  2. Whatever You Want - Status Quo: rock sujo e básico. Já conhecia mas não sabia que era do Status. Escutei em seguida muitas vezes e o riff de guitarra ficou preso na mente.
  3. In The Street - Big Star: seguindo indicação do podcast do poeirazine fui conhecer esta banda. In The Street serviu de base para a abertura do seriado "That 7th Show" e foi um tema constante nas muitas viagens de ônibus no curso que fiz este ano. Vai me lembrar sempre das paisagens passando pela janela.
  4. Hold On - Deep Purple: nunca tinha prestado maior atenção a esta música perdida no subestimado disco Stormbringer do Purple. Bonito solo de guitarra de Blackmore e ritmo com dedo do Glenn Hughes.
  5. Rainbow in the Dark - Dio: 2010 foi também o ano que o grande vocalista do Metal nos deixou. Escutei muito do trabalho do Dio em suas várias bandas e a música que ficou marcante foi o maior sucesso de sua carreira solo. De uma hora para outra a canção passou a provocar arrepios. Dio na sua melhor forma.

quinta-feira, novembro 18, 2010

Pedagogia... da ideologia!

Pedagogia da Autonomia
Saberes necessários à prática educativa
Paulo Freire, 1996
Editora Paz e Terra

Paulo Freire foi um dos mais influentes educadores brasileiros e publicou este pequeno livro um ano antes de sua morte. Pernambucano, dedicou sua vida ao estudo dos problemas da educação sob a ótica da pobreza e da indignação com as injustiças sociais.

Pedagogia da Autonomia é sua palavra final sobre o processo educativo de maneira geral, tanto para crianças quanto para jovens e adultos. É sua tentativa de dar um fecho ao seu pensamento, tentando colocar quais seriam os pontos para a prática educativa, que envolve tanto discentes quanto docentes. Sua mensagem é dirigida particularmente para o que denominou "professores progressistas", justamente aqueles que estariam empenhados na busca de um novo mundo através da revolta constante contra as injustiças sociais e o domínio das elites econômicas. Seu alvo é o chamado "professor reacionário" que estaria preocupado em transmitir conhecimentos estéreis como forma de manter a população na ignorância para não alterar o status quo.

Para Freire, não há docência sem discência. Professor e aluno são igualmente sujeitos no processo ensino aprendizado e o grande papel do professor não seria transmitir conhecimento, mas ensinar o aluno a pensar certo. Para tanto, deveria estimular no aluno e em si mesmo a curiosidade que levaria de uma ingenuidade inicial para um estado de dúvida metódica ao dedicar-se com rigor à busca dos saberes de cada objeto. Outro ponto importante é que os saberes do educando deveriam ser respeitados e que seria fundamental o reconhecimento e a assunção da identidade cultural tanto do professor quando do aluno. O aluno teria que tomar consciência de que era explorado por um cultura neoliberal e que tinha um papel ativo para não só se revoltar contra o sistema injusto como para provocar uma revolução contra as elites dominantes.

Desta forma, ensinar não é simplesmente transmitir conhecimento, mas entender que o educando é sujeito de uma história em movimento, composta de processos dialéticos, condicionado por um sistema cujas principais ferramentas era o domínio midiático e o papel exercido pelos professores reacionários que transmitiam aos alunos a idéia de fatalismo deterministas, que se expressaria na constatação que a pobreza sempre existiria no mundo. A educação progressista era o instrumento para a mudança necessária à sociedade pois transmitia que a mudança era não só possível como uma questão de justiça.

Por fim, defende a especificidade humana da educação que exige segurança, competência profissional e segurança por parte do professor. Mais do que isso, exigia que o professor estivesse comprometido com o processo de transformação do mundo e que entendesse que a educação é essencialmente ideológica.

Lendo as páginas de Pedagogia da Autonomia senti uma grande tristeza pelo enorme desperdício de capacidade que a ideologia provoca em um intelectual. Freire consegue ver os grandes problemas que marcavam a prática pedagógica no Brasil. Realmente o processo ensino-aprendizado baseado inteiramente no professor e com alunos apáticos recebendo conteúdos era uma constatação de muitos casos. O grande problema de Freire, e de todos os que se deixaram levar pelos sonhos ideológicos, é que tudo que vê é filtrado pelas lentes da ideologia e o mundo que descreve começa a ficar longe da realidade.

Se lembrarmos de nossa escola, vamos perceber nitidamente que haviam professores autoritários como descritos por Freire, mas havia também uma série de bons professores e alguns deles de pefil autoritários. Longe de defender um modelo de ensino que teve sua época, e foi capaz de gerar toda a ciência moderna, a velocidade de informações do mundo moderno exige a gradual transformação da forma de ensinar, ainda mais quando se vai desvendando os processos mentais envolvidos na aprendizado; embora estejamos longe de entender realmente como conhecemos as coisas.

Ao dividir o mundo em classe exploradora e classe explorada, seguindo a utopia socialista, Freire se torna incapaz de ver o mundo e o resultado são as distorções que apresenta em Pedagogia da Autonomia. É capaz de condenar a influência da ideologia na educação, mas para ele a ideologia é o neoliberalismo; o socialismo seria apenas um grito de socorro dos oprimidos. A autonomia que defende é uma prisão mental, onde o indivíduo deixaria uma possível apatia fatalista pelas lentes ideológicas do processo revolucionário. Refletindo seriamente, qual a pior prisão?

As idéias de Freire estão na raiz da transformação que as escolas brasileiras foram submetidas nas últimas décadas a partir dos cursos de pedagogia e licenciatura: o professor autoritário e conservador que Freire enxergava foi sendo substituído pelo professor progressista cheio de boas intenções que considera ensinar português e matemática um coisa menor, o mais importante era educar para a cidadania, entendida aqui sob o ponto de vista revolucionário de inspiração marxista. Fica fácil entender como o Brasil chegou às questões do ENEM que cobra cada vez mais a visão progressista do mundo do que o conhecimento necessário para que a pessoa possa pensar por si mesma.

Freire parece ignorar que uma criança encontra-se em uma posição altamente influenciável por seu professor ao defender que este aproveita a prática pedagógica para mostrar sua visão de mundo e confiar que um "debate" entre professor e aluno levará ao conhecimento através do processo "dialético" que caracteriza o processo ensino-aprendizado. O que propõe é simplesmente o estupro ideológico, com todas as consequências que vemos hoje nas escolas do país, tanto públicas quanto privadas.

Fala-se muito sobre a transformação educacional no Brasil, talvez o primeiro passo seja extirpar dela os componentes ideológicos que foram instituídos a partir de idéias como as de Paulo Freire. Existem uma série de idéias aproveitáveis de seu trabalho, o que se faz necessários é limpá-las da ideologia e colocá-las a serviço da verdadeira educação, a que não está preocupada que o aluno aprenda a "pensar certo" sobre determinada ótica, mas que consiga pensar sobre a verdadeira natureza das coisas. O que sempre será impossível para uma mente formatada pela ideologia, pelo menos enquanto não se libertar das amarras que foram impostas pela "pedagogia da autonomia".

terça-feira, novembro 16, 2010

Voltando

Confesso que o desânimo foi grande depois da eleição desta besta quadrada para a presidência da república. Embora esta frase pareça indicar uma revolta, até que estou em um momento de bastante serenidade em relação a isso tudo pois usei a expressão besta quadrada com todo rigor técnico que o termo exige.

Olhando os números e refletindo com um pouco mais de distância, tendo a achar que o resultado foi até surpreendente. Não sou dos que acham que deve-se comemorar derrotas, mas que Dilma tenha vencido no segundo turno e tenha tido 44% de votos contrários é de estranhar. Se observarmos que a campanha tucana foi sofrível de ruim, que o presidente usou sem nenhuma vergonha toda a máquina pública a favor de sua criação, que a candidata tenha mentido para valer sem uma contradição (nem mesmo de seu adversário), que o momento econômico era francamente favorável ao governo (neste sentido até a crise econômica ajudou pois segurou a expansão de 2009 para acumulá-la com a de 2010, dando a sensação que o momento era ainda melhor do que efetivamente é), em resumo, levanto estes fatores em consideração era de se imaginar que a vitória do bando que se alojou no poder seria acachapante. A frustração e constatação que Dilma era tão ruim que poderia ter perdido se os tucanos fossem um pouco mais competentes e se Serra não fosse tão ruim de combate. Não precisava ser muito inteligente, bastava seguir o contrário do que os petistas queriam.

Bem, tudo isso é passado. O fato é que em janeiro essa imbecil, novamente uso o termo no sentido técnico, assumirá a presidência aumentando ainda mais a degradação que começou com a eleição do asqueroso que a antecede.

Não dou dos que culpam o povo sem instrução pela eleição desta coisa até porque a adjetivação sem instrução já diz tudo. O que se pode esperar de quem está na base da pirâmide de Maslow tentando sobreviver? Como pensar em outra coisa que não seja o dinheiro fácil através do assistencialismo?

Não, o problema não está no Norte e Nordeste, está no coração do país, na região sudeste, mais precisamente nas camadas mais informadas. Ah, mas Serra venceu neste seguimento. É mesmo? A grande pergunta é: com que margem? Como é possível que se encontre entre pessoas que tiveram acesso a melhor educação do país grupos de 30, 40% de pessoas dispostas a votar no PT depois de toda esta roubalheira a céu aberto de 8 anos de governo Lula? Talvez esta eleição diga mais sobre a "melhor educação do país" do que sobre nordestinos e pobres. O prêmio absurdo dado a Chico Buarque, outro imbecil, mostra a que ponto chegamos. Realmente, não existem mais alta cultura no Brasil e isso está na raiz de grande parte de nossos problemas.

O primeiro passo para restaurar a sanidade da nação não é reforma política ou ganhar eleições. O primeiro passo é simplesmente restaurar a alta cultura brasileira. Há 50 anos atrás tínhamos Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Mário Ferreira dos Santos, Gustavo Corção, etc. Hoje temos o que? Chico Buarque? Marilena Chauí? Só pode ser brincadeira! E ainda se encontra que defenda a existência do Ministério da Educação! E com esse nome!

Quem não acordou para a sistemática distruição da alta cultura no Brasil deveria abrir o olho. Começou lá trás, ainda no regime militar e seus frutos são vistos agora. A destruição espiritual do brasileiro comum, a confusão mental que nosso povo é submetido por ideólogos içados a posições que nunca deveriam ocupar.

Sim, perdemos mais uma batalha e a guerra parece definitivamente perdida também com a perspectiva de um futuro político mexicano de permanência de um único partido no poder, ganhando ou perdendo eleições.

Será que não há esperanças?

Se uma coisa dois milênios de cristianismo nos ensinou é que sempre há espaço para esperanças.

Existe um esforço para restaurar a alta cultura no Brasil, mas é melhor que continue fora dos holofotes. Há uma nova elite cultural sendo formada na surdina no país. Se a decadência começou com a perda da cultura, a restauração deve começar por ela também.

É nossa única esperança.

sábado, novembro 06, 2010

Destruindo mitos

Lituma nos Andes (1993)
Mario Vargas Llosa, Tradução de Josely Vianna Baptista

Vivemos uma época de mitos. Não por acaso, já que vivemos uma explosão nas formas de comunicação, na rapidez como uma informação se difunde de parte a parte no globo. Cada vez é mais comum escutar que está se vivendo um momentos histórico, mesmo antes da história ser feita, uma antecipação do que ainda estar por vir. Não importa a consistência do mito criado, o que conta é a sua difusão.

Mario Vargas Llosa é um escritor corajoso. Não se deixa pautar pela patrulha politicamente correta e mostra seu olhar sobre a existência humana em todas as suas faces. Não por acaso, uma de suas referências constantes é o genial escritor Albert Camus, outro que se distinguia pela integridade intelectual. Embora ambos tenham se caracterizado por fortes posições políticas, nenhum deles dedicou-se a construir obras ideológicas, ao contrário, procuravam expressar em suas obras a autenticidade das experiências reais.

Em Lituma nos Andes, obra que escreveu em 1993, depois da derrota eleitoral no Peru, o mais novo Nobel da literatura mostrou uma das faces de mitos do século XX, a face da irracionalidade. Ao acompanhar a aventura do Cabo Lituma, personagem extraído de "A Casa Verde", e de seu auxiliar da guarda civil em um pequeno posto de proteção a uma obra rodoviária no alto dos Andes, Llosa mostra que a realidade pode ser muito diferente do que se propaganda por aí.

Na década de 90, o Peru ainda sofria com um dos mais sanguinários grupos armados do continente, o Sendero Luminoso. Assim como as FARCs, sua pregação marxista seduzia e ainda seduz intelectuais do mundo inteiro, que fecham os olhos para suas atrocidades e tentam justificar a opção pela violência por uma concepção racional de sua luta política. Esta visão é destruída por Llosa neste pequeno romance.

Quando um professor francês insiste em fazer uma viagem por terra em uma região de atuação do Sendero, sonhando em mostrar para seus alunos slides de sua viagem com a namorada, pensava que sua situação de turista e simpatizante com o Peru seria seu passaporte para evitar problemas. Descobriu o ar de indiferença do jovens guerrilheiros ao seus protestos enquanto tenta fazer perguntas racionais para pessoas que agem seguindo critérios absolutamente irracionais, de ideologia pura.

O mesmo acontece com uma aldeia peruana que é atacada pelo Sendero e se une a eles no julgamento dos "opressores" e, principalmente, de suas condenações. Uma das passagens mais marcantes é de uma idosa pesquisadora européia que tenta explicar para um grupo de guerrilheiros que seu único interesse é científico, de defesa do meio ambiente, e que não se envolve em questões políticas. A frase de seu auxiliar é cortante:

"_ Escutam, mas não ouvem nem querem saber o que se diz a eles (...) Parecem de outro planeta."

Depois de contar toda sua estória a eles e mostrar suas simpatias, tentando persuadi-los pela razão, um guerrilheiro diz a ela: "Esta é uma guerra e você é um peão do inimigo de classe (...) Você nem mesmo percebe que é um instrumento do imperialismo e do Estado burguês. E ainda por cima se dá ao luxo de ter boa consciência, de sentir-se a grande samaritana do Peru. Seu caso é típico".

O principal mito que Llosa ataca não é propriamente o Sendero Luminoso, mas a crença que se pode ter uma atitude neutra diante de uma guerrilha que usa a violência como forma de atuação, uma crença arraigada nos intelectuais de esquerda e que trazem grande desgraças para os que acreditam nessas teses. Ou você faz parte do terror ou é um inimigo, não há meio termo.

Llosa também é implacável em mostrar os métodos e a crueldade da forças policiais e militares do Peru. Não assume a defesa de um grupo diante do outro, para ele, os dois lados da moeda se deixam levar pela irracionalidade e pelo completo desrespeito à dignidade da pessoa humana.

O livro, entretanto, não é apenas sobre o Sendero, mas também sobre certos mitos relacionados aos indígenas. Esqueçam o bom selvagem de Rousseau, o que aparece nos Andes retratado pelo escritor é um povo extremamente místico que vive sob constante medo dos guerrilheiros e das próprias forças estatais. A desconfiança e a falta de solidariedade são traços marcantes que Lituma logo identifica nos habitantes locais enquanto tenta ganhar-lhes a confiança. '

O fio condutor da obra é o desaparecimento de três pessoas que participam da construção da estrada e que aos poucos vai levando Lituma para um universo de supertições e antigos rituais. O ponto chave para entender o alcance do livro é o diálogo entre Lituma e um professor dinamarquês que passava as férias nas serras do Peru há 30 anos. O professor mostra um entendimento da história inca maior do que os próprios peruanos e faz referência a um antigo povo que havia sido conquistado pelos incas.

"_ Melhor dizendo, apagada pelos incas _ corrigiu. _ Eles fizeram uma boa fama e desde o século XVIII todos falam de uns conquistadores tolerantes, que adotavam os deuses dos vencidos. Um grande mito. Como todos os impérios, os incas eram brutais com os povos que não se submetiam a eles docilmente."

Mais adiante o professor acrescenta sobre os huancas:

"Claro que eram umas bestas. Algum povo da antiguidade passaria no teste? Qual deles não foi cruel e intolerante, julgado da perspectiva de hoje?"

Quando perguntam ao professor porque ele continuava a vir ao Peru, o que o país tinha que despertava esta paixão em alguns estrangeiros. O professor responde rindo: "É um país que ninguém entende. E não há nada mais atraente que o indecifrável, para pessoas de países claros e transparentes como o meu".

A um certo ponto, Lituma desiste de tentar levar a justiça os responsáveis pelo desaparecimento dos três homens, quer apenas saber o que aconteceu com eles. É advertido. Desista daquela estória, nada de bom tinha em descobrir o destino deles. Não acredita, continua procurando. Junto com o leitor descobre que aquele tinha sido o melhor conselho que respondeu na obra.

Para não dizer que Llosa fez um livro apenas sobre a violência irracional, também contou uma estória de amor irracional. Um amor altamente improvável entre uma prostituta e o guarda costas de um chefe do crime, uma estória que corre paralela, mas não no espaço e no tempo, com as investigações de Lituma. É essa estória que carrega consigo uma esperança no meio de tanto caos, uma esperança que em "A Casa Verde" Vargas não deu ao leitor.

Por mais irracional que seja o mundo, e talvez até por causa disso, o amor continua como a maior fonte de esperanças para o homem. É a mensagem final que Llosa deixa para seu leitor em mais uma excelente obra que o deixa como talvez o maior escritor da atualidade.

terça-feira, novembro 02, 2010

Certas coisas

Certas coisas são bastante representativas de nosso tempo. Existe uma doxa que o sucesso econômico de um país está intimamente ligado a sua evolução cultural. Assim, a Holanda seria um país mais civilizado, por exemplo, do que o Brasil. Este argumento é levantado muitas vezes para defender um procedimento que é adotado na Europa, no Japão, no EUA, mas que não é adotado no Brasil. Outro dia a revista Veja, tida como direitista, fez uma matéria com o mapa onde o aborto era amplamente permitido, destacando que esse mapa coincidia com justamente os países mais ricos do mundo, sugerindo que permitir amplamente a prática seria uma evolução.

Bem, não vou discutir aborto, ateísmo, casamento gay e etc. A referência que fiz ao aborto foi só para mostrar o ponto que estava me referindo. É a representação do contexto para uma pequena cena que vivi hoje.

Estou em uma pousada em Penedo curtindo uns dias de folga com a família. Estava sozinho tomando café com a Heloísa no colo assistindo um desenho na televisão. Foi quando chegou um casal japonês, na faixa dos 30 anos. Sem cerimônia, o japonês foi até a televisão e trocou para um canal de notícias. O detalhe é que tinha constatado ontem que nem ele nem a moça que estava com ele falavam português. Acho que muitas pessoas já colocaram no automático o hábito de tomar café assistindo noticiário, o que eu particularmente odeio.

Fiquei pensando naquilo, meio revoltado com a falta de educação e desconsideração comigo e com minha pequena. O que fazer em uma situação dessas? Como não gosto de discutir, mudei de lugar e fiquei de costas para a televisão. Foi quando começou uma entrevista com esta coisa que foi eleita presidente do Brasil. Aí foi demais. Levantei-me imediatamente e saí com a Heloísa para o pátio da pousada esperando acabar o que estava passando. Do lado de fora dava para ver a imagem do que estava passando e depois de uns dois minutos o turista, acho que se tocou, levantou e mudou para um canal de variedades. Imediatamente retornei e sentei para prosseguir com meu café.

São pequenas coisas, eu sei. Mas são coisas do nosso tempo e se as pessoas começarem a reparar vão perceber que são acontecimentos bem mais frequentes do que imaginamos.

sábado, outubro 30, 2010

O tédio que leva ao socialismo


Esta semana conheci o Museu de Artes de São Paulo (MASP). Gostei intensamente da visita e lamento não ter ficado mais tempo; apenas duas horas. Vi todas as obras, mas algumas queria contemplar por mais tempo.

Havia diversas exposições e na que gostei menos, a pintura contemporânea alemã, achei uma obra interessante. Trata-se de um quadro do pintor Werner Turbke , parece que da década de 60, que constava com o título Brigada da Juventude Socialista.


No quadro se vê um conjunto de jovens em um luxuoso salão, com cara de entediados, entre cigarros e garrafas de vinho, mostrando uma série de contradições que faz o socialismo e o fascínio que tanto seduzia a jovem elite cultural da época, e que continua a seduzir até hoje.

Não cansa de me abismar como, ainda nos dias de hoje, pessoas tidas como inteligentes, que deveriam estar guiando a sociedade em direção à verdade e os valores que dignificam a vida, abdicam da sua capacidade de pensar com clareza e ignoram completamente a realidade, defendendo princípios que levaram milhões à morte. Esse quadro poderia bem representar o dia de hoje, com pessoas privilegiadas, e por isso talvez com sentimento de culpa, falando abstratamente de justiça social e violentando princípios universais que cada consciência carrega em seu íntimo para justificar sua simpatia a todo tipo de homens e mulheres completamente imorais. O grau de alienação que uma pessoa tem que ter para votar em Dilma Rousseff, por exemplo, mostra que nos encontramos em tempos muito difíceis e de certa forma, uma época de completa doença espiritual.

Quando vejo este quadro de Turbke, vejo a mediocridade e a razão de muitas mazelas de hoje, principalmente no Brasil. A elite cultural está doente, e isso é um problema maior do que a doença das outras elites, seja política, econômica, religiosa, militar, etc. A força que impulsiona uma sociedade, ao contrário do que pensam muitos, não é a economia ou a história, mas a pura e simples ação humana. Por trás de cada decisão política ou econômica está uma decisão tomada por uma pessoa real, não um ente abstrato qualquer e a expressão da ação humana por excelência é a cultura. Quando as pessoas que deveriam perceber e traduzir para os demais os mecanismos de funcionamento de uma sociedade estão alienados e incapazes de interpretar o mundo real, porque estão muito preocupados em impor suas opiniões o tempo todo, os resultados são apenas uma questão de tempo. O lulo-petismo não começou com a sedução das pessoas humildes, mas das elites culturais brasileiras. A inversão de valores não é culpa da imensa massa de brasileiros semi-analfabetos ou pobremente educados, são obra exclusiva dessas mesmas elites que a cada dia descem um pouquinho mais na imoralidade.

Vejo em cada rosto o tédio que tentam disfarçar na empolgação com coisas absolutamente sem importância, pois as coisas que realmente importam, as que estão no coração de cada sociedade, como a maternidade, a família, a simplicidade, a vida, a humildade, a cooperação voluntário, o humor, a ironia, tudo isso é para elas um motivo de tédio e de falta de sentido. O que importa são os grandes temas da sociedade de hoje: justiça social, preocupação com meio ambiente, luta contra o imperialismo, exploração econômica, multiculturalismo e etc. Estão tão preocupadas em enxergar longe que são incapazes de enxergar o que está ao lado e salta às vistas.

São essas pessoas que estão na tela de Turbke que são responsáveis pela cegueira espiritual da sociedade contemporânea. São elas que devem se curar e ninguém pode fazer isso por elas. Apenas torcer para que tenham coragem e humildade para entender o tamanho de sua cegueira e abrir-se para a verdade do real. Enquanto isso não acontecer, estaremos representados por elites política-econômicas corruptas eleitas por um povo mantido na ignorância

quinta-feira, outubro 21, 2010

Só não vê quem não quer

Uma vitória de Dilma vai ser muito pior para o Brasil do que se imagina. Não se trata de balela, mas de uma ameaça real ao sistema democrático e à liberdade no Brasil. Nos últimos dois dias vimos exemplos claros do que pensa essa gente.

Investigação da quebra de sigilo

Ontem a PF divulgou que ficou confirmado a quebra de sigilo fiscal de políticos do PSDB dentro da Receita Federal. O jornalista Amaury Ribeiro Jr foi quem contratou o serviço de um despachante que realizou a quebra. Na época do episódio, o digníssimo trabalhava no comitê de inteligência da candidata do PT e os documentos foram parar nas mãos dos petistas. A PF não quis nem saber dessa parte e declarou ENCERRADO o inquérito. Fica claro que a PF está a comando do governo e do PT, não necessariamente nessa ordem.

Agressão a Serra

Depois da agressão de José Serra por militantes do PT, os petistas passaram a inundar a internet com afirmações que Serra está exagerando e que foi no médico por nada. Mostra bem o padrão moral dessa gente

Prisão de uma aposentado

Parece mentira, mas não é. Um aposentado de 74 anos foi detido ontem pela polícia civil de Araçatuba porque estava com UM panfleto na mão que fazia propaganda contra Dilma. A denúncia partiu de uma funcionária da prefeitura que ficou indignada com o velhinho. Partindo de uma mulher contra um idoso é ainda mais odioso e mostra o efeito de 8 anos de lulo-petismo no poder na sociedade.

Demissão de um apresentador de TV

Paulo Beringhs, jornalista da TV Brasil Central, emissora pública de Goiás, pediu demissão ao vivo depois de receber a notícia que sua emissora estaria proibindo a entrevista que faria no dia seguinte do candidato Marconi Perillo. Tudo por intervenção de Iris Redente junto a cúpula da Lula News que atuou para impedir a entrevista. O vídeo fala por si, não deixem de assistir.

Ceará implanta comissão de controle da mídia

Não basta a simpatia escancarada da grande imprensa. Os fascistas do PT querem mais, querem o controle total. O Ceará começou a implantação no modelo chavista na imprensa. Outros virão.

Depois de tudo isso, em apenas um dia, uma pessoa inteligente, com acesso à informação, tem que se enganar muito para ver ainda algum motivo para votar em Dilma. Acorda! Você faz parte da instalação desse absurdo no país.!

quinta-feira, outubro 14, 2010

Um pouco de política

Em um mundo ideal, eu estaria fazendo campanha contra José Serra. Nada contra ele em particular, mas pelas idéias que estão no seu DNA e de seu partido. Em resumo, Serra é talvez hoje a maior expressão da chamada social democracia no país, aquele regime que começou a agonizar na Europa por ser insustentável a longo prazo.

No entanto, estamos longe de um mundo ideal. Não foi apresentado nenhuma opção realmente conservadora para o eleitor brasileiro e tivemos que escolher entre um social democrata, uma gangster política, uma ecochata e um comunista. Um verdadeiro campeonato de esquerdismo, alardeada pelo gangster presidente a quatro ventos. Não há liberais (no sentido econômico) ou direitista (este termo inventado pela esquerda para todo mundo que não professa suas idéias) no país. O DEM talvez seja a última esperança de uma opção conservadora no Brasil, mas está em lenta agonia. Um preço a se pagar para quem trocou a denominação liberal pela inspiração do partido democrata americano, seguindo inspiração dos Maias.

O curioso é que a imensa maioria, para desespero dos que acham ter a solução para os problemas do mundo, dos brasileiros é conservadora. O resultado é que temos um sistema político que não representa verdadeiramente sua população, o que é sempre um perigo para a democracia.

Interessante nisso tudo é que algumas máscaras começam a cair. Os progressistas, também conhecidos como beautiful people, ou pessoas maravilhosas, estão em uma contradição flagrante. Eles defendem uma espécie de cruzamento do capitalismo no campo econômico com o socialismo no comportamento e têm uma característica interessante de se acharem iluminados, realmente melhores do que os outros por terem a chave da interpretação do mundo. Olham para nós, que achamos o mundo incrivelmente complexo e de difícil solução como uma espécie de hereges, de pessoas que precisam ser guiadas em direção a salvação. Negam que sejam comunistas, o que eles desejam mesmo é a social democracia e possuem um incrível discurso padrão para as grandes questões. Se você já ouviu um progressista, acredite, não tem muito mais coisa diferente que escutará de outro.

Só que sempre desconfiei desse pessoal. Mais do que enganar os incrédulos, eles são especialistas em enganar a si mesmos. A esquerda festiva vive constantemente no auto-engano, recusando perceber que são muito menos do que imaginam e que suas idéias não os fazem melhor do que ninguém, coisa que um conservador autêntico sabe de si mesmo. Não me acho melhor do que ninguém por minhas idéias, pelo contrário, tenho mais compreensão da minha miséria e dos meus pecados. Acreditar no que acredito não me faz sentir bem, não no sentido que imaginam, mas me liberta de muitas ilusões.

Não ver que José Serra é o candidato que melhor encarna o ideal que o progressista diz defender é ser completamente cego para a realidade. O cara fez sua fama no Ministério da Saúde combatendo as grandes empresas farmacêuticas, quebrando várias patentes e criando os medicamentos genéricos. Comprou briga feia com a indústria do cigarro e implantou uma legislação em São Paulo que fica a milímetros de considerar o fumante como um criminoso. No governo FHC teve que ser colocado longe da área econômica por suas idéias desenvolvimentistas, o que implica em estado forte como principal indutor econômico. Em termos de ecologia, está bem mais próximos do que os ecochatos querem do que a candidata do governo, que foi o principal motivo de Marina ter saído do governo. Em resumo, um candidato que eu adoraria votar contra.

Dilma, por outro lado, é uma gângaster política, assim como seu padrinho. É difícil dizer que ela e Lula tenham alguma ideologia que não seja o desejo de poder e o desprezo ao jogo democrático. No fundo são dois espertalhões que viram no sindicalismo político a forma de buscarem a vitória pessoal. Não dá nem para chamá-los de comunistas.

O mesmo não se pode dizer do partido e do movimento que fazem parte. Não há como entender o PT de hoje sem ligá-lo ao Foro de São Paulo, a entidade que une partidos de esquerda, movimentos sociais, sindicatos, narco-traficantes e grupos terroristas que declaram expressamente ter o objetivo de implantar na América do Sul o que foi perdido no Leste Europeu, o comunismo soviético.

Chega a ser engraçado ver a esquerda festiva tentando justificar o voto em Dilma, uma pessoa que representa boa parte do que dizem odiar. Junto com ela estão os grandes empresários brasileiros (mamando nas tetas do BNDES e das licitações do governo), as antigas oligarquias políticas (Sarney, Calheiros, Collor, Jader Barbalho e outros gigantes morais), grande parte da mídia (exceto talvez pela Veja e os editoriais do Estadão), líderes religiosos protestantes e católicos (Edir Macedo, pessoal da teologia da libertação, pastoral da terra, a maioria dos bispos brasileiros) e que se alinha, no campo externo, em outros gigantes morais como Chávez, Morales, Correia, o maluco do Irã e qualquer ditadura sanguinária africana. Até mesmo na relação com os EUA o governo Lula se deu muito melhor com o Bush do que com o Obama!

Afinal, o que querem a esquerda festiva? Será que realmente querem social democracia? Justiça social e as outras baboseiras que dizem prezar tanto? Ecologia? Ou querem o bom e velho comunismo? Aquele que matou mais de cem milhões de pessoas em um século conseguindo matar em pouco tempo o que todas as tragédias humanas e naturais não conseguiram em toda existência do planeta? Por que eles não tem coragem de dizer para nós e para si mesmos o que desejam de fato?

Eu voto em José Serra porque é a única opção possível que tenho. Não me iludo, não o considero nem melhor ou pior do que sua vida política indica. Não me engano e não tenho ilusões.

Só espero que no dia que não houver como negar a verdadeira natureza de Dilma, Lula e tudo que representam, estas pessoas que deveriam estar pensando o mundo não digam que foram enganados. Podem até dizer que enganaram a si mesmas, mas a verdade sempre esteve escancarada na ponta do nariz de cada um. Não vê quem não quer.

sábado, outubro 09, 2010

Pessimismo

A dama do cachorrinho e outras histórias
Anton Tcékhov
Editora L & PM

Não sou particularmente exigente com o final de estórias, seja no cinema ou na literatura. É claro que na hora fica um sensação ruim com o fim triste, mas alguns dos melhores livros (ou filmes) que já li (ou vi) terminaram com finais assim. A exigência do chamado final feliz divide as pessoas, mas confesso que não me incomoda muito um final triste. No fim, vale a trama e as reflexões que desperta. O que me incomoda mais é o pessimismo, a falta de esperança na ação humana, na capacidade que o indivíduo tem de contrariando todas as perspectivas superar a si mesmo e tomar determinadas atitudes aparentemente inexplicáveis, como se tivesse um lampejo apontando para a coisa certa a fazer e se entregue a este lampejo. Algumas das melhores obras da literatura são assim. Um exemplo é Um Conto de Duas Cidades do Dickens em que a pessoa mais improvável tem a atitude mais nobre de toda a estória e alcança a tão sonhada redenção, mesmo em um final triste.

Os contos de Tchékhov tem essa faceta que me incomoda. O autor parece não acreditar na capacidade do ser humano, na grandeza dos seus pequenos atos, mesmo que sejam raros. Seus personagens são mesquinhos, patéticos e, principalmente, sem redenção possível. Dizem que retratou sua época, que faz uma crítica devastadora da Rússia do fim do século XIX, devastando principalmente a burguesia e a aristocracia. Pode ser de uma parte, mas não consigo acreditar que em qualquer sociedade não existam atos que nos fazem ter esperanças na humanidade. A visão de Tchékhov é sem esperanças, e por isso mesmo incompleta.

Seu talento é inegável e escreveu excelentes contos, como a dama do cachorrinho, Iônytch e Zínotchka. Neste último, o melhor da coletânea, há um vislumbre de rompimento com Dymov, mas a visão pessimista e sombria permanece. Não há redenção para o homem na visão de Tchékhov, o que só mostra que não foi capaz de perceber a essência do ser humano, a incrível capacidade de superar a si mesmo, por mais raro que seja essa ocasião.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Um exemplo da deformação marxista da história

Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai
Julio José Chiavenatto

Em 1984, Orwell adverte que para dominar o futuro é preciso dominar o presente. Sua inspiração foi o que Stalin fez na União Soviética, extirpando a participação de outro sanguinário, o Trotsky, na Revolução Russa, mostrando que os revolucionários sempre tiveram idéia fixa em recontar o passado sob sua ótica, deformando e alterando sem o menor pudor fatos históricos para comprovar sua ideologia. Uma das frases mais constantes dos dias de hoje é que a história é contada pelos vencedores. Verdade. Mas quais vencedores? Os que venceram uma guerra? Os que venceram uma disputa política? Uma revolução? Mas quem venceu em cada fato histórico desses? Quem venceu a revolução francesa? O povo?

Quem conta a histórica é quem venceu uma outra guerra, uma que quase ninguém fala, como se fosse um assunto sem importância, embora talvez seja o que realmente importa. Conta a história quem domina a cultura. Simples assim. Marx estava completamente errada sobre o grande motor da história, a economia. Esta é uma das consequências da ação humana e não sua causa. São pessoas que realizam ações e a maior influência sobre seus atos é a cultura que recebe. Quem conta a história é quem compreende que para dominar a política é preciso dominar a cultura.

Chegamos então em Chiavenatto. Deveria se escrever uma tese sobre como uma geração inteira de historiadores e formadores de opinião consideraram o panfleto carregado de ideologia que escreveu sobre a Guerra do Paraguai como a quebra de um paradigma da historiografia brasileira. O livro é uma verdadeira bomba... do início ao fim! O autor não tenta nem disfarçar, afirma desde o início que sua visão é completamente pró-Solano López. Apesar de não ser historiador _ acredito que se fosse a obra seria ainda pior _ ele se pretende um autodidata da história e acaba por influenciar os que deveriam ser historiadores de verdade e expõe de maneira contundente toda a miséria de nossa vida cultural.

Para ter uma idéia, cito logo da primeira página:

A partir da independência o Paraguai é a única república da América Latina que não sofre a presença dos caudilhos nem é conturbada por revoluões ou golpes. É um país coeso, com a autoridade centralizada por revoluções ou golpes (...) Francia, El Supremo, assume o poder e exerce uma ditadura peculiar: usa o absolutismo como método de governo em benefício do povo (...) Decreta, poderia se dizer, a pobreza como norma de vida dos paraguaios (...) Nos cárceres, não existem pobres: são os ricos, a chamada " classe esclarecida", que poderia voltar-se contra Francia, que estão presos.


Chiavenatto consegue ver nisso tudo a maravilha do sonho do ditador perfeito, que governa para os mais pobres, o sonho de todo socialista, embora só alguns admita isso para si mesmo. O tom do livro é todo esse, elogios rasgados aos ditadores paraguaios e condenação de cada ato dos países alidados. Consegue a proeza de considerar a invasão paraguaia do Mato Grosso como uma reação e não como uma invasão, e mais ainda, que o Brasil teria "roubado" o Mato Grosso do Paraguai ao final da guerra, como se já não fosse seu território.

Escrito nos anos 70, seu propósito foi produzir uma obra contra os militares, atuando principalmente sobre os dois maiores nomes da história militar brasileira, Caxias e Osório. Talvez não imaginasse que mudaria o ensino do episódio nas escolas brasileiras, gerando um mal que levará gerações para ser corrigido.

Sua tese é que a guerra foi um genocídio patrocinado pela Inglaterra para destruir o país mais progressista das Américas, que começava a ameaçar o Império Britânico. Não há uma única referência para dar suporte a seus argumentos, nem mesmo bibliografia, só discurso. Em qualquer país do mundo, seria considerado como é, um panfleto de propaganda. No Brasil foi considerado como obra séria.

Nada mais sintomático da influência nefasta da ideologia socialista do que o seguinte trecho, em que Chiavenatto mostra o "erro" do segundo ditador paraguaio:

A incompreens"ao de Carlos Antonio López de que há um determinismo histórico conduzindo as nações...

O erro dos ditadores paraguaios foi não dar devida atenção ao "determinismo histórico", esta gigantesca farsa que está no coração da mentalidade revolucionário, a maior chaga da história da humanidade.

Chiavenatto é mais um dos incontáveis idiotas úteis que realmente acredita nessa bobageira sem fim. Genocídio Americano é um exemplo do tamanho da desonestidade intelectual1 que um militante ideológico é capaz de fazer. Se fosse só isso, já seria ruim; mas que uma série de historiadores tenham dado crédito a um panfleto é algo que só mostra a pobreza intelectual dessa gente.



1: A melhor definição de desonestidade intelectual que já vi: fingir saber o que não sabe e fingir não saber o que sabe muito bem. Cortesia do Olavo de Carvalho.

domingo, outubro 03, 2010

VERGONHA!!!

A grande vergonha das eleições foram os institutos de pesquisa. Algo de muito podre está no ar, por que todos eles erraram a favor da candidata do governo? Antes eles ainda se preocupavam em ir "acertando" à medida que chegava próximo das eleições, agora nem isso. Quantos votos eles renderam para a criatura do Lula com suas previsões? Onde estão o Vox Populli e o Sensus? O silêncio dessa gente é ensurdecedor!

IBOPE e DATAFOLHA fizeram um papel um pouco pior, mas ficaram longe de saírem limpos dessa história. Nem na boca de urna! Que papelão! Está na hora de aprendermos a ignorar completamente as "pesquisas" dos dois primeiros e tratar com toda reserva a dos dois últimos.

Os jornalistas não fizeram por menos. O Fernando Rodrigues, "especialista" em pesquisas, passou a campanha toda fazendo a média do resultado dos institutos, misturando dois de reputação cada vez mais duvidosa e dois completos picaretas, e declarando que a Dilma levaria em primeiro turno.

Outro que tem que abrir o olho urgente é o traidor de Minas. Ficou com menos de 40% dos votos e viu sua criatura superá-lo em muito. Os jornalistas declararam antecipadamente que era o grande vencedor das eleições... deveria se preocupar em trabalhar para eleger o candidato do SEU PARTIDO! É o tipo de coisa que ambos ganham, ao contrário de sua atitude que prejudicou as duas candidaturas. Dizem que está de partida para o PMDB. Pode ser o lugar certo para ele. O novo governador deveria começar a torcer para a vitória do seu partido, para o bem de seu próprio governo.

O Rio continua um desastre. Consegue eleger entre um monte de porcaria os piores possíveis. Além de colocar aquela porcaria do ex-presidente da UNE no senado. Não consigo lembrar a última vez que o estado elegeu alguém que prestasse para governador ou senador. Uma lástima.

Não me iludo. A candidata inventada é a favorita, ainda mais por que o governo vai jogar ainda mais pesado para elegê-la, como fez em 2006. Além do mais, a campanha do Serra é péssima. Seus marqueteiros conseguem vendê-lo pior do que é na realidade. Já a equipe de Dilma é mágica. Mas até milagre tem limites.

Esperemos.


quarta-feira, setembro 29, 2010

Amor aos 40

Conto de Outono
Conte d'Automne, 1998


Duas Amigas enfrentando a entrada da terceira idade. Magali, viúva, com os filhos ausentes, dedica-se sozinha a levar uma pequena vinícula a frente. Isabelle, casada há 23 anos, prepara-se para o casamento da filha. São duas mulheres na faixa dos 40 anos que enfrentam os desafios da entrada na terceira idade, com tudo que tem de bom e de ruim.


Eric Rohmer fez aqui um filme de contrastes. Magali vive no campo, tem pela terra uma veneração, se ofende com as instalações industriais que tomam a paisagem e começa a sentir os efeitos da solidão. Isabelle vive na cidade, trabalha em uma loja de livros, dedica-se à família. Não por acaso o filme começa com uma reunião familiar, algo que não existe mais para Magali. O próprio filho, que mora próximo, faz questão de não encontrar com a mão. Em nenhum momento do filme, eles dividem uma cena.

Outro contraste é com Étienne, a namorada do filho de Magali. Jovem sonhadora e inteligente, divide-se entre a relação com o namorado imaturo e um romance terminado com seu professor de filosofia. Este só consegue relacionar-se com alunas, fugindo de pessoas de sua idade.

Tanto Isabelle quanto Étienne resolvem ajudar Magali a conseguiu alguém para dividir a vida. O contraste de métodos e objetivos é nítido. Étienne vê a chance de resolver um dilema próprio, conseguindo manter o professor por perto e criando um muro entre eles através do possível relacionamento dele com a amiga. Isabelle, mais experiente, sabe que a amiga não aceita um romance armado e resolve conseguir um pretendente que se encontre com ela por acaso. Para isso, resolve se fazer passar por uma interessada e através de um anúncio de jornal conhece um pretendente e através de uma série de encontros vai testando-o. Um jogo perigoso como ela própria reconhece no fim, pois passou a sentir a atração de um romance.

O filme é uma meditação sobre o amor na maturidade, focando as diversas possibilidades. Há a solidão, a tranquilidade do amor consolidade, o homem que procura uma mulher no mesmo nível de maturidade, o que procura meninas. A vida não termina aos 40, pelo contrário, traz novos caminhos que se não possuem a inocência do primeiro amor, está repleto das experiências acumuladas da vida de cada um.

Mais um filme de Rohmer que demonstra porque ele foi diferente e não se encontra no nível da esmagadora dos cineastas de sua época. Comparado com os de hoje chega a ser covardia. Ninguém mais do que ele foi capaz de captar os dilemas morais e espirituais do século XX.

segunda-feira, setembro 27, 2010

O maior dos impérios

Império
Como os Britânicos fizeram o mundo moderno
Niall Ferguson

Quando se fala em Império, o primeiro que vem a mente da maioria das pessoas, como referência, é o Império Romano. Outros pensam até no Macedônico de Alexandre, no americano de hoje. No entanto, o maior Império que já existiu em toda História, com todas as consequências próprias de tamanho poder, foi o Império Britânico, que chegou a dominar 1/4 do mundo durante alguns séculos.

Como isso foi possível? Como uma ilha e um povo reduzido conseguiu dominar continentes e populações gigantesca com um exército diminuto? Em que isso influenciou o mundo moderno? Quais as consequências reais deste domínio?

São as perguntas que Niall Ferguson coloca em "Império". Sua tese é que o domínio britânico foi tão fundamental na História que praticamente moldou o mundo de hoje, para o bem ou para o mal. Basta pensar que seus herdeiros, o Estados Unidos, foi sua colônia. Fala-se muito da globalização como um fenômeno contemporâneo, mas na verdade foi uma criação dos britânicos ao longo dos séculos XVII e XVIII.

Ferguson analisa o domínio britânico sobre 6 prismas: a conquista de mercados de bens (o papel dos piratas), o estabelecimento de mercados de trabalho (os plantadores), a expansão cultural (missionários), a implantação de governos fiéis á coroa (mandarins), o estabelecimento de mercados de capital (banqueiros) e finalmente da Guerra (os falidos).

Trata-se de um livro bastante interessante que mostra os acertos e erros dos britânicos durante a existência do Império. Deve-se ter em mente que o julgamento do papel dos britânicos deve ser feito em termos dos valores da época e não do que sabemos e cultuamos hoje. Muitos dos erros que hoje são considerados claros, não eram no passado.

Ferguson condena duramente seus compatriotas na questão da escravidão, das tentativas de exportar a força a cultura cristão em sociedades inteiras e a ferocidade com que os ingleses reagiram a muitas revoltas coloniais. Como foi possível a expansão de um povo que cultuava a liberdade através do imperialismo e o domínio de outros povos.

Não se deve cair no erro de considerar o Império Britânico o grande mal de sua época; ao contrário, seus rivais eram muito piores. Sempre foi possível ouvir vozes, dentro de suas fronteiras, em seu parlamento, nas discussões políticas, de pessoas protestando contra os abusos britânicos, coisa não muito comuns em outros lugares.

Quando o Império Britânico foi desafiado pelas novas potências imperialistas como a Alemanha nazista e o Japão, teve a oportunidade de deixar os alemães conquistarem a Europa e ficar com suas colônias. Liderados por Churchill, fizeram a coisa certa, enfrentaram os novos impérios e pagaram o preço com a perda de seu próprio Império. Foi uma decisão consciente que redime alguns dos crimes cometidos ao longo dos últimos séculos pelos ingleses.

Analisar o papel dos britânicos na construção do mundo moderno desperta paixões e julgamentos dos mais diversos. O que fica, entretanto, é a constatação que o mundo seria bem diferente hoje se não fosse a existência do Império Britânico. Se valeu a pena, cabe a cada um estudar para responder. Foi o que Ferguson fez.

domingo, setembro 26, 2010

Estamos mais radicais?

A Era do Radicalismo
Entenda por que as pessoas se tornam extremistas Cass R. Sunstein, 2010

Uma característica cada vez mais evidente nos dias de hoje é o extremismo nas opiniões levando a uma situação cada vez maior de radicalismo. Como exemplos recentes, podemos citar a crise financeira de 2008, o crescimento do terrorismo, o fanatismo das pessoas e o abismo político que vai sendo construído cada vez mais nas discussões políticas. A pergunta que Sunstein coloca e tenta responder é: por que isso acontece? Por que a era atual pode ser marcada pelo radicalismo nas várias questões da vida humana?

As respostas que o autor apresenta para a questão que colocou gira em torno de um argumento principal: a reunião de pessoas como pensamentos alinhados para determinado viés, mesmo que em diferentes graus, leva seus membros a tomarem posições cada vez mais extremas. O grande questão de hoje é que a revolução dos meios de comunicações e a explosão das redes sociais facilitou o encontro de pessoas que pensam parecido, o que tem conduzido os grupos a assumirem posições cada vez mais extremistas.

Para chegar a esta conclusão, Sunstein recorre a diversas pesquisas comportamentais e decisões de determinados grupos, como cortes de apelação, para evidenciar que a posição final é mais extrema, independente do lado, do que a média das posições iniciais. O grande fator para polarização dessas posições é a existência de pessoas que pensam de maneira semelhante e que reforçam as próprias posições ao longo das discussões.

O autor tenta esboçar as possíveis soluções para o problema, entre as quais pode se destacar a resposta dos conservadores, o tradicionalismo; o consequencialismo e, por fim, o sistema de freios e contrapesos, uma das bases da fundação dos Estados Unidos. Estas respostas associam-se respectivamente aos pensamentos de Edmund Burke, Jeremy Bentham e James Madison. Sunstein se concentra principalmente no último, os freios e contrapesos, pode acreditar ser de melhor aplicação tanto na vida cotidiana quanto no âmbito político.

A evidência mostra que Sunstein tem uma certa dose de razão na sua tese e em seus argumentos, embora este fenômeno não seja particularmente novo. A grande novidade, que foi pouco explorada no livro, é porque esta tendência está cada vez mais forte. Ele chega a esbarrar na questão do impacto dos meios de comunicações, principalmente a internet, mas acaba não desenvolvendo muito esta questão. Sua principal preocupação está em demonstrar que o fenômeno existe e pode ser evidenciado cientificamente, o que para mim parece evidente. Quando se reúnem pessoas com pensamentos parecidos, os indivíduos acabam tendo mais argumentos para defender suas posições e se convencem mais facilmente que estão com a razão.

As idéias de Sunstein me despertaram para a importância deste fenômeno, algo que já vinha me preocupando a algum tempo. Não só tenho reparado no extremismo das pessoas nas discussões como tenho me visto dentro deste quadro, tanto que ultimamente tenho evitado determinados confrontos porque sinto aflorar o radicalismo em meus pensamentos, o que normalmente não é bom.

Por outro lado, existem sim questões que todo radicalismo é pouco. Deve-se ter o devido cuidado com o que é opinião e o que é verdade, o que está assentado em valores e o que é auto-evidente. Entre a honestidade e desonestidade, por exemplo, não pode haver meio-termo, assim como a dignidade da pessoa humana, a pedofilia, o teorema de Pitágoras. São Tomás de Aquino dizia que a verdadeira amizade era querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas. Ele não queria dizer com ter as mesmas opiniões ou desejar as mesmas coisas materiais, mas ter os mesmos valores básicos. Os verdadeiros amigos compartilham dos mesmos valores, muito embora possam divergir nas questões particulares.

As soluções do autor também me pareceram superficiais e até certo ponto insuficientes. Acredito que a melhor solução para buscar o verdadeiro conhecimento e fugir dos extremismo é a dialética ensinado por Platão a Aristóteles, é a discussão sincera em que ambas as partes estão dispostas a ceder em suas idéias diante de uma melhor do que a que tinham, o que exige um virtude fundamental: a humildade. Aí que começa o problema dos tempos modernos: como ser humilde em uma época que o orgulho é cada vez mais exaltado?

No fundo, São Paulo tinha toda a razão, assim como o Eclesiastes. A vaidade está na raiz de todos os vícios do homem e, portanto, a solução gira em torno de uma única palavra, a humildade. Pena que o autor não tenha chegado nem perto desta questão, o que acaba por deixar sua obra até certo ponto incompleta. Faltou-lhe reflexão filosófica para escrever um livro melhor, o que só evidencia a importância de ter uma cultura ampla o suficiente para ligar as várias partes do saber humana, o que pouquíssimas pessoas são capazes de fazer.



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sexta-feira, setembro 24, 2010

No fim das contas, são as pessoas que fazem a diferença

1822
Laurentino Gomes, 2010
Editora Nova Fronteira


A obra trata da independência do Brasil, particularmente ressaltando o papel dos indivíduos que conduziram o processo. Além da liderança de D Pedro I, destacaram-se as figuras de José Bonifácio, Princesa Leopoldina e Thoas Cochrane. Pode-se dizer que a dimensão humana tem destaque neste livro de Laurentino, pois trata-se fundamentalmente de uma história de pessoas.

Nos capítulos ininicais são ressaltados os fatores que
impulsionaram o Brasil à independência, destacando-se a intrangigência das Cortes de Portugal, que não deram alternativa aos brasileiros do que lutar pela formação de um novo país. Além disso, o ambiente revolucionário europeu, iniciado pela Revolução Francesa, a imensa obra de D João VI no Brasil, principalmente a abertura dos portos ao comércio exterior, o receio de uma revolução de escravos, tudo isso foram fatores indutores que influenciaram os personagens descritos por Laurentino.

O autor, no entanto, foge da tentação de considerar a independência como fruto de processos sociais, esta abstração criada pelos historiadores marxistas, e procura mostrar o papel de relevo das lideranças da época. Não fossem as figuras de D Pedro, Bonifácio, Leopoldina e Cochrane, o desfecho poderia ter sido outro, principalmente a fragmentação do território nacional em pequenas repúblicas, conforme o que aconteceu no resto do continente.

Existe um senso comum de que a Independência foi um simples acordo entre D Pedro e D João, que a população assistiu como espectadora. Não foi bem assim. A Independência do Brasil foi conquistada palmo a palmo, estado por estado. As possibilidades estavam todas contra o Brasil, principalmente porque D João tinha levado todos os recursos com ele em sua volta para Portugal. O Brasil nascia como um país virtualmente falido. Graças a liderança de D Pedro, o heroísmo de brasileiros anônimos e alguns golpes de pura sorte, a balança acabou por pender para o lado brasileiro. Segundo Laurentino, tinha tudo para dar errado e por um certo tempo parecia que realmente iria dar. Contrariando todos os prognósticos, acabou dando certo.

Ao analisar o 1º Reinado, busca resgatar a dimensão humana da controversa figura de nosso primeiro imperador. Homem de qualidades, como a coragem e a liderança, mas com fraquezas bem reais. Um líder político que procurou equilibrar interesses mas acabou sucumbindo pelo desgaste provocado pelo romance com a Marquesa de Santos _ a imperatriz era extremamente popular _ e pela interferência na sucessão portuguesa, o que levantou dúvidas sobre sua lealdade.

Forçado a abdicar, D Pedro retornou a Portugal, onde a história lhe daria um último grande capítulo. Para garantir os direitos de sua filha, Maria da Graça, liderou uma guerra civil com os liberais contra os absolutistas do irmão, D Miguel. Venceu e restaurou a monarquia constitucional em Portugal, seu último triunfo. Morreu logo depois da sagração da filha, vítima de tuberculose, pouco antes de completar 36 anos.

O grande mérito de Laurentino não é apenas de conseguir despertar o interesse pelo passado brasileiro, mas também de resgatar a dimensão humana dos grandes acontecimentos históricos do Brasil, rejeitando a teoria das forças abstratas que conduzem os destinos humanos; no fim das contas, quem tomam as decisões e fazem a histórias são os indivíduos reais, com suas virtudes e defeitos. Com uma prosa fácil, própria de reportagens da imprensa, evita o tecnicismo, este mal que assola grande parte da academia brasileiro e tornam a História inacessível ao grande público, além de procurar ficar longe da ideologia, que tanto mal faz ao estudo do passado.

Não se trata de um livro de história, mas de um livro reportagem, em que Laurentino conta um acontecimento fundamental da História do Brasil a partir de um cuidadoso trabalho, baseado principalmente em historiadores de diversas épocas. Longe de esgotar o assunto, é ume excelente ponto de partido para quem deseja conhecer melhor os fatos históricos que marcaram nossa história.

segunda-feira, setembro 20, 2010

O papel do crédito na formação do Império Britânico

Estou lendo Império, de Niall Ferguson. Trata-se de uma investigação sobre a formação do Império Britânico e principalmente sobre seu legado. O primeiro capítulo trata de como a Inglaterra saiu atrasada na colonização e de piratas dos mares acabaram por ser a grande potência do século XIX. A resposta que sempre me veio a cabeça foi o seu poder naval, a opção de dominar os mares.

Só que outras nações, como a Espanha, também lutavam pelo domínio dos mares. Além do mais, a França era cerca de duas vezes mais rica do que a Inglaterra. Onde se deu a mudança?

Ferguson traz um argumento interessante. Quando a Inglaterra se associou à Holanda, ela incorporou a principal invenção dos holandeses, o sistema de crédito. Esse fado deu aos britânicos uma grande vantagem nas guerras do século XVIII, quando conquistou o domínio marítimo. Enquanto os países continentais, como França e Espanha, ficavam limitadas a sua quantidade de recursos disponíveis, os britânicos captavam recursos da própria sociedade através de uma espécie de emissão de dívida pública. Em outras palavras, gastava para pagar depois. Desta forma, conseguia a colaboração voluntária da própria população (talvez até de estrangeiros), enquanto que seus inimigos eram obrigados a tomar a força, o que não devia ser muito fácil em relação à nobreza e a burguesia que se estabelecia. Não é ilícito supor que muita gente escondia seu ouro, muitas vezes em nações estrangeiras (Suiça?).

Enfim, no século XVII os ingleses aprenderam com os holandeses que ter dívida não era de todo ruim, desde que os juros ficassem dentro do orçamento anual. Se for verdade, é mais uma demonstração que fatos econômicos costumam ter grande influência em acontecimentos históricos, o que não quer dizer que sejam os únicos fatores. A economia não é tudo, como imaginava Marx.

domingo, setembro 19, 2010

Pouco acrescentou

De Menino a Homem
Gilberto Freyre

Estão na minha lista de leitura as obras principais de Gilberto Freyre, principalmente agora que a questão racial no Brasil ganhou grande impulso em torno da discussão sobre as primeiras leis raciais do Brasil (também chamadas ações afirmativas).

Freyre conseguiu a proeza de ser atacado à esquerda e à direita pela mesma tese. Chesterton ensinou-me que quando algo é atacado pelos mesmos motivos por teorias das mais variadas direções é porque costuma ser verdade. Foi um dos argumentos que usou em Ortodoxia para defender o Cristianismo, mas isso é outra estória.

O importante é que a importância de Freyre para o país é inegável. Quando vi "De Menino a Homem", uma curta autobiografia de seu período mais produtivo, encarei como a oportunidade de ter uma introdução à sua obra. Acabei de certa forma frustrado.

Freyre não aborda muito suas idéias e o processo que resultou nos seus livros mais importantes; seu foco foi sua experiência pessoal na sociedade em que viveu, tanto no Brasil quanto no exterior. Aliás, uma das coisas que fica patente foi que o Gilberto Freyre foi mais respeitado lá fora do que aqui. Sem novidades, visto o exemplo de Mário Ferreira dos Santos.

Apesar de algumas constatações interessantes, como o entendimento que se você tem algo importante a dizer escreva um livro e não uma tese acadêmica, conselho de um professor seu, nos Estados Unidos, claro, o livro acabou por decepcionar. Comparado com Reflexões Autobiográficas de Eric Voegelin, por exemplo, fica muito aquém. Talvez tenha ficado mal acostumado com o velho mestre alemão, mas a comparação me foi irresistível.

Quando terminei Reflexões, tinha uma boa idéia das teses centrais de Voegelin, suas obras importantes e a experiência que o levou a escrevê-la. Freyre toca de passagem em seus principais livros, pouco fala de suas idéias e alguma coisa da experiência que estava vivendo.

Valeu apenas como uma leve tintura de sua personalidade. Muito pouco para tanta expectativa.



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quarta-feira, agosto 25, 2010

Capitalismo e Liberdade

Capitalism & Freedom, 1962
Milton Friedman

Este é um dos economistas que não se estuda em uma faculdade brasileira. Não que não tenha importância. O homem foi prêmio Nobel e a principal influência da política econômica dos governos Reagan e Tatcher. No mínimo um pensador de enorme influência. Seu pecado? Defendeu com unhas e dentes, por toda sua vida, o capitalismo e sua relação com a liberdade.

Neste livro, ele mostra como o capitalismo é um pressuposto para um regime de liberdade política, muito embora não seja suficiente. É possível ter um regime totalitário e capitalista, como foi o nazista, mas jamais haverá um regime democrático sem liberdade econômica. Daí se intui que Friedman não acreditava na associação de democracia com socialismo.

A essência do livre comércio é a produção de riquezas, o que termina por beneficiar toda a sociedade, tanto quem produz quanto quem consome. O motivo é simples: a liberdade econômica está na troca voluntária de bens entre duas pessoas. Esta troca só ocorre se ambos estiverem interessados no resultado, ou seja, se ambos ganharem.

A deturpação do livre mercado leva à restrição de liberdades e o prejuízo de indivíduos e empresas, normalmente com ação direta dos governos constituídos. Paradoxalmente, o capitalismo é mal entendido justamente pelas pessoas que termina por beneficiar. Apenas uma alta dose de mistificação e a total incompreensão de regras econômicas simples podem justificar a constante intervenção do estado na liberdade econômica. Uma intervenção que no entender de Friedman só pode levar à restrição das liberdades individuais.

O autor trata basicamente de 4 pontos ao longo de 11 capítulos:

  1. a relação da liberdade econômica e liberdade política: como o princípio básico do capitalismo nada mais é do que um principio de liberdade individual: o direito das pessoas trocarem o que produzirem.
  2. o papel do governo na economia: o que justifica a intervenção governamental? Ela é eficaz para resolver os problemas que se propõe? Quais as causas destes problemas? E se a grande causa for justamente a intervenção do governo?
  3. o papel do governo na sociedade e a promoção da liberdade: como fica a questão da licença ocupacional? Como o governo pode atuar na educação e quais as justificativas para esta atuação? Quais os campos da vida em sociedade que o governo deve intervir?
  4. a distribuição de renda e a questão da pobreza: aqui Friedman argumenta fortemente contra o pensamento igualitário e mostra a verdadeira igualdade está no tratamento desigual dos desiguais. Longe de ignorar o problema da pobreza, lembra que muitas vezes esta questão é relativa pois ignora o grande ganho das camadas mais pobres ao longo das décadas em função do livre mercado e a redução efetiva da desigualdade entre ricos e pobres, principalmente em função da redução constante do preço dos bens produzidos. A maior contribuição que uma sociedade pode fazer para mitigar a questão da pobreza é ajudar efetivamente os mais pobres como pessoas e não como integrantes de determinados grupos.
Friedman conclui chamando atenção para o convencimento dos intelectuais do ocidente que o capitalismo teria uma série de falhas e deveria ser corrigido pelos governos. Entretanto, estas falhas só ficam evidentes quando se compara os problemas reais da sociedade com o que deveria ser, ou seja, o real com o ideal. Após anos de intervenção estatal, já é possível analisar os efeitos reais da intervenção do estado na economia.

Entretanto, há um problema sério. Enquanto que os benefícios da ação estatal são visíveis, diretos e imediatos, seus efeitos nocivos são invisíveis para a grande maioria, indiretos e demoram para se fazerem sentir. Os políticos possuem incentivos claros para rejeitar os efeitos negativos e decidir em função dos efeitos visíveis, aumentando a intervenção do estado.

O grande problema das medidas governamentais para corrigir o capitalismo é que obriga as pessoas a decidirem contra seus interesses pessoais a fim de promoverem o suposto interesse geral. Como Adam Smith observou, as pessoas ao perseguirem seus interesses particulares freqüentemente promovem os interesses gerais melhor do que se assim desejassem.

Esta é a grande lição do liberalismo.

Um fenômeno atual e cada vez mais evidente

Auto-engano, 1999
Eduardo Giannetti, Companhia de Bolso

Eduardo Giannetti trata de um dos mais importantes fenômenos sociais de todos os tempos: o auto-engano. Promove uma investigação ao longo da história de como as pessoas enganam a si mesmas quase o tempo todo e como isso afeta a sociedade em geral, recorrendo a exemplos extraídos da literatura e da vida real.

Sua investigação começa pela natureza e o valor do auto-engano, como se processa esse mecanismo? Qual a sua origem? Depois, trata da dualidade entre autoconhecimento e auto-engano, abordando desde a técnica maiêutica, celebrizada por Sócrates, e a necessidade de fugir do autoconhecimento e enganar a si próprio. No terceiro capítulo, trata da lógica do auto-engano. Como acontece? Por fim, a parcialidade moral e a convivência humana. Como se dá a questão da moral e da ética em um ambiente de auto-engano?

Gianetti é feliz ao tratar de um dos fenômenos mais importantes de nossos dias. Não por acaso, Sócrates advertiu: conheças a si mesmo. Cristo continuou: a verdade está em cada um de nós. Por que então existe esta compulsão por enganar nós próprios sobre nós mesmos? Trata-se de uma investigação interessante, procurando abordar as várias faces do problema.

Não sei até que ponto o autor tem razão em suas conclusões, mas não vejo como duvidar da existência e atualidade desse fenômeno, talvez ainda mais ampliado em tempos de internet e redes sociais. Diante do quadro atual, no Brasil e no mundo, passei a considerar cada vez mais as questões levantadas por Gianetti. Até onde o auto-engano estaria nos levando para caminhos perigosos e ameaçando a nossa própria convivência humana?

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terça-feira, agosto 24, 2010

Dilma na frente e a cabeça do brasileiro

No capítulo de introdução de Hitler e os Alemães, Voegelin diz:

o problema experiencial alemão central de nosso tempo: a ascensão de Hitler ao poder. Como foi possível?


É mais ou menos o meu sentimento depois de 8 anos de governo Lula e uma tendência do povo brasileiro de eleger Dilma como presidente. Se isso acontecer, dirá mais sobre o povo brasileiro de nosso tempo do que do petismo. Como uma sociedade de maioria conservadora, sem ódios, consegue se anestesiar a ponto de aceitar um governo de natureza socialista e revolucionário?

Culpo o povo? De jeito nenhum! O brasileiro comum é a grande vítima da manipulação que sofre todos os dias da imprensa, da mídia em geral, das instituições públicas e até mesmo do grande empresariado. Ninguém é mais socialista do que o grande empresário brasileiro! Cada vez me convenço mais que a culpa primordial está na "alta" cultura brasileira. Desculpem as aspas, mas a ironia é irresistível. Não dá para chamar aquele bando de alta cultura. Não mesmo.

A maior evidência da corrupção de nossa elite veio justamente do livro que veio para absolvê-la! Na verdade, Alberto Almeida estava tão preocupado em agradar os progressistas que não percebeu a estupidez do próprio raciocínio. Acabou acampando a tese de que o problema do Brasil seria o povo que professaria valores piores do que a elite. A solução? Simplesmente educar a população.

O que o idiota, e uso o termo com todo rigor, foi incapaz de compreender é que em qualquer lugar do mundo os valores serão melhores à medida que o grau de escolaridade é maior. O grande problema é a qualidade desta elite.

Só para exemplificar, no livro "Cabeça de Brasileiro", ele mostra que 72% dos brasileiros com curso superior consideram corrupção um funcionário público receber um presente de Natal de uma empresa que ele ajudou a ganhar um contrato do governo. Sapientíssimo ele compara com os 20% de analfabetos que consideram a prática ser de corrupção e grita, estão vendo? O analfabeto tem valores piores do que o topo da pirâmide educacional.

Almeida deixa de ver o mais gritante. Que 80% de analfabetos, que constituem os grandes bolsões de pobreza, principalmente no nordeste, não consiga ver a corrupção do ato, não acho nada demais. O que me espanta são os 28% de brasileiros com nível superior que não consigam enxergar algo tão gritante!

Pois são estes que começam o processo de disseminação de valores pela sociedade. São os professores, jornalistas, comerciantes, membros do estado. Se 100% considerassem a prática de corrupção já haveria aqueles que não veriam deste modo, mas partindo de 72%, fica tudo muito mais difícil.

O resultado só poderia ser esta coisa liderando as pesquisas e assumindo o favoristismo para ser eleita presidente da república. Um sinal evidente da pobreza de nossos tempos.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Até quando ter esperanças?

Conto de Inverno
Conte D'hiver, 1992
Eric Rohmer

Até que ponto se pode viver na recordação de um grande amor que por ação do destino ficou para trás? Move on, dizem os americanos. Deixe o passado para trás e viva a vida. No Brasil usamos o "que passou, passou" e outras pérolas da sabedoria popular. O importante é voltar nossas ações para o futuro e não se deixar prender por acontecimentos do passado. Ou não? Será possível viver um amor que apesar de ter sido interrompido ainda se encontra assustadoramente presente?

É o ponto de partida para "Conto de Inverno", de Eric Rohmer, parte de um conjunto que denominou Contos das Quatro Estações. Félicie viveu um grande amor de verão em alguma ilha do litoral francês. Por um lapso seu, passou o endereço errado para Charles, um imigrante ilegal que partia em viagem para a América. Pior que isso, errou o nome da cidade, tornando encontrá-la um verdadeiro milagre.

Cinco anos depois, encontramos Félicie dividida entre Luic e Maxence. E com uma filha de Charles, Elise. No entanto, a lembrança de seu primeiro amor ainda não se dissipou e ela convive com dúvida da escolha entre passado e futuro. É assim que ela deixa Luic, um intelectual, por Maxence, seu chefe em um salão de beleza. Todos estes acontecimentos vamos descobrindo como descobriríamos na vida real, através de conversas. É através de diálogos que vamos descobrindo tudo que aconteceu na vida de Félicie e suas reflexões sobre estes acontecimentos. É quase uma reprodução do método socrático, onde ela vai conhecendo a si mesma através de perguntas que faz para si mesma e pela interação com as pessoas a sua volta.

No entanto, são em dois momentos íntimos que consegue extrair de si mesma as respostas que precisa. No primeiro, após mudar-se para Neveurs com Maxence, entra por acaso em uma catedral, acompanhando a filha. Enquanto a menina contempla um presépio, ela senta-se e reza. Na verdade, mais do que rezar, ela conversa consigo mesmo, como contaria depois para Luic. Dizia um pensador francês que quem conversa consigo mesmo acaba conversando com Deus. Ele ressaltava o papel da autoconfissão como caminho para o verdadeiro conhecimento. Ela decide deixar Maxence e retornar para Paris, buscando reorganizar sua vida.

O segundo momento de iluminação, ocorre ao assistir uma peça de Shakespeare, Conto de Inverno. Na peça, o rei Leonte vê a esposa ressuscitar pelo poder da fé e da esperança. Apesar de estar ao lado de Luic, é um novo momento íntimo, pois ambos assistiram peças diferentes. Ele vê, pelos olhos frios de um intelectual, uma redição do mito da ressurreição, quase como se fosse um folclore. Ela vê, através do sentimento, o poder da fé em nossas vidas. Luic é católico praticante, enquanto que Félicie está brigada com Deus, como ela mesmo diz. No entanto, percebe-se a fé autêntica nela e não em Luic, que chega a duvidar dos milagres, uma das bases do cristianismo. Rohmer sugere que a verdadeira religiosidade não está na exteriorização da fé, mas na incorporação dela em nossas vidas.

Resolve por fim viver sozinha. Em uma conversa com Luic ela confessa que tem remota esperança de um dia encontrar Charles novamente, e mesmo assim poderia estar casado ou não a amar mais, mas viver com esta esperança era melhor do que qualquer outra vida pois o prêmio seria inimaginável. Luic lembra que trata-se da aposta de Pascal no que se refere à imortalidade. Era melhor viver acreditando na imortalidade da alma pois o prêmio seria infinito e mesmo se fosse ilusão, seria melhor viver uma vida sob esta perspectiva. Algum momento depois, ela comenta que ele só era capaz de acreditar no que lia nos livros, uma nova crítica ao exagero que pode levar uma vida intelectual, afastando a pessoa da realidade.

E foi assim que Félicie deixou Luic por Maxence, depois Maxence por Luic e finalmente Luic por Charles, mesmo que seja apenas pela presença de sua memória. A crença no milagre de reencontrar Charles depois de tanto tempo é suficiente para dar a ela uma direção em sua vida. Só que Rohmer conta sua estória justamente na época de Natal...

Nunca conheci um cineasta que conseguisse retratar a beleza da mulher com tanta destreza. Certamente escolhe atrizes bonitas para seus filmes, como muitos outros fazem. Sua diferença é a personalidade que consegue dotar estas personagens, deixando-nos apaixonados por cada uma de suas heroínas. Consegue aliar a beleza física, algumas vezes não tão evidentes, com gestos, olhares e espírito que as transformam e mulheres ricas em tanta beleza. Coisa de gênio.

Mais uma vez Rohmer centra seu filme nas pessoas e na realidade. Alguns críticos afirmam que seus filmes são lentos demais para o cinema. Pode ser. Mas são no ritmo da vida real. Assim, dá tempo ao expectador de refletir junto com seus personagens, de pensar em nossas próprias vidas. Ouvi falar em Eric Rohmer no dia de sua morte, no fim do ano passado. De lá para cá, vi cerca de 6 filmes dele. Não houve um único que não admirasse, que não me fizesse refletir depois. Seus personagens são extraordinariamente reais, assim como suas estórias. Nos deparamos com algumas delas o tempo todo, mas com ele aprendemos a refletir sobre estas experiências. Na verdade, Rohmer foi uma espécie de cineasta filósofo, que conseguiu entender o amor como pouquíssimos cineastas badalados foram capazes de fazer.

Fico especialmente feliz por saber que ainda tenho tanto filme dele para assistir. Um verdadeiro privilégio.

domingo, agosto 15, 2010

A Economia em nosso dia a dia

O Naturalista da Economia
Em busca da Explicação para os enigmas do dia a dia
Robert H. Frank, 2007

Robert Frank é professor de economia e nunca se conformou com a constatação que os alunos da disciplina de Introdução à Economia guardassem tão pouco dos conceitos apresentados e muitas vezes saíam com conhecimentos ainda mais pobres. Para ele, a explicação estava no fato dos professores, em geral, não mostrarem claramente aos alunos a aplicação dos conceitos econômicas no dia-a-dia e a disciplina fosse vista como um conjunto de fórmulas, gráficos e conceitos abstratos.

Frank passou a propor que seus alunos utilizassem os conceitos aprendidos no curso para formular uma pergunta sobre padrão de comportamento que observassem no dia a dia e a respondessem. Uma parte do resultado foi selecionado pelo autor e compôs o livro "O Naturalista da Economia" e tem como propósito claro mostrar como a economia permeia nossa vida e explica muito do que acontece a nossa volta.

Assim, perguntas como "por que os ovos vermelhos são mais caros?", "por que o vinho é tão caro nos restaurantes?", "por que damos gorjeta para alguns serviços e não para outros?, são apresentadas e respondidas utilizando conceitos simples de economia como custo de oportunidade, custo-benefício, oferta e demanda, custo agregado e etc. O autor procura desmistificar um pouco a economia e mostrar que não é um assunto apenas para estudiosos e que seus conceitos básicos estão na verdade a alcance de cada um, basta disposição para observação e reflexão.

O único problema é o leitor achar que a economia explica tudo. Existem coisas, como a ação muitas vezes irracional do homem, que não se explicam por conceitos que partem do princípio que nossas ações estão voltadas para o maior benefício possível. Nem sempre isto é verdade. Reconhecendo estes limites, entretanto, a economia é uma excelente ferramenta para compreender muitos dos comportamentos das pessoas nas mais diversas situações.

Mais um livro no esforço atual de muitos economistas em popularizar e mostrar que a economia está no dia a dia e ao alcance de todos.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Manhattan


Algumas vezes em minha vida assisti filmes do Woody Allen. O primeiro, lá pelos meus 14, 15 anos, foi "Tudo que você sempre quis saber sobre sexo...". Um título interminável que nem vale a pena citá-lo todo. Achei engraçado, até porque a idade era propício para isso. Vi "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" _ um dos grande exemplos de títulos imbecis para filmes estrangeiros _ ainda naquela época e desisti do cara. Era muito chato.

Alguns anos depois, assisti "Poderosa Afrodite" por causa do Oscar da Mira Sorvino, quando ainda ligava para esse tipo de coisa. Achei sem pé nem cabeça. Por fim, acho que ano passado, vi "Annie Hall" novamente e finalmente comecei a entender o cara. Na verdade, comecei a perceber que um bom filme começa com bons personagem, principalmente se forem reais. Exatamente o que tinha em Annie Hall.

Voltei à carga este ano e agora foi a vez de Manhattan, o filme em preto-e-branco que Allen filmou em 1979, ainda na esteira de Annie Hall. O personagem principal do filme é o do título. Nunca fui em Nova Iorque, talvez nunca vá, mas uma vez João Pereira Coutinho disse que ninguém nunca será capaz de enxergar a cidade como o cineasta. Nem a verdadeira Nova Iorque consegue rivalizar com a que Allen mostra em seus filmes.

Para mostrar Manhattan, uma série de personagens interessantes que retratam bem o período confuso que foi os anos 70. Ninguém estava satisfeito com ninguém, pelo menos até o momento que se separavam. A partir daí misturavam-se arrependimento e descoberta em uma confusa relação de sentimentos.

Isaac, personagem de Allen, é um narcisista, coisa que tem certa desconfiança. Não tem a mínima hesitação em concordar que é uma pessoa engraçada e culta. Não consegue entender porque a ex-esposa o trocou por outra mulher, tem uma namorada de 17 anos que dedica seu tempo a "educá-la" e desfilar seu entendimento da vida. Não é por acaso que se sente pessoalmente atingido quando conhece Mary que não só é uma intelectual, como tem opiniões diversas da sua. O fato dela ter discordado dele, principalmente em frente da jovem Tracy, o tira do sério.

Mary é amante de seu melhor amigo, que também não está muito satisfeito com a esposa. Quando este resolve se livrar da amante, acaba empurrando-a para Allen que por sua vez termina com Tracy. O interessante é que Isaac lembra Tracy sempre a lembrou para não se apaixonar por ele, da mesma forma que a ex-esposa dele também o avisara.

Começa o círculo dos arrependimentos. Invariavelmente os personagens se arrependem das escolhas que fizeram e procuram voltar aos relacionamentos que acabaram de deixar. No fundo, são pessoas perdidas em uma sociedade cada vez mais materialista e individualista. Tanto Yale quanto Isaac e Mary estão apenas preocupados com si mesmos e não conseguem se colocar no lugar das pessoas que supostamente amam.

Tracy, ainda uma adolescente, ao contrário, é extremamente madura para sua idade e sabe com clareza o que quer. Allen conseguiu ser habilidoso ao criar um romance entre um homem de 40 anos e uma menina de 17 sem chocar, justamente por mostrar a jovem como mais desenvolvida que o próprio Isaac.

O fim é muito criticado, mas pessoalmente acho que erraram o ponto. Era justamente o final mais coerente para um homem que apesar de muitas vezes cínico, narcisista e orgulhoso, tinha uma vontade sincera de ser uma boa pessoa, como atesta seu escrúpulo em não se envolver com a amante do seu melhor amigo, coisa que depois não foi retribuído.

No fundo, todo o sistema de defesa que Isaac tinha montado em relação a Tracy não era para protegê-la de um homem mais experiente e de sua própria inexperiência no amor. Era justamente o contrário, era para protegê-lo de apaixonar-se por alguém tão jovem.

Não sei se comecei a entender Woody Allen, mas acho que comecei a apreciar seus filmes. O que implica que tenho muita coisa pela frente para assistir. Ainda bem.

terça-feira, agosto 03, 2010

Avisem as FARCs...



Os zelosos jumentos, digo, juízes do TSE devem conceder direito de resposta por mais uma acusação de ligação com as FARCs, desta vez feita... pelas FARCs!!!

Vejam as bandeiras que se encontram no site das FARCs!

segunda-feira, agosto 02, 2010

PT e as FARCs, surrealismo puro!

Difícil ver um debate político no país. O TSE, vulgo Bedel de eleições, resolveu declarar que associar PT com as FARCs é "ofensa passível de direito de resposta". O pior é que até agora o PT não negou esta associação, nem no próprio pedido de direito de resposta!

Seria de supor que o direito de resposta seria justamente para o PT negar sua vinculação com as FARCs. Mas, não! O partido quer apenas impedir que se discuta o assunto. Quem é esse Índio da Costa para fazer uma insinuação destas? Aliás, vários políticos petistas fizeram brincadeiras com o nome do candidato a vice na chapa de Serra, cadê a turma do politicamente correto? Cada os bedéis das palavras alheias?

O advogado do PT chegou a sugerir que o problema não é associação com as FARCs, mas associação com o tráfego de drogas. Segundo o partido, existe gente honesta nas FARCs, como nas favelas no Brasil.

É um escárnio! É mais uma demonstração do absurdo da situação. Uma favela não é uma organização criminosa. Como qualquer bairro brasileiro, existem pessoas honestas e desonestas. Já uma organização que vive de comércio de drogas, seqüestros e atos terroristas é criminosa por natureza. Não há uma única pessoa honesta lá dentro. O lugar daquele bando é no banco dos réus, respondendo por inúmeros crimes.

O TSE não perde uma oportunidade de promover mais uma vergonha!

Relatório da CIA: Como será o mundo em 2020

Na verdade, não se trata de um relatório da CIA, mas de uma análise prospectiva do Conselho Nacional de Inteligência, responsável pela análise estratégica da comunidade de inteligência americana. De modo geral, o documento tenta visualizar como estará o mundo em 2020 para fornecer subsídios para as tomadas de decisão para políticas de longo prazo.

Nos tempos atuais é ainda mais complicado tentar imaginar o mundo do futuro, mesmo menos de duas décadas à frente. Basta retroceder um pouco no tempo e se colocar no lugar de uma pessoa em 1989 quando o muro de Berlim veio abaixo. Teria como imaginar o 11 de setembro? Um presidente americano mestiço com uma plataforma altamente socializante? Um Brasil economicamente estabilizado? Um Irã caminhando para se tornar uma nação nuclear?

Vivemos um tempo de alto grau de incertezas e prever o futuro nessas condições é altamente problemático. No entanto, pior do que imaginar um quadro confuso é não imaginar quadro nenhum. O relatório procura montar um quadro coerente com as informações disponíveis na época que foi escrito; se está certo, só o tempo dirá.

Diante das incertezas, são projetados 4 cenários extremos:

  1. Pax americana: é o mais favorável aos EUA. É o retorno ao pré 11 de setembro de 2001 com os EUA reinando como potência absoluta no planeta, como o Império responsável pelos grandes rumos da humanidade. Embora novas potências surjam, notadamente China e Índia, sua liderança tecnológica e militar o mantém ainda em um patamar sem rival.
  2. Ciclo do Medo: é o cenário mais pessimista, o caos mundial. A proliferação das armas de destruição em massa e biológica leva a uma situação de busca da segurança absoluta, com reflexos no cenário da globalização e o fechamento dos países diante de ameaças potenciais externas. Os Estados Unidos vêem sua influência desmoronar e volta-se para si mesmo, tentando proteger-se da ação de novos e antigos grupos terroristas.
  3. Novo Califado: este cenário foi montado para imaginar como se comportaria o mundo diante de um movimento global fomentado por uma identidade religiosa radical. A união de vários países islamicos em torno de um Califa causaria uma confusão não só no próprio mundo muçulmano quanto nas relações entre EUA, Rússia, Europa e China.
  4. Mundo de Davos: é uma ilustração do sucesso da globalização. Um robusto crescimento econômico, liderado por China e Índia, dá uma nova face ao processo, agora menos ocidental, transformando o palco de atuação política. Embora os EUA ainda exerçam a liderança militar e tecnológica, seu poder econômico perde importância relativa para demais nações em desenvolvimento.
O relatório faz suas projeções em cima de alguns eixos como a globalização, o combate ao terrorismo, o crescimento chinês e indiano, a mudança do perfil demográfico dos países desenvolvidos e o controle de armas de destruição em massa. Tentar confirmar ou negar as previsões a priori é quase tão temerário quanto fazê-las. No entanto, o documento tem a clara relevância de pelo menos levantar quais são os dilemas que poderão orientar as decisões mundiais nos próximos anos. Serve, pelo menos, para acompanhar os acontecimentos dos próximos 10 anos e ver até ponto foi escrito por visionários ou por homens completamente enganados pelos indícios que possuíam na época.

Se voltarmos no tempo, no início da década de 30, quem imaginaria que a Alemanha se recuperaria da pesada crise econômica que atravessava e em 10 anos teria toda a Europa a seus pés?

Embora sempre tenha existido homens capazes de prever tendências, houveram também aqueles que erraram completamente. Malthus que o diga!

domingo, julho 25, 2010

Crise Mundial, problema financeiro?

A crise que estourou em 2008 e se espalhou pelo mundo, principalmente nos países mais ricos, foi tratada inicialmente como uma crise financeira causada pela irresponsabilidade de investidores gananciosos. Além de socorrer o sistema bancário para evitar uma crise de liquidez que colocasse em risco a economia como um todo, o remédio era disciplinar os irresponsáveis para que ela não mais voltasse a ocorrer.

Passados dois anos, começa a surgir explicações que divergem das primeiras análises. Seria o mercado financeiro o grande vilão? Estaria a economia real, aquela das empresas e consumidores, sujeita aos desmandos de banqueiros e investidores inescrupulosos ou o contrário? Seria o sistema financeiro a vítima de uma disfunção da própria economia?

Luc Ferry é um filósofo francês, autor de algumas obras que buscam popularizar a filosofia como "Aprendendo a Viver" e foi ministro da educação da França entre 2002 e 2004. Na condição de presidente do Conselho de Análise da Sociedade, instituído pelo governo de seu país para analisar e propor escolhas diante dos desafios atuais, coordenou um estudo sobre a crise mundial e as sugestões para enfrentá-la. O resultado deste estudo encontra-se em "Diante da Crise, Materiais para uma Política de Civilização", publicado em maio de 2009.

Para Ferry, a crise é sobretudo econômica e o sistema financeiro teve um papel secundário na crise. As raízes da crise está no consumismo desenfreado, ampliado enormemente pela globalização, que tornou a sociedade dependente do aumento interminável do padrão de consumo, acima da capacidade de compra dos indivíduos e empresas. O resultado é o endividamento geral, com o crédito substituindo o salário como fonte de recursos e gerando artificialmente um sistema que não pode se manter infinitamente. O que aconteceu em 2008 foi que a capacidade de endividamento chegou no limite.

O livro é estruturado em duas partes. Na primeira, Ferry analisa a globalização e seus efeitos históricos, que contribuíram em grande parte para o estabelecimento da sociedade voltada para o consumo. Na segunda, apresenta 5 eixos de propostas para o governo francês enfrentar a crise.

A globalização é uma realidade que junto com benefícios traz também efeitos nefastos. A sua primeira fase, ocorrida a partir do século XVIII, ficou conhecida como revolução científica e social, que rompeu com o mundo antigo estabelecendo um novo paradigma de busca do progresso pelo domínio da natureza. A segunda, que surgiu a partir da segunda metade do século XX "com o nascimento dos mercados financeiros, ligados à comunicação instantânea na Internet, representa, ao mesmo tempo, um produto da primeira e uma ruptura total com ela" terá como grande característica o surgimento de uma estrutura, o capitalismo, onde tudo será submetido a uma economia de competição que mudará radicalmente a forma de viver no mundo.

O capitalismo assumirá uma forma de revolução permanente, trocando de lugar com o socialismo. A desconstrução das tradições herdadas de nossos avós, fruto de uma luta da esquerda contra o capitalismo, terá como maior beneficiário o próprio capitalismo que terá as condições de impor uma sociedade de consumo, só possível pelo estabelecimento de novos valores de constante revolução. O burguês conservador, deplora a perda destas tradições por parte de seus filhos e da juventude, mas ao mesmo tempo necessitará dela para sobreviver economicamente. A mudança passa a ser a palavra-chave nas empresas, o que é incompatível com um ideal verdadeiramente conservador. Por fim, ocorre o que chamou de sacralização do humano. Deus, pátria e o próprio ideal de revolução, as razões que o homem tinha para morrer e matar, se perde e a família, filhos e parentes, passa a ser o motivo capaz de fazê-lo lutar. Nos próximos anos as relações entre política e vida privada sofrerão uma revolução.

Diante deste quadro, Ferry propõe 5 eixos de propostas para a França se posicionar no novo cenário. São elas:

- Um eixo duplo, totalmente prioritário: o auxílio às famílias, o auxílio às empresas;
- um eixo de "equidade": em que condições todos os nossos concidadãos podem sentir-se "no mesmo barco"?
- Um eixo de "educação": repensar do começo ao fim a educação cívica, o caminho profissional, os programas econômicos e o lugar das grandes obras em nossos ensinamentos filosóficos e literários;
- Um eixo de "redução de déficits": a questão da solidariedade entre as gerações e
- Um eixo "Europa" que finalmente a apresenta com o bom nível para retomar as rédeas sobre um curso do mundo que a globalização está sempre tirando de nós.

Ferry conclui lembrando que diante da crise, que é econômica, financeira, social e política, as margens de manobra orçamentárias dos governos são limitadas e que apenas um projeto de civilização sincero, equitativo e coerente pode permitir fazer frente ao risco de considerar o mundo como injusto e desprovido de sentido. O horizonte de consumo infinito e ilimitado não é sustentável, é preciso encontrar um novo modelo de desenvolvimento e até mesmo um novo projeto de sociedade. A crise é mais do que uma catástrofe em si, é uma oportunidade de abrir os olhos e reverter o caminho que está sendo seguido e cujas consequências ainda poderão ser bem piores no futuro do que se viu até aqui.

O curto livro de Ferry, tem 115 páginas, tem o inegável mérito de refletir sobre a crise em um ambiente bem mais amplo do que pela via da economia. Chama atenção para a relação entre a destruição dos valores tradicionais e o estabelecimento de uma cultura de consumo, invertendo papéis entre burgueses e boêmios, entre artistas e banqueiros. Paradoxalmente, os artistas se tornaram os maiores amigos dos grandes capitalistas. A família é colocado por ele em papel central, inclusive com propostas concretas para um crescimento populacional europeu.

No entanto, Ferry apresenta uma crença absoluta no papel da ciência como fonte única do progresso humano. Parece considerar que a superação do sentimento religioso é uma condição para esse progresso. A educação é visto como ele como fonte da formação cívica e não como a capacitação para a reflexão humana através da busca de conhecimentos básicos.

O capitalismo é visto por ele como um sistema, dentro de uma visão até certo ponto marxista, embora rejeito o socialismo como solução econômica para a humanidade. Por rejeitar a relação da filosofia com a religião, não pode conceber que os problemas da liberdade econômica são provenientes da própria fraqueza humana e deixa de perceber o que para Bento XVI, por exemplo, é bem claro. A cupidez humana é a responsável pelo consumismo e não o sistema econômico em si e que a reforma moral é o fundamento para que a sociedade ser organize de modo mais harmônico, justamente o que prega as grandes religiões.

Apesar disso, o curto livro de Ferry tem méritos inegáveis, principalmente por fugir da esquematização exclusivamente financeira sobre uma crise que poder ter razões que vão muito além da economia e consegue enxergar em um quado mais amplo a primeira crise do novo século.