segunda-feira, março 15, 2010

As Seis Lições - Ludwig von Mises

Em 1958, logo após a queda de Perón, o economista austríaco Ludwig von Mises esteve na Argentina para um ciclo de palestras sobre a conjuntura mundial, particularmente sobre capitalismo, socialismo, intervenção econômica, inflação, política e investimento externo. Mises foi sobretudo um defensor ardoroso da liberdade econômica como forma superior de relacionamento humano e única forma de se atingir prosperidade.

O resultado das 6 palestras encontram-se transcritas em 6 capítulos, cada um abordando um assunto, com extraordinárica clareza pois suas palavras foram dirigidas principalmente para os estudantes universitários argentinos e não para economistas.

A primeira lição aborda o capitalismo, não sob a ótica que se difundiu a partir do marxismo, mas de sua existência real. Sua principal mensagem é que em um mercado competitivo não é o industrial que determina o que será produzido, mas o consumidor; este é o verdadeiro patrão capitalista. Outra visão que explora foi da importância do capitalismo para dar suporte ao extraordinário aumento populacional do século XIX que provocou um êxodo sem precedentes para as cidades européias. As primeiras empresas capitalistas surgiram da necessidade de se produzir para obter riquezas para sustentar uma massa de indigentes que ameaçavam colocar toda a estrutura do recém criado estado-nação em colapso.

O desenvolvimento do capitalismo consiste em que cada homem tem o direito de servir melhor e/ou mais barato o seu cliente.


A segunda lição trata do socialismo e sua grande falácia, o da luta de classes. Para Mises não existe a separação entre trabalhadores e patrões pois são os trabalhadores que pagam os salários dos próprios trabalhadores ao adquirir produtos comercializados. O economista observou com propriedade que para ser realmente grande, uma empresa teria de produzir para as massas, o que significava que seu público em potencial eram seus próprios trabalhadores. O socialismo nada mais é do que a tentativa de limitar o poder do consumidor e colocá-lo nas mãos de planejadores sociais, normalmente dentro da estrutura de governo dos estados.

As investidas contra o capitalismo __ especialmente no que se refere aos padrões salariais mais altos __ tiveram por origem a falsa suposicão de que os salários são, em última análise, pagos por pessoas diferentes daquelas que trabalham nas fábricas.


A terceira lição refere-se ao intervencionismo e suas consequências negativas para justamente o público que diz procurar defender, os cidadãos de um país. Normalmente é um dos fatores que induz ao surgimento da inflação, assunto da quarta lição. Mises percebeu que a inflação não era um produto natural da economia, mas uma política deliberada adotada por governos que procuravam sustentar seus gastos públicos crescentes sem recorrer ao aumento de impostos. Era uma estratagema que empurrava para um futuro próximo a irrealidade das próprias contas públicas deficitárias dos governos. Vencer a inflação era apenas uma questão de vontade política, o que foi posteriormente comprovado na década de 90, particularmente na América Latina.

... num sistema desprovido de mercado, em que o governo determina tudo, todas essas outras liberdades são ilusórias, ainda que postas em forma de lei e inscritas em uma constituição


A quinta lição trata de investimento externo e a sexta trata de política e idéias. Mises percebeu que as democracias caminhavam cada vez mais para a influência dos diversos grupos de pressão sobre o poder político e que o homem comum estaria cada vez mais isolado e sem representação. A política não existia sem idéias anteriores e chamava atenção para a necessidade de se combater as más idéias pois estas eram capazes de trazer imensos sacrifícios à humanidade.

..já não existem partidos políticos autênticos, no velho sentido clássico, mas tão somente grupos de pressão.


As seis lições podem ser definidas como um manifesto em defesa da liberdade econômica, um conceito muito mais amplo do que simplesmente capitalismo. Não é a toa que Mises chama atenção para o fato, sem refutá-lo, de que o termo “capitalismo” foi cunhado por seu principal crítico, Karl Marx. O autor confirma a definição e defende a acumulação de capital como o principal fator de progresso material da humanidade e o motivo para que o crescimento populacional fosse possível.

Existem dois méritos evidentes no curto livro, menos de 100 páginas. O primeiro é a extraordinária clareza com que Mises consegue apresentar suas teses e conceitos do liberalismo sem recorrer a definições econômicas. Tudo que o leitor precisa para acompanhar o raciocínio do austríaco é bom senso.

O segundo mérito foi a percepção que o aumento da intervenção do estado na economia era uma crescente e que graves consequências traria para o sistema como um todo. A perda da liberdade econômica não aconteceria isoladamente pois todas as liberdades estavam relacionadas. Só era possível se falar em liberdade política ou social se acompanhada de liberdade para decidir o que adquirir e o que produzir.

Mises não prova suas teses, coisa que fez em outros livros, esses bem mais profundos e com evidências econômicas que sustentam suas idéias. O que faz em As Seis Licões é apresentar sua linha de pensamento e serve como uma importante introdução à sua obra que tanto influenciou economistas do fim do século XX.

2 comentários:

Alexandra disse...

O problema é quando a acumulação de capital chega a um ponto em que a empresa passa a dominar completamente um setor a tal ponto que se pode falar de um monopólio ou quando as empresas de um determinado setor se unem para regularizar o mercado e assim controlá-lo. O Estado não é o único a tentar interferir e as empresas nem sempre têm o interesse do consumidor em visto. Pode ser que tenha sido esse caso no passado, mas nos dias de hoje, com o avanço do marketing, as empresas não só respondem ao interesse dos consumidor mas elas proprias criam e orientam esse suposto interesse.

Concordo plenamente com von Mises sobre os grupos de pressão. E os grupos de pressão mais eficientes são os que possuem mais recursos financeiros - i.e. as grandes empresas multinacionais ou grandes indústrias. Por isso tanta gente viu como um atentado à democracia a liberação pelo senado americano das contribuições por parte das grandes empresas as campanhas políticas.

Marcos Guerson Jr disse...

Von Mises defende o livre mercado. A pergunta que fica é se o que vemos hoje, inclusive nos EUA, pode ser chamado de livre mercado. O monopólio se forma geralmente pela interferência do estado; os grandes capitalistas, que normalmente são anti-capitalistas, adoram a intervenção estatal pois acham muito mais fácil e seguro lidar com políticos e burocratas do que com o público.

A questão do marketing é interessante. Uma das coisas que tenho estudado é a incorporação e desenvolvimento das técnicas de propaganda pela política. Hoje não tenho dúvidas que a base da disputa política é a propaganda, fenômeno que ficou mais evidente a partir da eleição do Kennedy, ainda na década de 60. De lá para cá só piorou e a eleição do Lula no Brasil ou do Obama nos EUA é a demonstração de técnicas refinadíssimas de propaganda, para não falar de coisa pior, na venda de um produto. O político de hoje é um produto.

Tenho sérias dúvidas no papel preponderante que você coloca nas empresas. Não nego os interesses e falta de ética de muitos empresários, mas acho que existem personagens, normalmente não associados diretamente ao mundo econômico, que pairam acima das empresas, particularmente dos que produzem. O grande capitalista não está no comando de uma empresa, normalmente está anônimo, no controle acionário. Além do mais, cada vez mais acho que as idéias são muito mais poderosas, e por isso mesmo muito mais perigosas, do que um empresário ganancioso querendo aumentar seu lucro.

Marque minhas palavras. Os grupos de pressão são normalmente comandados por gente que nem imaginam, e que muitas vezes combatem. O que existe de fato é uma manipulação em larga escala, inclusive dos empresários, que se acham mais espertos do que realmente são.