domingo, janeiro 31, 2010

Maigret e o Homem do Banco


Fazia um bom tempo que não lia um livro em um único dia; impedimentos da tentativa de viver nos dias de hoje com três filhos. Culpa do mundo, não dos três filhos, que fique bem claro. São três troféus que guardo para mostrar que ainda não fui destruído pela rebelião das massas e seu asfixiante mundo contemporâneo. Divago, volto ao Simenon.

Uma das frase que mais gosto da séria Guerra nas Estrelas, e existem inúmeras, é a que Obi Wan Kenobi diz a Luke quando mostra seu sabre de luz: "uma arma elegante; de um tempo mais civilizado". Ou algo assim. É mais ou menos o sentimento que tenho ao ler um livro do Simenon ou de Agatha Christie. O mal está lá, mas são livros elegantes; de um tempo mais civilizado.

Simenon é brilhante ao descrever o trabalho de um detetive em um patamar absolutamente humano. Maigret não tem nenhuma idéia brilhante, apenas trabalho duro e alguns palpites que por vezes se confirmam. Os meios da polícia não são ilimitados como se vê nos filmes. Tem que ligar de um orelhão para pedir um carro para se deslocar de um ponto para outro, comparecer e perder sua tarde para dar depoimento em um julgamento, pensar na alimentação de um suspeito na hora do interrogatório, prestar contas ao juiz de instrução, etc. É um burocrata que tenta fazer seu trabalho com dignidade e sentido.

Não são as pistas materiais que lhe colocam na direção da solução de um caso, mas a capacidade de entender os dramas humanos. É capaz de se compadecer da vítima, dos personagens, até mesmo dos criminosos. É humano, sente inveja de um investigador que realiza um bom trabalho, sente-se mal pela hipocrisia de um advogado em um tribunal.

Maigret e o Homem do Banco é mais uma reflexão sobre a condição humana. Louis sai de casa todos os dias e volta no mesmo horário. Suas roupas são escolhidas pela mulher, que o domina completamente. Vive à sombra dos dois cunhados, ambos funcionários públicos, que desfrutarão de uma aposentadoria oficial, que já era uma expressão de felicidade na França dos anos 50. É assassinado e a primeira surpresa: é encontrado usando sapatos amarelos e gravata vermelha, o que a esposa jamais permitiria.

Pois Louis tinha uma vida dupla. Havia perdido o emprego alguns anos antes, mas escondera da esposa com medo da reprovação. Depois de procurar por alguns meses, e recorrer a empréstimo para simular um salário, consegue uma fonte de renda desconhecida que lhe permite ficar com seu tempo praticamente livre, que invariavelmente gasta sentado em bancos de praças. Aluga um quarto e para materializar sua independência, compra os sapatos e a gravata. Arranja uma amante e aqui entra a ironia mordaz de Simenon, pois é quase uma réplica física da esposa. Aliás, é justamente o que a filha não entende ao descobrir de seu caso; poderia entender uma mulher diferente, mas igual à sua mãe?

O retrato que Simenon faz de Louis, sempre através das testemunhas que o conheceram, é de um homem bom, sufocado pela família que apenas quer viver com tranqüilidade e sem sobressaltos. Infelizmente encontrou o seu fim em um beco, com uma punhalada pelas costas. Deixou mais saudades nas pessoas que compartilharam sua vida fora de casa (secretária, colega de trabalho, amante, senhoria) do que em sua própria família que encarou com certa frieza todos os procedimentos relativos à sua morte.

Simenon mostra, sempre pelos olhos de Maigret, mais um estudo do homem e sua relação com a sociedade ao narrar a triste estória de um homem que apenas queria que o deixassem em paz e que gostava imensamente de pessoas, principalmente as menos notáveis. Um homem que desejava ser livre e, de certa forma, foi em seus últimos anos. Mais do que o comissário Maigret, que percebeu esta verdade e tratou logo de ir ao cinema com a esposa, para não pensar demais.

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