quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Voto de abstinência de opinião

Resolvi fazer um voto de abstinência de opinião.

Cada vez mais as pessoas opinam sobre o que menos entendem e se acham no direito de impor suas opiniões, como se fossem seu papel iluminar os pobres espíritos, como eu, que não conseguem enxergar as verdades que só elas conseguem. Recomendo a estas pessoas que leiam Platão, principalmente o trecho de "Apologia de Sócrates" em que o filósofo explica que o verdadeiro sábio é aquele que sabe que não sabe.

Correlato a este, o opinista da era da internet, acha que sua opinião é um atestado de superioridade moral. A verdade não importa, o que interessa é expressar uma opinião que seja associado pela vida coletiva como uma expressão de bons princípios, de evolução espiritual, de uma mentalidade progressista. No fundo, como dizia o Eclesiastes, tudo é vaidade. Este opinista quer estar bem consigo mesmo, quer ler as próprias palavras escritas e pensar consigo mesmo, "como eu sou bom! como eu me preocupo com as outras pessoas!". Pouco importa o resultado prático de uma determinada política ou ação, o que interessa é a intenção. O real é apenas um detalhe.

Cada vez mais estamos diante de uma quantidade absurda de informações, muitas vezes discordantes. A esmagadora maioria delas não pode ser verificada pessoalmente e cada vez mais precisamos acreditar em alguém para aceitar uma informação como verdadeira. A verdade é cada vez mais um ato de fé; um paradoxo em uma era que a ciência está no topo e ditando as regras. Assim acreditamos no testemunho de políticos, cientistas, jornalistas, instituições, etc e deixamos de lado a única fonte possível de uma investigação sincera, nós mesmos. Sim, pois nossa experiência pessoal, nosso testemunho, nosso compromisso com o mundo real é nossa fonte mais segura para um conhecimento. Por isso Sócrates estabeleceu seu método filosófico como a investigação de si mesmo para chegar ao conhecimento das coisas do mundo e Jesus veio para dizer "a verdade está em cada um de nós".

Não adianta ler jornal, pesquisar livros, fazer pesquisa científica, se esta investigação não for fiel ao nosso espírito e ao mundo a nossa volta. Temos que ser capazes de abandonar nossas idéias, por mais confortáveis e bonitas que sejam, quando percebemos que não encontra eco em uma experiência real. O homem doente abandona a realidade para ser fiel a suas idéias, o homem são modifica-as quando percebe que é refutado por sua própria experiência. A humildade é talvez a principal virtude de quem deseja obter a verdade sobre as coisas; quem se escora na vaidade, pavimenta seu caminho para a mentira.

Como dizia Eric Voegelin, o mergulho na realidade é essencial para a busca do conhecimento; mais ainda, exige coragem. O real nem sempre é agradável, muitas vezes mostra coisas sobre nós mesmos que não gostaríamos de ver, que temos tendência de afastar. Não se trata apenas de um erro de julgamento, mas de uma iluminação de nossos vícios e pecados. O conhecimento não se obtém apenas por estudo, mas por uma atitude mental e espiritual de aceitação de um mundo que nem sempre nos será razoável. O caminho para a verdade exige uma depuração moral, como já ensinava Aristóteles. Apenas o homem bom consegue contemplar a verdade; a sabedoria tem a moralidade como exigência.

Fazer um voto de opinião tem duas vertentes, a humildade e a responsabilidade. A humildade de entender que podemos estar completamente errados e a responsabilidade de não ser leviano, de não vender nosso "achismo" como se fosse um consenso ou mesmo expressão da verdade. Desconfie deste desejo interior de opinar sobre tudo e achar que nossa opinião significa alguma superioridade moral. Só quem tem consciência da sua miséria pode começar a trilhar a verdadeira estrada para a compreensão.

Fazer um voto de abstinência de opinião não significa que a pessoa se torne sem opinião. Elas estarão sempre lá, queiramos ou não. O que importa é que devemos pensar duas vezes antes de emiti-las, mais até. Diante de um fato qualquer, um juízo segue praticamente de imediato. Antes de expressá-lo, convém se perguntar: estou certo disso? tenho alguma experiência real que colabore com este entendimento? conheço alguma experiência real? sei o que está em jogo nesta discussão? conheço a evolução da discussão, o ponto do debate?

Não? Então é melhor guardar a própria opinião e escutar um pouco mais, procurar observar, tentar fazer um testemunho sincero das coisas do mundo. Se tiver que emitir uma opinião e não estiver certo dela, pelo menos ter a honestidade de reconhecer que trata-se de um palpite, de uma dúvida real. Aliás, duas palavras que caíram em desuso e são de uma beleza extraordinária: "não sei".

Por isso o blog tem estado mais quieto ultimamente. Estou usando mais os ouvidos e os olhos do que a boca. Não sou guardião de nenhuma verdade nem estou procurando idéias que me façam sentir feliz comigo mesmo. Quero apenas entender as coisas como são, estabelecer critérios para julgar o que vejo. Fazer um voto de abstinência não quer dizer que não acredite em nada, mas que acredito em pelo menos uma coisa, a minha miséria.

Isso faz toda a diferença.

Um comentário:

jorge leal disse...

ô, meu bruxo! Teus posts são muito importantes pra todos nós que frequentamos o Cantinho. Mesmo não concordando com o excesso de citações que costumas fazer, ainda assim, passo por aqui regularmente, pois, quase sempre, os assuntos são bem diversificados e instigantes; sem considerar tua inteligencia que é bem acima da média. Um abraço!