sexta-feira, fevereiro 19, 2010

The Innocence of Father Brown - G. K. Chesterton

Apaixonado por estórias de Edgar Poe e Conan Doyle, G. K. Chesterton resolveu criar também um detetive. Mais interessado em questões metafísicas do que em análise, seu detetive deveria sondar a alma humana e tratar dos dilemas morais dos criminosos; para tanto, deveria conhecer o crime melhor do que os praticantes pois deveria ser capaz de enxergar as motivações e a tentação em cada ser humano. Para Chesterton, nenhum homem era imune ao mal, todos eram criminosos em potencial. A diferença residiria na intenção de cada um em realmente cometer um crime. Daí sua escolha inusitada para um detetive, um padre.

O padre Brown é um homem fisicamente insignificante, que pouco participava das rápidas investigações que se sucediam aos acontecimentos (nem sempre eram crimes), mas que conhecia a alma humana como ninguém por anos de experiência no confessionário, no auto-conhecimento e pelos locais que freqüentou no seu trabalho como sacerdote. Se em Dupin e Holmes predominavam a análise, o estudo do ato criminoso como ciência; para Brown o que estava em jogo era a alma do pecador.

A Inocência do Padre Brown foi o primeiro livro que escreveu de uma série. Por que inocência? Qual a necessidade de ressaltar a inocência de um padre? Segundo a introdução de Elliot Gilbert, na edição que possuo, a culpa estaria relacionada à negação da realidade, ao ato do criminoso de mudar o real para se impor ao mundo. Os criminosos, no fundo, são pessoas que não aceitam a realidade das coisas.

As estórias do Padre Brown vão além da criminalidade, elas são um veículo para que Chesterton mostre sua visão de mundo, principalmente as diversas doutrinas modernistas que surgiam a toda hora na Europa. Em um momento magistral, um moça reclama de um amigo, por quem está apaixonada, mas que era socialista. Outros personagens participam do diálogo. Diz a moça:

__ O senhor só começou a falar a falar assim quando se transformou num horrível não-se-quê. O senhor sabe o que estou querendo dizer. Como chamar a um homem que quer abraçar um limpa-chaminés?

__ Um santo __ disse o Padre Brown.

__ Acho __ disse Sir Leopold com sorriso sobranceiro __ que Ruby quer dizer um socialista.

__ Um radical não é um homem que vive de raízes __ observou Crook com certa impaciência __; e um conservador não é um homem que faz conservas. Tampouco um socialista, asseguro-lhes, é um homem que quer um sarau com um limpa-chaminés. Um socialista quer dizer um homem que quer todas as chaminés limpas e todos os limpa-chaminés pagos por isso.

__ Mas que não lhe permitirá __ interveio o padre em voz baixa __ ser proprietário de sua própria fuligem.

Olhou-o Crook com um olhar de interesse e até de respeito.

__ E alguém quer possuir fuligem? __ perguntou ele.

__ Talvez __ respondeu Brown, com especulação no olhar. __ Ouvi dizer que os jardineiros a usam. E uma vez fiz felizes seis crianças num Natal, quando o mágico não veio, unicamente com fuligem... aplicada externamente.


Existe mais verdades sobre o socialismo neste simples diálogo do que em mil artigos de jornal publicados recentemente. Aqui Chesterton mostra toda sua capacidade de colocar em termos simples toda a problemática de seu tempo. De quebra, justifica o título de seu livro pois a inocência do Padre Brown se revela na simplicidade com que responde a pergunta de Ruby; ele sabe que a moça quer dizer socialista, mas, com fina ironia, é fiel à realidade e não ao lugar comum. O socialista não é aquele que abraça os pobres, este é um ofício dos santos; o socialista é aquele que muita gente pensa estar abraçado aos pobres, o que é bem diferente.

Vejam que o próprio Crook sabe disso e faz questão de concordar com o padre. Ele não está abraçado ao limpa-chaminés, quer apenas que ele seja pago justamente por seu trabalho, mostrando que o socialismo tem no fundo um teoria econômica, totalmente furada, mas tem. Um verdadeiro socialista se sente insultado em ser confundindo vulgarmente por um santo; embora seja completamente capaz de tirar proveito disso.

Na continuação do diálogo, o padre Brown mostra um dos problemas da doutrina marxista. Nem só de pão vive o homem. Para Marx, o único sentido da vida de um homem é seu trabalho. Por isso é inconcebível para um sujeito como Crook que alguém possa querer ser proprietário de seu próprio trabalho. Quem desejaria ser proprietário de fuligem? Por que?

Pois Chesterton dá dois exemplos significativos: um outro trabalhador e uma criança. No primeiro, mostra a relação econômica entre empresas produtoras, entre os bens de capital, e a ausência de distinção verdadeira entre trabalhador e consumidor, um dos grandes equívocos do marxismo. No segundo, mostra outro ponto inconcebível para um marxista, que o produto de um trabalho preste-se a um fim diverso de sua utilidade, um dos fatores que torna custo diferente de valor. As pessoas são capazes a dar valor independente de custo, jogando toda doutrina econômica por trás do marxismo no lixo.

Mas o livro de Chesterton não é um libelo contra as doutrinas modernistas, o tal Crook acaba se dando muito bem na estória e é retratado de forma até simpática. O que Chesterton chama atenção é que devemos ser fiéis ao mundo real, que devemos ser inocentes.

Em outra estória, começa a narrar para uma pessoa como e por que um crime foi cometido. Logo fica claro que o criminoso só poderia ser seu interlocutor, que Brown já sabia de tudo. Eles estavam no alto de uma torre e o homem passa a perna sobre o parapeito. Brown segura-o.

__ Não vá por esta porta __ disse ele muito brandamente __ Esta porta vai dar no inferno.

(...)

__ Como sabe de tudo isso? O senhor é um demônio?

__ Sou um homem __ respondeu gravemente o Padre Brown __ e por isso tenho todos os demônios no coração.

Neste ponto fica claro a misericórdia cristã. Brown não é um justiceiro e nem está preocupado com a justiça dos homens. Ele compreende a alma do homem porque sabe que no fundo a sua não é muito diferente. Faz parte de nossa existência à tendência para o mal, alguns não conseguem vencê-la; justamente o que acontece com o criminoso neste caso. Tanto que o padre deixa claro depois que não vai denunciá-lo pois ele não teria ido longe o suficiente porque durante a investigação tivera a oportunidade de culpar facilmente duas pessoas pelo seu crime e não só não aproveitara como terminara salvando-as, jogando a culpa para uma pessoa inimputável, um retardado mental. Cabia ao criminoso decidir o que fazer de sua vida a partir daquele momento. Ele acaba se entregando e confessando o crime.

Por fim, um último exemplo.

Em alguns casos enfrenta um ladrão chamado Flambeau. Em uma ocasião, não tem como impedir sua fuga mas inicia um diálogo que vale a pena repetir aqui. Diz Brown:

__ Quero que o senhor o devolva, Flambeau, e deixe a vida que está levando. Ainda há juventude, honra e humor no senhor; não pense que vão perdurar em seu ofício. Os homens podem manter uma espécie de nível de bem, mas nenhum homem jamais foi capaz de conservar um mesmo nível de mal. Este é um caminho cada vez mais descendente. Um homem bondoso bebe e se torna cruel; o homem sincero mata e mente a respeito disso. Muitos homens que conheci começaram, como o senhor, como honestos fora-da-lei, como alegres ladrões de homens ricos, e terminaram selados de lama. (...) Os seus passos para baixo para lama já começaram. O senhor costumava-se jactar-se de não fazer nada de vil, mas está fazendo uma coisa vil esta noite. Esta deixando que paire um suspeita sobre um rapaz honesto que já tem muita coisa contra ele; e o está separando da mulher que ele ama e que o ama. Mas fará coisas ainda mais vis que esta antes de morrer.


Este é o convite que Padre Brown faz constantemente aos criminosos: arrependam-se e deixem de pecar. O que mais cristão do que isso?

Termino esta resenha com o trecho final de uma das estórias. Um instantâneo carregado de significados da relação entre um verdadeiro sacerdote e um pecador, uma relação baseada na misericórdia divina.

E, sob as estrelas, percorreu muitas horas o Padre Brown aqueles morros cobertos de neve em companhia de um assassino, e jamais se saberá o que eles disseram um ao outro.

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