terça-feira, fevereiro 16, 2010

Recordações do Escrivão Isaías Caminha - Lima Barreto

Um colaborador de uma revista escreve um artigo depreciando as pessoas que nos primeiros anos mostravam grande potencial para uma grande vida mas que por motivos mil acabavam por deixar uma história bem abaixo do que se prometia. Este é o ponto de partida para que um ofendido Isaías Caminha inicie suas memórias mostrando como foi possível que sua trajetória representasse exatamente o tipo denunciado; mais do que memórias, são suas justificativas. Como um jovem estudioso, destaque de sua pequena cidade, que foi para o Rio de Janeiro com grandes sonhos e o desejo de se tornar um grande escritor, um intelectual de primeira, conseguiu terminar como um funcionário público dentro da mais absoluta mediocridade?

Isaías Caminha representa o choque que existem entre nossos sonhos mais íntimos, o potencial que carregamos conosco, e a realidade da realização efetiva. Ortega Y Gasset disse certa vez: "eu sou eu e minhas circunstâncias". O eu que ele se refere é este potencial, este projeto de vida que nos anima. As circunstâncias são o mundo exterior, que ora podem colaborar para a realização deste projeto e ora podem se opor a ele. Caminha é o retrato de um homem que foi derrotado pelas circunstâncias e levou uma vida inferior à sua capacidade. Não seria esta a estória de todos nós?

Depois de um período de privações, da falta de um emprego e o limite da miséria, consegue um emprego de contínuo em um grande jornal. As memórias do escrivão podem ser divididas em duas partes; o primeiro período no Rio de Janeiro e a busca por um emprego ao mesmo tempo que toma consciência da sua insignificância no mundo e o período que trabalho em O'Globo, principalmente como testemunha silencioso dos bastidores da imprensa.

Na primeira parte, Caminha tem um papel ativo. Interage com os diversos personagens, conta seus sonhos, procura realizá-los, mesmo que timidamente; sofre com as injustiças e o preconceito, pois era mulato, culminando com uma acusação de roubo. Quando estava por desistir e voltar para casa, consegue um emprego por intermédio de um jornalista.

Na segunda parte, resume-se a narrar os diversos fatos e, principalmente, descrever os diversos tipos que faziam a imprensa no início do século XX. O impressionante é que parece que nada mudou com a passagem do século. A vaidade dos jornalistas, o preconceito contra alguns tipos como o jornalista esportivo e o criador de palavras cruzadas, a falsificação de notícias para preencher o noticiário, a crítica cultural que só elogia o consagrado e evita se arriscar com nomes novos, a crítica sistemática a um governo por quem os jornalistas não têm simpatia, a rendição para um novo governo simpático, inclusive com a troca de empregos por um posto na administração pública. Outro dia li em algum lugar que enquanto o mundo tinha um tempo histórico, as idéias (e pessoas) no Brasil evoluíam em tempos geológicos. É triste constatar que em um século estamos ainda no mesmo ponto que estávamos, apenas com uma roupagem nova e por vezes elegante.

Lima Barreta narra com maestria a estória do cada vez mais acomodado Isaías Caminha no abandono de seus sonhos ao se render a uma sociedade corrupta e cheia de vícios. Sem ânimo para lutar por um lugar que poderia merecer, prefere o conforto de um cargo público e uma vida sem sustos. O retrato do brasileiro da classe média, de ontém e de hoje.

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