domingo, janeiro 31, 2010

Maigret e o Homem do Banco


Fazia um bom tempo que não lia um livro em um único dia; impedimentos da tentativa de viver nos dias de hoje com três filhos. Culpa do mundo, não dos três filhos, que fique bem claro. São três troféus que guardo para mostrar que ainda não fui destruído pela rebelião das massas e seu asfixiante mundo contemporâneo. Divago, volto ao Simenon.

Uma das frase que mais gosto da séria Guerra nas Estrelas, e existem inúmeras, é a que Obi Wan Kenobi diz a Luke quando mostra seu sabre de luz: "uma arma elegante; de um tempo mais civilizado". Ou algo assim. É mais ou menos o sentimento que tenho ao ler um livro do Simenon ou de Agatha Christie. O mal está lá, mas são livros elegantes; de um tempo mais civilizado.

Simenon é brilhante ao descrever o trabalho de um detetive em um patamar absolutamente humano. Maigret não tem nenhuma idéia brilhante, apenas trabalho duro e alguns palpites que por vezes se confirmam. Os meios da polícia não são ilimitados como se vê nos filmes. Tem que ligar de um orelhão para pedir um carro para se deslocar de um ponto para outro, comparecer e perder sua tarde para dar depoimento em um julgamento, pensar na alimentação de um suspeito na hora do interrogatório, prestar contas ao juiz de instrução, etc. É um burocrata que tenta fazer seu trabalho com dignidade e sentido.

Não são as pistas materiais que lhe colocam na direção da solução de um caso, mas a capacidade de entender os dramas humanos. É capaz de se compadecer da vítima, dos personagens, até mesmo dos criminosos. É humano, sente inveja de um investigador que realiza um bom trabalho, sente-se mal pela hipocrisia de um advogado em um tribunal.

Maigret e o Homem do Banco é mais uma reflexão sobre a condição humana. Louis sai de casa todos os dias e volta no mesmo horário. Suas roupas são escolhidas pela mulher, que o domina completamente. Vive à sombra dos dois cunhados, ambos funcionários públicos, que desfrutarão de uma aposentadoria oficial, que já era uma expressão de felicidade na França dos anos 50. É assassinado e a primeira surpresa: é encontrado usando sapatos amarelos e gravata vermelha, o que a esposa jamais permitiria.

Pois Louis tinha uma vida dupla. Havia perdido o emprego alguns anos antes, mas escondera da esposa com medo da reprovação. Depois de procurar por alguns meses, e recorrer a empréstimo para simular um salário, consegue uma fonte de renda desconhecida que lhe permite ficar com seu tempo praticamente livre, que invariavelmente gasta sentado em bancos de praças. Aluga um quarto e para materializar sua independência, compra os sapatos e a gravata. Arranja uma amante e aqui entra a ironia mordaz de Simenon, pois é quase uma réplica física da esposa. Aliás, é justamente o que a filha não entende ao descobrir de seu caso; poderia entender uma mulher diferente, mas igual à sua mãe?

O retrato que Simenon faz de Louis, sempre através das testemunhas que o conheceram, é de um homem bom, sufocado pela família que apenas quer viver com tranqüilidade e sem sobressaltos. Infelizmente encontrou o seu fim em um beco, com uma punhalada pelas costas. Deixou mais saudades nas pessoas que compartilharam sua vida fora de casa (secretária, colega de trabalho, amante, senhoria) do que em sua própria família que encarou com certa frieza todos os procedimentos relativos à sua morte.

Simenon mostra, sempre pelos olhos de Maigret, mais um estudo do homem e sua relação com a sociedade ao narrar a triste estória de um homem que apenas queria que o deixassem em paz e que gostava imensamente de pessoas, principalmente as menos notáveis. Um homem que desejava ser livre e, de certa forma, foi em seus últimos anos. Mais do que o comissário Maigret, que percebeu esta verdade e tratou logo de ir ao cinema com a esposa, para não pensar demais.

sábado, janeiro 30, 2010

Persuasion - Jane Austen

Persuasion foi o último romance escrito por Jane Austen e uma amostra do que poderia ser a maturidade da autora, que faleceu aos 41 anos com toda uma vida criativa ainda pela frente.

É um romance diferente dos demais que li, ainda faltam-me Northanger e Madison Park, pois seu clima é mais sombrio e mais reflexivo. Anne é a filha de um baronete extremamente vaidoso e que aos 27 anos entra naquela faixa que para época já tornava-se "velha" para o casamento. Tudo porque 8 anos antes, rejeitara uma jovem capitão da marinha persuadida por Lady Russel, uma espécie de conselheira da família desde a morte de sua mãe. Pois o capitão volta a seu convívio, agora rico, mas ressentido e amargurado pelo passado.

A ação do romance é muito mais contida, muito mais sutil. É até difícil, de início, perceber Anne como personagem principal do livro. Ao contrário de criações anteriores como Lizzy e Emma, ela é mais uma espectadora, uma ressonância para os demais personagens, do que uma voz ativa na trama. Ao longo do livro ela vai firmando sua personalidade e adquirindo a confiança necessária para se afirmar e buscar sua própria felicidade. O leitor não se apaixona por ela de cara, mas vai se encantando a cada sutileza, a cada pequeno gesto.

A persuasão do título refere-se não só ao episódio que afastou Anne do amor de sua vida, mas de uma série de tramas secundárias e mostra as consequências da pretensão das pessoas em saber o que é melhor para as outras, mesmo, ou principalmente, quando as atenções são boas. Nas últimas páginas, Anne defende a persuasão feita por Lady Russel e principalmente a própria responsabilidade em tê-la aceitado. Era o razoável para época e mostra que nunca se pode saber com precisão se uma determinada escolha é a certa, podemos apenas intui-la fruto de nossa vivência; mas os fatos podem mostrar o tamanho do nosso erro.

Av, Paulista - João Pereira Coutinho

O livro é um conjunto de crônicas do português João Pereira Coutinho, publicadas na Folha de São Paulo entre 2005 e 2008. Dividida em duas partes (samba e chorinhos), o português trata da vida cultural, principalmente européia, e do retrato da civilização ocidental nos dias de hoje.

Trata de assuntos diversos como futebol, comportamento, Woody Allen, Rocky, O Código da Vinci, ambientalismo, a execução de Sadam, Jane Austen, jornalismo, mídia em geral, literatura, poesia, Gore Vidal e tantos outros.

Considero João Pereira Coutinho o melhor texto da imprensa escrita brasileira. Relativamente novo, 33 anos, é um leitor fanático e perspicaz observador da comédia humana que se desenrola sob nossos olhos todos os dias. Poucos conseguem, como ele, associar as idéias como a realidade existencial, ligar a imaginação com os acontecimentos concretos. Sua crônica sobre Jane Austen, por exemplo, mostra como a romancista pode seu usada para dar um pouco de luz sobre os relacionamentos amorosos. Orgulho e Preconceito é uma “meditação brilhante sobre a forma como as primeiras impressões, as idéias apressadas que construímos sobre os outros, acabam, muitas vezes, por destruir as relações humanas”.

Problemas sentimentais, por favor, não façam caso. Fatalmente, tenho sempre dois objetos sobre a mesa: uma caixa de lenços de papel e, claro, uma cópia de Orgulho e Preconceito, o livro que Jane Austen publicou em 1813... lê Orgulho e Preconceito e encontrará a luz, meu amor.


Outro bom momento é sua defesa apaixonada de Woody Allen, toda a obra. Confesso que vi pouquíssimos filmes do americano e há muito, muito tempo atrás. Talvez seja hora de assistir uns dois ou três e fazer uma imagem melhor. Outra cortesia de Allen.
Da mesma forma, Coutinho desperta o interesse sobre outros autores, alguns que já tinha lido a respeito e outros que nunca tinha escutado falar. Poucos conseguem despertar o interesse por um autor com tão poucos palavras; sua concisão é absurda.

O trato com a linguagem também é admirável, fruto de décadas lendo o melhor da literatura, como bem atesta a crônica sobre Allen. O humor é marca constante, assim como a ironia; utilizados para evidenciar as contradições e a falta de lastro com a realidade de boa parte do discurso politicamente correto dos dias de hoje, este mal que acaba com a capacidade de pensar do homem contemporâneo.

Atenção, críticos. Eu tenho três palavras para vocês. Não. Sejam. Ridículos. Será preciso repetir? Falo em defesa de Woody, meu amigo Woody Allen, que há trinta anos __ bom, há uns vinte __ vive cá em casa, na melhor estante do meu coração.


Evidencia como ninguém que ninguém é mais intolerante nos dias de hoje do que os tolerantes, que o mundo pode ser asfixiante para quem defende que o homem deve ser livre para fazer suas escolhas e conviver com elas.

Coutinho é leitura obrigatória para quem quer sair do lugar comum da crítica cultural burocratizada e sem imaginação que assola o mundo; quadro bastante agravado no caso brasileiro. É uma brisa de ar em um ambiente carregado de doutrinadores ideológicos transfigurados em jornalistas, autores, intelectuais. É um destes textos que devem ser lido como remédio para manter a saúde mental.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

A Mulher Invisível

De vez em quando aparece um filme destes para mostrar que o cinema nacional tem esperança, basta ter uma boa estória para contar. Bons atores nós sempre tivemos, tecnologia não fica a desejar para filmes que não exija grandes efeitos especiais. O problema é a fixação dos cineastas em fazer o tal "filme de autor". Pagos pelos contribuintes, claro.

Felizmente este filme simpático de Cláudio Torres estrelado pelo sempre versátil Selton Mello. O segredo é deixar os "oprimidos" de lado e filmar a boa e velha natureza humana. No caso, a desilusão de um homem abandonado pela esposa que resolve se isolar do mundo e acaba se fixando em uma mulher imaginária, a mulher dos seus sonhos.

Trata-se de um dos grandes problemas do homem. Ao fixar o ideal e não aceitar fazer concessões à realidade, o homem se torna doente. Pedro não consegue perceber que Amanda é fruto da sua imaginação e por causa disso, não consegue ver o real, neste caso a vizinha Vitória, que nutre por ele um amor platônico. Falta a ele a coragem para aceitar a realidade das coisas, em viver as circunstâncias particulares que nos rodeiam.

A partir desta premissa simples mas verdadeira, Torres fez um filme honesto, baseado em personagens bem construídos e com bastante sensibilidade. Parabéns. Faltam filmes assim em nosso cinema.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

An Appeal to Reason

Lawson, N. An Appeal to Reason - A Cool Look at Global Warming. Editora Overlook, 2008

A tese central de Nigel Lawson, ex-secretário de energia e ex-secretário de economia e finanças do governo de Margareth Thatcher, é que o debate sobre o aquecimento global deixou de lado a razão para se concentrar em uma absurda disputa em torno de crenças. Como ele aponta, não é um especialista em climatologia, mas a esmagadora maioria dos apologistas da teoria antropocentrica para o aquecimento, incluindo cientista, também não é. O que falta, e muito, no atual debate, se é que se pode chamar de debate, é bom senso.

.. neither scientists nor policicians serve either the truth or the people by pretending to know more than they do.


Lawson estrutura seu livro para responder a 6 perguntas:

  1. O mundo está se tornando mais quente?
  2. Se está, por que?
  3. O quanto mais quente chegará no futuro próximo?
  4. Quais as consequências?
  5. O quanto estas consequências importam?
  6. O que devemos fazer a respeito?

Argumenta que a ciência do aquecimento global está longe de estar consolidada e lembra que a certeza científica nunca foi obtida pela quantidade de adeptos de uma determinada teoria. Uma série de problemas afeta o atual consenso sobre o clima, os dados e métodos utilizados para formular a teoria do aquecimento não foi divulgada, a importância da atividade solar é praticamente desconhecida, as dificuldades de se calcular a temperatura média global, já houve um período de aquecimento na Idade Média, o aquecimento mais rápido da superfície terrestre em relação à troposfera contraria a teoria aquecimentista, a década de 20 do século passado foi mais quente que as décadas seguintes e, principalmente, não houve aumento de temperatura nos últimos 10 anos, fato totalmente não previsto ou explicado pela ciência do aquecimento.

Lawson recorre frequentemente aos próprios relatórios do IPCC, que muita gente defende como expressão da verdade, embora muitos poucos tenham lido. O relatório é composto de duas partes, uma primeira onde são reunidos os resultados das pesquisas sobre clima e um resumo informativo, voltado principalmente para a imprensa. Começa o primeiro problema, o resumo costuma exagerar muito os efeitos constantes da primeira parte, com um claro viés político. No entanto, o autor prefere considerar que o resumo está correto e analisar suas implicações.

O relatório do IPCC possui várias hipóteses de aquecimento, a mais severa delas considera um aumento de 4º C até 2100. No entanto, o relatório afirma que não existe uma hipótese mais provável que a outra. O que vemos na mídia, entretanto, é que esta hipótese é dada como certa e as demais nem levadas em consideração; além disso, poucos se deram conta que esta hipótese está relacionada a um formidável avanço econômico da humanidade que colocaria o mundo em 2100 como 9,5 vezes mais rico do que o atual. Um crescimento que se daria principalmente nos países em desenvolvimento, notadamente China, Índia e Brasil. Outro ponto importante é que o IPCC recusa-se sistematicamente a levar em consideração a capacidade de adaptação do homem, tanto hoje quanto no futuro, além do incremento que esta capacidade pode ter por conta do avanço tecnológico. Segundo o IPCC, o avanço tecnológico para melhorar a adaptação do homem ao clima seria nula nos próximos 100 anos, uma idéia no mínimo bastante curiosa.

Pouca ênfase é dado também, aos fatores positivos que podem vir de um aquecimento global, principalmente nas áreas mais frias do globo, onde acredita-se que o efeito seria maior. Segundo Lawson, e o próprio relatório do IPCC, o aquecimento teria benefícios e custos, que na hipótese mais severa condenaria as gerações futuras a serem apenas 8,5 vezes mais ricas do que a atual e não 9,5.

Se o impacto econômico de um mundo aquecido só se confirmaria com um extraordinário enriquecimento da humanidade, resta apenas o risco do apocalipse ecológico, justamente o esforço retórico de Al Gore e cia. Pois Lawson mostra que não há a menor evidência que este apocalipse possa acontecer, ao contrário, os poucos dados que se tem hoje mostra que as geleiras se mantém estáveis, em alguns casos até aumentaram, os ursos polares aumentaram e o nível dos mares não sofreu alterações significativas. Talvez o armageddon possa vir de uma hipótese contrária ao aquecimento, ao surgimento de uma nova era glacial, como já foi alardeado pelos próprios cientistas no início da década de 70.

Lawson analisa também a possibilidade do mundo entrar em um consenso para uma redução significativa da emissão de CO2 nos moldes propostos por Kyoto. O grande problema é que os países em desenvolvimento, principalmente China e Índia deixaram claro que não assumirão este ônus por terem o desenvolvimento econômico fortemente atrelado à energia barata da queima de CO2. Em um mundo fortemente globalizado, aceitar uma matriz energética mais cara e limpa, significa apenas transferência da produção para os países em desenvolvimento, o que já está acontecendo em larga escala.

Na conclusão, após resumir todos os fatores estudados no livro, Lawson coloca alguma luz no irracionalismo que tomou conta da guerra ambiental. Para a esmagadora maioria das pessoas, a bandeira ambiental se tornou uma questão de fé e não de racionalidade. Tal fato se deve à convergência em torno da agenda ambiental dos antigos defensores do comunismo, que ficaram orfãos com a queda do Muro do Berlim mas continuaram com seu ódio ao livre mercado e vêem o controle social como forma de fugir do sistema que odeiam e do crescente secularismo das sociedades, notadamente européias, que conseguiram no ambientalismo um substituto ao instinto natural do ser humano de ligar-se ao transcendente. Neste sentido, o verde é o novo vermelho e o ambientalismo é a nova religião.

Finalmente, diante do argumento que não custa nada se prevenir e que o movimento ambientalista não causa nenhum mal à humanidade, Lawson afirma que três grandes riscos estão associados ao irracionalismo do eco-fundamentalismo:
a intolerância dos seus membros (o próprio autor não conseguiu um editor inglês para seu livro, fruto do medo de enfrentar a patrulha)
os danos às economias de muitas propostas em jogo
um dano profundo às economias em desenvolvimento se um proteccionismo verde for ainda mais expandido contra produtos oriundos da América Latina, África e Ásia.

Lawson vai no cerne do problema e faz o principal, recorre a fontes primárias. No caso, o relatório do IPCC, um item obrigatório para qualquer jornalista que deseje discutir o assunto com um mínimo de vergonha na cara. Infelizmente, a maioria se contenta com o resumo do relatório e quando muito; vários são os que recorrem a resumo do resumo publicado na mídia. Boa parte do jornalismo tem imensa preguiça de pesquisar, prefere ver uma nota publicada em algum jornal e dar sua opinião sobre ela.

Lawson aborda também uma questão espinhosa para os eco-fundamentalistas _ adoreis a expressão! _ os custos. Não apenas os custos financeiros, mais visíveis, mas sobretudo os custos de oportunidade, um conceito desconhecido da grande massa “opiniosa” mundial. Qualquer recurso utilizado em uma direção deixa automaticamente de ser utilizada em outra. A questão em economia sempre foi saber quais devem ser as prioridades. Um dos problemas com o pensamento esquerdista, que abraçou apaixonadamente o ambientalismo, é se recusar a aceitar uma realidade flagrante, base da ciência econômica: os recursos são escassos e as necessidades ilimitadas. Na mente de um esquerdista padrão, a dinheiro para tudo, basta apenas a tal vontade política.

Alguns dos argumentos de Lawson eu já tinha chegado por conta própria, com um pouco de pesquisa. Só não toco muito no assunto porque eu nunca li o relatório do IPCC e reconheço que não entendo nada de climatologia. O que já é um degrau a mais dos que acham que entendem, como já dizia há alguns milhares de anos Sócrates. É mais um exemplo da sabedoria do “só sei que nada sei”. No entanto, conheço um pouco de lógica e bom senso, e se não posso julgar se o mundo está aquecendo ou não, se o homem tem culpa ou não, posso julgar muitas das consequências, principalmente as econômicas, ciência que tenho estudado por contra própria há dois anos.

O que se propõe para atual geração, em termos de redução de emissões, tem um custo tremendo; principalmente para os países em desenvolvimento. Até que ponto deve-se fazer esta sacrifícios para beneficiar uma geração que será n vezes mais rica do que a atual? Como Lawson bem colocou, os ambientalistas recusam-se sistematicamente a colocar com palavras claras o que realmente sabem e o que pretendem; já escutei argumento que é preciso exagerar para despertar a “consciência da humanidade”. Minha experiência mostra que quando precisa-se recorrer à mentira para conseguir um objetivo é porque há algo de errado na tese. É o que o autor mostra neste livro curto, bastante conciso e necessários para a época que João Pereira Coutinho bem cunhou: o da intolerância dos tolerantes.

... the politicians need to be honest with the people, and tell them the truth. If they believe that we need to cut back drastically on carbon dioxide emissions today, at considerable cost and disruption to our way of life, not because there is any real likelihood of significant harm from global warming, but because there is a remote risk of major disaster at some time in the distant future, they should make the case explicity in those terms, and in no other.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Avatar (2009) _ James Cameron

Eu juro que tentei assistir Avatar sem levar em conta a pobreza da estória mas descobri que isso era praticamente impossível. O filme tem um enorme problema de verossimilhança, um erro fatal para qualquer obra de arte, como Mario Vargas Llosa já tratou muito bem em seu "Cartas a um Jovem Escritor". Para que uma estória funcione, você tem que acreditar que é verossímil, o que não significa necessariamente que seja real; apenas que possa ser imaginada como se fosse.

Quando se assiste um filme como Guerra nas Estrelas, você é capaz de ver verossimilhança. Amor, opressão, luta pela liberdade, honra, traição, amizade. São representações baseadas na experiência da realidade, muitas delas copiadas _ como o devido crédito _ por George Lucas do mestre Kurosawa. Sim, você assiste monstros intergaláticos lutando entre sim em batalhas que desafiam as leis da física, mas a estória encontra eco no mundo real. Basta lembrar do senado intergalático dando poderes absolutos ao imperador para combater uma rebelião que ameaçava a unidade do império, uma revolta orquestrada por ele mesmo. De onde sai a talvez melhor fala dos seis filmes, proferidas pela senadora Amidala:

__ Então é assim que acaba a liberdade. Sob aplausos.

Quer dizer que devemos sempre assistir um filme sob o ponto de vista ideológico? Não, posso considerar um filme bom independente da ideologia contida ou a intenção do autor. O que não consigo é achar um filme bom quando a verossimilhança se perde. Por isso gosto de filmes baseados em Stephen King, Guerras nas Estrelas e tantas outras obras de ficção científica e não consigo assistir duas vezes bombas que tentam forçar um realismo inexistente.

Avatar só escapa no meio do quantidade assustadora de bobagens por causa da tecnologia. Mais uma vez Cameron inova ao incorporar de fato o 3D como instrumento narrativo. Já tinha conseguido antes com o realismo grandioso e extraordinário de Titanic. O problema é que neste caso, apesar de um sugestão de luta de classes facilmente dispensável, havia uma estória verossímel, o amor entre duas pessoas de origem social distintas, o que já rendeu obras extraordinárias. No caso de Avatar, não sobra nada. Cameron poderia ter entrado novamente para a estória se tivesse caprichado pelo menos um pouquinho no roteiro e na estória, preferiu jogar todas as fichas no apelo fácil dos temas progressistas. Exagerou demais na dose.

Como o tempo, outras estórias irão ser filmadas com a tecnologia que ajudou a desenvolver e seu filme ficará na mediocridade de uma obra que poderia ter sido um verdadeiro marco em termos de qualidade artística. Não deve demorar, é possível que Tim Burton e seu Alice coloquem Cameron no patamar que merece pelo filme que produziu, que só escapa de ser uma bobagem completa pelos extraordinários efeitos. Uma pena.

Rashomon (1950) - Akira Kurosawa

Até que ponto podemos confiar em um testemunho? Como saber o que realmente aconteceu sem estar presente? Como saber a verdade?

O mestre Kurosawa fez um filme intrigante sobre estas questões e no final o espectador fica com um desconforto inevitável, a impossibilidade de saber a verdade sobre o que não presenciou. Principalmente se sua única fonte for o de testemunhas oculares.

Um monge e um lenhador protegem-se da chuva sob um portal abandonado quando um camponês se une a eles. Os dois estão visivelmente perturbados; o lenhador por uma estória que não faz sentido e o monge pela constatação da maldade inerente da condição humana. O lenhador começa a contar o julgamento que presenciaram há três dias atrás e que testemunharam. Nada viram do crime, o assassinato de um samurai que viajava com a esposa, apenas presenciaram o início e o fim da estória. O monge viu o samurai conduzindo sua esposa, o lenhador encontrou o corpo.

O importante para a estória é a narração que o lenhador faz do depoimento da esposa do samurai, do bandido que os atacou e até mesmo do morto que incorpora em uma mulher (em uma cena extraordinária, sem nenhum efeito). Pois os três depoimentos não coincidem.

Ao longo do filme, Kurosawa dá algumas pistas, principalmente pelas palavras do camponês que escuta a estória. Todos mentem, diz ele; todos tentam mostrar o melhor de si e deixar de lado a parte ruim. Em cada narração, a testemunha tenta se mostrar da melhor forma possível, embora, todas confessem o crime. Por isso o lenhador fala que nada faz sentido, por que as testemunhas depõem contra si mesmas em um tribunal assumindo uma culpa que não pode ser de todas ao mesmo tempo. Ou pode? Se é certa que não podem ter matado ao mesmo tempo o samurai, todas possuem suas culpas no episódio e talvez o ato de matar seja a menor delas.

O filme pode ser visto também como uma alegoria para o estudo da História. O que temos do passado são fragmentos de testemunhos, sejam narrações ou documentos oficiais, mas tudo narração. Muitas vezes são absolutamente discordantes, como encontrar a verdade? É possível?

Kurosawa inovou tecnicamente ao contar pela primeira vez uma estória a partir de flashbacks discordantes. Ele mexe com a tendência do espectador de ao assistir um flashback achar que foi o que de fato aconteceu e esquecer a subjetividade de quem está narrando. O mesmo acontece com todos nós ao ler uma narrativa histórica. Temos a tendência de achar que aquilo foi daquela forma mesmo, esquecendo o papel do historiador naquele processo.

O próprio lenhador mente em sua narrativa e é descoberto pelo camponês. Tinha roubado o punhal que pertencera a mulher do samurai, uma arma valiosa por possuir uma pedra preciosa em seu cabo. O monge perde a fé no homem ao ver o camponês roubar o quimono que aquecia um bebê que encontraram no portal. Recupera-a logo em seguida por um ato de amor do lenhador. Ainda resta uma esperança no homem, tênue e frágil, que não pode se confirmar, mas existe.

E é assim que Kurosawa nos deixa. Sem saber no que acreditar e com um fiapo de esperança na redenção do homem. E com um enorme desconforto em relação à condição humana.

sexta-feira, janeiro 15, 2010

A Inglesa e o Duque (2001)- Eric Rohmer


Nunca tinha visto um filme de Eric Rohmer, aliás, sempre tive um verdadeiro pavor de filmes franceses e europeus em geral. A maioria dos poucos que vi eram simplesmente bombas incríveis. Eram tão ruins quanto as críticas positivas que recebiam, os chamados filmes de arte.

Pois A Inglesa e o Duque é um filme de arte sem a menor dúvida. O filme é uma verdadeira pintura. Ao invés de fazer uma reconstrução de época, Rohmer optou por criar cenários digitais reproduzindo pinturas conseguindo efeitos incríveis, como confundir atores com a paisagem, como se fosse realmente um quadro. Algumas cenas começam com os personagens estáticos, até que alguém entra e dispara os movimentos, as telas ganham realidade.

E a estória? Bem, a estória é excelente. Uma aristocrata inglesa, vivendo em Paris, vivencia o terror jacobina após a revolução francesa. Boa parte do filme é o confronto dela, uma realista ferrenha, com o duque do título, um nobre que aderiu à revolução. Ela tenta mostrar a ele o absurdo do que estavam vivendo, como podia ideais tão nobres servir de causa para tanta selvageria? Em sua visão, os revolucionários eram bárbaros sem limites. Já o Duque, primo do rei, acreditava que eram defensores do principal valor de uma nação, o povo. Várias vezes afirma que o rei e a aristocracia eram traidores deste valor.

O Duque é o aristocrata que acha que pode conciliar com o revolucionário para formar um meio termo virtuoso. Faltou-lhe o entendimento de Grace Elliot que visualizava que acabaria na guilhotina pois não era possível acordo com o terror. Ela é capaz de ver o grande horror que o afastamento de Deus provocaria no mundo e que nada seria como antes. Os diálogos entre o duque e a inglesa são a representação do confronto de um mundo que partia e um que surgia radioso, portador dos valores mais profundos e puro.

A Revolução Francesa foi a verdadeira porta da caixa de Pandora. Marcou o início do maior fragelo da História humana, o surgimento da mente revolucionária.

Cada vez mais pessoas passaram a acreditar que:

  1. São capazes de entender e explicar a estrutura da sociedade, geralmente através de alguma simplificação grosseira que as fazem perder o contato com a realidade.
  2. Acreditam que sabem como o mundo deve ser e que existe um hiato entre suas utopias e o mundo como eles acreditam que é.
  3. Que este hiato deve ser vencido pela concentração de poder nas mãos de pessoas ou instituições que estejam na vanguarda deste novo mundo redentor.
Estes são os princípios básicos da mente revolucionária que tão bem Rohmer retratou em seu filme. Não é por acaso que características do horror socialista já se apresentavam na Revolução Francesa.

Um chefe de patrulha pergunta a Gracie porque ao invés de expulsar um suspeito que tinha batido em sua casa não tinha alertado a patrulha. Ela responde que não desejava entregar ninguém. Na resposta do guarda temos o sinal dos novos tempos: era obrigação de um bom cidadão delatar os suspeitos. A delação é uma das formas de controle no pesadelo totalitário.

Outra característica: o poder dos medíocres. Quando é presa pela primeira vez isto fica patente na atitude dos dois cidadãos que lideram uma revista em sua casa e posteriormente de um dos juízes de seu processo. São pessoas que não possuem a menor concepção do que seja justiça e se tornam a expressão visível do controle social, uma das criações da mente revolucionária. Não é o ministro que deve ser temido em um governo revolucionário, mas o guarda de trânsito.

Na Revolução Francesa os revolucionários acabaram destruindo a si mesmos, mas esta foi a primeira experiência. Aprenderam com o tempo e terminaram no totalitarismo moderno, sempre em mutação e sempre se fortalecendo. Muitos acreditam que não precisam lutar contra os revolucionários porque eles se destroem sozinhos; não percebem que apesar de ser verdade, em parte, este processo é fonte de força, de aprimoramento do mal.

Gracie Elliot foi uma das primeiras pessoas (o filme é baseado em seu diário) a perceber o que devia saltar aos olhos: a mentalidade revolucionária é uma expressão aboluta do mal pois é baseada no principal pecado humano, o que origina todos os outros, o orgulho. O revolucionário nada mais é que um vaidoso que não vê limites para sua atuação e tem completa convicção do que acredita. Nada é pior para um homem do que acreditar realmente em suas idéias.

O resultado são os milhões de mortos que ficaram pela História e o morticínio está longe de acabar.

Entrevista de Zilda Arns sobre o aborto

Uma forma de homenagear uma pessoa é manter vivo seu pensamento. Aqui vai o link para uma entrevista de Zilda Arns sobre a questão do aborto.

Para não ter dúvidas:

Sou médica pediatra e sanitarista, com mais de 47 anos de experiência em saúde pública. Além disso, estou nos últimos 24 anos à frente da Pastoral da Criança (instituição que acompanha 1,9 milhão de crianças com menos de seis anos, em 42 mil comunidades pobres do país). Por isso, tenho a convicção de que medidas educativas e preventivas são as únicas soluções para o problema das gestações não desejadas. Tentar solucionar problemas, como a gravidez indesejada na adolescência, ou atos violentos, como estupros e os milhares de abortos clandestinos realizados a cada ano no País, com a legalização do aborto, é uma ação paliativa, que apontaria o fracasso da sociedade nas áreas da saúde, da educação e da cidadania e, em especial, daqueles que são responsáveis pela legislação no país. Não se pode consertar um crime com outro ainda maior, tirando a vida de um ser humano indefeso. É preciso investir na educação de qualidade, nas famílias e nas escolas.

sábado, janeiro 09, 2010

Divini Redemptoris - Pio XI

A busca de uma redenção divina ilumina a humanidade em todos os tempos. O cristianismo é a chave para esta eterna busca ao apresentar o verdadeiro Salvador. No entanto, a humanidade é enganada constantemente por promessas falazes, sendo a mais perigosa delas o comunismo, a promessa de realização da felicidade absoluta no mundo material que vivemos, que pretende subverter os fundamentos da civilização cristã.


A Igreja sempre condenou o comunismo, desde Pio IX, passando por Leão XIII e chegando ao próprio Pio XI. No entanto, diante do avanço sistemático da ideologia, o papa sentiu necessidade em 1937 de redigir uma nova encíclica deixando bem claro a rejeição completa dos fundamentos comunistas pela Igreja de Cristo.


O comunismo apresenta-se sobre a máscara de redenção dos humildes, mas nada mais faz do que utilizar-se destes mesmos humildes para promover a luta de classes, sua doutrina é de um misticismo hipócrita e promessas falsas. Procura tornar cada vez mais agudos os antagonismos que surgem entre as classes promovendo o ódio buscando, para isso, remover as barreiras que se opõem a esta violência. O homem reduz-se a uma engrenagem, sem direitos naturais e a família perde sua razão de existir passando os filhos para a tutela da sociedade.


Onde o comunismo foi implantado ou teve qualquer força viu-se a perseguição sistemática aos cristãos como pôde ser visto na Rússia, no México e na Espanha, sob silêncio inquietante de boa parte da imprensa mundial. A violência não é fruto de excessos esporádicos, mas resultado natural da ausência de qualquer freio interno para a maldade humana, sendo muitas vezes os próprios comunistas vítimas do que ajudaram a construir.


A doutrina da Igreja opõem-se ao comunismo por defender a dignidade da pessoa humana, o matrimônio, a família, a sociedade como meio para o homem realizar-se, a suprema realidade de Deus. A sociedade civil existe para o homem e não ao contrário como buscam os comunistas.


O remédio para a luta contra o comunismo é a renovação da vida cristã, particularmente no desapego aos bens terrenos e o preceito da caridade. É através do afastamento do materialismo, da desordem moral, que o comunismo consegue penetrar como doença em uma sociedade. A doutrina social da Igreja é a chave contra o comunismo por revelar a verdadeira defesa dos pobres e explorados no mundo. Deve-se ficar claro que não existe nenhuma colaboração possível do catolicismo com o comunismo.


Cabe aos sacerdotes e auxiliares da Igreja a divulgação da incompatibilidade do comunismo com a mensagem cristã. O Estado deve zelar para que a Igreja tenha liberdade em sua missão, que possa pregar aos mais humildes a renovação moral e a dignidade da vida.


A atuação da Igreja Católica sempre foi um dos principais obstáculos da conquista dos corações incautos pela mentira comunista pois uma doutrina essencialmente materialistas não pode conviver com uma consolação espiritual.


Em 1937 ainda não estava bastante claro para a maior parte do mundo o resultado prático da implantação do comunismo na Rússia. Pio XI foi um dos homens que conseguiu enxergar com absoluta clareza a completa incompatibilidade do cristianismo com o socialismo. Uma doutrina materialista não poderia conviver com uma espiritual, daí talvez a escolha da palavra ateu junto com comunismo para o título da encíclica.


Vós, sem dúvida, veneráveis irmãos, já percebestes de que perigo ameaçador falamos: é do comunismo, denominado bolchevista e ateu, que se propõe como fim peculiar de revolucionar radicalmente a ordem social e subverter os próprios fundamentos da civilização cristã (Pag 10)




O papa percebeu que todo o discurso comunista foi construído em cima de verdades e mentiras misturadas, justamente a arma mais eficaz para difundir um grande engodo; as disfunções e aposta materialista do liberalismo econômico abriu caminho para uma praga ainda maior que aproveita-se do afastamento do homem de Deus para incutir em seus corações a promessa irrealizável da felicidade absoluta na mundo material.


Sistema cheio de erros e sofismas, igualmente opostos à revelação divina e à razão humana; sistema que, por destruir os fundamentos da sociedade, subverte a ordem social que não reconhece a verdadeira origem, natureza e fim do Estado; que rejeita enfim e nega direitos, a dignidade e a liberdade da pessoa humana. (pag 20)



A Igreja é um obstáculo a ser vencido pelos comunistas por apresentar o consolo verdadeiro aos sofredores do mundo, a crença em um outro mundo, onde a justiça prevalece, só que no reino dos céus. O cristianismo é um alívio indesejado para quem deseja aprofundar os antagonismos na sociedade para mudá-la para um fim utópico. Outro grande mérito do texto é deixar claro que a colaboração com o comunismo é completamente rejeitada, coisa que os católicos franceses se esqueceram ao aliar-se aos comunistas na resistência contra a ocupação alemã, um verdadeiro exemplo de aliar-ser com o demônio.


Procurai, veneráveis Irmãos, que os fiéis não se deixem enganar! O comunismo é intrinsecamente perverso e não se pode admitir em campo nenhum a colaboração com ele, por parte de quem quer que deseje salvar a civilidade cristã.(pag 53)



Se em 1937 o quadro parecia desalentador para Pio XI, hoje sentiria-se muitas vezes pior. Muito do que diagnosticou nesta encíclica: o silêncio da imprensa, a libertação da moral cristã, a penetração comunista na própria Igreja, o enfraquecimento da sociedade pela disfunção do liberalismo, o acirramento dos antagonismos internos da sociedade, enfim, tudo se realizou e em muito pior escala do que imaginara. A América do Sul está praticamente toda perdida para o socialismo, agora transfigurado ao entender que o planejamento centralizado era uma fraqueza de seu sistema, e o próprio EUA está finalmente captulando diante de décadas de ação cultural marxista.


Entretanto, nada é pior do que a desfiguração da Igreja católica com a penetração do virus socialista em suas entranhas. No Brasil a situação é cada vez pior com padres e bispos agindo abertamente para tonar compatíveis o comunismo e o cristianismo, justo o que mais temia por entender que não havia síntese possível em doutrinas tão radicalmente opostas.


Divini Redemptoris é o diagnóstico da maior ameaça à humanidade que surgiu nos últimos dois séculos e talvez em sua estória pois nem as mais cruéis e autoritárias civilizações da antiguidade ou bárbaras de qualquer natureza jamais sonharam e chegar ao ponto de poder absoluto que o horror soviético mostrou e que a sociedade de hoje deixa ainda mais evidente, embora escondida sob os mais diversos rótulos. Infelizmente a mensagem de Pio XI não foi entendida e posta em prática; principalmente por quem mais deveria ter prestado atenção, os católicos do mundo inteiro em particular e os religiosos em geral.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Mais Platão, Menos Prozac - Lou Marinoff

A Filosofia não deve se resumir a um pequeno mundo inacessível ao público, nas estantes empoeiradas de bibliotecas ou escritórios de alguns pouco estudiosos. Sócrates foi o primeiro a dizer que a filosofia deveria ser prática, aplicada ao cotidiano, promovendo o constante exame de si mesmo.

A velocidade do mundo moderno, a grande quantidade de coisas que as pessoas se propõem a fazer, o materialismo crescente, o consumismo, tudo contribui para uma série de disfunções da pessoa. Os consultórios de terapia nunca estiveram tão cheios, os livros de auto-ajuda nunca venderam tanto; o homem de hoje clama por socorro e nada disso parece suficiente.

Para Marinoff, falta filosofia. Por que não combinar técnicas de terapia, auto-ajuda, psicanálise com exame filosófico? As clínicas de acompanhamento filosófico estão se espalhando pelos EUA e Europa. Muitos dos problemas atuais são da esfera da Filosofia: por que existo? qual o propósito da minha vida? por que sofro?

Marinoff recorre a uma série de casos práticos que chegaram a ele em seu consultório, assim como de muitos colegas, para mostrar que a filosofia, tanto ocidental como oriental, pode e deve ser aplicada para ajudar pessoas que enfrentam com dificuldade muitos problemas que estão em seu campo de atuação.

A proposta de Marinoff é boa, estender a filosofia ao cotidiano das pessoas comuns e mostrar que é uma fonte possível de ajuda. Não vejo com bons olhos esta corrida para consultórios de terapia, auto-ajuda ou mesmo a psicanálise; além do problema da dependência. Talvez muitas pessoas estejam usando seu terapeuta apenas como amigo ou ouvinte, como espelho para a prática da filosofia, mesmo sem saber. Neste caso, não era melhor conversar direito com um filósofo?

A execução da proposta pelo autor, entretanto, não foi totalmente feliz. Talvez por também ter como objetivo a popularização da filosofia, Marinoff simplificou muitas questões além da conta. Toda simplificação implica em perda de informação, o que exige uma série de cuidados para que não se perca o essencial. Em alguns casos, o autor acabou caindo na própria auto-ajuda que critica, dando soluções ralas para problemas mais complexos. Seu resumo da filosofia da idade média também me chamou a atenção. Chegou a afirmar que a única erudição possível era a estritamente religiosa ignorando por completo o papel da escolástica e a riqueza que foi produzida, por religiosos sim, mas nem sempre de cunho religioso.

Os casos apresentados ficaram muitas vezes na superficialidade, assim como a solução filosófica, deixando o leitor na dúvida até que ponto realmente houve a ajuda.

O mérito do livro é o despertar para a possibilidade de estender uma ajuda filosófica para aqueles que estão com problemas cuja origem é essencialmente filosófica, problemas cujas técnicas terapêuticas apresentam soluções insatisfatórias por não possuir o conhecimento e técnica adequado para tratamento. Ficou a sensação que o resultado de Marinoff poderia ser um pouco melhor do que o que efetivamente conseguiu.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Jesus de Nazaré - Joseph Ratzinger


Bento XVI faz uma passagem pelos eventos históricos mais significativos sobre a vida de Jesus e os explica a luz da teologia, sem deixar de lado as contradições das diversas interpretações.

Começando pelo batismo, o papa apresenta o significado das diversas atitudes de Cristo, que muitas vezes são deixadas de lado pelas diversas perspectivas isoladas (histórica, cultural, religiosa, etc) que tentam interpretá-Lo. Jesus não pode ser visto apenas por uma ótica pois torna-se incompreensível.

Refuta também o isolamento do Novo Testamento como a fonte única da mensagem cristã. Apresenta diversos exemplos que mostram que o entendimento de Cristo deve-se fazer a luz do Antigo Testamento, sobretudo na narrativa de Moisés, as palavras dos profetas e o Salmo.

Este livro significou para mim o despertar de uma série de questões que podem iniciar um processo investigativo sobre a compreensão da realidade. E o que Bento XVI nos ensina nesta obra? Que Jesus não pode ser visto a partir de uma única dimensão. Ele foi ao mesmo tempo histórico, religioso, cultural, filosófico. Qualquer tentativa de isolar uma destas visões o torna incompreensível pois elas se relacionam e se explicam.

Também despertou-me para a importância do Antigo Testamento, principalmente para os profetas. Li muito pouco pois minha formação católica sempre me apontou mais para os evangelhos e acabei deixando tudo mais de lado, como se o Antigo Testamento fosse mais voltado para os judeus, esquecendo o alerta do próprio Cristo de que não tinha vindo para revogar a Lei, mas para cumpri-la. Tive que recorrer a uma Bíblia para acompanhar as passagens citadas por Ratzinger e, como que por espanto, comecei a entender que a Bíblia é muito mais do que uma narrativa histórica ou uma pregação religiosa, é uma fonte inimitável de sabedoria sobre todos os aspectos da vida humana. Interessante que enquanto lia o livro escutei um comentário que toda a literatura ocidental eram variações e especulações sobre as diversas narrativas bíblicas. Será? Eis outro ponto de reflexão e investigação.

Ler Jesus de Nazaré foi para mim uma experiência reconfortante e um despertar, um chamado a reflexão, coisa que só os grandes livros podem despertar. Talvez Ratzinger seja hoje o homem público por quem tenho mais admiração e este sentimento só aumento a cada texto seu que cai em minhas mãos. Só temo que dentro de uma Igreja com profundos problemas consigo mesma, de revolta contra seu papel autêntico, o papa seja o último suspiro que a liga ao Cristianismo verdadeiro.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Top 5 - Livros de Ficção 2009

5. Heart of Darkness - Joseph Conrad

A epopéia do capitão inglês em sua primeira missão, percorrendo um rio no Congo durante a virada do século XIX para o XX é um deleite só e um chamado a reflexão. Conrad escreveu uma obra extremamente poética e uma denúncia inesquecível da barbárie que foi a exploração "civilizatória" do rei Leopoldo. De quebra criou um personagem inesquecível que quase não aparece no conto, o enigmático doutor Kurtz.

4. Quincas Borba - Machado de Assis

Pois é, depois de muito relutar finalmente descobri Machado. Consegui me livrar dos últimos resquícios da antipatia que nosso sistema escolar consegue nos colocar contra os autores brasileiros (será de propósito?). O homem era um gênio e Quincas Borba é um exemplo desta genialidade.

3. A Doll House - Henrik Ibsen

Esta peça de Ibsen foi o texto que mais impacto me causou este ano. Simplesmente genial. O diálogo final entre o marido e a esposa é uma criação perfeita, uma mudança de perspectiva em relação a vida e um despertar da mulher para uma nova realidade que estava para surgir com o feminismo.

2. O Vermelho e o Negro - Stendhal

O retrato do mal que uma pessoa pode fazer a si mesmo por manter uma atitude de ressentimento e ódio por aqueles que julga serem responsáveis pela sua própria origem pobre.

1. Os Lusíadas - Camões

A epopéia das navegações portuguesas, tendo como pano de fundo a interferência dos deuses gregos é uma excelente reflexão para a condição humana. Demorei para encarar o clássico maior da língua portuguesa. Antes tarde do que nunca.